Quando eu era
criança, meus pais não gostavam que o meu avô me visitasse. Ele tinha histórias
estranhas e eles sempre acharam que isso ia me causar pesadelos. De certa
forma, eu gostava, algo nelas me atraía, me mantinha preso. Talvez eu sempre
tivesse esperado que isso me acontecesse. Enfrentar os monstros daquelas
histórias eram meu paraíso, não meu pesadelo. E uma das histórias que mais me
impressionavam era a dos gêmeos.
Numa visita à
Amazônia ele acabou encontrando uma tribo indígena que tinha por hábito matar
crianças gêmeas, crianças albinas e aquelas que houvessem nascido depois da
morte de um pajé. Segundo ele, nasceu um casal de gêmeos com essas três
características juntas. O que ele estava fazendo no meio do mato com uma tribo
indígena é algo que ele nunca me contou. Deve ter algum tipo de ritual grotesco
ou sacanagem no meio, mas não importa. É uma história infantil e o velho é meio
que o meu herói. O que interessa é que, sempre que ele ia me visitar, contava
essa história. Ou, melhor, eu enchia o saco até ele contar. Meu pai depois
dizia que era tudo mentira. Não havia como um representante de vendas ir parar
no meio de uma tribo amazônica e dar de cara com um casal de gêmeos albinos
nascidos depois da morte de um pajé. Meu pai não sabia de nada. E na história,
o mais impressionante é que, depois que os garotos foram enterrados vivos, o
velho os tirou de lá, ainda estavam vivos! Sujos e quase mortos, mas vivos.
Ninguém na tribo viu, e eles acham que os dois ainda estão enterrados naquele
lugar.
Então ele os
trouxe pra cá. O velho dizia que um amigo dele que vivia sozinho estava criando
os dois, e que eles eram só um pouquinho mais velhos do que eu. Cantavam muito
bem e estavam aprendendo a tocar instrumentos. O garoto era bom com o violino,
e a menina estava aprendendo a tocar piano e flauta. Essa história me deixava
louco, e eu pulava de um lado para o outro fugindo da cruel tribo amazônica. E
quando eu fui para a escola pela primeira vez, voltei com um bilhete que
advertia os meus pais sobre me deixarem ver filmes inapropriados para a minha
idade. Eu nunca gostei de filmes, só desenhos animados. Mas o bilhete deixou
meu pai puto da vida e ele teve uma conversa séria com meu avô.
Disse que
aquelas histórias eram ridículas para uma criancinha como eu e que ele não
gostava de vê-lo contando mentiras para mim. Isso ira me afear e acabar com o
meu crescimento. Eu não deveria ouvir sobre lobisomens, gêmeos quase
assassinados ou qualquer outra coisa assim. Eu era uma criança, e meu avô não
entendia isso. Meu avô foi embora sem contar nenhuma história e meu pai ficou
chateado o dia inteiro. Era raro o velho vir visitar, mas aquilo era inaceitável.
Eu já era uma criança estranha demais, não valia a pena facilitar.
No dia
seguinte o velho bateu na porta e pediu desculpas pelas histórias. Junto com
ele, um casal de crianças para brincar comigo. Brancos como a neve...
–Cara,
detonei seu natal.
–Está tudo
bem. Você sabe que datas de reunião familiar são um saco.
Ele faz que
sim com a cabeça. Todo mundo sabia que com o desmoronamento da minha família,
esses dias eram os piores. Trabalhar nesses dias deixa tudo um pouco mais
normal. Mesmo estar em outra cidade cercada de bosta de vaca, era melhor do que
estar sentado em uma mesa cheia de amigos sorridentes enquanto você tenta não
pensar que seus pais estão mortos, seus irmãos te odeiam, você não tem uma
carreira e passa as noites na zona caçando coisas estranhas. Não que seja tão
ruim, mas o conjunto em si não é nenhuma Brastemp.
–O que você e
a Clara estão fazendo aqui? Pensei que já soubessem como enrolar o pai de
vocês.
–Ele está
ficando velho e a gente queria dar um último presente antes de partir com a Sinfônica.
Vão ser três meses. A gente nunca ficou tanto tempo longe.
–Mas ele não
vive dizendo que quer que vocês vão embora?
–Da boca pra
fora. Ele tem muito medo de que a gente deixe ele. Só que ele demonstra isso
ficando o mais rabugento possível. Disse que queria vir ver os parentes, mas
eles não ligam muito pra ele. Só não pediu pra ir embora porque não quer dar o
braço à torcer.
Olho para
ele, a mesma pele clara com rosto de menina. Isso faz sucesso com as mulheres
de hoje. É mais velho do que eu, tem quase quarenta, mas com rosto de vinte.
Clara é do mesmo jeito. Quando os dois estão juntos, as pessoas acham que são
duas meninas. Já cansei de sacaneá-lo por causa disso. Ele não liga. Quando as
outras crianças começaram a me desprezar eles se tornaram grandes amigos.
Começaram a lidar com a má realidade muito cedo também, mas essa história é
para ser contada depois.
–Onde a Clara
está?
–Com a
garota, na casa antiga dos meus avós. Está tentando acalmá-la com a flauta,
fazer ela esquecer o que viu.
–Hipnose?
–Sim. Espero
que dê certo. Ainda quero sair com ela...
–Cara, ela
quase foi morta e você está pensando em sexo?
–Ei! Não é
culpa minha, ta bom!? A garota é até bonita, veio de um dos lados da família do
meu pai, ta passando as férias sozinha então, cê sabe, eu tinha que arrumar
alguma coisa pra fazer nessa cidade. Aqui nem zona tem. Por que esse tipo de
merda sempre acontece com a gente?
–Não pergunta
pra mim, você consegue namoradas, eu tenho que pagar por sexo...
Ele ri, mas a
situação não é engraçada. Se alguma coisa alterou a má realidade, então é sinal
de que outras merdas podem acontecer. O que Alvo disse parece estranho, mas não
é. A má realidade nos atrai para esse tipo de coisa. É como um imã. Se eu
tentar ficar longe dessa vida, um dia, uma noite, numa manhã calma enquanto eu
como pão e penso nas minhas contas, tudo vem de uma vez e me chama. É como o
Poderoso Chefão: quando eu tento sair, eles me puxam de volta. Então, essas
coisas acontecem conosco porque tem que acontecer. Provavelmente, se ele não
estivesse lá, se fosse outro cara, a garota estaria morta, ou os dois. Se ela
não estivesse com ele lá, provavelmente a coisa estaria terminada. Quando
estamos sozinhos, sempre é mais fácil. Mas não acho que ele entraria no mato
sozinho.
Agora é
preciso descobrir o que é tudo isso, quem fez toda essa bagunça. Se alguma
coisa mudou a cabeça das pessoas, nós vamos ter problemas.
Vamos até a
casa dos avós dele. O Barbeiro está lá, sentado em uma cadeira de balanço, com
o rosto azedo. Ao lado dele uma velha com o rosto mais azedo ainda, olha pro
nada, mastigando alguma coisa. O cheiro de carne de porco sendo cozida me deixa
animado. Lembro que não comi nada desde a véspera, e minha cabeça ainda dói de
ressaca. Nem sei como não vomitei no ônibus. Talvez a velha mastigando me faça
mesmo vomitar.
–Sua tia?
Pergunto.
Ele diz que
sim e acena para eles. O velho aperta os olhos quando nos vê chegar. Um
exagero, ele enxerga melhor do que eu com os óculos. Tudo uma preparação
dramática para me lembrar que...
–Você me deve
dinheiro! Ele diz apontando o dedo para mim.
Dou um
sorriso amarelo, finjo que me esqueci.
–Desculpa,
Barbeiro. Eu estou meio sem grana e...
–Papai, Alvo
intervém, eu já te disse que eu pago a conta dele e...
–Esse
irresponsável tem que arcar com os próprios compromissos! Se o avô dele
estivesse aqui não deixaria que ele fizesse uma coisa dessas!
–Mas ele
nunca te pagou! Atalho.
–Eu nunca
COBREI dele! Mas você não é ele, e me deve dinheiro!
–Feliz Natal,
Barbeiro. Eu digo.
Ele faz um
gesto de quem desiste da briga. Ele apenas quer causar confusão. Ficou pior
depois que meu avô morreu. Eram muito amigos. Lutaram juntos em muitos
momentos, cada um do seu jeito. O Barbeiro não sabe lidar com a má realidade,
mas sabe que ela existe. Perdeu amigos por causa dela, mas nunca fez o tipo
dramático. Então, por muitos anos ele fez o que sabia de melhor: esteve lá.
Quando tudo parece perdido, quando todos nós nos sentimos como um mote de
merda, ele está lá. Ele não foge, ele não nos rejeita, ele nos xinga e nos
manda de volta pra luta. Ele deveria ter sido um treinador de Box. Seria o
melhor de todos.
Desde sempre
esteve sozinho, então meu avô trouxe os gêmeos para ele criar. Na frente dos
outros ele é sempre severo, mas com eles, quando está sozinho, ele é cheio de
atenção e carinho. Ele grita com eles, mas nada sério. Agora mesmo, seu olhar
azedo é porque Alvo quase morreu. E vai quase morrer essa noite também se eu
deixar que venha comigo. A minha presença alivia as coisas, sou melhor do que
Alvo e Clara juntos. Eles não sabem o que eu sei, só tem dois malditos
instrumentos encantados. Sem eles, não podem fazer muita coisa. Eles são
músicos, não caçadores. Se não tivessem essa ligação com meu avô, seriam apenas
garotos normais.
“Cada um faz
a sua parte, garoto.” Era o que o meu avô dizia. “E todos são importantes. Os
gêmeos, as meninas o Barbeiro. Todos têm um papel. Muitos, não escolheram estar
aqui mas ainda bem que estão”.
Sorrio,
lembrando disso. Todos têm um papel. E isso é bom, apesar das preocupações.
–Oi D.
Sinto um
sussurro na minha orelha. Me assusto. Clara consegue chegar perto sem que eu
note. Na verdade a maioria das mulheres da minha vida chega de mansinho.
Estranho isso. Um dia acordei com as mãos da Sofia dentro das minhas calças. Se
fosse a porra de um lobisomem eu teria sentido ele a vinte mil quilômetros de
distância. Ela apenas ri, elas sempre riem. Eu tenho um fraco por mulheres
bonitas ou todas elas são adoráveis? Clara é uma bela mulher, não chega a ser
uma balzaquiana, tem muito de menina ainda, mas só na aparência. De nós é a
única com chance de ter família, está quase se casando com um nerd tocador de
tuba. É a mais responsável dos três, a mais madura.
–Oi Clara.
Respondo. Como a moça está?
–Bem.
–E como você
está?
–Bem também.
Fiquei sabendo dos seus últimos casos. Mula-sem-cabeça e súcubos. Você pegou
pesado.
–É, mas pelo
menos o juiz me deu um ar-condicionado. Agora eu não morro no verão.
–Agora você
cobra pelo serviço? O Barbeiro diz. Seu avô ia ficar decepcionado.
–Eu vou
resolver isso sozinho, Barbeiro, não vou levar os garotos. Não precisa ficar
tão rabugento. Digo, em vingança. Triunfo!
Ele se
empertiga. Fica calado. Odeia quando alguém percebe o que pensa.
–Ah, não, D.
Sem chance.Clara protesta. Eu vou com vocês.
–Você já
terminou de acalmar a moça?
–Não. Estou
tentando apagar as memórias dela e construir novas. Vai demorar muito tempo. Se
eu forçar demais o cérebro dela explode... pussh...
–Nesse caso,
vocês dois ficam aqui. Eu vu sozinho.
–D, cara, é a
vez de Alvo protestar, cê ta de piada com a gente? Ao menos eu tenho que ir.
Ontem eu consegui afastar as coisas com o violino.
–Seu violino
foi feito para acalmar as coisas, Alvo. Se ele não acalmou aquelas feras, não
vai adiantar muito. Sem contar que essa coisa quase comeu seu braço.
O Barbeiro
então se levanta, vai até nós três e aponta para mim:
–Você não vai
sozinho, são dois contra um, Diógenes. Você é bom, mas todos sabem que você não
luta bem em campo aberto. Até hoje eu não sei como você acabou como você saiu
vivo daquele encontro com a filha da Morgana.
Velho filho
de uma puta. Ele adora me lembrar disso. Ele então aponta para Alvo:
–Você vai.
Você colocou a menina nessa enrascada, então vai ajudar a resolver. Se o seu
pinto ficasse quieto, tudo estaria em agora. Mesmo que o violino não dê certo, pelo menos
tire o Diógenes de lá em segurança. E você, moça, vai ficar aqui e ajudar a
cuidar dessa menina. Se a história se espalhar vai dar merda. O padre daqui é
novo, se ele pedir ajuda ao bispo, em dois segundos nós vamos ter outros padres
aqui, e esse esquentadinho vai querer briga. Entendido?
–Sim, pai.
–Sim,
Barbeiro.
O
esquentadinho sou eu. Fico feliz quando ele consegue dizer uma frase inteira
sem apontar um dos meus defeitos. E o modo como nós três dizemos isso era quase
assustador. Os dois uma vez me disseram que não era bom contrariá-lo, nunca
tentei. Deve-se respeitar os mais velhos, principalmente se um deles é o que
tem uma navalha apontada para o seu pescoço pelo menos uma vez por mês.
–Barbeiro, eu
digo, vou precisar do senhor também.
Ele faz que
sim com a cabeça e eu continuo:
–Essa é a sua
cidade natal. O senhor pode, por favor, sondar as pessoas, saber se algo
diferente aconteceu? A luz que pega os outros e o lençol que pega os outros
nunca mataram ninguém. Eu preciso saber o que está acontecendo. Sem os livros
do meu avô, algumas coisas ainda são difíceis.
O velho então
se senta de novo na cadeira, olha para a velha do lado dele, que até aquele
momento eu tinha me esquecido que estava ai e diz:
–Alguma coisa
nova?
Ela cospe o
que está mastigando e, por Deus do Céu, é fumo. Existe gente velha que ainda
masca fumo! Eu realmente odeio o interior. E acho a coisa mais absurda quando a
velha pergunta:
–Você não fez
um pacto com o diabo não, fez?
Ele balança a
cabeça, sério.
–Nada novo,
ela diz. Só o padre, mas ele é tão ruinzinho que eu acho que não serve pra
muita coisa.
O Barbeiro olha
para mim e diz:
–Se ela não sabe de nada, então
não houve nada. E isso é o máximo que eu vou ajudar. Vocês estão no escuro
agora.
Penso em questionar a idéia, mas
Alvo me olha com ar de censura. Se os irmãos Mun’há estão dizendo, então não
vou questionar. Só resta consultar uma coisa...
–Clara, eu chamo, a moa pode
esperar uns minutos?
–Está dormindo agora, sonhando
com histórias diferentes.
–Você está muito cansada?
–Não. Dou conta de alguma coisa
ainda.
Nós saímos da casa, andando ao
ermo, procurando pela maior fonte de informações do mundo. Encontramos ela
jogando uma pelada em uma rua próxima. A velha flauta de madeira faz seu show,
e uma a uma as crianças vão se juntando ao nosso redor. Os adultos não
percebem. Eles nunca percebem. Me sento no chão, sujando a calça, olho para as
crianças enquanto Clara toca. Elas esperam que um de nós comande. Eu dou a
deixa:
–Meninos, e a luz que pega os
outros?
–Ela queima. Eles dizem. É o fogo
do inferno. Eles murmuram.
–E o lençol?
–Ele come a gente...
–Quem disse isso?
–Um moço aí, com um violão. De
fora. Ele cantava bonito, as pessoas foram juntando. Ele veio na feira e falou
que a luz queimava a gente, cantou a história. Ele disse que na cidade dele ela
queimava e o lençol sufocava. Que era a alma dos defuntos querendo vingança.
Era o capeta...
–E como é que eles morrem?
–Eles não morrem, a gente corre.
Saco.
–Vão pra casa agora, ajudar as
mães de vocês. Deixem tudo limpo e escovem os dentes depois da comida.
Eles dizem “ta” e vão embora.
Crianças são as primeiras a saber
das lendas. Beleza. Homem de fora, que veio na feira e propagou essa merda. A
irmã do Barbeiro não deve sair de casa, e ele é preguiçoso demais pra
interagir. Mas só isso não é suficiente. Se são almas mesmo, vou ter que
mandá-los de volta. Mas alguma coisa está errada. Quantas pessoas acreditam
nisso? Dez? Vinte? Duzentas? Tem duzentas pessoas se escondendo naquele
matagal? Se for o capeta então... merda. Odeio quando é o capeta. Eles ficam
gritando que são legião, e tudo mais, ficam possuindo as pessoas, é um porre.
Voltamos pra casa. Vejo que Clara
está cansada e a deixo descansar, ela deve ter usado a flauta a noite toda e
essa coisa gasta uma energia tremenda. Por isso o tal de Hamellin... ah não,
peraí. Hamellin é a cidade... mas não importa. Por isso ele só usou a flauta
duas vezes. E o meu avô achou ela com um muambeiro árabe que era caixeiro
viajante pelo sertão em mil novecentos e cacete da velha.
Descubro que a família do Barbeiro é composta
por meia dúzia de sobrinhos e sobrinhos netos irritantes e que a irmã é a
grande matriarca mascadora de fumo. Só não entendo por que diabos ele quis
voltar pra li. Mas tudo bem. Comer torresmo vai me dar muita energia. Vou
encerrar meu natal apagando a luz com o lençol. Eu sou um poeta do clichê.