Devagar
o herói recolocou sua arma no coldre. Com o coração desolado, a face
terrificada pela carnificina de que fizera parte, ele contemplava o mar de
sangue que se estendia diante de seus pés. O rosto sujo, a pele queimada pelo
sol e negra de fuligem ardia ante o vento que trazia o cheiro de sangue e de
pólvora. Um sentimento estranho e profundo invadia seu peito, suas mãos
tremiam.
Por
seu rosto lágrimas desciam grossas criando assustadores caminhos pelo negrume
de suas bochechas. Pela primeira vez em sua vida ele não soube o que fazer, e
não pôde compreender o que se passava. Algo parecia corroê-lo por dentro, como
se houvesse respirado aquele gás venenoso que jogavam por sobre as trincheiras.
Forçou a garganta por sobre as mãos. Não havia sangue, mas mesmo assim ele
sabia que algo ocorria de errado.
“O
que me inquieta?” ele pensava. “Que sentimento é esse?”. Olhando por todo o
campo de batalha ele procurou seu capitão, talvez ele pudesse lhe dizer o que o
que se passava, ou ao menos lhe dizer o que fazer a seguir, era um capitão que
sabia dar ordens. Correu por entre os corpos sujos de lama, por entre as armas
abandonadas. Saltou trincheiras cheias de gás. Ele sentia medo. Não havia uma
pessoa viva ao seu redor, o cheiro de sangue e pólvora crescia.
Encontrou
seu comandante escondido entre os arbustos. Respirava com dificuldade, seu
corpo já deixara de responder apropriadamente a seus comandos. Mal podia
mexer-se. Ele também estava assustado, mas mesmo assim o herói acreditou que ele
pudesse lhe dar todas as respostas. Devagar, aproximou-se dele, e apoiando-se
na terra molhada sussurrou?
–O
que eu sinto? O que ocorre?
O
comandante, incrédulo com a pergunta do herói, como se este perguntasse algo
cuja resposta fosse tão natural quanto o céu e a terra, olhou em seus lhos com
o pouco de energia que lhe restava, estes brilhavam, sorriu levemente e disse,
entrecortado por sua respiração ofegante:
–Guer...
ra... guer... ra. Ven... ven... nó... nó... nós...
vo... cê... ven… ceu. He...
rói.
E
no mesmo instante soltou uma longa e divertida gargalhada, antes que seus olhos
perdessem completamente o brilho e seu espírito deixasse completamente este
mundo. Sem compreender, ainda insatisfeito com a reposta obtida, o herói
continuou a vagar sem compreender o que ocorrera naquele campo de batalha. Sem
entender a profunda inquietação que assolava seu espírito, fazendo-o tremer e
desviar o olhar diante de tudo aquilo que via diante de si. Andando, ele voltou
a investigar pelo campo onde muitos de seus companheiros repousavam mortos.
Procurava alguém vivo, um superior que pudesse lhe dizer o que significava
aquele sentimento dentro de seu peito, ou ao menos que lhe pudesse dar uma
ordem, para que fosse adiante e esquecesse completamente tal inquietude.
Vagou
por longos minutos, cada um carregando a expectativa de um som de vida, durando
um século. Sentia-se preso em um pesadelo solitário. Esforçando-se, tentou se
lembrar dos nomes dos companheiros, poderia invocá-los, tentar descobrir por
seus gemidos qual ainda permanecia vivo. Não se lembrava de nenhum, apenas de
seus números. Aos poucos, enquanto os números lhe vinham à cabeça, se deixou
murmurar:
–Mor...
te.
Admirou-se
com a palavra que saiu dos próprios lábios. Esperava um número qualquer.
Balançou a cabeça rapidamente e bateu nos ouvidos, tentando fazer com que
ouvissem melhor. Talvez fosse apenas a conseqüência de uma granada que
estourara próximo a ele. Sabia de homens que ficaram surdos com isso. Buscou
apagar aquela terrível palavra de sua mente. Poderia ter dito “doze”, fora tudo
um mal entendido. Num segundo esforço tentou murmurar outro número qualquer,
que comprovasse que seus ouvidos ainda funcionavam corretamente:
–Mor...
te.
Espantou-se.
Estaria louco? Sabia de soldados que enlouqueceram em meio ao campo de batalha,
por que pensavam demais, questionavam demais. Mas ele não, não pensara jamais.
Tinha medo de que seus pensamentos o fizessem enlouquecer, e sabia que era isso
o que acontecia aos soldados que pensavam demais. Ele apenas seguia ordens.
Sequer parara para considerar o que fazia, apenas lutava. Assim não ficaria
louco. Então, como poderia ter perdido seu juízo? Como poderia murmurar uma
palavra e dizer outra? Talvez estivesse mesmo levemente envenenado por aquele
gás.
Tirou
o cantil da cintura e bebeu alguns goles. A água desceu queimando sua garganta.
Ficara muito tempo sem beber. Quando ela atingiu seu estômago, percebeu que
também permanecera muito tempo sem comer. Tirou o saco de ração da mochila e a
comeu seca, sorvendo pequenos goles de água. Pouco foi suficiente para acalmar
seu estômago. Levemente recuperado ele sorriu. Ficaria tudo bem. Decidiu tentar
novamente dizer algo, mesmo que num murmúrio. Pensou em dizer a palavra “vida”,
talvez assim pudesse refutar completamente aquela outra palavra mórbida que
buscava insistentemente afastar de sua mente. Abriu os lábios e devagar
pronunciou:
–Mor...
te.
Gemeu
alto. Bateu as mãos sobre o capacete até fazê-lo cair. Continuou a bater sobre
a cabeça, entrelaçando os dedos pelos cabelos, puxou até arrancar os fios.
Estava desesperado. Agachou-se e abraçou os joelhos, afundando a cabeça entre
eles. Desta vez ele podia sentir claramente as lágrimas quentes sobre sua face.
Seu desespero o assustava, tinha medo e ter realmente enlouquecido. Tentava
esquecer aquela sensação, ignorá-la como sempre havia feito com tudo em sua
vida. Mas tudo era inútil. Ele estava só, e ninguém lhe daria uma ordem em que
pensar, ninguém lhe diria o que fazer realmente, sequer poderia conversar com
alguém. Não havia ninguém.
Devagar
ele se sentou no chão, sem se importar com a lama que cobria o lugar. Com a
manga da jaqueta secou a face. Respirou fundo e procurou um novo objetivo que o
impedisse de enlouquecer. Decidiu-se por voltar à base, procurar um médico.
Talvez estivesse ferido, algo poderia ter-lhe atingido a cabeça. O cheiro de
sangue e pólvora poderia estar deixando-o assustado, poderia ser isso. Ele
esperava que fosse isso. Descansou um pouco, olhando para o estado de suas
roupas. Desejou vestir roupas limpas. Suas meias secas haviam acabado, e seus
pés começavam a coçar. Imaginou que deveriam estar fedendo, um fedor pior do
que o de sangue e de pólvora. A idéia o divertiu e ele sorriu. Feliz com o
próprio sorriso ele riu um pouco mais, e quando viu estava gargalhando.
Olhou
para cima e viu uma réstia de sol através do céu nublado. A partir daí pôde
acreditar que tudo estava bem. Entretanto, quando ele abaixou a cabeça, foi
capaz de vê-lo.
Vestindo
uma túnica branca e debruçado sobre um soldado morto. Ele conhecia aquela
gente, eram ladrões que roubavam os valores dos mortos em batalha.
Várias
vezes ele e seus companheiros, também heróis, haviam visto objetos de outros
heróis mortos sendo vendidos livremente pelas cidades, encolhidos entre as
prostitutas e os mendigos que tentavam sobreviver nos recantos poupados da
guerra. Uma escória sem tamanho, de uma podridão absoluta. Aqueles homens
surgiam como corvos atraídos pelo sentimento de morte. Escondiam-se sob
máscaras para não serem reconhecidos. Vestiam-se em farrapos e corriam quando
viam outros soldados, pois sabiam que seriam linchados, estraçalhados com a
baioneta. Ele também os odiava, como todos os odiavam, como seus comandantes
haviam dito para odiá-los. Sem temer, o herói se levantou e pegou sua faca.
Havia perdido seu rifle e não gastaria balas do revólver. Gritando ele partiu
para o carniceiro, esperava vê-lo correr, somente para alcançá-lo como um leão
capturando sua presa. Esperava deitar sobre ele todo o seu ódio, e quem sabe esquecer
aquela maldita palavra.
Porém,
ao chegar perto pôde ver coisas que não havia visto antes. A túnica do ladrão
não estava em farrapos, como se acostumara a ver, era branca e limpa, mal
parecia tocar aquele chão sujo de lama e sangue. E sua máscara era negra e
lisa, de uma madeira que ele era incapaz de identificar. Nela havia apenas dois
grandes buracos negros, de onde não se era possível enxergar os olhos. Um
ladrão não se vestiria assim, não para roubar cadáveres. Talvez fosse um monge,
tentando encomendar as últimas almas ao purgatório. Mas se fosse isso, por que ele
estaria debruçado sobre os mortos? Talvez tentasse ouvir seus corações,
buscando os últimos vivos para sua extrema unção. Sim, poderia ser isso.
Resolveu se aproximar, tentar falar com ele, perguntar se queria ajuda. Poderia
fazê-lo definitivamente esquecer aquela palavra.
Guardou
a faca e chegou perto, silenciosamente, um costume de farda. O monge parecia
sequer notá-lo. Chegou perto o bastante para matá-lo, se quisesse. Permaneceu parado,
educadamente, esperando que este o notasse.
Distraiu-se
o observando em sua tarefa. Não parecia ouvir corações, ele estava...
–Boa
tarde, jovem herói. A voz do monge era doce,leve e inebriante, mesmo assim foi
capaz de assustá-lo, de tirá-lo de sua distração.
–Não
se assuste com minha presença, prosseguiu o monge, estou apenas recolhendo
algumas flores nesse campo.
Flores?
Mas aquele era um campo de batalha, havia morte, sangue, medo, não poderia
haver flores. Mesmo assim o herói olhou para as mãos do monge e viu que este portava
um buquê de flores. Olhou em torno e viu que realmente o campo havia se tornado
florido. Mas não eram flores doces e coloridas, mas de um tom amarronzado próximo
do barro, e seu cheiro era de um adocicado enjoativo, próximo ao de frutas
podres. Além disso, havia algo mais naquelas flores, algo peculiar, uma gama gigantesca
de cheiros que se misturavam, mas ele não era capaz de explicar a razão.
Conhecia todos aqueles cheiros misturados à podridão, mas não sabia de onde os
conhecia.
–Não
gostaria de me acompanhar, jovem herói? Tenho muito a fazer e este campo é
solitário.
Não
soube o que responder. Algo lhe dizia que deveria temer aquela figura. Mesmo
assim sua voz lhe parecia tão bela, profunda e assustadoramente bela. Dela não
se podia identificar sua idade ou sexo, mas ele tinha quase certeza de que era
um homem. Magro, de trejeitos frágeis o monge andava desenvolto por entre os
corpos, se curvando sobre ele e colhendo as flores. Ele continuou fitando
aquela estranha figura enquanto tentava se decidir se deveria ou não segui-la.
A cada flor recolhida o monge parava e o observava, uma sensação estranha
dizia-lhe que este sorria. Aquele estava sendo um dia de muitas sensações
estranhas. Também havia o medo de pronunciar aquela maldita palavra diante do
religioso. O medo de que estivesse realmente louco e de que nada daquilo fosse
real.
–Se
não vier logo não haverá como me encontrar mais... Disse o monge.
E
o herói decidiu-se finalmente por acompanhá-lo. Tropeçando sobre o solo
acidentado ele se aproximou e tomou coragem para perguntar, se esforçando
naquilo que iria dizer, temendo usar novamente aquela palavra:
–Você
é um monge?
Admirou-se
ao perceber que pudera falar novamente.
–De
certa forma...
A
resposta lhe pareceu estranha, mas não tentou questionar o religioso. Apenas
prosseguiu:
–Não
sabia que havia flores aqui...
–Existem
flores mesmo sob o asfalto, e de todos os tipos.
Mais
uma vez ele ficou sem compreender o que se passava. As respostas do monge eram
tão evasivas, e ele se sentiu desconcertado em buscar novas perguntas. Talvez
por que soubesse que suas perguntas eram superficiais, não era aquilo o que ele
queria perguntar. Mas duvidava que aquele homem soubesse a resposta para o que
o inquietava. Pensou em contar-lhe sobre a palavra incontrolável que havia
jorrado anteriormente de seus lábios, sobre aquela inquietação estranha que o
fazia pensar. Mas, se contasse tudo aquilo ao monge, este poderia achá-lo
louco. E mesmo que não o fizesse, se não esquecesse tudo aquilo, se pensasse
sobre o que acontecia, ele ficaria louco, pois é isso o que acontece aos
soldados que pensam. Resolveu-se deixar levar pelo monge, seguindo-o e
fazendo-lhe perguntas superficiais. Mesmo que não fossem as reais respostas
para seu incômodo, ao menos o faria esquecer tudo aquilo, e se esquecesse não
precisaria mais pensar.
–Que
flores são essas? Perguntou sem qualquer interesse na resposta.
–São
flores de Abel, meu jovem.
–Flores
de Abel?
–Sim,
flores que homenageiam os que foram assassinados.
–Mas...
Alguém foi assassinado próximo daqui?
–Por
favor, meu jovem, pergunte logo o que realmente quer me perguntar. O que o
inquieta.
Ele
se espantou. Mas antes que pudesse se conter, como se outra pessoa controlasse
seus movimentos, ele viu que de sua boca saiu a pergunta:
–Eu...
Eu sou um assassino?
Sentiu-se
aliviado e preocupado com o que havia dito, como se algo houvesse sido retirado
de seu espírito, para que outra coisa, mais preocupante, fosse colocada no
lugar. A pergunta era o que realmente o inquietava? Não, talvez fosse a
resposta o que lhe causasse mais medo. O monge então se ergueu e colocou as
flores dentro de uma bolsa. A quantidade de flores no campo parecia ter
diminuído consideravelmente. Quanto tempo se passara? O herói não sabia, não
podia mais ver o sol. O céu agora se tornara escuro e ameaçador, coberto por
nuvens negras que se assemelhavam a um enxame de gafanhotos. Esperou a resposta
do monge, temendo ter dito algo inconveniente.
Este
apenas se aproximou, os buracos negros de sua máscara mostrando uma profundidade
vazia, infinita. O herói pensou em recuar um passo, mas suas pernas tremiam.
Temeu ter irritado o monge. Ao mesmo tempo as palavras deste se processavam em
sua mente. “Flores de Abel... assassinados... quem foi assassinado?”. Então sua
mente percebeu algo que ele nunca quis compreender: o temor de se sentir
culpado. Retomando a força nas pernas ele se afastou devagar, balançando a
cabeça e murmurando, negando sua própria pergunta, fugindo:
–Não...
Não... Não é isso. Não... Não pode ser... Não, eu.
O
monge se aproximou mais. Segurou seus ombros para conter sua fuga. Tentou
desvencilhar-se, mas a força dele era maior. Suas pernas escorregavam sobre a
lama. Seu rosto encheu-se de um terror extremo. Buscou desviar os olhos daquela
máscara demoníaca portada pelo monge, mas este o sacudiu para que seus olhos se
fixassem naqueles assustadores abismos.
E
através daqueles buracos negros ele viu a si mesmo, correndo como um animal por
aqueles campos, com o revólver em uma das mãos e a faca na outra, cortando e atirando
numa confusa carnificina. Gritando para si mesmo que se tornaria o herói
daquela guerra. E viu seus companheiros caindo ao seu lado, também como bichos,
também se dizendo heróis. E em seus rostos o que via era uma estranha
felicidade. E todos tombavam murmurando: “Somos heróis. Somos heróis”. E ele
também gritava desesperado: “Sou um herói!”. E quando o último de seus inimigos
caiu, apenas ele havia restado. Não existiam mais companheiros, não havia mais
os inimigos. A guerra havia terminado e ele era seu herói. E gritou para os
campos, para as nuvens e para os mortos que ele vencera aquela guerra, que ele
fora o herói das nações corrompidas e daqueles que sofreram sob o ferro e o
fogo. Mas então, teve aquela estranha sensação, aquele estranho momento em que
perdia a felicidade de tudo e que percebia que algo estava errado. Devagar ele
recolocou sua arma no coldre, e nada a partir dali fez sentido. Ele pensava
pela primeira vez, desde que aquilo havia ocorrido, desde o começo daquela
guerra maldita. E seus pensamentos não lhe diziam que ele era um herói. Mas
todos os mortos diziam que sim, e seus comandantes diriam que sim, e ele queria
que fosse assim. Mas, em um campo onde se colhia flores para os assassinados,
seria ele o último dos assassinos?
–Não...
Não... Não... nãããããão!
Seu
grito ecoou por todo aquele campo. E foi tão forte que o monge o soltou.
Desequilibrando-se o herói caiu. E mesmo entre a lama, mesmo entre os mortos
ele gritou para o monge:
–Eu
sou um herói! Um herói! Herói. Não sou um assassino. Não sou!
O
monge se curvou sobre ele, sua túnica branca esvoaçava ao seu redor, mas não
tocava o chão. E sua brancura era pura e perfumada. O herói pensou em puxar sua
arma, em destruir aquela figura que o atormentava, que alimentava sua loucura. Era
tudo uma ilusão? Ele não sabia, mas queria desesperadamente que aquela figura
desaparecesse sob toda aquela sujeira, carregando consigo aquele despertar para
o pensamento, aquele despertar para os sentimentos, para a culpa e para o
desespero.
Quando
aquela guerra se iniciara ele havia aprendido a não pensar. Não havia culpa,
medo, lágrimas. Apenas o desejo desesperado pela vitória e pelas honrarias de
se tornar um herói. Vivo ou morto. Todos eram superficiais e artificiais, como
soldados de chumbo vindos em pequenas caixas de madeira. Todos produzidos pela mesma
prensa, com as mesmas formas. Soldados e soldados e mais soldados. Todos
destemidos. E não havia por aqueles que partiam mais do que a sorte das
medalhas, sem lágrimas, sem dor. Não eram amigos, eram soldados e soldados não
sentem. Soldados não perguntam. Não se sabia o motivo real da guerra, ela era o
que era. Não cabia ao soldado saber nada além do gatilho do fuzil ou do corte da
baioneta. E se manter vivo era apenas uma importância tática, pois o verdadeiro
futuro se escondia no paraíso dos heróis. Dos aclamados pelo povo.
Mas
agora, ali, naquele campo sombrio, diante daquela enigmática e branca forma,
apenas o que via eram mortos. Heróis mortos que não aclamariam outros heróis,
pois suas almas agora deviam vangloriar-se de seus feitos no paraíso imaginário
que lhes havia sido prometido no momento em que colocaram os pés sob aquele
solo distante. Quem lhe aclamaria então? Quem lhe chamaria de herói naquele
meio? Por que lutara? As perguntas antes ignoradas invadiam sua mente,
dilacerando sua armadura de ignorância. E seu coração agora viajava também por
tudo o que havia deixado para trás. Famílias, amigos, amores. Ele estivera vivo,
em algum momento de sua vida, em algum momento antes daquela maldita guerra,
ele foi capaz de pensar, de articular, de lutar por caminhos egoístas. Ele foi
um humano além das armas. Ele possuía um nome. Mas agora sequer se lembrava
disso. Era apenas o herói número tal, inserido em outros tantos confusos
números que se perdiam de vista por entre papeis e burocratas. Ele havia
despertado, talvez renascido. Algo que permanecera escondido dentro dele, outro
“eu” havia acordado, e estava desesperado pela verdade, por respostas. Lutando
contra seu outro lado, irracional, bélico, que tentava desesperadamente
esquecer a culpa.
–Não...
Ele
não queria...
–Não
posso...
Ele
não podia...
–Não
posso pensar...
E
ele gritou para o monge que permanecia diante dele. Gritou para todos os que
pudessem lhe ouvir. Gritou como quem está se afogando em areia movediça, gritou
como quem pede ajuda:
–EU
NÃO SOU UM ASSASSINO! EU NÃO SOU UM ASSASSINO!
E
o monge então tocou seus ombros, desta vez com gentileza. E com uma voz suave
ele disse:
–Eu
nunca disse que era. Mas tudo depende das suas crenças. E da sua consciência.
E
devagar ele se virou para a direção contrária. Não havia mais flores naquele
campo. Teria havido algum dia?
Ofegante,
confuso, sentindo-se sujo em todos os poros de seu corpo, o herói ergueu-se
rapidamente e correu em direção ao monge. Mas seus passos pareciam tão rápidos,
em oposição aos seus, tão pesados, que ele não foi capaz de alcançá-lo. E antes
que desaparecesse na linha do horizonte ele gritou:
–Quem
é você? Por que está aqui?
O
monge virou-se e disse:
–Você
sabe esta resposta. Foi você quem me chamou aqui.
E
continuou andando até desaparecer, ante o olhar confuso do herói, que não era
capaz de diferenciar se aquilo havia sido real ou não. E o céu se abriu
deixando o sol iluminar o campo de batalha. Incapaz de conter suas próprias
pernas ele caiu, sem também poder preservar sua consciência. Um calor terno o
invadiu, deixando-o inebriado. Sem mais forças ele se deixou adormecer.
***
Acordou
sobre uma maca de hospital. Um antigo e sujo hospital usado para atender aos
feridos. Respirou fundo, tendo a sensação de que tudo não passara de um
pesadelo. Mesmo assim, aquela sensação inquietante permanecia. Como se algo o
estivesse chamando para dentro de si mesmo. Aos pés da cama viu alguma comida,
diferente do rancho. Comida fina, requintada. Olhou ao redor para ver se todos
comiam o mesmo, e percebeu, com certo medo, que era o único dentro daquela
sala. Estava em um quarto particular, algo impossível em outros dias de guerra.
Chamou
uma enfermeira e perguntou-lhe o que havia acontecido. Ela informou-lhe que
fora encontrado desmaiado no meio do campo de batalha. Perguntou sobre os
outros e esta lhe dissera que era o único vivo. E antes de deixá-lo
acrescentou:
–Descanse.
Você merece isso, herói.
A
palavra “herói” ecoou por sua mente como sinos. Sentiu uma dor forte e aguda,
como se algo tentasse invadi-lo, ou rompe-lo. Pensou em dizer-lhe seu nome, mas
percebeu que realmente não se lembrava dele. “Tudo bem”, pensou consigo,
“alguém deve sabê-lo, e uma hora me dirão”. Mas nos dias subseqüentes apenas
lhe chamaram de herói. Não teve coragem de perguntar seu verdadeiro nome, pois
temia que o acreditassem louco. E enquanto melhorava todos lhe diziam como ele
havia salvado a nação da guerra. Tentava não pensar sobre isso, tentava
esquecer, mas o título se impregnara sob seu corpo e era exalado como um cheiro
marcante. Um cheiro que lhe causava certa náusea.
Quando
recuperado, recebeu uma carta dos líderes. Estes queriam sua presença ao
assinar o tratado de paz. Era uma ordem. E ele gostava de ordens por que
poderia segui-las sem precisar pensar. Feliz, abandonou seus medos e se dedicou
a esta nova missão. A missão de ser um herói. E todos lhe sorriam e faziam as
vontades, sem saber que a noite algo lhe assaltava e levava para um infeliz
mundo de pesadelos onde encontrara-se com aquele monge e com sua própria imagem
em combate.
Combatia-se
e recombatia-se numa muda e infinita batalha tendo como oponente sua
acusadoramente muda figura. Lutava contra si mesmo com facas e fuzis sem ser
capaz de vencer e tendo como espectador aquela figura branca, pura e
ameaçadora, que o fizera acordar para a realidade. E ao acordar, assustado,
sentia-se sujo e a sensação de que algo tentava rompe-lo crescia mais e mais.
Pensava na palavra “assassino” e na morte. E assim se seguiu até o dia do
tratado de paz.
***
E
todos estavam ali reunidos, esperando sua chegada. Vestia uma farda de gala, o
peito vazio esperando a medalha. E por toda a cidade carros o seguiam,
buzinando e acenando. As mães apontavam sua figura como exemplo para as
crianças, e os velhos lhe gritavam coisas sobre guerras antigas e sobre a sua
coragem. Os homens o invejavam e ao mesmo tempo o admiravam, numa mistura de
amor e ódio. E da janela da limusine ele acenava, sorrindo sem vontade,
seguindo ordens. E na grande cúpula de Estado estavam os dois líderes dos
países inimigos. Esperando pelo belo momento em que suas mãos se apertariam,
suas dívidas seriam pagas. E quando o herói chegou, quando se postou
solenemente, em posição de sentido, diante daqueles que um dia foram inimigos,
a multidão gritou desnorteada:
–Herói!
Herói! Herói!
Saberiam
eles seu nome? Alguém poderia dizer seu nome? E atrás da multidão uma enorme
parede registrava os mortos, com mensagens de pesar e coragem. Talvez seu nome
estivesse ali, talvez ele se lembrasse dele. E talvez assim ele esquecesse seus
pesadelos e perdesse o cheiro de herói.
E
os líderes se deram as mãos, e sorriram, dizendo que a guerra havia terminado.
Que tudo aquilo havia sido um erro e que ele, o herói, havia mostrado a eles a ineficácia
de tal selvageria. Ele, que lutara e resistira bravamente contra o inimigo, que
lutara por seus ideais. E palavras foram colocadas em seus lábios, palavras de
fé e força que ele jamais havia dito. Palavras de amor e coragem que nunca
haviam passado por sua cabeça. E seus superiores, que nunca o haviam visto em
um campo de batalha, discursaram sobre sua coragem e força de vontade. Sobre
sua humanidade e impetuosa vida. Todos citavam coisas que ele jamais havia
dito. E pensou que poderia se sentir grato, e mais uma vez sorriu sem vontade. Como
era um sorriso sincero? Ele não sabia mais. Quando a medalha foi colocada em
seu peito, quando as mãos assinaram o tratado de paz, todos quiseram que ele
falasse, todos gritaram:
–Discurse.
Discurse para nós.
Haviam
preparado para ele um discurso com belas palavras. Sobre amor, paz e soberania
da nação. Sobre os mortos e o amor que sentia por eles. Sobre aqueles que haviam
perdido e a dor que sentia por eles. Ele sentira realmente dor por eles? E com
aquelas palavras tão cuidadosamente decoradas ele subiu ao palco. Deu um longo
suspiro acompanhado de um falso sorriso, para simular timidez. Olhou para a
multidão e acenou para as crianças. Ao mesmo temo em que a inquietação
aumentava dentro dele. Sentiu a mesma sensação de quando enfrentava a si mesmo
em seus sonhos. Por um instante pensou que aquele monge fosse surgir diante da
platéia para desmenti-lo.
Buscou
afastar tais pensamentos da cabeça, esperavam seu discurso e ele iria fazê-lo,
iria seguir suas ordens até o fim. Seria a imagem que criaram dele, e nada mais.
Era seguro, era o melhor a se fazer. Entreabriu os lábios e disse sorrindo:
–Mor...
te.
A
palavra ecoou por todo o salão. Todos ficaram em silêncio. Ele se assustou
novamente com aquilo. Sua mente parecia girar desesperadamente, enquanto o seu outro
eu, antes mudo nos pesadelos, gritava desesperado: “deixe-me sair”. Inquieto,
desconcertado, entrando em pânico e se acreditando louco, ele não pôde mais
conter o seu despertar para o pensamento. Batendo várias vezes na cabeça,
gemendo baixo e tendo sua voz ecoando por todos os cantos, desistiu de se
conter, de conter seu pensamento. Desta vez com um suspiro real, num nervosismo
real, ele se dirigiu aos líderes:
–Qual
o meu nome?
Todos
ficaram desconcertados.
–Está
louco. murmuravam.
Mas
ele sabia que não estava louco. Estava racional, consciente. Vivo pela primeira
vez em muito tempo. Queria respostas, queria saber quem era. O cheiro das
flores podres chegou até ele novamente. E aquele cheiro confuso que se
misturava ao de podridão se tornou claro em sua mente. Era o cheiro de seus
companheiros. Aquelas flores eram...
No
meio da multidão foi capaz de ver um por um, de aliados a inimigos, todos
mortos, mas presos em correntes, com rostos arrependidos e vazios. Sem esperança,
sem amor. Eles estavam perdidos naquele campo de pessoas tolas que os chamavam
de heróis. Mas todos sabiam seu nome, todos o chamavam pelo nome. E aquele
estranho monge estava lá, parado. E em meio a esse turbilhão de sentimentos,
ele se reencontrou. E não era mais um herói, era um homem. E sentiu no cheiro
das flores o cheiro da morte, misturado com o cheiro de seus companheiros. Uma
flor, uma vida. Aquele monge recolhia flores como vidas. Flores de Abel, flores
para os assassinados. Todos ali haviam matado e morrido, e ele era o último
vivo. O último dos assassinos, portando em seus ombros o peso de todos aqueles
que se acreditaram heróis naquela maldita guerra.
Olhou
para a multidão, que o fitava perplexa e disse:
–Vocês
sabem a causa desta guerra? Vocês sabem por que tiveram de sentir fome? Por que
se privaram pelo bem dos soldados?
Não
houve resposta. Ele apontou para os líderes.
–Vocês
sabem por que esses homens foram inimigos?
E
nesse instante os líderes ordenaram aos seus soldados que retirassem aquele
homem louco dali. Mas ninguém se mexeu, não ouviam. Pareciam ouvir somente a si
mesmos, e àquele homem que se dizia assassino ao invés de herói.
–Tolos.
Seus filhos, eu, nós nos tornamos assassinos nesta guerra. E agora restam
apenas apertos de mão e muita miséria.
E
a multidão desviou seus olhares do seu.
–Pensem!
Pensem esse ódio, pensem seus erros.
Vocês
realmente se odiaram? Realmente foram inimigos e aliados?
E
dizendo isso desceu as escadarias em direção à saída, tirando suas roupas
vagarosamente. Aquelas roupas que lhe causavam nojo. Tudo agora lhe parecia
claro. As perguntas encontravam-se respondidas em algum ponto cego de sua alma.
Sabia ser um assassino, mas sentia-se leve, como um culpado que busca a remissão
ao admitir sua culpa. Seus passos lembravam os de um condenado para o
cadafalso.
Despiu-se
completamente, deixou que sua medalha caísse no chão e pisou sobre ela como se
esmagasse um pequeno inseto.
Os
líderes esbravejavam por atenção, mas já era tarde. O mundo não lhes via mais.
Viam apenas aquele homem nu que não mais era um herói, caminhando em direção ao
mural dos mortos. E à medida que avançava a multidão lhe abria caminho. E as
mães desviavam os olhos dos filhos, sem saber sequer se poderiam apontar a si
mesmas como exemplos.
–Sou
culpado por ter lutado. disse o homem que antes fora herói. São culpados por
não impedirem. Sou o assassino que carrega o ódio de todos sob meus ombros. E
nesta guerra os heróis nada mais foram do que a representação de seu medo. Medo
de optarem por não lutar. De confiarem no futuro!
E
a multidão não mais murmurava, apenas apertava seus braços sobre suas cabeças,
tentando fugir daquele despertar, daquele pensar. E o homem prosseguiu:
–Fomos
arrastados pelo ódio e pela intolerância. Morremos mesmo antes de entrarmos no
campo de batalha. Onde está meu nome? Quando eu parei de pensar? Tudo se torna
claro. Não serei mais herói, serei homem. Os heróis são apenas aqueles que não
conseguiram correr da incumbência coletiva de uma falsa salvação.
E
todos se ajoelhavam, sem voz, querendo pedir para que parasse. E os líderes,
que se consideravam os únicos pensantes do mundo, se contorciam com a dor da
culpa, que se refletia convulsamente por todo o seu corpo. E por todo o mundo
pôde-se ouvir a voz daquele homem, que esbravejava sobre pensamentos e
verdades, sobre mortos e culpados. E todas as guerras do mundo pararam para
ouvi-lo. E ante as ordens confusas de líderes loucos, os soldados abandonavam
suas fardas e começaram a andar us por campos de sangue. E mesmo sem se dar as
mãos buscavam desesperadamente retornar à suas antigas vidas, esquecendo seus
números e relembrando seus nomes.
E
o homem se aproximou da parede onde todos os nomes eram escritos. E diante da
palavra “heróis”, sentiu nojo. E se ajoelhado diante dos nomes de seus antigos
companheiros e inimigos ele disse:
–Perdoem-me.
Somente agora sei seus nomes. Somente agora vejo seus rostos, e sinto os
cheiros. Somente agora não desejo mais ser o último herói. E, se neste mundo,
há realmente de existir heróis, teremos que encontrar um novo sentido para
isso.
Lágrimas
escorreram por seus olhos, enquanto uma chuva fina caía dissolvendo os nomes
daquela estranha coluna de mármore. E todos partiram, sentindo pesos em seus
corações. E o cheiro dos mortos não era mais o de uma podridão adocicada, como
se algo os purificasse. E estes também passaram por ele, libertando-se de suas
correntes, e se esvaindo diante das paredes e das gotas de chuva. E o monge foi
o último a compor essa romaria. E antes de desaparecer ele tocou o ombro do
homem que chorava.
–Você
é a morte, não é. Perguntou o antigo herói, cônscio de que tudo aquilo fora
real. Era real.
–Sou
apenas alguém que abomina algumas formas de sua própria presença.
A
figura de branco se esvaiu por entre os pingos de chuva e as lágrimas. Mesmo
por trás da máscara o homem pode saber que sorria. E se erguendo, nu e limpo
como jamais se sentia antes, murmurou para si mesmo:
–Se
mesmo a morte abomina a guerra, então os homens não passam de tolos brincando
de destino.