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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Diógenes: Mascando fumo

Quando eu era criança, meus pais não gostavam que o meu avô me visitasse. Ele tinha histórias estranhas e eles sempre acharam que isso ia me causar pesadelos. De certa forma, eu gostava, algo nelas me atraía, me mantinha preso. Talvez eu sempre tivesse esperado que isso me acontecesse. Enfrentar os monstros daquelas histórias eram meu paraíso, não meu pesadelo. E uma das histórias que mais me impressionavam era a dos gêmeos.
Numa visita à Amazônia ele acabou encontrando uma tribo indígena que tinha por hábito matar crianças gêmeas, crianças albinas e aquelas que houvessem nascido depois da morte de um pajé. Segundo ele, nasceu um casal de gêmeos com essas três características juntas. O que ele estava fazendo no meio do mato com uma tribo indígena é algo que ele nunca me contou. Deve ter algum tipo de ritual grotesco ou sacanagem no meio, mas não importa. É uma história infantil e o velho é meio que o meu herói. O que interessa é que, sempre que ele ia me visitar, contava essa história. Ou, melhor, eu enchia o saco até ele contar. Meu pai depois dizia que era tudo mentira. Não havia como um representante de vendas ir parar no meio de uma tribo amazônica e dar de cara com um casal de gêmeos albinos nascidos depois da morte de um pajé. Meu pai não sabia de nada. E na história, o mais impressionante é que, depois que os garotos foram enterrados vivos, o velho os tirou de lá, ainda estavam vivos! Sujos e quase mortos, mas vivos. Ninguém na tribo viu, e eles acham que os dois ainda estão enterrados naquele lugar.
Então ele os trouxe pra cá. O velho dizia que um amigo dele que vivia sozinho estava criando os dois, e que eles eram só um pouquinho mais velhos do que eu. Cantavam muito bem e estavam aprendendo a tocar instrumentos. O garoto era bom com o violino, e a menina estava aprendendo a tocar piano e flauta. Essa história me deixava louco, e eu pulava de um lado para o outro fugindo da cruel tribo amazônica. E quando eu fui para a escola pela primeira vez, voltei com um bilhete que advertia os meus pais sobre me deixarem ver filmes inapropriados para a minha idade. Eu nunca gostei de filmes, só desenhos animados. Mas o bilhete deixou meu pai puto da vida e ele teve uma conversa séria com meu avô.
Disse que aquelas histórias eram ridículas para uma criancinha como eu e que ele não gostava de vê-lo contando mentiras para mim. Isso ira me afear e acabar com o meu crescimento. Eu não deveria ouvir sobre lobisomens, gêmeos quase assassinados ou qualquer outra coisa assim. Eu era uma criança, e meu avô não entendia isso. Meu avô foi embora sem contar nenhuma história e meu pai ficou chateado o dia inteiro. Era raro o velho vir visitar, mas aquilo era inaceitável. Eu já era uma criança estranha demais, não valia a pena facilitar.
No dia seguinte o velho bateu na porta e pediu desculpas pelas histórias. Junto com ele, um casal de crianças para brincar comigo. Brancos como a neve...

–Cara, detonei seu natal.
–Está tudo bem. Você sabe que datas de reunião familiar são um saco.
Ele faz que sim com a cabeça. Todo mundo sabia que com o desmoronamento da minha família, esses dias eram os piores. Trabalhar nesses dias deixa tudo um pouco mais normal. Mesmo estar em outra cidade cercada de bosta de vaca, era melhor do que estar sentado em uma mesa cheia de amigos sorridentes enquanto você tenta não pensar que seus pais estão mortos, seus irmãos te odeiam, você não tem uma carreira e passa as noites na zona caçando coisas estranhas. Não que seja tão ruim, mas o conjunto em si não é nenhuma Brastemp.
–O que você e a Clara estão fazendo aqui? Pensei que já soubessem como enrolar o pai de vocês.
–Ele está ficando velho e a gente queria dar um último presente antes de partir com a Sinfônica. Vão ser três meses. A gente nunca ficou tanto tempo longe.
–Mas ele não vive dizendo que quer que vocês vão embora?
–Da boca pra fora. Ele tem muito medo de que a gente deixe ele. Só que ele demonstra isso ficando o mais rabugento possível. Disse que queria vir ver os parentes, mas eles não ligam muito pra ele. Só não pediu pra ir embora porque não quer dar o braço à torcer.
Olho para ele, a mesma pele clara com rosto de menina. Isso faz sucesso com as mulheres de hoje. É mais velho do que eu, tem quase quarenta, mas com rosto de vinte. Clara é do mesmo jeito. Quando os dois estão juntos, as pessoas acham que são duas meninas. Já cansei de sacaneá-lo por causa disso. Ele não liga. Quando as outras crianças começaram a me desprezar eles se tornaram grandes amigos. Começaram a lidar com a má realidade muito cedo também, mas essa história é para ser contada depois.
–Onde a Clara está?
–Com a garota, na casa antiga dos meus avós. Está tentando acalmá-la com a flauta, fazer ela esquecer o que viu.
–Hipnose?
–Sim. Espero que dê certo. Ainda quero sair com ela...
–Cara, ela quase foi morta e você está pensando em sexo?
–Ei! Não é culpa minha, ta bom!? A garota é até bonita, veio de um dos lados da família do meu pai, ta passando as férias sozinha então, cê sabe, eu tinha que arrumar alguma coisa pra fazer nessa cidade. Aqui nem zona tem. Por que esse tipo de merda sempre acontece com a gente?
–Não pergunta pra mim, você consegue namoradas, eu tenho que pagar por sexo...
Ele ri, mas a situação não é engraçada. Se alguma coisa alterou a má realidade, então é sinal de que outras merdas podem acontecer. O que Alvo disse parece estranho, mas não é. A má realidade nos atrai para esse tipo de coisa. É como um imã. Se eu tentar ficar longe dessa vida, um dia, uma noite, numa manhã calma enquanto eu como pão e penso nas minhas contas, tudo vem de uma vez e me chama. É como o Poderoso Chefão: quando eu tento sair, eles me puxam de volta. Então, essas coisas acontecem conosco porque tem que acontecer. Provavelmente, se ele não estivesse lá, se fosse outro cara, a garota estaria morta, ou os dois. Se ela não estivesse com ele lá, provavelmente a coisa estaria terminada. Quando estamos sozinhos, sempre é mais fácil. Mas não acho que ele entraria no mato sozinho.
Agora é preciso descobrir o que é tudo isso, quem fez toda essa bagunça. Se alguma coisa mudou a cabeça das pessoas, nós vamos ter problemas.
Vamos até a casa dos avós dele. O Barbeiro está lá, sentado em uma cadeira de balanço, com o rosto azedo. Ao lado dele uma velha com o rosto mais azedo ainda, olha pro nada, mastigando alguma coisa. O cheiro de carne de porco sendo cozida me deixa animado. Lembro que não comi nada desde a véspera, e minha cabeça ainda dói de ressaca. Nem sei como não vomitei no ônibus. Talvez a velha mastigando me faça mesmo vomitar.
–Sua tia? Pergunto.
Ele diz que sim e acena para eles. O velho aperta os olhos quando nos vê chegar. Um exagero, ele enxerga melhor do que eu com os óculos. Tudo uma preparação dramática para me lembrar que...
–Você me deve dinheiro! Ele diz apontando o dedo para mim.
Dou um sorriso amarelo, finjo que me esqueci.
–Desculpa, Barbeiro. Eu estou meio sem grana e...
–Papai, Alvo intervém, eu já te disse que eu pago a conta dele e...
–Esse irresponsável tem que arcar com os próprios compromissos! Se o avô dele estivesse aqui não deixaria que ele fizesse uma coisa dessas!
–Mas ele nunca te pagou! Atalho.
–Eu nunca COBREI dele! Mas você não é ele, e me deve dinheiro!
–Feliz Natal, Barbeiro. Eu digo.
Ele faz um gesto de quem desiste da briga. Ele apenas quer causar confusão. Ficou pior depois que meu avô morreu. Eram muito amigos. Lutaram juntos em muitos momentos, cada um do seu jeito. O Barbeiro não sabe lidar com a má realidade, mas sabe que ela existe. Perdeu amigos por causa dela, mas nunca fez o tipo dramático. Então, por muitos anos ele fez o que sabia de melhor: esteve lá. Quando tudo parece perdido, quando todos nós nos sentimos como um mote de merda, ele está lá. Ele não foge, ele não nos rejeita, ele nos xinga e nos manda de volta pra luta. Ele deveria ter sido um treinador de Box. Seria o melhor de todos.
Desde sempre esteve sozinho, então meu avô trouxe os gêmeos para ele criar. Na frente dos outros ele é sempre severo, mas com eles, quando está sozinho, ele é cheio de atenção e carinho. Ele grita com eles, mas nada sério. Agora mesmo, seu olhar azedo é porque Alvo quase morreu. E vai quase morrer essa noite também se eu deixar que venha comigo. A minha presença alivia as coisas, sou melhor do que Alvo e Clara juntos. Eles não sabem o que eu sei, só tem dois malditos instrumentos encantados. Sem eles, não podem fazer muita coisa. Eles são músicos, não caçadores. Se não tivessem essa ligação com meu avô, seriam apenas garotos normais.
“Cada um faz a sua parte, garoto.” Era o que o meu avô dizia. “E todos são importantes. Os gêmeos, as meninas o Barbeiro. Todos têm um papel. Muitos, não escolheram estar aqui mas ainda bem que estão”.
Sorrio, lembrando disso. Todos têm um papel. E isso é bom, apesar das preocupações.
–Oi D.
Sinto um sussurro na minha orelha. Me assusto. Clara consegue chegar perto sem que eu note. Na verdade a maioria das mulheres da minha vida chega de mansinho. Estranho isso. Um dia acordei com as mãos da Sofia dentro das minhas calças. Se fosse a porra de um lobisomem eu teria sentido ele a vinte mil quilômetros de distância. Ela apenas ri, elas sempre riem. Eu tenho um fraco por mulheres bonitas ou todas elas são adoráveis? Clara é uma bela mulher, não chega a ser uma balzaquiana, tem muito de menina ainda, mas só na aparência. De nós é a única com chance de ter família, está quase se casando com um nerd tocador de tuba. É a mais responsável dos três, a mais madura.  
–Oi Clara. Respondo. Como a moça está?
–Bem.
–E como você está?
–Bem também. Fiquei sabendo dos seus últimos casos. Mula-sem-cabeça e súcubos. Você pegou pesado.
–É, mas pelo menos o juiz me deu um ar-condicionado. Agora eu não morro no verão.
–Agora você cobra pelo serviço? O Barbeiro diz. Seu avô ia ficar decepcionado.
–Eu vou resolver isso sozinho, Barbeiro, não vou levar os garotos. Não precisa ficar tão rabugento. Digo, em vingança. Triunfo!
Ele se empertiga. Fica calado. Odeia quando alguém percebe o que pensa.
–Ah, não, D. Sem chance.Clara protesta. Eu vou com vocês.
–Você já terminou de acalmar a moça?
–Não. Estou tentando apagar as memórias dela e construir novas. Vai demorar muito tempo. Se eu forçar demais o cérebro dela explode... pussh...
–Nesse caso, vocês dois ficam aqui. Eu vu sozinho.
–D, cara, é a vez de Alvo protestar, cê ta de piada com a gente? Ao menos eu tenho que ir. Ontem eu consegui afastar as coisas com o violino.
–Seu violino foi feito para acalmar as coisas, Alvo. Se ele não acalmou aquelas feras, não vai adiantar muito. Sem contar que essa coisa quase comeu seu braço.
O Barbeiro então se levanta, vai até nós três e aponta para mim:
–Você não vai sozinho, são dois contra um, Diógenes. Você é bom, mas todos sabem que você não luta bem em campo aberto. Até hoje eu não sei como você acabou como você saiu vivo daquele encontro com a filha da Morgana.
Velho filho de uma puta. Ele adora me lembrar disso. Ele então aponta para Alvo:
–Você vai. Você colocou a menina nessa enrascada, então vai ajudar a resolver. Se o seu pinto ficasse quieto, tudo estaria em agora.  Mesmo que o violino não dê certo, pelo menos tire o Diógenes de lá em segurança. E você, moça, vai ficar aqui e ajudar a cuidar dessa menina. Se a história se espalhar vai dar merda. O padre daqui é novo, se ele pedir ajuda ao bispo, em dois segundos nós vamos ter outros padres aqui, e esse esquentadinho vai querer briga. Entendido?
–Sim, pai.
–Sim, Barbeiro.
O esquentadinho sou eu. Fico feliz quando ele consegue dizer uma frase inteira sem apontar um dos meus defeitos. E o modo como nós três dizemos isso era quase assustador. Os dois uma vez me disseram que não era bom contrariá-lo, nunca tentei. Deve-se respeitar os mais velhos, principalmente se um deles é o que tem uma navalha apontada para o seu pescoço pelo menos uma vez por mês.
–Barbeiro, eu digo, vou precisar do senhor também.
Ele faz que sim com a cabeça e eu continuo:
–Essa é a sua cidade natal. O senhor pode, por favor, sondar as pessoas, saber se algo diferente aconteceu? A luz que pega os outros e o lençol que pega os outros nunca mataram ninguém. Eu preciso saber o que está acontecendo. Sem os livros do meu avô, algumas coisas ainda são difíceis.
O velho então se senta de novo na cadeira, olha para a velha do lado dele, que até aquele momento eu tinha me esquecido que estava ai e diz:
–Alguma coisa nova?
Ela cospe o que está mastigando e, por Deus do Céu, é fumo. Existe gente velha que ainda masca fumo! Eu realmente odeio o interior. E acho a coisa mais absurda quando a velha pergunta:
–Você não fez um pacto com o diabo não, fez?
Ele balança a cabeça, sério.
–Nada novo, ela diz. Só o padre, mas ele é tão ruinzinho que eu acho que não serve pra muita coisa.
O Barbeiro olha para mim e diz:
–Se ela não sabe de nada, então não houve nada. E isso é o máximo que eu vou ajudar. Vocês estão no escuro agora.
Penso em questionar a idéia, mas Alvo me olha com ar de censura. Se os irmãos Mun’há estão dizendo, então não vou questionar. Só resta consultar uma coisa...
–Clara, eu chamo, a moa pode esperar uns minutos?
–Está dormindo agora, sonhando com histórias diferentes.
–Você está muito cansada?
–Não. Dou conta de alguma coisa ainda.
Nós saímos da casa, andando ao ermo, procurando pela maior fonte de informações do mundo. Encontramos ela jogando uma pelada em uma rua próxima. A velha flauta de madeira faz seu show, e uma a uma as crianças vão se juntando ao nosso redor. Os adultos não percebem. Eles nunca percebem. Me sento no chão, sujando a calça, olho para as crianças enquanto Clara toca. Elas esperam que um de nós comande. Eu dou a deixa:
–Meninos, e a luz que pega os outros?
–Ela queima. Eles dizem. É o fogo do inferno. Eles murmuram.
–E o lençol?
–Ele come a gente...
–Quem disse isso?
–Um moço aí, com um violão. De fora. Ele cantava bonito, as pessoas foram juntando. Ele veio na feira e falou que a luz queimava a gente, cantou a história. Ele disse que na cidade dele ela queimava e o lençol sufocava. Que era a alma dos defuntos querendo vingança. Era o capeta...
–E como é que eles morrem?
–Eles não morrem, a gente corre.
Saco.
–Vão pra casa agora, ajudar as mães de vocês. Deixem tudo limpo e escovem os dentes depois da comida.
Eles dizem “ta” e vão embora.
Crianças são as primeiras a saber das lendas. Beleza. Homem de fora, que veio na feira e propagou essa merda. A irmã do Barbeiro não deve sair de casa, e ele é preguiçoso demais pra interagir. Mas só isso não é suficiente. Se são almas mesmo, vou ter que mandá-los de volta. Mas alguma coisa está errada. Quantas pessoas acreditam nisso? Dez? Vinte? Duzentas? Tem duzentas pessoas se escondendo naquele matagal? Se for o capeta então... merda. Odeio quando é o capeta. Eles ficam gritando que são legião, e tudo mais, ficam possuindo as pessoas, é um porre.
Voltamos pra casa. Vejo que Clara está cansada e a deixo descansar, ela deve ter usado a flauta a noite toda e essa coisa gasta uma energia tremenda. Por isso o tal de Hamellin... ah não, peraí. Hamellin é a cidade... mas não importa. Por isso ele só usou a flauta duas vezes. E o meu avô achou ela com um muambeiro árabe que era caixeiro viajante pelo sertão em mil novecentos e cacete da velha.
 Descubro que a família do Barbeiro é composta por meia dúzia de sobrinhos e sobrinhos netos irritantes e que a irmã é a grande matriarca mascadora de fumo. Só não entendo por que diabos ele quis voltar pra li. Mas tudo bem. Comer torresmo vai me dar muita energia. Vou encerrar meu natal apagando a luz com o lençol. Eu sou um poeta do clichê.

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