Eu adormeço novamente, e pela
primeira vez em muitos anos eu tenho uma noite de sono completa. Meu corpo dói.
Minha cabeça dói da ressaca, mas estou tão acostumado que não ligo. Melissa já
não está nos meus braços. O dia está claro, é dia de Natal e a zona está vazia.
Se as meninas não podem se dar ao luxo de passar a véspera longe dali, elas ao
menos podem passar o almoço. Entre o dia 25 e 26 o lugar não abre. Saio do
quartinho, ainda com as roupas do dia anterior, cheirando a suor e a álcool.
Desiree reserva para si o último
andar da construção velha. Se eu subir as escadas ela vai estar lá, com a mesa
do café posta, me esperando. Mas eu não quero encontrar ninguém. Apenas vou
para a porta. A noite anterior foi tão estranha que em custo a pensar nela. É a
primeira vez que durmo com alguém. Sofia queria muito, mas ela queria tudo:
sexo, carinho, amor. Essa menina só queria afeto, e eu baixei a guarda. Eu me
senti bem, e agora me sinto culpado por isso. Ao menos eu não vi os olhos dela.
Os olhos deviam dizer algo como “qualquer um serve numa hora dessas”. Era muita
merda pra pensar.
Atravesso o salão onde as meninas
dançam nos dias de serviço, querendo não fazer barulho, abafando o som dos
passos. Chego até a porta, olho pro batente e pros selos renovados. Eu ainda
tinha que achar quem fez aquilo e quem atacou o meretríssimo. Não é ninguém que
eu conheça... Quatro meses e eu ainda não tive coragem de dar uma prensa na
Desiree. Se ela não disse nada, deve ter um motivo. Eu não podia fazer isso com
ela e, de um jeito ou de outro, eu sempre descubro alguma coisa sozinho. Ela já
me escondeu coisas antes, sobre o meu avô, sobre muitas coisas. Ela era o tipo
de pessoa que queria me proteger. Todos aqui parecem tão mais velhos do que
eu... ou será que eu é que me sinto um merda diante de todo mundo. Merda,
merda, merda, por que eu fui deixar aquela puta deitar comigo na noite de
Natal? Eu geralmente não fico assim. Deve ser a porra da crise de meia idade.
Sem formação, sem família, que grande realização eu fiz? Ah, é! Salvei um lobisomem,
uma mula sem cabeça e metade do elenco da Família Adams.
Quando encosto na porta eu escuto
aquela voz suave de menina:
–Diógenes. Ela fala pausado, com
receio. Não me viro e nem deixo ela terminar dizer.
–Tá tudo bem Melissa, não vou
falar nada pro teu amante.
Saio pra rua. O sol arrebenta
meus olhos. Não vejo Carlos até conseguir ajeitar a visão.
–Cara, ele diz, quando é que cê
vai seguir em frente?
Paro e fico olhando pra cara de
merda dele. Penso em falar algo engraçado, mas não dou conta.
–Escuta, cara, eu digo, como você
consegue?
Ele ri e diz:
–Eu só dou descarga em toda merda
que eu caguei. Cê devia tentar.
Penso em dizer que a privada
entupiu mas...
–Comprei pão, cara. Todo mundo tá
te esperando pra comer alguma coisa.
–Não rola, Carlos. Eu preciso ir.
Sinto as unhas fincadas no meu
braço e o puxão pra dentro.
–Ai, sua vaca!
Desiree ri. Não a vi se
aproximar. Maldita ressaca.
–Você não vai ficar sozinho no
Natal, Diógenes.
Fico sério.
–Escuta, Desiree, me deixa
quieto.
–Sério, D? Sério mesmo? Nós somos
sua família cara. Tá certo que uma cafetina, um DJ e um porteiro de zona não
são os melhores parentes do mundo mas, já fazem dez anos que você faz a mesma
merda no Natal e a gente fica aflito.
–Eu não preciso de...
–Não é pena, seu desgraçado! Que
merda, cara! Eu te conheço a vinte anos e você ainda acha que eu só sou legal
com você por pena. Se seu avô soubesse que você ia virar essa cuzão...
–Provavelmente ele ia me chamar
de cuzão, eu rio, e me mandar parar de frescura, mesmo. Mas eu não to no clima,
Desiree. Ontem eu bebi demais, falei merda. É melhor eu ficar de fora dessa
vez. Cê sabe que eu nunca fico bem nessa época.
Antes que ela responda, vejo
André saindo pela porta.
–Puta merda, digo, todo mundo
decidiu me esperar sair?
–Tô de boa cara. Faz o que quiser
com a porra do seu Natal. Só vim dizer que os gêmeos tão no telefone.
Subo as escadas correndo e atendo
o telefone.
–Sou eu.
–D? a voz de Alvo no telefone
sempre é cantada. É como o Barry Manilow tentando dar uma notícia ruim.
–Sou eu, já disse.
–Escuta cara, nós tamos na cidade
do velho.
–Ele arrastou vocês praí?
–Sem chance de fugir dessa vez.
He, he. Ele quis voltar pro Natal, mas ta com o mesmo mal humor de sempre.
Metade da família já morreu e os mais novos não ligam muito pra ele.
–E você quer que eu vá aí pra
alegrar o velho? Eu zombei.
–Sem chance, cê ainda não pagou o
último corte. O problema é mais sério. Cê lembra da luz que pega os outros?
–Lembro. História velha.
–Pois é. E cê lembra do lençol
que pega os outros?
–Onde cê quer chegar, Alvo?
–Os dois ao mesmo tempo no mesmo
lugar e mataram um cara.
–Isso é impossível. A única coisa
que elas fazem é dar um estado de catatonia, por um tempo. São inofensivas.
–Cara, eu não ia ta te ligando se
não tivesse confirmado. Eu vi as coisas ontem à noite, quase pegaram uma garota
no meio do matagal. Se eu não estivesse lá com o violino...
–O que você tava fazendo no mato
com uma garota e um violino?
–Cara, não dá tempo agora. Ok? A
luz veio pra cima de nós, e quando nós fugimos dela o lençol cercou a moça por
trás. Se eu não tivesse tocado o violino, ela ia estar morta.
–Como cê sabe? Sem dar tempo pra
ver como a coisa ataca.
–Velho, ele disse impaciente, cê
já viu essa luz queimar alguma coisa? A trilha por onde ela passou tá queimada.
Tem uma puta queimadura no meu braço. E logo depois eles pegaram um cara que
tava bêbado perto de uma cachoeira. Quando acharam ele, o corpo tava retorcido,
com marca de lençol ao redor do pescoço. Sem pegada perto, sem digital, só o
corpo do cara espremido e as sobrancelhas queimadas. Seria até engraçado, se o
cara não tivesse morrido. Clara tá até agora com a garota, ela não ta
entendendo porra nenhuma. Eu to tentando botar a culpa na cachaça.
–Acabei de voltar do interior,
vou ter que me embrenhar no mato de novo.... Me espera aí. Chego antes do anoitecer. Vou
ver se encontro um ônibus.
–Se você não achar, aluga um
carro. Eu te pago aqui.
–Tá com tanta grana assim?
–Nós estamos na Sinfônica agora,
esqueceu. Eles pagam uma graninha boa.
–Ok, to indo aí.
Desligo o telefone. Graças a Deus
um trabalho pra me livrar daquela situação. O guarda-chuva, sempre comigo,
parece coçar. Mas, como se mata a luz que pega os outros e o lençol que pega os
outros? No passado, quando os primeiros carros chegaram, as pessoas viam o
farol de longe, o barulho de buzina e motor e saíam correndo, dizendo que era a
luz que pegava os outros. Mas ela nunca pegou ninguém. Todos sempre fogem dela,
e aqueles que tentam enfrentar, apenas ficam catatônicos, não sei dizer o motivo.
Com o lençol é a mesma coisa. Dizem que é um lençol usado para carregar um
defunto, e que depois do enterro, se não for queimado, vaga por aí. Na verdade,
é apenas um lençol que saiu voando de algum varal. Mas no fim das contas as
pessoas acreditam e aí as coisas viram verdade. Mas eu nunca me dei ao trabalho
de caçá-los. É a primeira vez que ouço que alguém morreu por eles. E os dois
juntos? Esse povo do interior é tão exagerado que conseguiu juntar tudo num
lugar só.
Saí sem dizer nada. Todos sabem
que alguma merda tá acontecendo, menos Melissa. Ela me olha como quem quer
dizer alguma coisa, mas eu não tenho tempo. Tem algo de muito errado nessa
merda toda. Pego o ônibus na rodoviária e chego pouco depois. Alvo me espera,
impaciente.
–Cara, ele diz, esse vai se um
natal de merda.
Nenhum comentário:
Postar um comentário