Há um segredo por trás do fato de eu não precisar dormir muito, assim como há u segredo por trás do meu guarda-chuva. Talvez não um segredo, mas uma história que eu não quero contar. Não vale a pena. Não agora... Quanto à zona, acho que há algo que eu possa dizer nesse momento. Algo inofensivo, mas que assustaria a maioria dos homens. Talvez seja melhor falar sobre as prostitutas. Sobre o lugar onde eu passo a maior parte da minha noite.
As putas não são pessoas. Não para os homens de bem. Para eles as putas são uma espécie de objeto, algo como mastigar um chiclete gigante que demora a perder o gosto... A maioria dos homens vê as putas dessa maneira e têm vergonha de si mesmos por isso. Mas disfarçam bem. Eles dizem que as putas são o problema e a vergonha, e então as afastam para algum recanto obscuro da cidade, onde as pessoas sempre passam e nunca param. Assim eles escondem a própria vergonha, mantendo suas mentes livres de toda a culpa. Uma zona é como um limiar entre a boa a má realidade. E as putas acabam acreditando que o seu trabalho faz parte da má realidade. Mudam de nome, de penteado, de atitude... e com o raiar do dia elas retiram a pintura do rosto e voltam para a boa realidade, onde muitos desconhecem quem são e o que fazem. E aquelas que se recusam a esconder a verdade, as que cometem o erro de trazer para a boa realidade sua profissão, acabam sendo transportadas novamente para a má realidade, sem a chance de retornarem, a não ser que morram e renasçam novamente sob outro sol, longe das portas que a prenderam, dos olhares conhecidos.
E quando as putas estão bem alojadas, e os homens de bem tem um lugar para onde desafogar a depressão causada por suas esposas de bem e seus filhos de bem, começam a surgir outras pessoas que vivem na má realidade. Ladrões, gatunos, bêbados, mendigos, atormentados e putas velhas, que acreditam poder conseguir um pouco menos de dinheiro daqueles que não podem comprar uma garota mais nova. Mas é aí que reside o ponto principal da questão: todos depositam seus problemas nesses lugares, todos despejam seus sonhos perdidos, suas perversões, seu sofrimento e seus desejos não realizados. Mas não fica tudo bem...
Quando a noite vem e os homens dormem, tudo isso, que parece perdido, que os atormenta, acorda. Desesperados, com desejo de mostrar seu ódio, sua tentação e o seu medo. Os sonhos dos homens se tornam reais. Assustadoramente reais. E se depositam naquele lugar, onde tudo é dito e nada é tido como verdade.
Não, isso não acontece em todas as zonas, apenas em algumas, como aquela. A primeira da enorme cidade. A única à sobreviver ao tempo, preservada por uma estranha tradição. Lugar onde eu, e muitos dos que aqui vivem, perderam sua virgindade. Onde homens importantes vem para desprezar as mulheres que povoaram sua infância e que lhes levaram a virgindade, jogando moedas por pena e pagando bebidas por caridade. Onde eu vivo como se fosse minha segunda casa...
Mas antes de começar com toda essa idiotice sentimental, talvez seja melhor contar o que houve depois da minha volta da terra da bosta da vaca...
Chaves num chaveiro fazem barulho, fora de um chaveiro se perdem facilmente. Tudo é uma porcaria no fim das contas. Eu não gosto do barulho, não gosto que saibam que estou me movendo, quando saio ou chego em casa. Não que eu me interesse pelo que os desconhecidos dizem, apenas não gosto do que os conhecidos dizem...
–Você voltou das félias? Dona Maninha tem três incríveis capacidades: todos gostam dela, ela não fica surda com o tempo (e acreditem, eu culposamente já desejei isso) e fala como o Cebolinha.
Penso em responder “Clalo”, mas não posso. Todos gostam dela, inclusive da chatice dela...
–Trouxe um queijo pra senhora. Meu sorriso é falso e verdadeiro, afinal, o que mais havia para trazer da terra da bosta da vaca? E não, eu não matei a porra do tatu.
–Você nunca nos esquece, né?
É verdade. Por mais que eu a ache irritante, não havia como se esquecer dela e do marido. Os dois moram nesse prédio desde sempre, como eu. Estão tão grudados na minha vida que é meio impossível afastá-los. Uma palavra rude podia fazê-los me deixar em paz, um palavrão, um foda-se, um arroto na mesa, mas não valia à pena.
–Flavinha! Ela grita pra dentro.
Flavinha é um favo de mel: bonito, doce e enjoativo. Daquelas gostosas que não se espera que abram a boca. Vem de dentro com o mesmo pijama branco curto dos domingos de preguiça (“eu não vou sair daqui enquanto ela não sair da água”, penso).
–Ele voltou, olha.
E ela olha, com um olhar de falsa simpatia e um meio sorriso preguiçosos. Eu sou monetariamente e fisicamente abaixo dos seus interesses. Sem contar o fato de ser sempre o vizinho bom exemplo do apê em frente. Eu mesmo antipatizaria comigo se não fosse eu mesmo. Respondi ao olhar falso com o meu melhor olhar de bom moço!
–Trouxe um queijo para vocês. Repeti.
Seu olhar de desdém aumenta, os olhos da mãe brilham. Mas eu não vou me casar com a filha dela, tenham certeza disso. E nem ela pretenderia, apesar de eu ter sérias desconfianças de que se as coisas dessem errado eu me tornaria uma opção viável. Tiro o queijo da mochila e entrego para a velha. A conversa já está se alongando demais.
–Não quer tomar um café?
–Não, dona Florinda.
Ambas riem. É uma das poucas piadas que eu me permitia fazer naquela casa. Uma das antigas que haviam restado do meu próprio pai.
Abro a porta do apartamento e aceno um tchau com ar cansado. Antes de fechar a porta dona Maninha grita:
–Diógenes!
Eu me volto reabrindo a porta. Ela já não está sorrindo, tinha olhos ternos e segura o queijo gorduroso nas mãos.
–Não quer dolmir aqui até o calor passar? Eu sei que você ainda não complou o ar-condicionado e...
–Preocupa não, dona Maninha, aqui em casa tá até fresco.
Ela sabe que eu estou mentindo. Mas sabe também que eu não gosto daquela conversa, daquela gratidão culpada. Gente velha precisa mais de um ar-condicionado do que eu, por isso, quando o marido dela fiou doente eu comprei um. Mas não gosto de ser lembrado dessas coisas. É sentimentalismo bobo.
Fechei a porta antes de esperar uma nova insistência. Estou mesmo cansado. Ainda teria três dias de folga, então seria melhor dormir o dia inteiro. Seriam duas noites de plantão na zona. Da abertura até o fechamento. Esperando que nada acontecesse, mas rezando para brincar de meninas super-poderosas e salvar o dia. Olho para o apartamento, está sem uma gota (ou grama, sei lá) de poeira. A velha tinha estado lá, limpando tudo. Suspiro fundo, tentando manter a paciência. Não fui eu quem deu a chave a ela, foram meus pais... e não, eu não tenho coragem de tomá-la de volta.
Caminho apressado até o quarto, largo a mochila o chão e corro pra baixo da cama. Puxo o baú com pressa. A marca da minha digital havia sumido. Abro o cadeado com cuidado. Dentro uma pilha de revistas pornô quase intactas brilham na minha cara. Três fios de cabelo, dispostos em forma de triângulo por sobre duas capas, permanecem lá, grudados. A velha ainda não havia tido a tentação de tocar naquele lugar. Não que fosse difícil descobrir a senha, mas ela, especificamente ela, não deveria, ou melhor, eu não queria, que soubesse o que eu era. Por baixo das revistas minhas relíquias permanecem intocadas, nada faltava. Ao menos posso dormir descansado.
Arranco os sapatos e as meias e os jogo por baixo da cama, a calça e a cueca voam pelo quarto, a camisa some pó cima do guarda-roupa. Caio na cama e durmo até o começo do anoitecer. Quatro horas exatas...
Será que pega mal ir de short e sandália para a zona? Me divirto com essa idéia ao ver um rapaz descer apressado as escadas de um dos inferninhos fast-food que ladeiam a zona mais antiga. Ainda prefiro meu estilo social, me da um ar de religioso prevaricando.
Dos homens dali, se eu tiver o puta de um azar, sairão os sonhos sórdidos que eu terei de enfrentar. Mas esta noite, especificamente esta noite, tudo parece calmo, o ar está bom. Arrisco até mesmo cantarolar alguma coisa dos BeeGees enquanto caminho, jogando a barra das calças para frente e tentando gingar um pouco. Ali as pessoas reparam muito pouco no que as outras fazem para que eu perca tempo sendo tímido. Na verdade os homens só querem sair dali abotoando suas calças e segurando o mijo, e as moças só querem atingir seus locais de trabalho antes que a rua se torne acusadora demais. Quanto a mim, não faz sentido nenhum ter medo dos merdas que vão à zona. Vejo políticos, colegas de trabalho, antigos colegas de classe... e algumas colegas de faculdade, óbvio. Olho para eles com olhar penetrante e eles me fulminam. Nessa hora eles pensam “arranquem os olhos daquele filho-da-puta”, e eu apenas me rio por dentro. Ninguém ali abre a boca, ninguém. Viva o mundo dos medos humanos!
–É o grande D! O grito vindo da esquina assusta os passantes, todos me olham por um momento, mas logo viram a cara. É a porra da educação que nossas mamães nos deram.
–Se não é o grande filho-da-puta guardião do castelo! Grito o mais alto que posso.
–Esse é você homem do guarda-chuva, sou apenas o porteiro.
Dou-lhe um abraço terno ao me aproximar. Carlos é bom para as meninas, legal com os rapazes, mais velho do que eu e mais novo em idade. Um cara interessante que decidiu ir ficando...
–Como vai a vaca da sua mãe? Pergunto.
–Perguntando de você. Trouxe um queijo pra velha?
–Trouxe. As pessoas na porra desse lugar só pensam em queijo?
Ele dá de ombros. Faço sinal de que deixarei o queijo lá atrás, ele assente enquanto faz cara de mal encarado pra uns rapazes com cara de encrenqueiros. Não preciso dizer que é maior do que eu e ao menos aparenta ser mais forte.
Entro na zona. Acendo um cigarro. As meninas dançam se insinuando com os clientes, algumas delas agarradas com eles. Uma das meninas faz pole dancing. É uma das antigas da casa: Sofia. O cara que coordena as músicas grita de repente ao microfone:
–Ladies and Gentlemen, o homem da década de setenta acaba de chegar!
Todos olham para a entrada mas só vêem os garotos com ar de encrenqueiros, que decidiram enfrentar o olhar de Carlos e entrar.
Eu já havia me misturado aos clientes, não sem antes erguer o grande dedo médio para o homem do som. Não que se pudesse chamar aquele merda de DJ. Vou contornando os casais efêmeros (adoro essa expressão) até chegar ao bar. Coloco uma nota sobre a mesa e peço água com gás. A menina ignora a minha nota e me serve a água com duas fatias de limão e uma piscadela que queria dizer: “são fatias novas”. Aponto para o lugar onde o homem do som está e para a garrafa de whisky. A menina do bar, Andressa, chega perto do meu ouvido e grita:
–O André parou!
–Briga? Pergunto.
Ela acena com a cabeça. Uma briga com a esposa. Desta vez devia ser sério, pois o homem nunca dispensou uma cachaça, das nobres às mais simples. Mas a mulher dele era osso duro, se era pra parar de beber ele devia parar, pelo bem dos seus bagos. Tento imaginar mulher e marido em disputa conjugal e me vejo dando uma risada. Teria se prolongado se Andressa não houvesse apontado a mulher que vinha para o meu lado. A mulher do homem, a que ameaçava seu colhões: Desiree, a doce e profissional dona daquele lugar. A primeira a conseguir pôr um pouco de ordem naquela merda. A primeira também a saber meu segredo, algo que nem as meninas antigas sabiam.
Ela passa a mão pelos meus ombros. Olho para cima e vejo André nos olhando, ele não tem ciúmes, também sabe de mim. Apenas sorri como quem sorri para o padrinho de casamento. Eu poderia até ter sido, mas esse cargo coube melhor a outro homem da minha família.
–Trouxe um queijo para mim? Ela diz.
–E o que mais tinha na terra da bosta da vaca?
Ela solta uma risada gostosa.
–Você foi ajudar a moça, né?
Faço que sim com a cabeça.
–E o ar-condicionado?
–Foda-se. Respondo com um sorriso meio idiota.
–Se você quiser eu posso te dar um, afinal estou ficando rica desde que...
–Preocupa não. É ponto de honra, no final do ano eu compro essa merda.
Ela dá de ombros. Giro as mãos sem precisar abrir a boca para fazer a pergunta.
–Ainda estão no lugar. Ninguém tentou nada.
“Estranho”, penso, “Nada de diferente em um mês”. Tento apenas acreditar que foi sorte e relaxar. Pergunto da menina nova e descubro que ela voltou para casa no dia anterior, foi cuidar dos pais. Desiree arrumou um currículo de secretária e um dinheiro pra recomeçar.
–Você disse que ela não ia ficar muito. Eu disse.
–É por isso que você dormiu com ela?
Fiz que sim com a cabeça. Nunca fiquei com as meninas que fizeram carreira. Não queria correr o risco de gostar de uma delas, nem correr o risco de que gostassem de mim. Já fazia dez anos que eu estava lá, todas as noites, todos os dias da semana, não queria ter um motivo para ir embora. Era um bom lugar, eu me sentia bem ali, e tinha amigos. Não seria legal cagar em tudo.
–Tem uma garota nova. Acabou de fazer dezoito, ou pelo menos diz isso. Nem sempre dá pra conferir...
Ela me apontou uma garota sentada em uma das mesas. Era linda, de uma beleza estranha, eu diria rara. Olhei para ela e me perguntei quanto custaria tê-la em meus braços. Desci meus olhos pelos seios pequenos, o corpo esguio. Linda, linda...
Olho para Desiree, ela espera que eu pergunte o preço, e com certeza me dirá um insignificante, que eu pagarei deixando todo o orgulho de lado. Ela é linda, linda... mas há algo errado.
–Por quê ela está sozinha? Me pergunto ao mesmo tempo em que me dou conta de que ela está só, com um olhar estranho, sentada na única mesa que tem espadas de São Jorge ao invés de flores.
Desiree olha para mim como se eu a tivesse pego cometendo algum crime. Desvia os olhos. Penso em insistir na pergunta, mas me contenho. Não compreendo bem o que há de estranho, mas não é bom duvidar dos amigos logo de primeira. Mas quando ela volta a olhar para mim meus olhos ainda querem uma resposta.
–Ela é protegida de alguém, um dos políticos. O último cara que tocou nela quase morreu. Ela dá uma risada tímida, está nervosa. Existe algo mais, mas decido aceitar aquela mentira por enquanto.
–Não me oferece uma mulher assim, sua louca! Não pretendo morrer por causa de uma trepada!
–Desculpe, ela diz com uma risada (de alívio), só quis te sacanear pra ver onde dava.
–Vaca... murmurei entre dentes.
–Eu ouvi. Ela diz saindo e rindo. Muitos homens se perdem naquela risada.
Peço outra água com gás, a noite vai ser longa. Tento me concentrar em outra coisa que não seja a garota, ela realmente me encantou. Mas eu não sou um sedutor, e não vivo de sexo. Garotas protegidas são protegidas. Um político paga muito por uma garota. Provavelmente ele a veria durante o dia, quando ninguém passava por aquele lugar. Ele deveria entrar por uma das portas laterais e subi as escadas esperando encontrá-la quase nua, cumprindo suas fantasias.
Bato na cabeça para afastar os pensamentos sujos. Andressa olha para mim sorrindo, parece adivinhar.
–Sofia não vai gostar... ela diz. Vai bater na menina nova se vir você olhando assim.
–Ela não é minha dona. Respondo com um sorriso meio de lado.
Ela continua rindo. Eu rio junto. A música termina. André anuncia:
–E essa foi Sofia, meninos e meninos. He, He. Mas infelizmente hoje ela não está à venda.
O público solta uma longa vaia. Eu percebo o que está por vir. Sofia coloca um sobretudo, daqueles ao estilo Dick Tracy, vem gingando em minha direção. Um dos caras encrenqueiros tenta segurá-la, puxa pelo braço e a faz rodopiar. Aperta o corpo dela. Perto demais, eu penso. A cara de dor que ele faz me diz que as unhas já estão arranhando as bolas. Ele grita “Vaca” e ela diz algo sobe um pau pequeno. Keep walking, eu penso. As pessoas se assustam, abrem caminho. Ela vem correndo e se dependura nos meus braços. Olho para a mesa da novata e vejo que ela nos observa. Quando seus lhos vêem os meus, ela abaixa a cabeça. Nessa hora Sofia me beija, um beijo longo. Afasto ela antes de morrer sufocado.
–Calma, mulher. Eu digo.
–Saudade. Ela responde.
–Percebi. Mas não vamos avançar tanto...
Ela faz um muxoxo,e aquela cara de “Você ainda vai ser meu”. Se eu não mantiver o profissionalismo, sei que a coisa vai dar merda. Corpo bom, gosta de mim. A primeira mulher (e única) a me beijar sem pedir pagamento. Gosta de mim mesmo eu sendo mais feio que bater na mãe. Mesmo assim, não quero me deixar levar. Coisas demais à perder, e mais uma vida em risco. Eu não sou o Marv...
–Hoje eu sou sua. Ela insiste.
–Te trouxe um queijo. Respondo.
Andressa sufoca o riso. Sofia percebe e diz:
–E o que mais?
–Doce de mamão, de fita.
Ela abre um sorriso.
–Se eu ficar gorda a culpa é sua.
–Você vai ser gostosa sempre.
Ela chega perto do meu ouvido:
–Sobe comigo. Se você quiser eu até brinco de moça de família.
O volume no meio das pernas aumenta. “Sai capeta!”, eu penso. Em horas como essa é que eu rezo para que algo ruim aconteça, algo que me tire dessa enrascada. Acreditem, é melhor enfrentar três mulas sem cabeça com um lobisomem e uma Caipora a tentar dar o fora em uma mulher como aquela. De uma hora pra outra as unhas podias estar rasgando o meu saco.
–Hein? Ela insiste sussurrando no meu ouvido.
Tento fugir de uma maneira segura. Deus, eu penso, essa é uma boa hora para uma missão. E ela vem.
O homem entra gritando dentro da zona. Arma em punho. Um daqueles 38 que se compra para compensar o tamanho do pau. As meninas corem para cima. Os homens se esgueiram para a saída. Carlos entra correndo, o nariz sangra. Coronhada, é o que parece ser.
–Me ajudem! Me ajuudem! ele grita com as mãos na cabeça.
Penso se devo acabar com a fama de covarde e agir. Sofia se agarra em mim. Ela não é o tipo de garota que deixa escapar uma chance. Estou travado.
–Me ajuudem! Me ajuudem! Ele repete sem descanso, apertando as mãos contra a cabeça.
Desiree se aproxima, as mãos sobre os quadris. Não é o primeiro cara armado que vê, está acostumada a coisas piores.
–Que merda é essa na minha casa?
O homem olha para ela, como se por um momento estivesse envergonhado do que fez. Aproveito para olhar bem para o seu rosto. É um dos juízes da cidade. Se eu o visse em um dos dias bons o chamaria de meretríssimo. Não convém dizer seu nome. Seu rosto está branco, as veias saltam do pescoço como se fossem explodir. Ele tenta se acalmar mas acaba apenas produzindo algumas caretas grotescas de dor.
–Lucíola... ele diz. Eu quero Lucíola, ela me acalma...
Lucíola era uma ninfeta, das que se via que iam crescer ali dentro. Os velhos eram tarados nela. Já tinha visto aquele subir com ela muitas vezes. Pagava por quase toda uma noite (se bem que nunca pareceu agüentar muita coisa). O velho apontou a arma para Desiree e disse mais uma vez:
–Eu quero a Lucíola!
Mas Lucíola já havia corrido para cima, se agarrando no primeiro idiota que viu pela frente. Além do mais, Desiree não é o tipo de mulher que deixa que as garotas desprotegidas. Quinze anos atrás, quando assumiu, as meninas costumavam ser maltratadas, por seres humanos e outras aberrações que eu não gosto de me lembrar. Drogas e outras merdas pioravam as coisas. Ela limpou o terreno, com uma certa ajuda especial, e criou regras sérias. Uma delas é que ninguém apanhava naquele lugar e nenhuma garota era obrigada a fazer nada que não quisesse. Sei que parece uma daquelas utopias do Jorge Amado, mas as coisas funcionam assim. Caso contrário esse lugar já teria ruído.
–Ela não está disponível hoje. Ela diz.
Ele parece desapontado, mas logo esse desapontamento some e ele aponta a arma para ela.
–Atira, se isso te faz feliz, mas não vai mudar nada. A garota vai continuar indisponível.
Tento me levantar, hora de parar de brincar. Próximo as escadas vejo André descer com uma arma. A morte de um juiz ali seria algo ruim, muito ruim. Talvez eu possa desarmá-lo. Mas Sofia ainda me prende. Penso em empurrá-la, mas ao olhar para ela vejo que está realmente preocupada. A garota me ama. Me vejo em um impasse. Uma merda de impasse mexicano. André engatilha a arma, o juiz parece nem perceber, o revólver dele continua apontado para Desiree. O olhar dela não muda. Ambos parecem não querer ceder. Mas a cafetina é mais forte, muito mais forte. E o homem percebe que não pode ter o que quer. Devagar, ele aponta a arma para a própria cabeça. Me solto dos braços de Sofia (não dá mais para ser gentil) e avanço para ele. Não vai dar tempo. Esse filho da puta vai se matar aqui e foder o trabalho de todo mundo.
Foder o trabalho de todo mundo...
Não fecho os olhos. No meu mundo as coisas desaparecem em um piscar de olhos. Se eu fecho os olhos não sou capaz de ver o objeto que passa zunindo, arrancando o cão da arma e uma parte do polegar do meretríssimo, ficando pregada no balcão. O idiota nem percebe o corte, apenas continua puxando o gatilho. Nada acontece. Carlos pula sobre ele, que não para de chorar. Desiree corre para os dois, segura a mão do juiz, que quando vê um pedaço do polegar faltando começa a gritar. A cafetina faz um olhar para Carlos, que entende que deve levá-lo pra dentro. Acena para mim também. Há um interrogatório à fazer. Mas antes, eu preciso ver o que arrancou o dedo do juiz.
Na lateral do balcão, apenas com uma ponta para fora, um objeto verde. Puxo com o polegar e o indicador e ao invés de sair inteiro quebro uma ponta. Mole. Uma folha de louro. Não vou interrogar apenas o juiz... Olho para Desiree e André. Acredito que querem me explicar algo e não podem. Corro para uma das portas e vejo um dos meus selos, um pequeno charme que faz com que as coisas ruins não apareçam. Foram retocados, por um profissional.
–Eu saio por um mês e vocês abrem caminho pra concorrência...
Eles me olham, querem dizer algo, mas eu estendo a mão. Não há tempo. Preciso descobrir se a coisa que irritou o juiz está perto.
Vou para o quarto dos fundos. Lá o idiota ainda grita. Me pergunto se vai funcionar a tática do tira bom e do tira mal. Me decido pela supernanny. Seguro o rosto dele diante dos meus e digo:
–Está tudo bem. Tudo vai ficar bem agora...
Ele para de chorar, mas ainda soluça. Fico fazendo “shh, shh” e dizendo que tudo vai ficar bem. Espero que as lágrimas parem de descer. Na minha cabeça a folha de louro me deixa cismado. Existem outros como eu, mas não tão legais como eu. Se algo aconteceu durante o mês em que fiquei fora, não ficaria triste se pedissem ajuda. Deixei telefones de referência. Mas nenhum dos meus ataca daquela maneira. E porquê o segredo? Eles nunca mentiram para mim. Se bem que apenas não tocaram no assunto. Tudo aconteceu muito rápido, é possível que não tenha havido tempo. Não faz sentido me irritar com os dois. Além do mais a coisa que cortou o polegar do juiz evitou muita merda...
Volto a olhar pro meretríssimo, ele está mais calmo.
–O que aconteceu? Pergunto.
Seus olhos se arregalar, ele treme de medo e diz:
–Ela... naquela casa... ela... entra aqui... ele apontou para a própria cabeça.
Reparo que ele tem olheiras profundas. As pálpebras estão roxas, ele se esforçou para ficar acordado, e se esforçou muito para abri-las quando adormeceu.
–Nos seus sonhos?
Ele faz que sim com a cabeça. Percebo o que é. O mal da globalização é que ela sempre populariza alguns demônios estrangeiros. É preciso valorizar o material nacional.
–Veio de carro? Me dê as chaves.
Todos sabem onde ele mora. A melhor casa da cidade. enho bastante tempo antes do amanhecer. Passo pelo casal de cafetões com um sorriso, estão apreensivos. Digo que não quero explicações por enquanto. Eles devem cuidar do juiz. Pego o conversível e volto para o apartamento. Tiro a chave do chaveiro para ele não acordar a velha. Entro no meu quarto e abro meu baú. Retiro as revistas e vasculho o interior. Dentro da carapuça vermelha pego a garrafa. A figura dentro dela me olha com ódio. Apenas sorrio e digo:
–Faz de conta que temos um acordo...