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terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Diógenes: Ainda um natal


Eu adormeço novamente, e pela primeira vez em muitos anos eu tenho uma noite de sono completa. Meu corpo dói. Minha cabeça dói da ressaca, mas estou tão acostumado que não ligo. Melissa já não está nos meus braços. O dia está claro, é dia de Natal e a zona está vazia. Se as meninas não podem se dar ao luxo de passar a véspera longe dali, elas ao menos podem passar o almoço. Entre o dia 25 e 26 o lugar não abre. Saio do quartinho, ainda com as roupas do dia anterior, cheirando a suor e a álcool.
Desiree reserva para si o último andar da construção velha. Se eu subir as escadas ela vai estar lá, com a mesa do café posta, me esperando. Mas eu não quero encontrar ninguém. Apenas vou para a porta. A noite anterior foi tão estranha que em custo a pensar nela. É a primeira vez que durmo com alguém. Sofia queria muito, mas ela queria tudo: sexo, carinho, amor. Essa menina só queria afeto, e eu baixei a guarda. Eu me senti bem, e agora me sinto culpado por isso. Ao menos eu não vi os olhos dela. Os olhos deviam dizer algo como “qualquer um serve numa hora dessas”. Era muita merda pra pensar.
Atravesso o salão onde as meninas dançam nos dias de serviço, querendo não fazer barulho, abafando o som dos passos. Chego até a porta, olho pro batente e pros selos renovados. Eu ainda tinha que achar quem fez aquilo e quem atacou o meretríssimo. Não é ninguém que eu conheça... Quatro meses e eu ainda não tive coragem de dar uma prensa na Desiree. Se ela não disse nada, deve ter um motivo. Eu não podia fazer isso com ela e, de um jeito ou de outro, eu sempre descubro alguma coisa sozinho. Ela já me escondeu coisas antes, sobre o meu avô, sobre muitas coisas. Ela era o tipo de pessoa que queria me proteger. Todos aqui parecem tão mais velhos do que eu... ou será que eu é que me sinto um merda diante de todo mundo. Merda, merda, merda, por que eu fui deixar aquela puta deitar comigo na noite de Natal? Eu geralmente não fico assim. Deve ser a porra da crise de meia idade. Sem formação, sem família, que grande realização eu fiz? Ah, é! Salvei um lobisomem, uma mula sem cabeça e metade do elenco da Família Adams.
Quando encosto na porta eu escuto aquela voz suave de menina:
–Diógenes. Ela fala pausado, com receio. Não me viro e nem deixo ela terminar dizer.
–Tá tudo bem Melissa, não vou falar nada pro teu amante.
Saio pra rua. O sol arrebenta meus olhos. Não vejo Carlos até conseguir ajeitar a visão.
–Cara, ele diz, quando é que cê vai seguir em frente?
Paro e fico olhando pra cara de merda dele. Penso em falar algo engraçado, mas não dou conta.
–Escuta, cara, eu digo, como você consegue?
Ele ri e diz:
–Eu só dou descarga em toda merda que eu caguei. Cê devia tentar.
Penso em dizer que a privada entupiu mas...
–Comprei pão, cara. Todo mundo tá te esperando pra comer alguma coisa.
–Não rola, Carlos. Eu preciso ir.
Sinto as unhas fincadas no meu braço e o puxão pra dentro.
–Ai, sua vaca!
Desiree ri. Não a vi se aproximar. Maldita ressaca.
–Você não vai ficar sozinho no Natal, Diógenes.
Fico sério.
–Escuta, Desiree, me deixa quieto.
–Sério, D? Sério mesmo? Nós somos sua família cara. Tá certo que uma cafetina, um DJ e um porteiro de zona não são os melhores parentes do mundo mas, já fazem dez anos que você faz a mesma merda no Natal e a gente fica aflito.
–Eu não preciso de...
–Não é pena, seu desgraçado! Que merda, cara! Eu te conheço a vinte anos e você ainda acha que eu só sou legal com você por pena. Se seu avô soubesse que você ia virar essa cuzão...
–Provavelmente ele ia me chamar de cuzão, eu rio, e me mandar parar de frescura, mesmo. Mas eu não to no clima, Desiree. Ontem eu bebi demais, falei merda. É melhor eu ficar de fora dessa vez. Cê sabe que eu nunca fico bem nessa época.
Antes que ela responda, vejo André saindo pela porta.
–Puta merda, digo, todo mundo decidiu me esperar sair?
–Tô de boa cara. Faz o que quiser com a porra do seu Natal. Só vim dizer que os gêmeos tão no telefone.
Subo as escadas correndo e atendo o telefone.
–Sou eu.
–D? a voz de Alvo no telefone sempre é cantada. É como o Barry Manilow tentando dar uma notícia ruim.
–Sou eu, já disse.
–Escuta cara, nós tamos na cidade do velho.
–Ele arrastou vocês praí?
–Sem chance de fugir dessa vez. He, he. Ele quis voltar pro Natal, mas ta com o mesmo mal humor de sempre. Metade da família já morreu e os mais novos não ligam muito pra ele.
–E você quer que eu vá aí pra alegrar o velho? Eu zombei.
–Sem chance, cê ainda não pagou o último corte. O problema é mais sério. Cê lembra da luz que pega os outros?
–Lembro. História velha.
–Pois é. E cê lembra do lençol que pega os outros?
–Onde cê quer chegar, Alvo?
–Os dois ao mesmo tempo no mesmo lugar e mataram um cara.
–Isso é impossível. A única coisa que elas fazem é dar um estado de catatonia, por um tempo. São inofensivas.
–Cara, eu não ia ta te ligando se não tivesse confirmado. Eu vi as coisas ontem à noite, quase pegaram uma garota no meio do matagal. Se eu não estivesse lá com o violino...
–O que você tava fazendo no mato com uma garota e um violino?
–Cara, não dá tempo agora. Ok? A luz veio pra cima de nós, e quando nós fugimos dela o lençol cercou a moça por trás. Se eu não tivesse tocado o violino, ela ia estar morta.
–Como cê sabe? Sem dar tempo pra ver como a coisa ataca.
–Velho, ele disse impaciente, cê já viu essa luz queimar alguma coisa? A trilha por onde ela passou tá queimada. Tem uma puta queimadura no meu braço. E logo depois eles pegaram um cara que tava bêbado perto de uma cachoeira. Quando acharam ele, o corpo tava retorcido, com marca de lençol ao redor do pescoço. Sem pegada perto, sem digital, só o corpo do cara espremido e as sobrancelhas queimadas. Seria até engraçado, se o cara não tivesse morrido. Clara tá até agora com a garota, ela não ta entendendo porra nenhuma. Eu to tentando botar a culpa na cachaça.
–Acabei de voltar do interior, vou ter que me embrenhar no mato de novo....  Me espera aí. Chego antes do anoitecer. Vou ver se encontro um ônibus.
–Se você não achar, aluga um carro. Eu te pago aqui.
–Tá com tanta grana assim?
–Nós estamos na Sinfônica agora, esqueceu. Eles pagam uma graninha boa.
–Ok, to indo aí.
Desligo o telefone. Graças a Deus um trabalho pra me livrar daquela situação. O guarda-chuva, sempre comigo, parece coçar. Mas, como se mata a luz que pega os outros e o lençol que pega os outros? No passado, quando os primeiros carros chegaram, as pessoas viam o farol de longe, o barulho de buzina e motor e saíam correndo, dizendo que era a luz que pegava os outros. Mas ela nunca pegou ninguém. Todos sempre fogem dela, e aqueles que tentam enfrentar, apenas ficam catatônicos, não sei dizer o motivo. Com o lençol é a mesma coisa. Dizem que é um lençol usado para carregar um defunto, e que depois do enterro, se não for queimado, vaga por aí. Na verdade, é apenas um lençol que saiu voando de algum varal. Mas no fim das contas as pessoas acreditam e aí as coisas viram verdade. Mas eu nunca me dei ao trabalho de caçá-los. É a primeira vez que ouço que alguém morreu por eles. E os dois juntos? Esse povo do interior é tão exagerado que conseguiu juntar tudo num lugar só.
Saí sem dizer nada. Todos sabem que alguma merda tá acontecendo, menos Melissa. Ela me olha como quem quer dizer alguma coisa, mas eu não tenho tempo. Tem algo de muito errado nessa merda toda. Pego o ônibus na rodoviária e chego pouco depois. Alvo me espera, impaciente.
–Cara, ele diz, esse vai se um natal de merda.


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