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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

As crônicas de Diógenes: a menina, a folha e a velha que não ensurdece...


Então ele me disse:
–Não confie nos exorcistas, eles vão passar por cima de você se for preciso.
Eu não me lembrei disso, apenas guardei meu sabre de luz e fiquei olhando para aquele estranho grupo. Um deles era pequeno, como um rato, cabelos vermelhos, olhos estranhos, me matara se pusesse, e parecia decepcionado por eu ter guardado minha espada. O outro era alto, não sei se era gordo ou forte, mas ostentava um enorme bigode negro, digno de um daqueles caminhoneiros da década de 70, parecia calmo, como se nada daquilo representasse porá nenhuma para ele. O terceiro tinha um ar autoritário. Parecia o Phebo do Corcunda de Notredame, não o livro (é grande pra cacete), mas aquele desenho animado tosco da Disney. Não sei se vocês são capazes de entender, mas eu estava diante do maior esteriótipo do mundo. E ao lado dele uma criança, que eu demorei para ver que era uma menina, com os cabelos curtos, lisos, ao estilo Gohan, os olhos fundos, afundada naquela batina como se fosse uma camisola de orfanato.
Olhei para aquele bando de urubus, preocupado. Não era um lobisomem o que havia me atacado, então só poderia ser...
–Qual de vocês me atacou?
A garotinha olhou para o Phebo e ele olhou de volta, fazendo um sim com a cabeça. Ela então levantou a mão, como se faz em uma classe e disse:
–Fui eu, senhor.
–Por quê?
Ela tentou responder mas o magrelo com cara de rato a cortou:
–Nós não te devemos satisfação, hereje.
Ele era do tipo que procurava briga. O grandão nem se moveu. E o Phebo moveu os olhos com complacência. E era a primeira vez que eu pensava na palavra complacência. Ele tinha um porte tão altivo que me fazia me sentir meio nobre. Por isso talvez eu tenha dito o que disse de maneira nobre:
–Hereje é a meretriz da tua mãe.
Eu mal percebi a flecha que passou pelo meu rosto. O filho da puta estava com uma maldita besta apontada para mim o tempo todo, por baixo daquela roupa de urubu. Pensei em fugir, mas eu sabia que a segunda flecha ia parar no meio do meu rabo. Eu podia até ser corajoso, mas a coragem também é uma forma de burrice. De qualquer forma, me preparei para precisar usar o guarda-chuva.
Phebo pareceu perceber:
–Irmão Pedro, creio que sua postura está sendo inconveniente.
O irmão Pedro se calou, abaixou a besta, contrariado.
–Não sou um hereje. respondi com calma. Também não estou aqui para brigar, exorcista. Apenas quero saber por que me atacaram.
Mais uma vez, foi Phebo a assumir a conversa:
–Me desculpe, caçador. Acredito que essa seja a melhor forma de chamá-lo, não? anui com a cabeça. Pensamos que era o homem-cão, que se transformava.
–Se fosse eu, estaria retirando as roupas. Afirmei.
–Os lobos destas terras tem este costume, mas atualmente temos visto alguns demônios comuns da Europa. É arriscado esperar.
Fazia um certo sentido, mas mesmo assim era desconcertante. Também me tinham falado que os exorcistas matavam antes de perguntar. Não havia meio termo, e eles não acreditavam na má realidade. Era penas o céu e o inferno, lutando entre os homens. E eles tinham que acender a fogueira purificadora. Medo. Se eu não fosse um filho da puta esperto, a essa hora minha cabeça estaria bem longe do meu corpo. Que coisa foi aquela que me atacou?
–De qualquer forma, disse, não estou aqui para brigar. Quero achar o lobisomem. Ele pode atacar alguém no campus. A propósito, como vocês entraram?
Mais uma vez foi o Phebo a responder:
–Esta pergunta deveria ser feita por nós, não acha? Esta é uma universidade católica. E quem sois vós afinal, caçador?
Pensei em dizer um falso nome, mas antes disso ouvi a voz do grandão pela primeira vez. Era grossa, mas tranqüila:
–Seu nome é Diógenes, irmão Lucas.
O Phebo, que agora eu sabia se chamar Lucas, pareceu mais assustado do que eu. Tentei não mostrar surpresa. Se eu estava certo, a presença da garotinha ali, só podia significar que todos estiveram envolvidos nos problemas de nove anos atrás, quando eu tinha apenas doze anos. Se era isso, então aquelas pessoas estiveram com ele. Talvez por isso ele tenha me dado aquele aviso. E mais uma vez eu me arrependo de não tê-lo ouvido. Quando Lucas percebeu que eu sabia da sua surpresa, tentou se recompor, fazer toda aquela merda parecer natural:
–Agora sei quem é. Peço desculpas por nosso comportamento. Não é nada apropriado para alguém da sua estirpe.
Fazendo uma pequena mesura ele me deixa desconcertado. Abanei as mãos como se nada daquilo tivesse importância. Então ele se vira para a menina:
–Maria, nosso convidado está sangrando.
Ela não precisa de uma complementação. A vejo olhar para as árvores, estender uma das mãozinhas pequenas e esperar. Estava escuro demais para que eu visse o que aconteceu em seguida. “Que porra é essa?” pensei. Ela se aproximou devagar, fez um sinal para que eu me abaixasse e colocou uma pequena folha sobre o meu corte. Ardeu pra burro.
–Caralho... eu disse.
A menina se assustou. Sem pensar, segurei-a pelo ombro.
–Desculpe, disse, não se deve dizer palavrões, Deus não gosta.
Disse isso sem ironia. Era o que a minha mãe dizia. Eu, e meu pai éramos dois malditos bocas sujas. He, He.
A menina sorriu, de um jeito inocente e voltou correndo para perto de Lucas. A ferida tinha parado de doer e a folha ficou grudada.
–Grandão, eu disse para o bigodudo, você ainda não me disse o seu nome?
–Desculpe. Me chamo Hilário.
–Sério? Eu disse sem pensar muito.
–Irônico, não? Ele me respondeu. Você é exatamente como me disseram. Pensei que não tivesse se envolvido nas caçadas.
–Alguém tem que fazer o serviço. Disse com um sorriso meio amarelo.
Ele balançou a cabeça, como se concordasse. De todos ali ele parecia o menos estranho. Pelo menos na hora em que decidiu falar. Nesse meio tempo Pedro continuou olhando pro chão. Parecia ser bem mais velho do que eu, mas era a porra de um moleque mimado. O que eu podia concluir é que aquele idiota iria esperar a primeira chance pra me apunhalar. Era bom eu me preparar para enfiar aquelas flechas bem no meio do cu daquele infeliz. De todos ali ele era o menos confiável.
–Agora que fomos devidamente apresentados, e que sua origem foi reconhecida, meu jovem amigo, talvez possa nos dizer algo que não saibamos sobre a besta.
–Devo chamá-lo de irmão? Perguntei.
–Oh, não. Chame-me de padre Lucas, apenas para se manter as formalidades. Acredito que não seja católico...
Fiz que não com a cabeça.
–Espero que possam relevar isso. Disse.
–Decerto, o faremos. Se concordar em nos ajudar.
Fiz que sim com a cabeça.
–Se prometerem não me atacar novamente...
A menininha abaixou a cabeça. Acho que se sentia culpada.
–Não o faremos. Garantiu-me irmão Lucas.
–Nesse caso, disse, podemos ir embora.
Lucas pareceu desconcertado:
–Acredito que tenha lhe pedido informações...
–Ah, sim. me fiz de desentendido. Hoje é sábado, não é? Esse lobisomem veio daqui, do Brasil, não é de fora. Provavelmente veio do interior. Sei disso porque não vi pedaços de roupas espalhados e ele marcou esse território como seu, por isso o cheiro forte de mijo. Ele escolheu esse lugar para comer, porque deixou a vaca aqui perto, e se transformou aqui porque a lua está exatamente sobre as nossas cabeças quando a universidade fecha. É o lugar perfeito... Outra coisa, se ele estivesse por aqui teria aproveitado nossa discussãozinha pra poder nos comer. Mas ele é do interior, então só se transforma nas sextas feiras de Lua Cheia. Nós teremos que esperar algum tempo...
Virei as costas e saí. Era preciso fazer uma saída triunfal. Hoje eu sei que tudo pareceu ridículo, mas, que merda, eu era novo e queria parecer legal. De certa maneira, eles entenderam que eu fui bem treinado. Treinado... talvez essa fosse a palavra certa.


Trabalhar com a Igreja é ao mesmo tempo assustador, e gratificante. No dia seguinte, pouco depois do nascer do sol, ouvi batidas na minha porta. Pensei ser D. Maninha. Já naquela época ela se compadeceu de mim e aparecia de tempos em tempos, e já naquela época ela mantinha meu apartamento limpo como novo. Fora isso, os amigos que eu tinha nunca viriam me visitar, nunca dei abertura para isso.
Do lado da porta, as fotos dos meus pais e do meu avô lado a lado, no móvel perto da porta, me fizeram parar por um instante. Que merda, por que elas me incomodavam? O que eu havia feito de tão errado? A porra da intuição sempre me avisando, sempre me avisando... mas eu nuca fui bom nessas coisas, caralho!
Uma nova batida na porta me tirou dos meus pensamentos curtos. Abri e dei de cara com o bigodudo grande, carregando a garotinha nos braços. Ele era tão grande que fazia ela parecer um bebê. Me assustei com a visão. Ele estava sem a batina de exorcista, parecia um padre normal, e estava na minha porta como se isso fosse a coisa mais normal do mundo. A mão coçou para pegar o guarda-chuva em cima do móvel, mas ele parecia tão tranqüilo, segurando aquela criança, e desarmado, que eu acabei por limitar minha hostilidade à pergunta:
–Como achou minha casa?
Ele respondeu com a mesma cara de bunda:
–Universidade católica. Tem seus dados.
Me afastei da porta, ele entendeu o sinal para entrar. Parou, olhou em volta, parou seus olhos sobre a foto do meu avô, deu um sorriso satisfeito e disse:
–Posso deixá-la no seu sofá, perto da televisão?
Fiz que sim. Ele ajeitou a menina com todo o cuidado e a colocou deitada sobre as almofadas. Fui até o meu quarto e peguei um lençol, fazia frio aquela manhã.
–Obrigado. ele disse.
–Ela está bem?
–Está sim. Apenas cansada. Irmão Lucas sempre a obriga a acordar muito cedo para as orações, nem sempre ela agüenta.
–Por quê trouxe ela?
–É domingo. Ela teria que trabalhar durante todo o dia, nas missas e em outras coisas. Irmão Lucas acha que ela precisa de disciplina rígida. Eu acho que é apenas uma criança.
Disse isso com um sorriso. De alguma forma ele parecia confiável.
–Ela é filha da Morgana, não é? Perguntei sem ter muita certeza de que seria respondido.
Ele parou um pouco, pensou e finalmente disse:
–Sim.
Morgana foi uma bruxa estranha, que enlouqueceu quando a filha nasceu e tentou dominar o mundo... ou pelo menos a cidade, para dar a garota um futuro de princesa (o que me leva a crer que algumas depressões pós-parto são piores do que outras). Ela conseguiu fazer tanto estrago, espalhando feitiços nos lugares certos, matando as pessoas certas, que quase conseguiu. Sua rede de magia era tão forte, e ela manipulava tão bem a má realidade, que os exorcistas foram obrigados a aceitar a ajuda de outros caçadores para limpar a bagunça. Entre eles o meu avô. Naquela época eu teria entrado na bagunça, mas ele apenas me disse que eu deveria estudar para as provas. Fiquei puto e mandei o, velho tomar no cu, mas não adiantou nada. Fiquei trancado em casa, estudando pras provas enquanto o pau comia. No fim das contas o velho ficou um tempo no hospital, muita gente morreu, incluindo a bruxa. A menina, um bebê de apenas alguns meses, ficou para ser criada pela Igreja. Eles sabiam do poder dela, e agora eu via que estavam usando bem... até o dia em que ela entendesse o que era. Até lá...
–Por quê está aqui? Perguntei finalmente.
Ele tirou um envelope do bolso e me entregou. Abri, e dentro vi a listagem das pessoas que haviam se matriculado recentemente na universidade. Todas elas tinham vindo de cidades do interior. Olhei com calma e percebi o que ele estava pensando. Porém...
–Aqui só tem alunos, vou precisar de funcionários recentes também.
–Estará aqui esta tarde.
–E das fichas sócio-econômicas também...
Ele fez uma cara de dúvida.
–Sétimo filho depois de seis irmãs. Eu disse.
–Também terá tudo essa tarde, mas são arquivos extensos, em papel.
–Merda. Não tenho tempo para tudo isso.
–Posso conseguir uma semana de despensa na universidade.
Ponderei um pouco. Teria como explicar para a direção, mas quanto aos professores e os colegas...
–Posso e arranjar um atestado médico. Ele disse, adivinhando meus pensamentos.
Acenei com a cabeça. Eram boas condições de trabalho. Eu teria um mês para descobrir quem era o lobisomem. Com sorte, eu o pegaria sem precisar esperar a lua cheia. E com os contatos da Igreja, era fácil alcançar cidades do interior, buscar informações. Fácil demais...
–Por quê está me ajudando?
Hilário suspirou, fazendo seu incrível bigode tremer, mas logo depois sorriu, como se aprvasse a minha pergunta.
–Padres não devem mentir, ele disse, então terei de responder. Irmão Lucas quer estudá-lo. Conheceu seu avô, quer saber quem é você.
–E como pode me usar?
Ele fez que sim com a cabeça.
–Você é esperto, ele disse sorrindo, mas seu avô é mais. Ele disse isso com ar solene. Meu avô nunca havia falado nele. A única coisa que ele havia dito era...
–Ele te disse para não confiar em nós, não é?
Fiz que sim com a cabeça, tentando esconder a surpresa. O quanto aqueles merdas sabiam sobre mim?
–Não confie em nós. Eu te aconselho. Apenas recuse esse trabalho. Nós mataremos o lobisomem e iremos embora.
Olhei para ele, assustado, mas logo mudei meus olhar para aquela expressão arrogante que a gente tem quando é novo.
–Nesse caso, eu disse, não vou arredar o pé desse trabalho. Não vou deixar vocês o matarem. Licantropia é curável.
Ele olhou para mim, como quem, por um instante re conhecesse outra pessoa.
–Nesse caso, me perdoe. Se algo ruim acontecer, eu não poderei fazer nada.
Devagar, ele tomou a criança novamente no colo e caminhou em direção à porta. Eu a abri sem demora. Aquela visita me parecia surreal demais para ser prolongada por mais tempo. Mas ao menos, me dera foco para entender o que acontecia. Seria um trabalho arriscado.
Com um aceno de mão ele seguiu pelo corredor, em direção às escadas. Antes que ele sumisse, me vi gritando:
–Por quê me contou tudo isso?
–Ele salvou minha vida... e a da garota também.
Suspirei.
–Mas o homem que mais o odeia está perto também. Não confie em nós, por favor.
Ele disse isso sem olhar nos meus olhos e seguiu descendo as escadas.
Encostado na porta, vi dona Maninha sair de casa e perguntar?
–Quem era?
Saco de velha.
–Um amigo do meu avô...
Respondi, entrando para dentro de casa, sem mais respostas. Havia muito o que fazer.








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