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quarta-feira, 7 de março de 2012

Por um triz


Quando ele me buscou naquela delegacia, onde eu fiquei sentado por horas, fazendo um esforço enorme para não chorar feito um bebê, a primeira coisa que ele me disse foi:
–Se eu soubesse que estava te dando uma arma, deixaria a chuva te molhar para sempre.
No interior o cheiro de mato molhado anuncia o começo do fim do meu Natal. Sem a minha Bíblia em mãos tenho que contar com as coisas que sei de memória. A sorte é que eu fui criado assim. Eu acredito em cada palavra que vou dizer. Meu avô dizia que eu deveria acreditar em algo maior. Se há coisas ruins, e há coisas como nós, para proteger as pessoas, então é sinal de que alguma coisa está lá em cima, salvando os seres humanos deles mesmo, dando uma segunda chance. Mesmo que seja difícil.
Quando a noite cai a chuva vem junto. Ainda estou arrotando carne de porco do almoço barulhento da irmã do Barbeiro. Um dia vou perguntar pra ele como ela sabe sobre tudo, e como ele sabe. Ninguém nunca toca nesse tipo de assunto até ser a hora certa. E geralmente nunca é. Eu sei que não foi nenhum trauma, mas...
Espero Alvo se aprontar. Ele sempre se veste de branco para fazer esse tipo de coisa. Desde que leu Código Da Vince ele ficou maravilhado com a idéia de ser branco como um fantasma.
–Desse jeito, eu digo, vou acabar te exorcizando, ao invés do lençol.
Ele não ri, nem eu. Não é uma coisa engraçada.  O que há de comum entre caçar uma mula sem cabeça, um lobisomem, um lençol e uma luz? Estou sempre cagando de medo. E é nessa hora que eu acendo um cigarro. Descemos as escadas da varanda em silêncio. Não olhamos pra trás.
–Nem morreram e já tão com cara de enterro.
A frase do Barbeiro faz nascer um sorriso no meu rosto, que vira uma gargalhada.
–Puta merda, velho, eu grito, não corta o clima da coisa!
Ele não diz mais nada. Abro meu guarda-chuva (sim, ele também funciona como um guarda-chuva normal) e vamos em direção à floresta. Se for um exorcismo, as coisas ficarão ruins, se for um fantasma, bem, aí as coisas ficarão uma merda. Espero que seja algo que possamos cortar. E algo que não vá nos matar.
A cidade tem uma feira, que funciona nos dias santos. A chuva espanta a todos e as luzes praticamente não existem. São quase oito da noite, hora do ataque de ontem. Tudo está escuro e ninguém se movimenta. Até as vacas parecem ter feito silêncio. Talvez saibam de algo que não saibamos. Deveria ter interrogado elas. Alvo leva lanternas, eu não. A noite encoberta do interior não me assusta. Aprendi a me virar no escuro. A noite se tornou minha amiga tempo demais para que eu possa me perder na escuridão. Não existe escuridão absoluta, essa é a primeira coisa que se aprende quando se conhece a má realidade, ou os Lanternas Verdes.
A imagem do tocador de violão que contou a história das mortes não sai da minha cabeça. Um trovador? Se for um, isso explica a alteração na má realidade. Trovadores antigamente contavam mitos, hoje contam casos, mas muita gente toma como verdade. E se ele tem crianças com ele, então a coisa fica séria. Eu já havia ouvido falar de um violeiro que rodava as cidades cantando e mudando as coisas, mas isso foi a mais de cinqüenta anos atrás. Não tem como esse cara estar vivo ainda. Também houve trovadores andando junto com o meu avô, mas isso foi em outros tempos, quando as pessoas no interior paravam para ouvir. Por Deus que eu acreditava que não haviam mais cidades como esta antes de perseguir aquela maldita mula sem cabeça. Me pergunto se isso tudo não vai virar uma peregrinação para o interior. Duas vezes em poucos meses. Se continuar assim vou virar caixeiro viajante e desbravar o sertão. Quem sabe eu não deva colocar um caixão numa corrente e arrastar feito o Django? As pessoas da roça vão me achar o máximo.
Alvo segue se molhando. Ele não gosta de guarda-chuvas. Eu não me importaria de ficar molhado, mas o óculos não pode se embaçar, eu preciso deles para ver o mundo. Eu preciso deles desde antes de precisar deste guarda-chuva. E mesmo que eu pudesse tirá-los, meus olhos pequenos e esse grande nariz o puxariam de volta. Eu pareceria um rato comprido. Desta vez a calça que uso é preta, minhas roupas cheiram à bebida e suor, não fui em casa trocá-las, mas ao menos não estão amassadas. Meus sapatos é que dançaram. Sorte que não são meu melhor par. Só uso eles para trabalhar no meu trabalho de verdade. O antigo chefe se aposentou, o novo não conhece o meu avô. Tenho que ser competente de verdade lá.
Seguimos pela trilha escura, ele tateando para não tropeçar, eu pensando em toda a merda que me espera amanhã. Talvez eu ligue para o médico e peça um atestado. Ele pode dizer que eu estou morrendo. Como ele estava quando encarou um vampiro espiritual. É bom cobrar favores de vez em quando. Se eu der sorte, saio desse lugar no primeiro ônibus, troco de roupa e vou trabalhar como se nada tivesse acontecido. Se eu der menos sorte, espero que os jornais não façam um estardalhaço muito grande sobre eu ter morrido ao lado de outro homem no meio do mato.
O som da chuva no guarda-chuva me distrai. Eu gosto da chuva na cidade, faz as pessoas ficarem mais introspectivas, e o medo delas as mantêm em casa. Eu saio e tudo está vazio, as pessoas estão escondidas e, por um instante, o mundo é meu. Não preciso me misturar. E se eu não me misturo, elas não chegam perto o bastante. A não ser que se esforcem muito.
Chegamos ao local do último ataque. É a beira de uma cachoeira. O som da chuva se mistura ao som da água caindo. Ainda com o guarda-chuva aberto, me encosto numa árvore e acendo um cigarro. Alvo fica em pé, parado. Tira o violino do estojo. As cordas são da lira de Orfeu. Acalma os animais, mas isso é só o que as lendas dizem. Assim como o meu guarda-chuva, dizem que é multi-função. Acredito que Alvo tenha treinado com ele tempo suficiente para saber fazer outras coisas. Nós não vamos enfrentar animais e se ele quis vir, se o Barbeiro deixou que viesse, então é porque algo realmente eficiente está por vir.
Trago a fumaça devagar e deixo ela ir. Uma vez me disseram que eu fico bonito quando fumo, misteriosos. Não sei se é verdade. Eu fumo quando a porra fica séria, então não me preocupo com a pose. Eu só quero terminar isso logo e ir embora. A sensação de que ainda é Natal e de que tudo está uma merda não passa. Se eu puder chegar em casa e beber o bastante, quem sabe eu não sobrevivo às festas.
Espero, espero, espero. Alvo coloca o violino em posição. Espero, espero, espero. Dizem que o lençol ataca quem gosta de pescar à noite. Eu devia ter trago equipamento. Espero, espero. A luz que pega os outros assombra beiradas de pasto. Onde você está, sua grande filha da puta? Espero, espero. E ela vem.
–Alvo!  Eu grito segundos antes de me desviar. Ela é rápida. Mais do que um simples carro seria.
–Segura essa porra! Eu preciso de tempo!
Enquanto ele começa a tocar, eu continuo com o guarda-chuva aberto, como se fosse normal. A luz avança sobre mim de novo, não dá tempo de desviar, me defendo. Ela bate no guarda-chuva. A lona não sofre nenhum dano. Eu sou jogado contra uma árvore. Minhas costelas doem. Filha da puta! Me levanto devagar, meio tonto. Essa coisa vai acabar me matando. Aperto o botão do guarda-chuva de novo e meu sabre de luz está ativo. A luz vem pra cima de mim, o som da música começa a aparecer. Acho que as coisas vão dar certo. Quando a luz se choca com o meu sabre eu sou empurrado para trás, novamente com violência. Eu realmente acreditei que ele iria cortar aquela coisa. Só percebo o quanto estou fodido quando caio dentro da água e a cachoeira me empurra para baixo. Não sei nadar. Começo a afundar rápido, não tive tempo de tomar fôlego. Eu posso morrer aqui. Mas existem outras maneiras de se sair de dentro da água. Um dos meu truques secretos.
Quando eu saio, vejo Alvo cercado por uma esfera transparente. Parece vidro, asm eu sei o que são: ondas musicais. O filho da puta compreendeu aquelas cordas melhor do que o retardado do Orfeu. Ele olha para mim, com um olhar que diz: “agora deu merda”. Ele está preso e eu tenho que usar o plano B. Devagar, murmuro aqueles versículos antigos, os mais eficientes. A coisa para, se volta para mim. Murmuro mais rápido. Caralho! Eu devia ter trazido água benta. Aquilo é mesmo uma alma penada? Um demônio? As palavras fazem a coisa brilhar diferente, desacelerar. Está dando certo. Vou comer essa merda no jantar de Natal.
Os versículos ainda dançam na minha cabeça, quando o lençol me pega. Fui descuidado. Como eu pude esquecer essa merda. A luz faz uma entrada triunfal enquanto esse filho da mãe chega furtivo, me enrolando. Meu pescoço, minhas cordas vocais. Cada vez mais apertado. Não respiro mais. A luz se volta para o meu amigo. Vejo a bolha de som começar a rachar. É estranho, mas deve fazer sentido pra ele. Mas que merda! Tem a porra de um lençol me estrangulando e eu pensando nesse caralho de bolha! Tento erguer o sabre, mas ele já tomou minhas mãos. Quando eu o solto ele volta a ser um guarda-chuva velho e normal. Tento morder a coisa, talvez ela me solte. Não dá certo. Talvez seja isso que chamem de morder a fronha... Merda, Diógenes, você está morrendo e mesmo assim não consegue parar de pensar bobagens. É isso, eu estou morrendo. Morrendo... Adeus.
O barulho é ensurdecedor. Será que o céu é um show de metal amador? É como um trator gemendo e se arrastando, quebrando e destruindo.  Será que eu estou morto mesmo? Tento abrir os olhos. Não há mais ar em mim e, caralho, dói muito morrer sem ar. Meus pulmões queimam. Devem estar suando sangue. Quando eu abro os olhos o que vejo é mais assustador do que tudo: duas árvores, gigantes, com olhos, começam a abraçar a luz. Legal, Alvo, nós viemos pra Terra Média e uma árvore vai nos comer.
E então meus ouvidos abafados escutam aquele zumbido de novo. Aquele zumbido de dez anos atrás. E eu vejo aquela mesma sombra negra vir em minha direção. Essa brincadeira toda para ser fodido por eles quando eu estivesse perto do fim? Legal.
Espero as coisas me atravessarem. A morte quer que eu feche os meus olhos, mas eu não faço isso. Eu quero ver de perto o que vai me picotar, o que é esse vento cortante. Ele me disse para não me envolver com a Igreja. Eu me meti com eles e agora vou morrer nas mãos da bruxinha manipulada. Como ela sabia que estávamos ali?
Finalmente vejo. Não é uma sombra. São folhas. Folhas pequenas e rápidas, zumbindo. Elas chegam perto dos meus óculos e eu finalmente fecho meus olhos. Adeus... de novo.
Quando caio no chão, com a garganta em chamas, respirando como se todo o ar do mundo fosse acabar, percebo a cena. As árvores engoliram a luz, a prenderam até ela desaparecer. As folhas pequenas cortaram o lençol em pedaços tão pequenos que eles quase deixaram de existir. Não era mais uma ameaça. Uma mão me levanta do chão. Eu reconheço um toque. Não é Alvo. Olho para frente e ele está parado, ajoelhado no chão com olhos assustados. Sem pensar duas vezes empurro os braços que me levantaram e me afasto rápido. A putinha da Igreja usa uma máscara, mas não importa. Com o uniforme da grande cruz, com a grande Bíblia do lado, ela me olha. Ela controla as plantas, finalmente entendo isso. Estamos cercados de plantas. Ela nos salvou. Ela vai nos matar? Olho para o guarda-chuva, não está distante. Quando olho de novo para ela, já não está mais lá.
Pego o guarda-chuva, levanto Alvo. Ele treme.
–Cara, ele diz, preciso d eu trago.
–Nem me diz.
Pego um cigarro, o esqueiro. Merda! Estão molhados.
É hora de ir para casa.

Epílogo.

Dirijo pra casa feito um louco. O carro de Alvo é rápido. Eles não se importam de vir de ônibus. O Barbeiro não faz perguntas, mas quer que Clara venha comigo. Não deixo.
Canto pneus na porta da zona. Entro pela garagem. O carro dela, os pneus sujos...
Quando entro, todos estão sentados no balcão, bebendo alguma coisa. Todos me esperam, sorriem. Ela está lá com seu vazo de espadas de São Jorge. Eles acham que voltei para uma última despedida do Natal. Sem músicas, sem festa. Só meus amigos e aquela...
–Puta maldita!
O sabre brilha em direção à ela. Melissa pega uma das folhas do vaso. É dura como meu sabre, mas mesmo assim o corto, ela se esquiva, se afasta para longe.
–Diógenes!
O avanço de Desiree é cortado pela minha mão estendida. Eu sei o que estou fazendo.
–Diógenes... Melissa começa a dizer.
–Cala a boca! Eu grito. Só não arranco suas mãos agora, por que você salvou minha vida. Mas eu quero que suma daqui já.
–Diógenes, cara... é a voz de Carlos.
–Carlos, eu digo, lembra daquela putinha que quase nos matou? Ela cresceu.
Ele olha espantado. Todos estão assustados. Melissa é a mais assustada de todos.
–Se vocês quiserem me foder, vão em frente. Se quiserem acabar comigo, tudo bem. Mas se aproximar dos meus amigos. Isso é sujeira.
Ela quer dizer algo, eu não deixo.
–Entra naquela porra daquele carro e some daqui. Agora. E avisa pro seu chefe que eu posso não matar, mas não tenho nada contra aleijar alguém.
Melissa passa por nós. Ouvimos a porta da garagem se abrir, o carro ser ligado. Ela vai embora. Carlos explica tudo em palavras suaves para Desiree e André. Eu não consigo me mexer. Meus pulmões ainda doem.
Uma folha de boldo arranca o dedão de um juiz. Meus selos de proteção são repintados, um vaso de espadas de São Jorge. Desde quando eu baixei tanto a guarda? O que em fez perceber foi o calor do toque dela, como na noite anterior. O que me fez acordar foi ver aquele mesmo corpo esguio. Do mesmo jeito.
Desiree chega perto de mim. Me pede desculpas, ela está chorando. André segura ela pelos braços.
–Tá de boa, Desiree. Eu digo sorrindo. De onde tiro forças, eu não sei. O perigo passou muito perto.
Sorrindo ainda, digo que ela não tinha como saber. Ela em conta a história que a moça inventou. Caçadora, salva por mim, ficou encantada. Desiree só queria que eu ficasse com alguém do meu mundo. Não a culpo. Dou um abraço, um beijo na testa. Digo que está tudo bem.
–Vocês são minha família, lembra?
Digo que vou sumir por uns tempos. Vou embora. Ciao. Arrasto o carro até em casa. Esvazio a garrafa de whisky. É Clara quem vem buscar o carro de manhã. Desiree deve ter ligado para ela, claro. Ela entra devagar, nem me levando do sofá. O cheiro de cigarros e álcool é forte. Ela não diz nada.
–Canta alguma coisa para mim? Eu peço.
Ela canta e finalmente eu durmo, sentado ali. Por pouco, eu quase perdi tudo. De novo.

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