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domingo, 18 de setembro de 2011

A calcinha voadora (by Teo)

Querida,
Se quer prova de que te amo,
Te levo ao show do Wando
E não reclamo,
Ao ver tua calcinha voar.

Ah, querida,
Se sabe que te quero,
Sabe que espero
Teu cabelo secar
E se reclamo
Do atraso
É só pra não desacostumar.

Oh, querida,
Se me ama, sabe
Que tua amiga, gostosa
Não me atrai
E só olho, por piedade

Minha querida,
Se nunca falo
Que te amo,
É porquê o mundo
É machista
E não se assenta
Tais meiguices
A homens como eu.

Mas querida,
Saiba que quando fujo
E a cerveja
Fala mais alto
É em ti que penso,
A cada gole, a cada gol
Naquele bar.

Por isso, querida
Não me culpe
Se neste mundo
Sou hipócrita.
Afinal, se não fosse,
Iria me amar?

domingo, 4 de setembro de 2011

O triste dia folclórico (by Fênix, cont. conto anterior)

–Quarenta ano! Quarenta ano seu disgraçado! Preso nessa merda de garrafa, gritano! Pedino ajuda! Negociano tudo o queu tinha pra negocia. Primero aquele velho safado, que me pego por nada... depois ocê chego e fico me oiano, sem nem me dá ôvido. Agora ocê qué um acordo? Agora que a coisa aperto procê, ocê qué o seu maldito acordo?!
–Escuta: na minha mão eu tenho você na porra de uma garrafa, na outra mão eu tenho a porra da sua carapuça, então vamos fazer a porra do acordo, senão eu te coloco de volta na porra da caixa pela porra de mais quarenta anos. E acho melhor fazermos isso de uma maneira mais educada, não gosto do seu tom de voz nem dos meus palavrões. Um ancião como você deveria ser mais respeitador.
Os palavrões que ele diz em seguida não podem ser reproduzidos. Alguns são pronunciados em línguas que não existem mais, alguns são bem piores do que os palavrões de hoje. Não estou irritado, falo calmamente. Não há tempo para me irritar, e eu sei que ele é como o maldito Leprechaum: não se pode perder o foco. Ele tenta me deixar com medo, mas é inútil. Assim como eu estou preso às minhas tradições, ele está preso às dele, e Monteiro Lobato entregou o jogo de graça pra caras como eu. A cruz riscada na rolha o mantém firme, ele pode ficar ali por mais um século sem que nada o deixe sair. Eu estou no controle e não pretendo ceder. Quando ele se cala eu continuo:
–Preciso de três coisas...
–Tô na garrafa mais num sô esses gênio coces vê nas história... ele ri.
–Você sabe do que estou falando. eu corto. Preciso que me ajude.
Espero por novo comentário, mas não vem.
–No mundo antigo você era uma coisa, aqui virou outra, mas uma moça de lá veio e agora não quer ir embora. Entende?
Ele faz que sim com a cabeça, um sorriso zombeteiro brota dos seus lábios, mas ele continua calado. Sei que ele sabe que estou no controle, mas não posso confiar demais nisso.
–Eu só posso vê-la se dormir, e se eu dormir estou morto. Sei que você quer isso, mas se eu morrer as pessoas não vão mais ver você e você vai ficar preso pra sempre na garrafa. E você sabe o que acontece se ela for jogada fora ou se quebrar...
Ele continua fazendo que sim com a cabeça. De todos os seres ele ainda é o que mais me assusta.
–Por isso eu preciso que pegue ela enquanto estou dormindo. E é aí que eu proponho meu acordo: você me protege, você acaba com ela, e nós nos deixamos em paz pelo resto da vida. Eu não capturo ninguém mais do seu povo e você não ataca os meus. Se concordar eu te devolvo a carapuça, senão eu procuro outro jeito.
Ele não diz nada.
–Temos um acordo? Insisto.
–Cê sabe o qui acuntece se um dos dois quebrá o pacto?
Faço que sim com a cabeça.
–Intão eu faço u qui ocê me pede, mas se eu cruzá os óio contigo di novo, cê morre.
–Tudo bem, eu digo. Nós temos que proteger alguém.
Fecho a caixa e desço silenciosamente as escadas com a garrafa enrolada na carapuça, o guarda-chuva em uma das mãos. Atualmente existem poucos sacis no mundo. Sem floresta, sem saci... se eu tiver que enfrentar outra coisa como esta, não terei alternativa senão lutar na raça. Algo que não faz meu estilo.
O carro do prefeito é rápido, vou com pressa. Retiro a carapuça ao imaginar que talvez o saci queira ver o mundo novamente. Quarenta anos é muita coisa, ele parece maravilhado, e assustado...
–Ocês quebraro a mata toda... cês distruiro tudo... minha casa, os meu, onde tão?
–Ainda seguros, a área em que você vivia não foi tocada, e nem pode...
–O lugar ondeu vivia era isso tudo! Se ele num tivesse me prindidu...
–Ia acontecer a mesma coisa... seres como você não podem parar o que os homens estão fazendo... infelizmente.
–Nós tamu suminu, né?...
–Sinto muito...
–...
Passo por uma farmácia e me lembro do que vou enfrentar, faço um retorno. Deixo a garrafa no carro, rezando para que ninguém capaz de ouvi-lo cruze o meu caminho. Entidades raras valem um preço alto no mercado negro, não se pode confiar em ninguém. Volto com o frasco apertado entre as mãos, ele pergunta o que é, eu mostro, explico. Ligo para o telefone de segurança, deixo uma mensagem. Ligo o carro e vou adiante.
–O que ocê me pede pra infrentá num presta... Eu fui um no passado, já num sô mais... quem qui ia de adivinhá que essas coisa ia chegá aqui? Ocês istraga tudo, ocês atrai tudo de ruim...
Finjo não ouvir. Ele continua reclamando e reclamando, deixo minha mente voar para a folha presa no balcão, a mesma que cortou a mão do juiz, penso na garota nova do figurão, penso em Sofia e em porquê eu não posso ter alguém ao meu lado. Às vezes me canso de viver sozinho. Meus irmãos são casados, até as meninas na zona tem alguém, e eu continuo sozinho. Talvez seja por causa da vida que eu escolhi... ou da vida que me escolheu.
–A moça qui ti qué, vai morrê se vivê coce.
Me assusto quando ele me arranca de meus pensamentos.
–Não é da sua conta.
Ele ri.
–Mais ocê num vai morrê só. Quando pará di ódio, vai vê...
–Não pedi a sua opinião.
Ele ri mais uma vez. Ficamos calados enquanto subimos as ruas em direção à casa do juiz. Os bairros ricos sempre ficam nas partes altas, os homens de bem acham que não podem ser tocados pela sujeira do mundo se estiverem alto o bastante. Então eles procuram lugares vazios, ermos e altos, cercados como a floresta pela qual passo.
Se houvesse me lembrado dela teria procurado outro caminho, sacis se agitam perto da mata, e eu posso sentir outros seres mágicos me observando, vindo para a beira da estrada. Medo.
–Pára!
Ele grita. Digo que não.
–Si ocê quisé pegá quela coisa maldita, vô pricisá di cipó.
Penso ser um truque, mas no ritmo em que as coisas vão, sei que só preciso quebrar a garrafa. Paro o carro voltado para a mata, ligo os faróis, saio levando a garrafa e o guarda-chuva. Ter de entrar na mata já é uma merda, pegar o cipó errado seria pior. Quando me aproximo da beirada, antes de transpor a mureta, vejo um ser saltar diante de mim, olhos vermelhos, um sorriso verde, penso em apertar o botão do guarda-chuva, mas ele para antes de me atingir, é um curupira. Aponta para o saci e diz algo em uma língua estranha, o saci responde na mesma língua, o curupira s afasta e o saci me manda esperar. Alguns minutos depois ele volta com um rolo grande de cipó nas mãos, todo trançado. Me pergunto se tudo foi feito num simples passe de mágica, ou se a minha vinda já era esperada. Concluo que não importa, apenas pego o rolo e volto para o carro enquanto o curupira murmura algo atrás de mim. Pergunto o que é, mas o saci não diz. De um certo modo, foi um alívio não ter entrado.
Durante o resto do caminho, sigo calado. Ele canta uma música na mesma língua estranha, seu olhar é sério, talvez porquê vá lutar.
Quando chegamos à casa do juiz, vejo o quão bem esses safados ganham. Dois andares, espaçosa, mármore, vários terrenos. Encontro o lugar vazio, revirado. Som alto ligado, numa tentativa de não dormir, penso. Ele fugiu de medo, e deve ter vivido com medo durante muitos dias. Vasculho o lugar antes de começar, encontro livros sobre o assunto, fotos, nada muito conclusivo, apenas interesse pelo assunto. Mas o que o fez ter tal interesse? Subo as escadas, vistorio os corredores, até me deparar com uma sala fechada com tábuas e pregos. Sal e pimenta se espalham pelo chão. Da garrafa no meu bolso escuto a voz do meu folclórico companheiro:
–Ele fecho as porta, i isqueceu as janela.
–Como você sabe?
Ele apenas ri.
Com dois chutes quebro toda a armação feita pelo juiz. Se não fosse o sal, é provável que aquela coisa houvesse quebrado tudo também. Abro a porta e finalmente vejo o que incomodava o meretríssimo: a enorme estátua de um súcubo, lindo, encantador, sensual. Uma pequena legenda em uma placa de cobre diz ser uma estátua do período clássico. O homem é mesmo uma besta. Ao redor dela mais livros falando sobre o assunto, alguns remetem a feitiços antigos. O quadro era simples: ele se encantou com a estátua , resolveu pesquisar sobre o assunto, acreditou demais e acabou invocando a vadia dos sonhos. Os dois treparam como se não houvesse amanhã, mas aí ele percebeu que cada trepada o fazia ficar mais e mais fraco, até acabar lendo sobre o que um súcubo faz de verdade, ou então ter parado de fingir que não sabia. Aí tentou se livrar dela, mas teve mais fé no problema do que na cura, então o monstro começou a sugar sua vida. Ele o teria prendido com o sal e a pimenta, mas realmente se esqueceu de colocar também nas janelas, acredito que tenha ficado com medo de entrar ali. Nada de extraordinário, afinal, depois das primeiras transas essa besta pode começar a ficar muito, muito violenta. Ela deve o estar atormentando a dias. Se eu não tivesse partido pra minha pequena aventura rural, talvez tivesse interferido antes, mas nada disso importa. Antes tarde do que nunca. Paro pra pensar no que fazer. Estou bem desperto, então estou seguro. Sinto a energia da coisa, mas ela não pode me tocar.
Pego a garrafa e olho para o saci.
–O que eu faço?
–Quebra a estauta. Assim a moça num volta praí.
Faço o que ele diz, usando o guarda –chuva. Não sem sentir antes que algo se aproximava de mim. Felizmente, ela não pode fazer nada fora dos sonhos, não pode lutar. Mas agora, com a estátua destruída, ela pode me seguir, e minha vida virar um inferna. Para alguém que dorme apenas quatro horas por noite, perdê-las com esse monstro seria uma puta falta de sorte. E eu sinto o seu ódio, sinto a sua raiva, sinto sua influência em meu corpo tentando me fazer adormecer, mas não importa, não duro mais do que quatro horas por noite.
Desço as escadas, o hall de entrada é espaçoso, quase sem decoração, muito pouca coisa para ser destruída. Desligo o som, fecho as portas. Me sento sobre  grande tapete que decora o chão, meus sentidos se alteram um pouco, a vadia está por perto, fungando no meu cangote. Penso em tirar os sapatos, mas logo vejo que é bobagem. Desde “Duro de Matar 2” eu só caço essas coisas com sapatos em bom estado... ou bom remendo. Abro o frasco da farmácia, tomo as pílulas à seco, paguei caro para comprá-las sem receita. Abro a garrafa, e quando isso acontece, eu já não vejo mais o Saci. Tiro a carapuça do bolso, deixo o cipó ao lado e espero. Devagar, meu corpo adormece, as pílulas fazem efeito, em um instante eu estou em outro lugar.
Faz muito tempo. A universidade, vazia em uma manhã de sol, o lugar mais terrível e agradável da minha juventude. A grama verde do pátio brilhando, sempre pensei em como seria fazer um piquenique ali, com uma garota legal, ela de vestido, beijos, sexo discreto, naquela época eu ainda era romântico, ainda acreditava que pessoas como eu podiam ter momentos de descanso. De qualquer forma, eu já era feio, não podia contar com o meu charme, e não poderia dizer que tinha algum carisma.
Caminho devagar, me sinto relaxar, estou esquecendo de alguma coisa. O quê? Não importa. Tiro os sapatos para sentir a grama. Tão macia... O sol bate na minha pele e me aquece como um abraço de mãe. Tudo tão bom, tudo tão... tão... Uma imagem aparece à minha frente: sentada sobre uma toalha xadrez, com uma cesta de piqueniques, daquelas que se vê nos desenhos do Zé Colméia, uma moça esguia, de cabelos pretos (onde eu a vi antes?) me espera. É isso, eu estou de volta à universidade e estou apaixonado. Que sonho estranho foi aquele em que eu perseguia  aquelas coisas? Eu não sou dez anos mais velho, eu sou tão jovem, e tenho tantos sonhos. É um domingo, eu planejei tudo, paguei aos porteiros para me deixarem entrar, escolhi um local sem câmeras, ninguém consegue nos ver. Vamos passar a tarde juntos, meus pais pensam que eu estou estudando. Vou passar uma tarde agradável, com ela, viver como se nada mais existisse nesse mundo. Eu estou tão, tão apaixonado. Ela me disse que não liga de nos casarmos, ela disse que me ama antes de eu dizer, por enquanto ela não que ter filhos e quer conhecer os meus pais. Gostamos das mesmas coisas, ela é perfeita, perfeita. Vou apresentá-la aos meus pais à noite. Se eles gostarem dela... não, não, eles VÃO gostar dela, vou dizer que vou me casar. Minha mãe sempre reclama da casa vazia, não é mesmo? Dois estudantes ocupam muito espaço. Os pais dela gostam de mim, ela também é caseira.
Chego mais perto. Meu Deus, como uma mulher linda dessas pode olhar para um homem como eu. Eu devo ter certo charme, sim. E eu nem precisei avançar o sinal, ela tomou a iniciativa. Essa mulher é sonho de qualquer homem tímido. Ela está mais longe do que pensei, mas finalmente chego, um pouco cansado, um pouco aflito. Ainda fico nervoso perto de mulheres, é isso. Me sento sobre a toalha, olho para ela, ela sorri, não diz nada. Nos beijamos, um beijo longo, longo e feliz. Deito minha cabeça sobre o seu colo e me deixo descansar. Ela massageia minhas têmporas. Me sinto tão bem, e tão cansado. Eu poderia dormir para sempre naqueles braços. Eu poderia morrer ali, e mesmo que eu não fosse para o céu, aquela felicidade me faria acreditar estar sempre no paraíso. Sim, eu vou morrer agora e ir para o paraíso. Eu vou para o céu...
Suas mãos são suaves, suaves, suaves, suaves, pesadas, pesadas, ásperas, sinto um tapa me acertar em cheio. Abro os olhos e não a vejo mais. Em seu lugar está meu avô, me olhando, furioso. Recebo outro tapa, muito, muito forte. O mundo a minha volta estremece, fica escuro. Luzes de carros de polícia, gritos, medo. Pessoas se juntando ao meu redor, e eu deitado no colo do meu avô, que me desfere outro tapa.
–Ai, seu filho da puta! Eu digo, sem entender.
–O que você está fazendo, sua besta! Pare de pensar com a porra da sua binga e acorde!
Ele está certo. Minha mente volta ao normal como um coice. Respiro fundo, estou com ódio, muito ódio. Me deixei levar em um sonho tolo, me deixei capturar por vontade própria e em esqueci disso. Meu avô some, a universidade some, abro os olhos devagar, com muito esforço. As pílulas são fortes. Quando consigo divisar algo, vejo o Saci, novamente com sua carapuça, segurando a Súcubo bem amarrada. Ela está nua, é linda, não posso culpar o juiz. Mesmo vinda de uma estátua falsa, a capetinha é gostosa. E depois do que eu vi,...
–Quase pegô ocê, né? Ocê num infrentesses bicho cum a cabeça suja. Si num fosse eu cê tava morto. He, He.
Ela olhou para mim e sorriu. Dentro da minha mente eu ouvi sua proposta de sonho eterno. O Saci apertou mais o cipó.
–Queta! Ocê num vai consigui o qui qué hoje.
Ela pronuncia algo em uma língua estranha.
–Num vai tê vingança não. I si o teu macho vim te buscá, ele num vai cunsigui mi pegá. Nós somo igual, mai eu sô muito mai antigo. I aqui, aqui, ele diz apontando para o chão, é o meu terreno.
Tento dizer algo, mas não consigo, os remédios são fortes demais. Ela me olha com raiva, mas eu também tenho raiva. Não gosto que brinquem comigo, não quero me lembrar de certas coisas, não quero sonhar. Sonhos não são bons, sonhos sempre carregam desejos ruins, e essa Morrigam vadia me fez cair das nuvens. Meu orgulho, ferido por essa vaca...
O saci me olha, outro filho da puta, com um sorriso no rosto. O que ele quer, o que ele quer saber, o que ele quer ouvir? Não tenho força para dizer nada. Mas sinto meu estômago embrulhar, minha cabeça doer, meu corpo se contrair, e vomito tudo o que tenho no estômago. Pílula por pílula...ou o resto delas.
–Eita! ele diz com uma gargalhada, pitando um cachimbo que eu não sei de onde tirou.
Eu respiro fundo, me recupero um pouco e digo:
–Acaba logo com essa vadia...
Ele faz que sim com a cabeça, e puxa mais o cipó. Ela grita de dor, se contorce, seu corpo parece ainda mais sensual, como uma dançarina de boate. Mas aos poucos ele fica escuro, se torna pó e cai sobre o chão. Ao mesmo tempo o cipó começa a queimar, queimar forte, num brilho claro e serpenteante, onde vejo apenas dois olhos escuros. “Um boitatá”, penso. Este saci é tão antigo e forte quanto me haviam dito. Como ele foi capturado, é um mistério para mim, mas é bom tê-lo ao meu lado, mesmo que por pouco tempo.
O boitatá vai embora, arrastando as cinzas e deixando uma grande marca de queimado ao longo da casa. Ambos o observamos partir, sem dizer nada. Quando o clarão desaparece olho para o Saci e digo:
–Está livre agora. Obrigado.
–Ainda não. ele diz. Vô isperá um poco.
Ele solta uma gargalhada e continua:
 –Eu dissi qui num ia ti pegá, mas vô bagunçá sua vida um tiquinho.
***
Tento me levantar, mas minha cabeça dói muito. Caio no chão novamente e perco os sentidos.


Não sei dizer por quanto tempo fiquei desacordado. A única coisa que posso dizer é que estou novamente na zona. O dia está claro, o sol entra pela janela e Sofia está sentada na cama.
Há algo que devem saber: o telefone de segurança, é o celular da Desiree. Eu ligo, digo onde vou estar, quanto tempo devem esperar antes da minha próxima ligação. Se eu não ligo, eles devem mandar alguém me buscar, gente como eu. Não é um pedido de salvamento, só preciso de alguém que busque o meu corpo ou ao menos termine o serviço, se eu não tiver concluído. Não é a primeira vez que acordo naquela cama, mas é a primeira em que vejo Sofia sentada nela, me olhando. Não gosto da cena, não quero intimidades, não posso permiti-las.
–Por quanto tempo eu dormi?
–Dois dias. ela murmura. Os olhos vermelhos e fundos me dizem que ela chorou.
–Eu estou bem. Digo. Foi apenas um pequeno acidente, como os outros.
Eu tenho labirintite, caio muito de escadas. Não quero incomodar a família. Vocês são a minha família. É o que digo. Desta vez ela me olha com raiva, cara de quem não acredita. De quem sabe a verdade. Ela respira fundo, lágrimas escorrem devagar. Não fico bem perto de mulheres chorando. Não gosto disso. Penso em revidar, dizer algo, um abraço, mas ela começa a falar.
O juiz quis voltar para casa antes da hora. Queria pegar sua arma novamente e matar o bicho, em suas próprias palavras. Tentaram acalmá-lo, ele não deixou, insistiu em voltar para casa. Ameaçou chamar a polícia, dizer que eu o tinha roubado. Desiree me ligou, para dizer o que estava acontecendo, eu não atendi, ela ouviu a mensagem. Era muito cedo para ir me buscar, o pau ainda devia estar quebrando, é o que ela pensa. Mas o juiz continua dizendo que quer ir embora, apronta um escândalo. Alex tentou desacordá-lo com uma coronhada, mas não teve efeito. Não em alguém que lutava demais para se manter acordado. Ele fica ainda mais nervoso, ameaça sair da zona gritando. Se não for pra casa, vão procurá-lo e achá-lo ali. Desiree então liga para alguns dos meus contatos, ninguém atende. O tempo se torna curto. Ela decide ir por si mesma. Sem saber se vai conseguir ou não, pega um pequeno livro de magias que fiz para ela e alguns amuletos, sem saber se vão funcionar. Pensa em chamar um taxi, mas a menina nova tem um carro. O figurão lhe deu um carro novo. A cafetina pede as chaves, mas ela não dá, diz que somente ela pode dirigir. Ciumenta e gananciosa. Carlos, o Juiz , Desiree e a moça nova decidem ir juntos. Porém, nenhum deles notou que Sofia esteve o tempo todo por perto, preocupada comigo. Ela também insiste em ir. Eles dizem não, mas ela bate o pé. Entra no carro e ameaça com as unhas o primeiro que chegar perto. Desiree não pôde fazer nada.
Quando chegaram à casa do juiz viram o estrago. Eu estou deitado, quase morto, e ao meu lado o Saci, que fode a minha vida e conta tudo à Sofia e à menina nova.
–Ele me disse, que eu vou morrer ao seu lado, que eu preciso ir embora. Ela diz. Por favor, me diga que eu sonhei, que aquelas coisas não são verdade...
Fico calado. Ela chora.
–As coisas vão ser sempre assim, para você?
Permaneço calado.
–E agora, vão ser assim pra mim? Aquelas coisas vão me atormentar também?
Não digo nada.
–Seu filho de uma puta! Que merda é você? Em que merda eu estou? Não pude nem dormir nos últimos dias. Tudo é verdade? As histórias de criança, monstros, demônios, tudo? Que merda é essa que você trouxe para este lugar?
Ela pula sobre mim, arranha meu rosto, meu peito, não faço nada para impedir. Ela se acalma e me abraça, ainda chorando. Vejo que é hora de falar:
–Volte para casa. Digo. Volte para os seus pais, você me disse que acham que é secretária. Volte para casa e estude de verdade, esqueça essa vida. Evite sair à noite, evite chegar perto de outra zona. Não vá a lugares mal assombrados ou suspeitos. Não fale com vidents, magoas, ninguém. Agora que você sabe, essas coisas se tornam mais reais.
Ela me olha agora. As coisas são mais difíceis assim.
–Os presentes que eu te dei, mesmo os horríveis, são amuletos. Quase todas as garotas permanentes tem iguais, mas você tem mais. Viva com eles. Durma, coma, tudo o que fizer. Esqueça que me conhece, faça terapia até passar a acreditar que tudo não passou de um sonho.
Ela se levanta, olha para mim, me dá um selinho, triste. Não resisto. Em minha mente, peço para que ela não diga que quer ficar, não poderei dizer não.
–Eu teria sido sua mulher. Ela diz antes de sair pela porta.
Ela vai antes que eu possa responder.
***
Volto para casa dois dias depois. Meu corpo estava bem, mas minha mente estava muito debilitada. Com um atestado de internação feito por um médico amigo de Desiree, não perco os dias de trabalho e explico para Dona Maninha o motivo de minha ausência prolongada.
Antes de deixar a zona, descubro que a menina nova não entendeu nada, mas está tão assustada que evita olhar para mim e não vai dizer nada. Penso que é melhor ficar de olho. O juiz, que é divorciado, tirou férias alegando stress, se casou com Lucíola e foi embora do país por um tempo. Não tive tempo de explicar o que aconteceu, mas Desiree parece ter lhe contado o que eu disse quando acordei. E Sofia... um de seus clientes mais antigos é psiquiatra. Já a havia pedido em casamento. Ela se foi com o acordo de que ele deveria dizer que ela era sua secretaria e que aí se casaram. Ela não disse nada sobre mim, ou para mim. Não perguntei. Não é bom pensar nos inocentes que sofrem pelo caminho
Ao entrar em casa, sinto frio. Alguém estivera ali mais cedo, limpando tudo. Um reluzente ar-condicionado ventila minha cara. Sobre a mesa, um bilhete de Desiree:
“Presente do meretríssimo para que fique de boca calada. Não se ofenda, não seja idiota. Beijos”.