Quando ele me
buscou naquela delegacia, onde eu fiquei sentado por horas, fazendo um esforço
enorme para não chorar feito um bebê, a primeira coisa que ele me disse foi:
–Se eu
soubesse que estava te dando uma arma, deixaria a chuva te molhar para sempre.
No interior o
cheiro de mato molhado anuncia o começo do fim do meu Natal. Sem a minha Bíblia
em mãos tenho que contar com as coisas que sei de memória. A sorte é que eu fui
criado assim. Eu acredito em cada palavra que vou dizer. Meu avô dizia que eu
deveria acreditar em algo maior. Se há coisas ruins, e há coisas como nós, para
proteger as pessoas, então é sinal de que alguma coisa está lá em cima,
salvando os seres humanos deles mesmo, dando uma segunda chance. Mesmo que seja
difícil.
Quando a
noite cai a chuva vem junto. Ainda estou arrotando carne de porco do almoço
barulhento da irmã do Barbeiro. Um dia vou perguntar pra ele como ela sabe
sobre tudo, e como ele sabe. Ninguém nunca toca nesse tipo de assunto até ser a
hora certa. E geralmente nunca é. Eu sei que não foi nenhum trauma, mas...
Espero Alvo
se aprontar. Ele sempre se veste de branco para fazer esse tipo de coisa. Desde
que leu Código Da Vince ele ficou maravilhado com a idéia de ser branco como um
fantasma.
–Desse jeito,
eu digo, vou acabar te exorcizando, ao invés do lençol.
Ele não ri,
nem eu. Não é uma coisa engraçada. O que
há de comum entre caçar uma mula sem cabeça, um lobisomem, um lençol e uma luz?
Estou sempre cagando de medo. E é nessa hora que eu acendo um cigarro. Descemos
as escadas da varanda em silêncio. Não olhamos pra trás.
–Nem morreram
e já tão com cara de enterro.
A frase do
Barbeiro faz nascer um sorriso no meu rosto, que vira uma gargalhada.
–Puta merda,
velho, eu grito, não corta o clima da coisa!
Ele não diz
mais nada. Abro meu guarda-chuva (sim, ele também funciona como um guarda-chuva
normal) e vamos em direção à floresta. Se for um exorcismo, as coisas ficarão
ruins, se for um fantasma, bem, aí as coisas ficarão uma merda. Espero que seja
algo que possamos cortar. E algo que não vá nos matar.
A cidade tem
uma feira, que funciona nos dias santos. A chuva espanta a todos e as luzes
praticamente não existem. São quase oito da noite, hora do ataque de ontem.
Tudo está escuro e ninguém se movimenta. Até as vacas parecem ter feito
silêncio. Talvez saibam de algo que não saibamos. Deveria ter interrogado elas.
Alvo leva lanternas, eu não. A noite encoberta do interior não me assusta. Aprendi
a me virar no escuro. A noite se tornou minha amiga tempo demais para que eu
possa me perder na escuridão. Não existe escuridão absoluta, essa é a primeira
coisa que se aprende quando se conhece a má realidade, ou os Lanternas Verdes.
A imagem do
tocador de violão que contou a história das mortes não sai da minha cabeça. Um
trovador? Se for um, isso explica a alteração na má realidade. Trovadores
antigamente contavam mitos, hoje contam casos, mas muita gente toma como
verdade. E se ele tem crianças com ele, então a coisa fica séria. Eu já havia
ouvido falar de um violeiro que rodava as cidades cantando e mudando as coisas,
mas isso foi a mais de cinqüenta anos atrás. Não tem como esse cara estar vivo
ainda. Também houve trovadores andando junto com o meu avô, mas isso foi em
outros tempos, quando as pessoas no interior paravam para ouvir. Por Deus que
eu acreditava que não haviam mais cidades como esta antes de perseguir aquela
maldita mula sem cabeça. Me pergunto se isso tudo não vai virar uma peregrinação
para o interior. Duas vezes em poucos meses. Se continuar assim vou virar
caixeiro viajante e desbravar o sertão. Quem sabe eu não deva colocar um caixão
numa corrente e arrastar feito o Django? As pessoas da roça vão me achar o
máximo.
Alvo segue se
molhando. Ele não gosta de guarda-chuvas. Eu não me importaria de ficar
molhado, mas o óculos não pode se embaçar, eu preciso deles para ver o mundo.
Eu preciso deles desde antes de precisar deste guarda-chuva. E mesmo que eu
pudesse tirá-los, meus olhos pequenos e esse grande nariz o puxariam de volta.
Eu pareceria um rato comprido. Desta vez a calça que uso é preta, minhas roupas
cheiram à bebida e suor, não fui em casa trocá-las, mas ao menos não estão
amassadas. Meus sapatos é que dançaram. Sorte que não são meu melhor par. Só
uso eles para trabalhar no meu trabalho de verdade. O antigo chefe se aposentou,
o novo não conhece o meu avô. Tenho que ser competente de verdade lá.
Seguimos pela
trilha escura, ele tateando para não tropeçar, eu pensando em toda a merda que
me espera amanhã. Talvez eu ligue para o médico e peça um atestado. Ele pode
dizer que eu estou morrendo. Como ele estava quando encarou um vampiro
espiritual. É bom cobrar favores de vez em quando. Se eu der sorte, saio desse
lugar no primeiro ônibus, troco de roupa e vou trabalhar como se nada tivesse
acontecido. Se eu der menos sorte, espero que os jornais não façam um
estardalhaço muito grande sobre eu ter morrido ao lado de outro homem no meio
do mato.
O som da
chuva no guarda-chuva me distrai. Eu gosto da chuva na cidade, faz as pessoas
ficarem mais introspectivas, e o medo delas as mantêm em casa. Eu saio e tudo
está vazio, as pessoas estão escondidas e, por um instante, o mundo é meu. Não
preciso me misturar. E se eu não me misturo, elas não chegam perto o bastante.
A não ser que se esforcem muito.
Chegamos ao
local do último ataque. É a beira de uma cachoeira. O som da chuva se mistura
ao som da água caindo. Ainda com o guarda-chuva aberto, me encosto numa árvore
e acendo um cigarro. Alvo fica em pé, parado. Tira o violino do estojo. As
cordas são da lira de Orfeu. Acalma os animais, mas isso é só o que as lendas
dizem. Assim como o meu guarda-chuva, dizem que é multi-função. Acredito que
Alvo tenha treinado com ele tempo suficiente para saber fazer outras coisas.
Nós não vamos enfrentar animais e se ele quis vir, se o Barbeiro deixou que
viesse, então é porque algo realmente eficiente está por vir.
Trago a
fumaça devagar e deixo ela ir. Uma vez me disseram que eu fico bonito quando
fumo, misteriosos. Não sei se é verdade. Eu fumo quando a porra fica séria,
então não me preocupo com a pose. Eu só quero terminar isso logo e ir embora. A
sensação de que ainda é Natal e de que tudo está uma merda não passa. Se eu
puder chegar em casa e beber o bastante, quem sabe eu não sobrevivo às festas.
Espero,
espero, espero. Alvo coloca o violino em posição. Espero, espero, espero. Dizem
que o lençol ataca quem gosta de pescar à noite. Eu devia ter trago
equipamento. Espero, espero. A luz que pega os outros assombra beiradas de
pasto. Onde você está, sua grande filha da puta? Espero, espero. E ela vem.
–Alvo! Eu grito segundos antes de me desviar. Ela é
rápida. Mais do que um simples carro seria.
–Segura essa
porra! Eu preciso de tempo!
Enquanto ele
começa a tocar, eu continuo com o guarda-chuva aberto, como se fosse normal. A
luz avança sobre mim de novo, não dá tempo de desviar, me defendo. Ela bate no
guarda-chuva. A lona não sofre nenhum dano. Eu sou jogado contra uma árvore.
Minhas costelas doem. Filha da puta! Me levanto devagar, meio tonto. Essa coisa
vai acabar me matando. Aperto o botão do guarda-chuva de novo e meu sabre de
luz está ativo. A luz vem pra cima de mim, o som da música começa a aparecer.
Acho que as coisas vão dar certo. Quando a luz se choca com o meu sabre eu sou
empurrado para trás, novamente com violência. Eu realmente acreditei que ele
iria cortar aquela coisa. Só percebo o quanto estou fodido quando caio dentro
da água e a cachoeira me empurra para baixo. Não sei nadar. Começo a afundar
rápido, não tive tempo de tomar fôlego. Eu posso morrer aqui. Mas existem
outras maneiras de se sair de dentro da água. Um dos meu truques secretos.
Quando eu
saio, vejo Alvo cercado por uma esfera transparente. Parece vidro, asm eu sei o
que são: ondas musicais. O filho da puta compreendeu aquelas cordas melhor do
que o retardado do Orfeu. Ele olha para mim, com um olhar que diz: “agora deu
merda”. Ele está preso e eu tenho que usar o plano B. Devagar, murmuro aqueles
versículos antigos, os mais eficientes. A coisa para, se volta para mim.
Murmuro mais rápido. Caralho! Eu devia ter trazido água benta. Aquilo é mesmo
uma alma penada? Um demônio? As palavras fazem a coisa brilhar diferente,
desacelerar. Está dando certo. Vou comer essa merda no jantar de Natal.
Os versículos
ainda dançam na minha cabeça, quando o lençol me pega. Fui descuidado. Como eu
pude esquecer essa merda. A luz faz uma entrada triunfal enquanto esse filho da
mãe chega furtivo, me enrolando. Meu pescoço, minhas cordas vocais. Cada vez mais
apertado. Não respiro mais. A luz se volta para o meu amigo. Vejo a bolha de
som começar a rachar. É estranho, mas deve fazer sentido pra ele. Mas que
merda! Tem a porra de um lençol me estrangulando e eu pensando nesse caralho de
bolha! Tento erguer o sabre, mas ele já tomou minhas mãos. Quando eu o solto
ele volta a ser um guarda-chuva velho e normal. Tento morder a coisa, talvez
ela me solte. Não dá certo. Talvez seja isso que chamem de morder a fronha...
Merda, Diógenes, você está morrendo e mesmo assim não consegue parar de pensar
bobagens. É isso, eu estou morrendo. Morrendo... Adeus.
O barulho é
ensurdecedor. Será que o céu é um show de metal amador? É como um trator
gemendo e se arrastando, quebrando e destruindo. Será que eu estou morto mesmo? Tento abrir os
olhos. Não há mais ar em mim e, caralho, dói muito morrer sem ar. Meus pulmões
queimam. Devem estar suando sangue. Quando eu abro os olhos o que vejo é mais
assustador do que tudo: duas árvores, gigantes, com olhos, começam a abraçar a
luz. Legal, Alvo, nós viemos pra Terra Média e uma árvore vai nos comer.
E então meus
ouvidos abafados escutam aquele zumbido de novo. Aquele zumbido de dez anos
atrás. E eu vejo aquela mesma sombra negra vir em minha direção. Essa brincadeira
toda para ser fodido por eles quando eu estivesse perto do fim? Legal.
Espero as
coisas me atravessarem. A morte quer que eu feche os meus olhos, mas eu não
faço isso. Eu quero ver de perto o que vai me picotar, o que é esse vento
cortante. Ele me disse para não me envolver com a Igreja. Eu me meti com eles e
agora vou morrer nas mãos da bruxinha manipulada. Como ela sabia que estávamos
ali?
Finalmente
vejo. Não é uma sombra. São folhas. Folhas pequenas e rápidas, zumbindo. Elas
chegam perto dos meus óculos e eu finalmente fecho meus olhos. Adeus... de
novo.
Quando caio
no chão, com a garganta em chamas, respirando como se todo o ar do mundo fosse
acabar, percebo a cena. As árvores engoliram a luz, a prenderam até ela
desaparecer. As folhas pequenas cortaram o lençol em pedaços tão pequenos que
eles quase deixaram de existir. Não era mais uma ameaça. Uma mão me levanta do
chão. Eu reconheço um toque. Não é Alvo. Olho para frente e ele está parado,
ajoelhado no chão com olhos assustados. Sem pensar duas vezes empurro os braços
que me levantaram e me afasto rápido. A putinha da Igreja usa uma máscara, mas
não importa. Com o uniforme da grande cruz, com a grande Bíblia do lado, ela me
olha. Ela controla as plantas, finalmente entendo isso. Estamos cercados de
plantas. Ela nos salvou. Ela vai nos matar? Olho para o guarda-chuva, não está
distante. Quando olho de novo para ela, já não está mais lá.
Pego o
guarda-chuva, levanto Alvo. Ele treme.
–Cara, ele diz,
preciso d eu trago.
–Nem me diz.
Pego um
cigarro, o esqueiro. Merda! Estão molhados.
É hora de ir
para casa.
Epílogo.
Dirijo pra
casa feito um louco. O carro de Alvo é rápido. Eles não se importam de vir de
ônibus. O Barbeiro não faz perguntas, mas quer que Clara venha comigo. Não
deixo.
Canto pneus
na porta da zona. Entro pela garagem. O carro dela, os pneus sujos...
Quando entro,
todos estão sentados no balcão, bebendo alguma coisa. Todos me esperam, sorriem.
Ela está lá com seu vazo de espadas de São Jorge. Eles acham que voltei para
uma última despedida do Natal. Sem músicas, sem festa. Só meus amigos e
aquela...
–Puta
maldita!
O sabre
brilha em direção à ela. Melissa pega uma das folhas do vaso. É dura como meu
sabre, mas mesmo assim o corto, ela se esquiva, se afasta para longe.
–Diógenes!
O avanço de
Desiree é cortado pela minha mão estendida. Eu sei o que estou fazendo.
–Diógenes...
Melissa começa a dizer.
–Cala a boca!
Eu grito. Só não arranco suas mãos agora, por que você salvou minha vida. Mas
eu quero que suma daqui já.
–Diógenes,
cara... é a voz de Carlos.
–Carlos, eu
digo, lembra daquela putinha que quase nos matou? Ela cresceu.
Ele olha
espantado. Todos estão assustados. Melissa é a mais assustada de todos.
–Se vocês
quiserem me foder, vão em frente. Se quiserem acabar comigo, tudo bem. Mas se
aproximar dos meus amigos. Isso é sujeira.
Ela quer
dizer algo, eu não deixo.
–Entra
naquela porra daquele carro e some daqui. Agora. E avisa pro seu chefe que eu
posso não matar, mas não tenho nada contra aleijar alguém.
Melissa passa
por nós. Ouvimos a porta da garagem se abrir, o carro ser ligado. Ela vai
embora. Carlos explica tudo em palavras suaves para Desiree e André. Eu não
consigo me mexer. Meus pulmões ainda doem.
Uma folha de
boldo arranca o dedão de um juiz. Meus selos de proteção são repintados, um
vaso de espadas de São Jorge. Desde quando eu baixei tanto a guarda? O que em
fez perceber foi o calor do toque dela, como na noite anterior. O que me fez
acordar foi ver aquele mesmo corpo esguio. Do mesmo jeito.
Desiree chega
perto de mim. Me pede desculpas, ela está chorando. André segura ela pelos
braços.
–Tá de boa,
Desiree. Eu digo sorrindo. De onde tiro forças, eu não sei. O perigo passou
muito perto.
Sorrindo
ainda, digo que ela não tinha como saber. Ela em conta a história que a moça
inventou. Caçadora, salva por mim, ficou encantada. Desiree só queria que eu
ficasse com alguém do meu mundo. Não a culpo. Dou um abraço, um beijo na testa.
Digo que está tudo bem.
–Vocês são
minha família, lembra?
Digo que vou
sumir por uns tempos. Vou embora. Ciao. Arrasto o carro até em casa. Esvazio a
garrafa de whisky. É Clara quem vem buscar o carro de manhã. Desiree deve ter
ligado para ela, claro. Ela entra devagar, nem me levando do sofá. O cheiro de
cigarros e álcool é forte. Ela não diz nada.
–Canta alguma
coisa para mim? Eu peço.
Ela canta e
finalmente eu durmo, sentado ali. Por pouco, eu quase perdi tudo. De novo.
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