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sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Envergonhado

Hoje eu acordei
Cansado pensando
No quanto
Eu amo você.
Hoje o meu coração
Sombrio
Descansou
E eu me sinto
Sozinho.
É como pedir
Por todo o tempo
Para que você
Esteja aqui.
Minhas lágrimas
Me deixaram
Envergonhado
E agora eu penso
Em tudo o que fiz
E não quis fazer.
Sinto saudade
Meu coração
Ainda precisa
De você aqui.
Meu corpo cansado
Tenta descansar
Mas meu espírito
Não para de pedir
Você.
Fecho os olhos
Na manhã quente
Me sinto carente
Com a tua ausência
Quero tua voz
E teu carinho
Sozinho
Me pego sonhando.
Ai, ai, ai...
Quero acordar
De coração limpo
Quero estar com você
Todo tempo
Então vem
Que estou calado
Por todo o dia
Por muito na vida
Esperei.
Por tudo esperei
Esperei por você.
E nessa noite
De lua cheia
Como eu posso
Dormir sem você?
Me engano dizendo
Que o amanhã
Logo chegará
Mas será
Que esse coração
Tão endurecido irá
Por hoje descansar
Sem teu abraço?
Eu farei caso
De todo descaso
De minhas lágrimas
Do meu chorar
De outra noite
E tuas declarações de amor
Me fazem mais vivo
Me fazem conviva
Desta vida perfeita
Imperfeita confusa
Na qual
Fui me enfiar
E desafiar
As tristezas
Latentes, conflitantes
Que me fazem cair
Aos prantos
Nos recantos
Do teu peito
E molhar
Tua camisa.
Sem pensar
Duas vezes
Me entrego
Cego
Na confiança
Desse amor
E penso
Porquê não estou
Com você
Agora?
A hora, passa
E o tempo que reservo
Conservo
Em teu coração.
Eu sou o homem
Que chora
Em teu ombros
Imaculados
E hoje, cansado
Me deito
Com meu olhar em você.
Sozinho
Permaneço
E espero
Que o dia
Passe logo
E eu mereça
Um beijo
Teu...


segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Manhã cedo

Quando você acordar
E o sono te confrontar
Com a realidade dos dias
Tente não pensar
Ou prever.
Quando o céu estiver
Como naquele dia
E as sensações
Se misturarem
No seu coração
Tente acreditar um pouco mais
Tente entender
Que pode ser verdade ou não.
Quando você se lembrar
Daqueles tempos tristes
Tente não sofrer
Pensando que tudo o que foi
Pode voltar
Tente não ser mais
Tão racional
Nem irracional
Tente acordar
E enfrentar
Todo o real
E o imaginário que vem
Pra te assustar.
Tente não ter
Medo de dormir
Tente pensar
Que tudo ficará bem
Como sempre ficou
Como você lutou
Todos os dias.
E espere
Por todos os momentos
Em que seus olhos se abrem
E veja a verdade
De dor ou sorrisos.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Seu relógio

Será que seria insanidade dizer
Que eu não sei estar sem você?
Será que seria infamidade dizer
Que eu não quero estar sem você?
Quando você abrir a porta
Quero ser o primeiro que veja
Quando as estrelas apontarem no céu
Quero que você me sinta.
Aos poucos perco o controle
E me embolo nessas coisas de amor
Você diz que me ama e agora
Tem meu coração para sempre.
Me ensine a segurar as pontas
Sem ter você do meu lado.
Me ensine um modo de voltar pra casa
Sem lágrimas nos olhos.
Estou me sentindo perdido aqui
Querendo que as horas passem rápido
Nem o trabalho me acalma mais
Preciso de você urgentemente.
Então, me ensine uma magia
Que faça as horas correrem
Me faça dormir por toda a noite
Para o tempo passar depressa
Flávia, volte logo pra casa
Meu coração está para explodir.
Flávia, venha e me abrace
Estou aqui, sentado, te esperando.
Flávia, venha ouvir meu murmúrio
Meu sussurro, meu grito.
Flávia, eu te amo.

Cochilo

Quero fechar os olhos
E ir até você
Sentir aquele perfume
Que me mantém
Acordada por toda noite.
Sinto falta do seu calor
Dos teus braços e mim
Do desejo
Dos beijos
Das flores que giram
Ao nosso redor
Vou fechar os olhos
E ir até você
Sufocar a saudade que sinto
E no meio dos sonhos
Quem sabe
Com sorte
Não posso te ver?

Garça

Por quê você não volta logo
E se joga aos meus braços?
Quero te dar carinho
E cheiros e amassos.
Por quê sempre tenho
Que ir, virar as costas
Quando vou ser eu a ficar
Do teu lado da porta.
Aflita, cansada, estressada
Pensando no quanto
Eu amo você.
Fisgada, amarrada, presa
Algemada à você
Já não percebo mais
O mundo sem você.
Meu sol, meu amor
Meu desejo profundo
Meu ardor.
Sem você
Sou como a garça
Que voa depenada
Desencontrada
De si mesma.
Volte pra casa
Volte pro meu coração
Não me deixe só
Me deixe cuidar de você
Me deixe ter você
Além de todo sonho
Meu encanto amado
Meu sonho apaixonado
Quero estar em teu corpo
Em teu sonho
Em teu coração
Florescido.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

O frio acima das cobertas

Quero acordar ao teu lado
Quero acordar ao teu lado
Não me deixe partir
Me segure em teus braços
Nessa noite fria
E não me deixe
Ir embora mais uma vez.
Quero acordar ao teu lado
Na manhã fria
Na manhã de sol
E nos dias de chuva.
Então meu coração corre
Corre desabalado
Para te fazer feliz
Para um lugar de nós dois.

domingo, 5 de agosto de 2012

Estranho mundo...

Quando vem
A chuva fria
Eu fecho os olhos
E venho
Para dentro de mim.
O que se encontra
Escondido
Se desenrola
E me abraço
Com braços ternos
De solitário
Acostumado
Ao próprio mundo.
Quando vem
A chuva fria
Esse meu corpo
Pede um calor
Diferente
Das cobertas
E das doses
De conhaque
Quero abraços
E perfumes
Quero afetos
E cuidados
Que me tragam
Para fora
De mim...


Sunshine

Vamos partir
A cara dos falsos heróis
Vamos dizer aos fajutos
Perdidos
Que estamos putos
Da vida.
É hora de brigar.
Gritar
Com todos
Aqueles
Filhos da puta
Que fizeram da vida
Uma grande merda.
Limpar a sujeira
Fechar a goteira
Aberta
Por essa horda
De vagabundos
Que não passam
De parasitas
No nosso dia.
Vamos dizer
Vamos mandar
Esse povo todo
A puta que os pariu
Estapear
Cada cafajeste
Cada peste
Que torna a vida
Pior.
E depois jogar um
Doce "foda-se"
Ao ar
E lembrar
Que tempos melhores
Sempre vem
Depois de mandar
Alguém
Tomar no...

Esse poema acaba de ser censurado pela Inquisição Espanhola. O autor no momento se recusa a mudar suas palavras e idéias e por isso será queimado na fogueira e este blog será taxado como proibido no Index. Obrigado a todos...

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

As quatro estações: Outono (o palhaço que não sorria) e Inverno (o garoto que queria ser aceito)

Um dia, um palhaço perdeu sua esposa e seu filho, no mesmo dia. Um dia, um palhaço não quis fazer o seu show, mas as crianças o esperavam. Um dia, um palhaço quis desistir da sua própria vida, e a fez. De um jeito doce e suave ele fugiu para dentro do seu próprio mundo. O problema é que esse mundo se escondia atrás de um espelho especial, um espelho que diziam ter pertencido à própria Baba Yaga. E, ao se afundar nesse mundo, ele inexistiu, como queria, mas deu vazão à um outro universo, onde os palhaços não riem. Nunca. E foi daí que nasceu Alberto, o General Palhaço.
Ele entrou devagar no picadeiro, eu e meu avô, sentados bem na frente. Olhou para as pessoas da platéia, e não sorriu. Ele era enorme. Alto e gordo. Muito alto e muito gordo. Mais alto do que eu em tornaria e com uma circunferência gigantesca. Seriam precisos umas três pessoas para abraçá-lo. Todos pensamos que ele fria uma piada, mas ele não fez. Todos pensamos que viriam outros palhaços, mas não vieram. Não chegaram nem perto. E, quando todos ficaram inquietos com aquela presença estranha ali parada, sem dar prosseguimento à nada, ele começou a subir até o trapézio.  Não pela escada, não por um guindaste, mas pelo cabo de aço que sustentava a viga pelo chão. Subia com os braços fechados, com uma vara segura na boca e sem nenhuma expressão de dificuldade, como se possuísse todo o espaço do mundo para caminhar. Nessa hora já estávamos todos desacreditando no que víamos, assustados. O cabo de aço não envergava, como se ele flutuasse. Alguém aventou a possibilidade de que ele estivesse tão tenso que arrebentasse e derrubasse todo o circo. Algumas pessoas temiam que todos morrêssemos soterrados, o burburinho aumentava e eu não tinha coragem de olhar para o meu avô. Não podia perder um segundo daquele palhaço estranho subindo a corda. Talvez fosse mais leve do que aparentava. Talvez todo aquele peso fosse apenas um enchimento e ele simplesmente não pesasse aquilo tudo. Um grande embuste para o público. Mas ele chegou ao final, sem que nada se arrebentasse. Sem que nada se quebrasse. Mesmo o apresentador não ousava dizer nada, não emitia som algum. Nem para dizer, como eles sempre fazem, que não havia rede alguma. A cena toda em si, a presença daquele palhaço obeso e multicolorido, fazia com que tudo mais fosse extremamente natural.
“Que merda, eu pensava, quem é esse cara? E por que diabos eu estou aqui, na porra de um circo, quando devia estar lendo alguma coisa?”
Eu já estava com doze anos e entendia tanto de magia e economia que fazia as contas da família e organizava a biblioteca da Pumpkin. Um computador, dos primeiros fora levado e eu aprendi rapidamente a como catalogar as coisas. Já havia conhecido muito mais gente parecida com o meu avô e, aos tropeços, aprendia outras línguas. Minha concessão se fazia apenas a uma pequena pausa pela manhã, para beber Quik de morango enquanto assistia aos desenhos animados. De vez em quando ainda faço isso, mas quase sempre é um vinho vagabundo o que tem acompanhado meus desenhos animados.
Mas aquilo era bem mais real do que qualquer um dos desenhos, e toda aquela merda se mostraria bem mais interessante do que me pareceu quando eu entrei ali. O cheiro de bosta de elefante misturado com o cheiro de capim e poeira de picadeiro, confundiam meu nariz e eu apenas me perguntava quando poderia ir embora. A pipoca fria era a cereja em cima de um bolo ruim de aniversário e aquele gordão em cima de uma corda me parecia uma piada de mal gosto.
Mas então ele faz a coisa mais estúpida e surpreendente que eu já vi na vida. Ainda com a vara presa nos dentes ele simplesmente se segurou no trapézio e pulou. No meio do picadeiro ele deu dois saltos mortais no ar, bem altos, bem altos mesmo. E só aí a platéia percebeu que não havia ninguém para segurá-lo do outro lado. Bocas abertas, medo, pânico, gritos, meus olhos vidrados e minhas pernas querendo se mover. Meu avô simplesmente colocou uma pipoca fria na boca, e o barulho das malditas mastigadas acompanharam a queda do palhaço. Ele ia morrer.
Mas é nessa hora, quando os mais covardes fecham os olhos, que o maldito tira a vara da boca (e sim, eu sei o quanto isso é irônico), e a segura entre as mãos. Ninguém viu quando os assistentes de palco jogaram as duas escadas, uma de encontro a outra, num timing perfeito. Ele se prendeu entre as duas. Com o bastão. O público suspirou, mas por pouco tempo. Logo as escadas começaram a cair, mas ele não mudou de expressão. Apenas girou e girou e girou, até se soltar das escadas. Deu um salto mortal no ar e caiu no chão, em pé e suave, como se não pesasse uma tonelada. Todos aplaudiram de pé, e pela primeira vez eu vi Alberto, o único palhaço que não sorria.
Descobri que aquele circo guardava algo que pessoas como eu e o meu avô odiávamos mas éramos obrigados a aceitar: era um circo de aberrações. Monga, a mulher gorila era mesmo um tipo de mutação estranha, não um jogo de espelhos. Durante a lua cheia um lobisomem realmente se transformava e ficava preso a uma jaula, sem ressentimentos com os donos do circo depois, o domador tinha mesmo a lira de Orfeu, cuja uma das cordas seria posteriormente dada a Alvo. E, por último, Alberto, o único palhaço que jamais sorria.
Quando meu avô me levou aos bastidores, eu estava perplexo. O que aquele homem havia feito, com o tamanho dele, me parecia impossível. Esperava encontrá-lo sem uma roupa tão larga, ou rodeado de enchimentos, mas ao adentrar o camarim o que eu encontrei em verdade foi algo diferente: um homem realmente muito gordo, o que deixava de ser engraçado quando ele não usava a roupa de palhaço. Não havia enchimentos, ele era realmente a maior pessoa que eu já havia visto na vida. Ele não sorria, ele não se alterava, ele não fazia palhaçadas, ele apenas dava aqueles saltos fluidos, que o isentavam de se mostrar carismático diante das pessoas. Sua voz era triste e profunda, mas ele não demonstrava sentimentos, nenhum.
–Como vai, Alberto?
A voz do meu avô era igualmente séria, como se ele respeitasse completamente a santidade da seriedade daquele palhaço.
–Você me faz sempre a mesma pergunta, Augusto, mas você sabe que, invariavelmente a noção de estar bem ou ma é algo que não se aplica a um homem que não nasceu nessa sociedade.
–Basta responder que sim ou não, Alberto. Quando as pessoas perguntam isso, não querem realmente saber. É uma pergunta que os amigos fazem.
–Pessoas são animais falsos.
–Eu sei. Mas você deve entender que...
–Como você fez aquilo?
Minha voz, interrompendo o diálogo dos dois mostrava toda a impaciência que eu sentia. Como um homem como aquele podia pousar tão facilmente? Como? Alguma coisa naquela merda estava errada e eu...
–Como eu fiz o quê?
–Pousar, pousar tão suavemente, mudar de direção no ar, subir aquela corda sem a envergar. Pelo amor de Deus, o que é você?
Meu avô deu um leve sorriso. Sentou-se na cadeira em frente ao criado mudo cheio de maquiagens de palhaço e esperou a resposta, pacientemente. Alberto ficou me olhando. Por um longo tempo.
–Seu neto?
–Uhum. O velho fez que sim.
–Um jovem um tanto quanto inconveniente para alguém que você quer transformar em um caçador. Você não acha?
–Não. Ele é apenas uma criança, Alberto. Responda logo a pergunta dele e deixe de ser rabugento.
Ele olhou para mim. Me perguntei se realmente estava sendo inconveniente. Fiquei com medo de que a resposta fosse ríspida, mas ele simplesmente não mudava o tom de voz. Nunca.
–Eu não sou humano. E não pertenço a esse mundo. Sou como um intruso. Eu sou um ser da má realidade, por isso não sigo regras comuns aos homens, como a gravidade. Ou alguns sentimentos.
–Então...
Recuei na minha pergunta. O que eu ia dizer poderia ser mais inconveniente do que  o necessário, mas ele disse:
–Pergunte.
–Então, por quê você é um palhaço? Quero dizer, se não sabe sorrir?
–Eu não sou um palhaço, sou um general. E eu vim até aqui apenas para matar alguém, mas decidi ficar.
–Matar... alguém?
–Sim, matar o homem responsável pela morte do filho do ser humano que anteriormente era conhecido como Alberto. Ele sim era um palhaço. Eu sou apenas um soldado. Eu venho de um mundo onde os palhaços são soldados.
Olhei para o meu avô. Segundo havia lido, qualquer um que fosse uma ameaça um ser humano deveria ser parado. Se fosse um ser apenas feito de má realidade, ele poderia ser morto. Então, por quê o velho o tratava como amigo?
–Nesta terra, ele prosseguiu, como se previsse meus pensamentos , onde a vingança é um crime, fiquei preso por trinta anos. Saí a pouco mais de vinte anos.
Ele aparentava ter apenas uns quarenta, no máximo. Depois compreendi que o envelhecimento e a morte eram apenas conceitos humanos. Não sei se Alberto é eterno, mas sei que ele não morrerá de velhice.
–Augusto, por quê veio me ver?
–Preciso de ajuda. Quero que o ensine o que me ensinou.
–Ele não tem o rosto de um soldado. Tem a cara e o jeito de um covarde.
Eu me encolhi. Naquela época não era tão irônico. E, no fim das contas, eu sempre fui um covarde mesmo...
–Faça isso por mim, Alberto. Não serei capaz de fazer o que é preciso. Não da maneira como você faz.
–Entendo. Como você sabe, eu trabalho até o fim desse outono. Quando a última folha cair, eu ensinarei a seu neto. Ou o matarei...

Inverno

O cheio do meu próprio sangue, a dor no meu estômago e davam vontade de vomitar. Eu já estava ali, sozinho com o Alberto no meio do mato há uma semana. Ele me deu um pedaço de bambu um pouco maior do que eu e disse: “corra, ou eu mato você”. Eu já havia desmaiado uma série de vezes. Já havia tentado enfrentá-lo de frente. Meu nariz estava quebrado e acho que uma das minhas costelas também estava. Eu não o via se aproximar, apenas recebia a pancada quando estava desprevenido. Daquele jeito eu iria morrer, mesmo.
Ele me atacava com uma vara de bambu igual àquela que havia me dado, mas se movia tão bem com ela que me deixava assustado. Depois do segundo dia apanhando finalmente percebi que deveria observá-lo com cuidado antes de atacar, mas ele sempre me achava antes que eu pudesse vê-lo. Minha resistência às pancadas tinha ficado maior, mas o cansaço me fazia mover mais e mais lentamente. Já conseguia me desviar de alguns golpes, mas ele não havia me ensinado nada, eu não sabia como lutar. Toda a abertura que havia era um nano segundo antes dele enfiar aquela coisa pelo meio das minhas costelas e me fazer desmaiar. Uma semana apanhando sem saber o motivo. Eu já havia cansado de chorar, já havia tentado fugir, já havia gritado desesperado. Comido coisas horríveis e sentido dores em lugares que eu nem sabia que existiam.
Alberto não dormia, por isso eu também não, apenas descansava quando desmaiava e acordava com uma dor e um hematoma novos. Eu realmente queria sair daquele lugar, mas só sairia se morresse, ou se desse àquele idiota uma lição. E foi no meio desses pensamentos que eu vi uma brecha: os ataques eram previsíveis de alguma forma. Os ataques podiam ser previstos, como ele pousaria, de onde ele viria, contanto que eu cobrisse os pontos cegos, como um rato acuado, eu poderia me defender, ou ao menos assegurar uma pequena chance de mudar aquele jogo.
Eu não era, não sou um soldado, mas compreendia matemática, e muito bem. A estatística depende de um ponto imutável, algo que sirva de base para um cálculo qualquer, algo fixo que me dê as respostas. Eu precisava encontrar algo que me servisse de defesa, que cobrisse todos os meus campos de visão. Alberto não atacava sempre de frente, algumas vezes ele procurava os meus pontos cegos, e era preciso encontrar uma maneira de cobri-los.
Era provável que ele estivesse me observando, tentando me pagar desprevenido. Ele não me atacava se eu estivesse alerta. Ele esperava sempre a brecha. E era preciso que eu previsse o ataque, calculasse as possibilidades e avançasse. Havia então aquela árvore velha e enorme, cercada de folhas. Nem ele poderia rodeá-la sem fazer barulho. Encostei minhas costas nela e observei. Não havia como me atacar por trás, apenas pela frente ou pelos lados. Ele já havia demonstrado que não faria ataques diretos. Era preciso saber de onde ele viria. Esquerda? Direita? Frente? Fechei meus olhos por um instante. De onde ele viria? De onde? De onde? De onde? De cima!
Meus olhos se abriram um segundo antes de cravar o bambu por cima da minha cabeça. Ele descia rápido, de cabeça para baixo. Eu me desviei e o bambu se cravou no solo. Um segundo, apenas um segundo, e eu não poderia pensar demais. Num instante eu girava e batia com todas as forças nas costas dele. Seu corpo, ainda segurando o bambu fincado na terra começou a tombar na direção da árvore. Acabou? Eu pensava desesperado. Um sorriso brotou nos meus lábios, mas por pouco tempo. Em um segundo apenas, ele deu um chute no tronco da árvore. Ainda no ar girou em minha direção, arrancando o bastão do solo e cravando ele em meu ombro direito. Logo depois veio um soco no estômago que me fez cair desacordado.
Acordei no meio de uma clareira, com o ombro dolorido. Não parecia estar quebrado. Ao meu lado, não havia mais o bambu, mas o guarda-chuva. À minha frente, Alberto parecia esperar pacientemente que eu me levantasse. Instintivamente eu já estava com o guarda-chuva na mão antes de erguer meu corpo inteiro. Ele também não estava mais com o bambu, mas com uma lança enferrujada nas mãos. Algo perigoso.
–Me desculpe, mas vou matar você.
Eu arregalei os olhos.
–O quê? Seu filho de uma puta desgraçado, o que você acha que...
–Seu avô deu a ordem. Se você não fosse bom o suficiente, deveria morrer. Pessoas como você, que não servem para nada, acabam trazendo desgraças para a má realidade. E você é apenas uma criança com os pés dos dois lados, sem pertencer a lugar algum. Além de não passar de um covarde. Prefiro matá-lo agora a permitir que cause estragos mais tarde. Essa é a Lança de Longinus, a lança que o seu avô usa para caçar. Ele mesmo quis assim.
Apertei o botão do guarda-chuva. A primeira vez em dois anos. Ele se abriu como um guarda-chuva normal. Fracasso.
Eu fechei os olhos, respirei fundo. Lágrimas quentes e grossas começaram a cair dos meus olhos. Eu podia senti-las tocando meus pés. Raras vezes eu fiquei tão descontrolado. Sem me conter, eu disse:
–Na minha casa, há apenas três quartos. Eu durmo junto com o meu irmão, e ele me odeia por isso. Eu não fui planejado, eu sou um excedente. Não deveria ter nascido.
Ele me olhava nos olhos e eu odiava cada vez mais aquele olhar profundo sem significado.
–Minha irmã não pôde ir a um colégio particular, porquê as despesas comigo deixam as coisas pesadas. Ela me odeia por isso. E meus pais também tiveram grandes dificuldades para me ter, eu fui um acidente, uma falha no remédio. Eu surgi e nasci na hora errada. Na escola, eu não consigo fazer amigos, porque gosto de estudar e mesmo os adultos têm pena de mim por me verem sozinhos. E agora, ainda por cima eu carrego o peso dessa merda de má realidade, que está me obrigando a aprender coisas que em assustam. Fazem dois anos que eu não consigo dormir à noite, com medo de alguma merda entrar pela minha janela e me engolir. E eu nem posso dormir com a luz acesa porquê senão a porra do meu irmão acorda.
Ele empunhou a lança em posição de ataque. Eu continuei falando:
–E agora você chega e diz que eu tenho que morrer? E com ordem da única pessoa que eu acreditava que gostava de mim? Desculpe, mas eu não vou. Eu preciso fazer amigos e mostrar para as pessoas que eu sou uma criança normal também. E, se elas não gostarem de mim por eu ser uma pessoa normal, então eu vou me tornar um caçador e fazer as pessoas me amarem porquê EU SALVEI A VIDA DELAS!
O guarda-chuva começou a brilhar lentamente na minha mão. Alberto deu um passo para frente. A lança enferrujada parecia mais ameaçadora, e ele me mataria com um toque apenas. Mesmo assim eu não parei de falar:
–Eu quero me tornar forte para as pessoas me aceitarem. Eu quero me tornar o homem mais forte desse mundo. Assim, se continuarem não gostando de mim, pelo menos eu vou ser forte e digno o suficiente para poder ir embora e abandonar toda essa merda. Então, se quiser tentar me matar, me mate, se quiser cravar essa merda em mim, vá em frente, mas eu te aviso, eu vou morrer enfiando essa porra de guarda-chuva no meio do teu rabo!
Quando comecei a correr na direção dele, o guarda-chuva já era novamente a minha espada. E eu fui com todas as minhas forças. Ele não me matou, apenas se desviava enquanto eu corria de um lado par ao outro tentando parti-lo em dois. E quando eu estava cansado, quando as lágrimas já haviam coberto os meus olhos e já não conseguia mais respirar, eu me sentei no chão e continuei chorando. E chorando, e chorando, e chorando. Era a primeira vez que eu era sincero comigo mesmo. Não, eu não era uma criança feliz, e sim, eu me sentia o ser mais indesejado do mundo, como se eu não pertencesse a lugar nenhum, apenas estivesse ali ocupando um espaço excedente.
–Você não vai parar de chorar? Alberto perguntou. Preciso te ensinar mais, agora que não esconde mais seus sentimentos de si mesmo.
Eu enxuguei as lágrimas rápido, com as costas das mãos, envergonhado. Empunhando o guarda-chuva que ainda brilhava, eu ataquei mais uma vez, enquanto a noite de inverno caía. No fundo da minha mente, o som dos gênios tocando Vivaldi me deixava feliz. Inverno me parecia a única música que mostrava intensidade em relação a algo tão íntimo como o frio.
Os gêmeos, ainda são a primavera, Pumpkim ainda é o verão, Alberto ainda é como o outono para mim, e o que me restou foi o inverno, onde eu soterro todas as lembranças no frio. Acompanhadas de um bom copo de whisky e um cigarro vagabundo.



quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Cara ou coroa, sim ou não...

Jogos as moedas
Que me dão respostas confusas
Essa noite
Eu desisti de dormir.
Abro a janela
E vejo o dia nascer
Meus pensamentos me levam
A lugares que não queria.
Queria ter todas as respostas
Queria não imaginar
Todo esse caos
Queria ter
Todas as certezas
Queria ter
O papel principal...
Vago pela casa
Com o coração alerta
São mais de quatro
E nada me aquieta
Fecho meus olhos
E tento não sonhar
Com as tristezas passadas
E as que vão se anunciar...
Será que a verdade
Não poderia ser
Um engano simples?
Quem me dirá
Que eu estou errado
Sem ferir ninguém?
Será que você poderia
Me dar as respostas certas
Para esse jogo novo
Onde acabei de chegar?
Será que eu poderia
Não me sentir assim
Com os braços ao vento
Esperando o futuro chegar?
Portas abertas
Por quanto tempo
Você vai aguentar
Noites perdidas
Novamente
Como naqueles tempos
Em que nada se encaixava.
Você podia
Me dizer as certezas.
Matar as incertezas
Desse meu coração
E eu podia
Deixar pra trás
Todo o passado sufocante
Que me assombra
Não quero estar
Nas sombras
Do tempo
Não quero fechar
Meus olhos.
Estou ao relento
E neste momento
Preciso tanto
Que tudo seja
Um encaixe perfeito.