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sexta-feira, 25 de março de 2011

Teo (Teófilo é a tua mãe!)

E o Condado Heptalagoense brilha...
Demoro uma hora para poder chegar ao trabalho. Os semáforos são desregulados para dar a sensação de que nós temos trânsito. Sonho com um carro desde que descobri que os velhos e as grávidas adoam ônibus lotados. Como diria Superego Brain: "No meu mundo perfeito existe caixa eletrônico anti-velho".
Brincadeira. Também tenho apresso pelo clube da terceira idade.
Tenho sempre comenários absurdos sobre coisas idiotas desta cidade. Se eu fosse um redador seria aquele estressado com um cigarro na boca, uma xícara de café gritando: "Jimmy, você está despedido!". 
Espero que a Fênix não me despeça. Aquela besta egocêntrica (espero que não corte isso quando postar meu comentário) é um dos bons-moços mais politicamente corretos que eu já vi. 
Mas fazer o quê. Somos um professor bestalhadamente inocente, uma jovem quase não tão jovem, entediada, e um cara tentando ir para o trabalho em meio à semáforos que não funcionam...Fazer o quê? Cada semana um, cantando a Canção dos Três. O rpimeiro é aquele detetive tarado do Diógenes. Pedi pra por coisa nova no começo, mas ele tá com preguiça.
Adiós...
E meu nome não é Teófilo, nem nada parecido com Teo, mas meu chefe mata o trabalho na internet, então...

Susannah

É claro, ele chaga e diz assim: Estou com preguiça de continuar com o Diógenes.
E eu digo: Firme um compromisso com você mesmo. Como a minha dieta.
Ele diz: Não dá, sou relapso.
Então eu digo: Vamos escrever algo juntos então.

Ele pega um dos meus poemas e tasca um verso no orkut... Vamos ao poema completo, e bem-vindos à Canção dos Três. Eu sou Sasannah (meu nome não é esse de verdade, ele diz que é meu nome de guerra), e espero que achem mais ou menos legal.

Classic moments

Ligo o rádio
A música me lembra você.
Adolescência, adolescência.
Acordo de manhã com saudades
De um lugar onde não quero estar.
Fico feliz por não poder voltar.
O telefone mudo não diz nada
Nem uma metáfora vazia
E o sol da manhã fere meus olhos
Com as lembranças daquele dia.
Meu inglês não presta
E me vem versos fajutos.
Ah... não quero rimas, não quero sons.
Cacofônica como mastigar vidro.
Tasco a frase que quase não entendo:
Let the time comes,
I´m sad now.
 But God is by my side,
And I will forgot all about you...

Diógenes (By Fênix)


O cabelo penteado para trás com um pouco de gel, os óculos cuidadosamente polidos, a loção espalhada no o pescoço escorre junto com o suor, produzindo um odor tristemente acalorado... a camisa azul, plenamente passada, repousava debaixo do cinto preto, por dentro das calças cáqui. Eu não possuía outra calça limpa naquele instante. Meu corpo magro refletido no espelho manchado era ofuscado por meu comprido e retangular nariz. A tez branca, quase rosada, me dava um ar meio doentio, as olheiras me faziam assustador. Minhas caretas diante dele são engraçadas, rio de mim mesmo. Se é para ir à merda, que seja com estilo, penso ao me ver tão arrumado. Observo o relógio, está quase na hora. Pego o guarda-chuva por cima da mesa e saio.
Do lado de fora o cheiro de esterco me enoja. A lama estraga meus sapatos novos. Porque continuo me submetendo a essas coisas? Último dia de férias. Todos os dias perdidos chafurdando na lama de uma cidade do interior onde algum idiota não segue o controle de natalidade ou algum retardado comeu a mulher do amigo. Um daqueles povoados imbecis onde sempre se tem muita fé e onde sempre se acredita muito em tolices. Onde eu arranjo saco para esse tipo de coisa? Parto para essa jornada contando com a sorte. Prata é cara, muito cara, e eu já penhorei todas as jóias que sobraram da família. Minha mãe deve me odiar, seja lá onde esteja. Por sorte as coisas na roça são meio diferentes... No fim das contas o melhor é calar a boca e seguir meu caminho.
A trilha é escura, a lua desaparece entre as árvores, mas o céu está claro, limpo, depois de uma chuva. As estrelas no interior são mais bonitas, mas estou mais preocupado em olhar as moitas, esperando não dar de cara com uma cobra. Quase chegando ao meu destino, ouço um uivo... também?, penso. Os arbustos atrás de mim se move. Salto rápido, não sem medo, para a parte mais clara do caminho.
 Nunca fui corajoso a ponto de esperar calmamente pelos fatos. Sou capaz de gritar como uma moça em horas de susto. Não sou um herói... mas alguém tem que fazer a porra do trabalho. Procuro o arbusto que se move, vejo que dois olhos amarelos me olham. Cagaço. Aproximo-me devagar, o polegar pousado levemente sobre o botão do guarda-chuva. Um movimento apenas, um só, e essa merda acaba. Se não houver mais coisas no meio do caminho... Os olhos se fecham, desaparecem na escuridão, mesmo assim tenho que checar, não posso fazer u8m trabalho mal feito, não depois de ter perdido as minhas férias. Com prudência deslizo para o matagal, tentando desviar ao mesmo tempo da bosta de vaca que infesta o lugar. Estou louco por um cigarro, mas não dá, não ali. A tensão me irrita. Aquele lugar me irrita. Tudo me irrita. Talvez seja eu o irritante.
Os mosquitos dançam ciranda em volta do meu pescoço. Em resposta à minha aproximação algo salta para fora da moita. Pulo para trás com o polegar vacilante entre apertar ou não o botão, não distingo o que é até divisar a pelagem castanha, as patas negras. O lobo rosna para mim. Um animal comum. Meu coração bate acelerado, apoio o braço em uma das árvores e tateio o bolso da camisa em busca dos cigarros.
–Foda-se. Eu digo. Vai assustar a puta da tua mãe.
Coloco o cigarro na boca, mas logo desisto da idéia. Muito cedo, muito cedo. Respiro fundo, minha mente pisca. Puta-que-pariu, puta-que-pariu... Não posso atacar um lobo. Ele pensa o mesmo e vai embora. Eu continuo esperando.
Fico cada vez mais impaciente. Um sinal, um só. É tudo o que eu preciso. Um mês esperando aquela vaca, calculando, perguntando, descobrindo. O pessoal do interior adora falar da vida dos outros, mas quando a merda estoura pro lado deles todo mundo fica mudo. Muito tempo para confirmar um boato de um jornalzinho barato. Mas foi minha promessa de ano novo... pra uma das garotas da zona.
Odeio mulher preocupada naquela hora. É a mesma coisa que comer um vão de tábua. Se bobear sai até lasca. Eu sou idiota, sou bonzinho, pergunto: “o que há?” E ela responde me mostrando um jornal. A foto três por quatro de alguma década atualmente geriátrica, mostrando um jovem que, naquela altura, já tinha passado da hora e deveria estar caindo de podre. Na nota diziam que tinha morrido num encontro com uma mula-sem-cabeça. Um tio da garota. Tinha medo pelo pai.
A garota chora, desisto da transa, não sem antes ter perdido o tesão e o dinheiro que paguei. Se eu fosse o Constantine não passava por esse tipo de merda, mas só consigo ser a versão nacional. Igual à ONG, bonzinho, prestativo e duro.
Saio sem dizer nada, nenhuma palavra de conforto. Consolar uma mulher nua na minha frente não é algo que eu possa fazer sem corar como uma beterraba. Ao invés disso deixo um bom-bom (doce como eu?) e saio. Ela olha, agradecida, falso agradecimento. Não resolvemos os problemas um do outro. Mas eu fico sensibilizado, saio dali prometendo a mim mesmo resolver a situação. Idiota, esqueço de calcular os dias da lua antes de pedir férias e sair desabalado para o interior. As economias pro ar-condicionado me levam para o cafundó do Judas, onde, a muito custo consigo alugar um quarto no sitiozinho dos pais da moça. Quero caçar tatus, essa é a desculpa, adoro comidas exóticas e foda-se a ecologia. Uso o nome dela e o pai diz orgulhoso: “secretária na capital”, eu digo: “pois é”...
Um mês procurando rastros, perguntando, indo atrás de suspeitos. Até encontrar uma garotinha de vinte e poucos, empregada do padre. Velho legal, cuida da comunidade,mas sem vocação pro celibato.Até ali só tivera as carolas velhas de empregada. As velhas solteironas morreram e sobrou carne nova. Tudo no lugar, o velho se lembrando das aventuras de seminário... não vou entrar em detalhes. Mas  comunidade fala. Mulher de padre vira mula-sem-cabeça. Mulher de padre vira mula-sem-cabeça. As pessoas não sabem o poder que tem. Bastou a garota perder os tampos para virar mula na outra lua cheia. E daí o resto vem: galinhas não botam, vacas não dão leite, e algum velho, ou novo (é impressionante a quantidade de cagões nesse mundo), morre de susto. Algum jornal sensacionalista publica e eu, que já sou feio e não consigo mulher de graça, perco uma foda paga. Isso, somado à minha incrível capacidade de embromar velhos carentes de dinheiro, e à minha magnífica empolgação ao percorrer mata fechada, sujo de bosta e no escuro.
Mas tudo bem. Eu caço essas merdas porque elas existem. Se ninguém fizer, a coisa piora. Tem a moça da zona, tem a moça que virou mula, tem os velhos da puta e o resto da vila que precisam de um herói. Alguém que conheça os meandros da coisa. E que seja estupidamente bonzinho para ficar mais um ano sem ar-condicionado porque se aventurou no interior para procurar algum tipo de lenda rural. Maldito seja o dia do folclore. Mas tudo bem, tudo bem, já estou aqui, e daquela noite não dá pra passar.
Ouço os passos da mula. Menos mal. Sabia que ela seguia aquela rota. Até hoje não entendo os propósitos de uma mula-sem-cabeça. Na verdade muitos destes seres imaginários não tem razão de ser, só são. Também não se comenta o que ela faz de perigoso... além de matar alguém de susto. Mas por via das dúvidas é melhor dar importância à essas coisas. Pelo que eu sei dos filmes de terror, coisas sem cabeça querem uma cabeça, ficarei feliz se essa não quiser a minha. Acho que não se contentaria com uma abóbora...
Vejo uma chama iluminar a mata e vir queimando as folhas recentes de chuva. É a mula. A primeira vez que vejo uma. E curiosamente ela não é feia, me lembrou aqueles cavalos ingleses, de patas grossas e ancas largas... coxas grossas e ancas largas, o padre tem bom gosto. Felizmente ela não possui nenhuma das complicações clássicas que atormentam as variáveis folclóricas nacionais (frase bem acadêmica essa), não tem ferraduras de prata, freios de prata... então não deve precisar de balas de prata! Minha sorte está melhorando.
Ela segue pela trilha como eu havia previsto. O caminho da igreja pra sua casa, no meio do mato.Percorre o caminho antes do amanhecer, deixando o leito do padre junto com a lua e indo adormecer na cama da casa de pau-a-pique. A interceptei no meio, deixando bastante espaço para uma discussão amigável. E quando chega, realmente se mostra feliz com a minha presença.
Relincha (não me perguntem de onde sai o som, não fiz veterinária), empina as patas, bem perto de mim. A chama que faz às vezes de cabeça aumenta, fica escarlate... se eu tivesse uma câmera teria tirado uma foto. Venderia bem no programa do Ratinho. Ela bate as patas, urra, flameja, mas não se move, não me ataca. No fim das contas é apenas uma mula com um foguinho na cabeça. Percebo isso e me sinto um pouco mais confiante.
–Escuta, filha, eu não vou morrer de susto.
Ela entende, pára, se preparando para avançar. Eu estou com o guarda-chuva nas mãos, o polegar sobre o botão. Não gosto do que vou fazer, não sou muito adepto de ferir outros seres humanos. A coisa também não parece estar feliz, teria sido mais fácil se eu tivesse fugido. Sem o atributo do susto o que ela faz? É uma mula, mulas escoiceiam, passam por cima. E quando essa vem, vem pra cima com tudo. Nada de extraordinário, fico decepcionado. Se fosse o Jason, o Fred, ou alguém mais assustador, como o Topogiggio, a essa hora eu me veria preso a uma série de subterfúgios estranhos e grotescos. Mas é só uma mula... que não tem cabeça.
Não sei a razão, mas sou ágil. Agilidade que compensa minha falta de força. Eu não enfrento de frente, eu não salto. Eu apenas desvio, e corro. Mas naquela situação eu não deveria correr. Bancar o Scooby-Doo nem sempre é o mais interessante. E eu só preciso tirar um pouco de sangue, um pouquinho só. Preciso calcular o momento certo.
 E quando ela cruza o meu caminho, dou pequenos passos para o lado, esse é o meu trote, com o perdão da piada. Aperto o botão do guarda-chuva, ele não se abre. Torna-se minha espada pessoal de luz (um dia eu explico minha fascinação em tentar ser o Luke, apesar de parecer o Yoda). Cirurgicamente, com meus olhos astigmáticos, eu faço um pequeno furo entre o tronco e uma das patas dianteiras. Sinto-me como o Jaspion. Reaperto o botão, enquanto vejo a mula derrapar no barro e cair como moça. No interior, balas de prata não existem, sangrar o animal já resolve, por isso vários moradores tem chicotes de arame farpado, cruzes pontudas e outras coisas do gênero. Cruel. Sou mais educado, uma moça não deve ter cicatrizes grandes.
Olho para ela. Está nua. Fico encabulado. Não sou um daqueles animais que batem continência ao menor sinal da fêmea. Ela é bonita, mas não me sinto bem invadindo sua nudez. Jogo a camisa sobre ela, deixando meu esquelético dorso nu ao vento. Dou meio volta e começo a retirar o cigarro do bolso. Ouço novamente o uivo. Bosta. Carrego a moça nos ombros, não ia ser gentil deixá-la ser comida por lobos.
Acabo de salvar o dia mais uma vez. Ninguém ficará sabendo, ninguém acreditaria. Ao menos me resta o fator cômico de me ver carregando nas costas uma moça nua, em meio a barro e bosta, esperando ouvir no dia seguinte, pela milésima vez a frase: “Pegou algum tatu, seu Diógis”. Ao deixá-la na porta de casa, ainda coberta com a minha camisa, penso seriamente em esperá-la acordar. Ela não é feia, e dizem que uma ex-mula acaba se converte e se casa com seu salvador, mas mais uma vez minha honestidade me impede de aproveitar da situação. Vou embora, esperando pegar o primeiro ônibus de volta pra casa, e inventando uma história decente para contar aos colegas do trabalho. Algo com cavalos, café e queijo...
No fim das contas, esse mundo é uma merda.