–Eu não
acredito que você já consegue ler as legendas. Você está crescendo rápido.
–O senhor
ficou muito tempo longe. Eu tive que ler livros pra saber as histórias.
–Seu pai não
quer que eu te conte mais histórias. Acho que ele não quer nem que eu ande com
você. He, He.
–Mas... o
senhor é mal, vô?
–Não, meu
filho. Mas eu já errei. E seu pai não
entende bem isso.
–Ele diz que
quando a gente erra sem querer, é só pedir desculpas.
–Eu sei, meu
filho. Mas as coisas nem sempre são simples assim.
–Vô?
–Hein?
–O senhor
acha que eu posso ser um jedi um dia?
–Não sei.
Vamos testar. Deixe eu ver. Moço, você aí, com os guarda-chuvas. Me dê um.
Isso! Esse aqui. Ótimo. Vai servir.
–Pra que
isso, vô?
–Sabres de
luz. Pegue o seu. Zion!
–O meu é o
azul. Zion!
–Zion!
–Zion!
–Um dia eu
vou crescer, vô, e vou proteger as pessoas.
–Não, garoto.
Você vai ir para uma boa faculdade, vai se formar, ter uma boa esposa e alguns
filhos.
–Mas e o
mundo, vô?
–O mundo se
conserta sozinho.
***
–Pai, o que é
economia?
–Bem,
Diógenes, é quando as pessoas se reúnem para estudar o dinheiro.
–A Ana disse
que eu poderia fazer isso. Ela disse que eu sou bom com contas.
–Você tem o
quê? Uns seis anos? Você não entende tanto assim de contas.
–Ela me
ensinou a fazer uma tal conta de juros. Não é difícil, é só sabe calcular as
coisas. Colocar as coisas no lugar.
–E você sabe
fazer as contas de vezes e de dividir, já?
–A mãe me
ensinou um dia. Eu pedi e ela disse que sim, mas ela não sabia muito, então a
Ana me mostrou o resto.
–Escuta, eu
não posso te ensinar muita coisa. Vou ver se te arrumo uns livros. Vem, vamos
para a biblioteca. Eles devem ter alguma coisa para crianças.
***
–Sabe,
Diógenes? Seja sempre honesto com você mesmo. Nunca faça uma coisa errada só
porquê as pessoas querem que você faça. Mesmo que elas achem o errado na
verdade é o certo. Entendeu?
–Mais ou
menos, mãe.
***
–Cara, cê faz
essas contas pra mim?
–Faço, mas eu
quero que você me empreste aquela sua jaqueta. Tem uma menina na escola que
acha maneiro.
–Cara, só a jaqueta
não vai ajudar. Cê vai precisar de outra cara!
–Paulo!
–Brincadeira,
mãe.
–Faça sua
lição você mesmo!
–Mas mãe, eu
quero usar a jaqueta!
–Sem essa,
Diógenes. Cê já tem uma.
–É Diógenes,
cê já tem uma. Com o desenho do Mickey e um D gigante!
–Saco!
–Como é?
–Nada não,
mãe!
***
–Cara, cê
passa cola pra gente nessa aula?
–Não. A
professora me mata.
–Ela nem vai
saber, cara. Cê passa por baixo da mesa. Vai cara, nem todo mundo é bom em
matemática.
–Não, cara.
Sem chance.
–Velho, ou
você faz isso ou nós te arrebentamos na saída. Falou?
***
–O que
aconteceu, Diógenes?
–Nada, mãe,
eu caí.
–Mas, meu
filho...
–Eu caí, ta bom!
***
Durante todos
os dias, a mesma coisa. Eu correndo deles, correndo e correndo. Nós só tínhamos
dez anos, mas eles pareciam dois malditos cavalos. Todos os dias eu ia para a
escola com medo. Se eu pedisse ajuda ia ser pior. Hoje eu penso que talvez
aquilo tivesse impedido muita merda de acontecer. E também, por quê eu não
passei a merda da cola? Não custava nada. Por quê manter meus princípios? Ah,
é, porque minha mãe queria que fosse assim. E eu era um bom garoto. Ela só
esqueceu de me dizer que os bons garotos sempre se fodem.
E naquela
tarde, onde eu tentei correr deles e escolhi o caminho menos movimentado por
pura burrice, quando eles me cercaram para me bater de novo, quando eu pensava na
desculpa que ia dar em casa, nas maneiras de esconder as feridas, eles repararam
no que não deviam.
–Cara, cê ta sempre
com um guarda-chuva. Nem vai chover hoje. Vamos arrebentar essa merda.
Não, eles não
podiam arrebentar essa merda. Era um presente do meu avô. Eu já o tinha há
quatro anos. Quatro anos em que eu mal vi o velho. Desde o dia em que nós
saímos daquela seção de Guerra nas Estrelas, rindo e sonhando. E se eu fosse um
herói um dia, aquele seria o meu sabre de luz. E aqueles dois iam arrebentar
esse meu narigão, com esses óculos de casco de tartaruga ridículos. Por quê eu
tinha que ser tão ridículo? Por quê eu tinha que ser tão covarde? E se eu
lutasse alguma vez? E se eu tivesse amigos? E se meu avô estivesse ali?
Provavelmente
ele apertaria o botão do guarda-chuva e ele se iluminaria como um sabre de luz.
E quando eu
vi a orelha do garoto já estava no chão. E saía muito sangue da cabeça dele, e
aquela coisa brilhava na minha mão. Eu tinha feito aquilo, eu tinha desejado
aquilo. Mas ao invés de me sentir poderoso, eu senti medo. Eu não queria
machucar alguém e eu não sabia que loucura era aquela. O garoto da orelha
cortada gritava enquanto o outro corria. E, de repente, veio um carro da
polícia, e o guarda-chuva já não brilhava mais. Era só um guarda-chuva. Mas,
por que eu estava com ele se não chovia? Tudo confuso, tudo estranho.
Quando eu me
dei conta estava na delegacia, com meu avô olhando para mim:
–Se eu
soubesse que estava te dando uma arma, deixaria a chuva te molhar para sempre.
***
Meu pai não
gostava muito do meu avô. Mas quando eu comecei a apanhar ele se lembrou que
meu avô conhecia uns caras da polícia. Ele pediu ajuda. No mesmo dia meu avô
pediu para me vigiarem de vez em quando. Se não fosse alguém que conhecesse o
meu avô, eu etária num hospício. O policial fez tudo tão bem, com uma
facilidade tão grande. Hipnotizou o garoto da orelha cortada, fez parecer um
acidente. Hipnotizou o garoto que fugiu, mas esse quase foi internado. Já tinha
falado demais quando foi achado. E no meio tempo, chamou meu avô para me
buscar. Aquele foi o primeiro segredo entre nós dois. Meus pais nunca souberam.
E, naquele mesmo dia, a notícia de que um garoto de dez anos podia manipular a
má realidade se espalhou. E naquele mesmo dia, eu dei o primeiro passo para o
que eu sou hoje: um cara sentado na sala de casa, segurando um copo de uísque
vagabundo e vendo a chuva cair.
O mundo se
conserta sozinho...
Nenhum comentário:
Postar um comentário