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sábado, 17 de março de 2012

O mundo se conserta sozinho


–Eu não acredito que você já consegue ler as legendas. Você está crescendo rápido.
–O senhor ficou muito tempo longe. Eu tive que ler livros pra saber as histórias.
–Seu pai não quer que eu te conte mais histórias. Acho que ele não quer nem que eu ande com você. He, He.
–Mas... o senhor é mal, vô?
–Não, meu filho.  Mas eu já errei. E seu pai não entende bem isso.
–Ele diz que quando a gente erra sem querer, é só pedir desculpas.
–Eu sei, meu filho. Mas as coisas nem sempre são simples assim.
–Vô?
–Hein?
–O senhor acha que eu posso ser um jedi um dia?
–Não sei. Vamos testar. Deixe eu ver. Moço, você aí, com os guarda-chuvas. Me dê um. Isso! Esse aqui. Ótimo. Vai servir.
–Pra que isso, vô?
–Sabres de luz. Pegue o seu. Zion!
–O meu é o azul. Zion!
–Zion!
–Zion!
–Um dia eu vou crescer, vô, e vou proteger as pessoas.
–Não, garoto. Você vai ir para uma boa faculdade, vai se formar, ter uma boa esposa e alguns filhos.
–Mas e o mundo, vô?
–O mundo se conserta sozinho.

***

–Pai, o que é economia?
–Bem, Diógenes, é quando as pessoas se reúnem para estudar o dinheiro.
–A Ana disse que eu poderia fazer isso. Ela disse que eu sou bom com contas.
–Você tem o quê? Uns seis anos? Você não entende tanto assim de contas.
–Ela me ensinou a fazer uma tal conta de juros. Não é difícil, é só sabe calcular as coisas. Colocar as coisas no lugar.
–E você sabe fazer as contas de vezes e de dividir, já?
–A mãe me ensinou um dia. Eu pedi e ela disse que sim, mas ela não sabia muito, então a Ana me mostrou o resto.
–Escuta, eu não posso te ensinar muita coisa. Vou ver se te arrumo uns livros. Vem, vamos para a biblioteca. Eles devem ter alguma coisa para crianças.

***

–Sabe, Diógenes? Seja sempre honesto com você mesmo. Nunca faça uma coisa errada só porquê as pessoas querem que você faça. Mesmo que elas achem o errado na verdade é o certo. Entendeu?
–Mais ou menos, mãe.

***

–Cara, cê faz essas contas pra mim?
–Faço, mas eu quero que você me empreste aquela sua jaqueta. Tem uma menina na escola que acha maneiro.
–Cara, só a jaqueta não vai ajudar. Cê vai precisar de outra cara!
–Paulo!
–Brincadeira, mãe.
–Faça sua lição você mesmo!
–Mas mãe, eu quero usar a jaqueta!
–Sem essa, Diógenes. Cê já tem uma.
–É Diógenes, cê já tem uma. Com o desenho do Mickey e um D gigante!
–Saco!
–Como é?
–Nada não, mãe!

***

–Cara, cê passa cola pra gente nessa aula?
–Não. A professora me mata.
–Ela nem vai saber, cara. Cê passa por baixo da mesa. Vai cara, nem todo mundo é bom em matemática.
–Não, cara. Sem chance.
–Velho, ou você faz isso ou nós te arrebentamos na saída. Falou?

***

–O que aconteceu, Diógenes?
–Nada, mãe, eu caí.
–Mas, meu filho...
–Eu caí, ta bom!

***

Durante todos os dias, a mesma coisa. Eu correndo deles, correndo e correndo. Nós só tínhamos dez anos, mas eles pareciam dois malditos cavalos. Todos os dias eu ia para a escola com medo. Se eu pedisse ajuda ia ser pior. Hoje eu penso que talvez aquilo tivesse impedido muita merda de acontecer. E também, por quê eu não passei a merda da cola? Não custava nada. Por quê manter meus princípios? Ah, é, porque minha mãe queria que fosse assim. E eu era um bom garoto. Ela só esqueceu de me dizer que os bons garotos sempre se fodem.
E naquela tarde, onde eu tentei correr deles e escolhi o caminho menos movimentado por pura burrice, quando eles me cercaram para me bater de novo, quando eu pensava na desculpa que ia dar em casa, nas maneiras de esconder as feridas, eles repararam no que não deviam.
–Cara, cê ta sempre com um guarda-chuva. Nem vai chover hoje. Vamos arrebentar essa merda.
Não, eles não podiam arrebentar essa merda. Era um presente do meu avô. Eu já o tinha há quatro anos. Quatro anos em que eu mal vi o velho. Desde o dia em que nós saímos daquela seção de Guerra nas Estrelas, rindo e sonhando. E se eu fosse um herói um dia, aquele seria o meu sabre de luz. E aqueles dois iam arrebentar esse meu narigão, com esses óculos de casco de tartaruga ridículos. Por quê eu tinha que ser tão ridículo? Por quê eu tinha que ser tão covarde? E se eu lutasse alguma vez? E se eu tivesse amigos? E se meu avô estivesse ali?
Provavelmente ele apertaria o botão do guarda-chuva e ele se iluminaria como um sabre de luz.
E quando eu vi a orelha do garoto já estava no chão. E saía muito sangue da cabeça dele, e aquela coisa brilhava na minha mão. Eu tinha feito aquilo, eu tinha desejado aquilo. Mas ao invés de me sentir poderoso, eu senti medo. Eu não queria machucar alguém e eu não sabia que loucura era aquela. O garoto da orelha cortada gritava enquanto o outro corria. E, de repente, veio um carro da polícia, e o guarda-chuva já não brilhava mais. Era só um guarda-chuva. Mas, por que eu estava com ele se não chovia? Tudo confuso, tudo estranho.
Quando eu me dei conta estava na delegacia, com meu avô olhando para mim:
–Se eu soubesse que estava te dando uma arma, deixaria a chuva te molhar para sempre.

***

Meu pai não gostava muito do meu avô. Mas quando eu comecei a apanhar ele se lembrou que meu avô conhecia uns caras da polícia. Ele pediu ajuda. No mesmo dia meu avô pediu para me vigiarem de vez em quando. Se não fosse alguém que conhecesse o meu avô, eu etária num hospício. O policial fez tudo tão bem, com uma facilidade tão grande. Hipnotizou o garoto da orelha cortada, fez parecer um acidente. Hipnotizou o garoto que fugiu, mas esse quase foi internado. Já tinha falado demais quando foi achado. E no meio tempo, chamou meu avô para me buscar. Aquele foi o primeiro segredo entre nós dois. Meus pais nunca souberam. E, naquele mesmo dia, a notícia de que um garoto de dez anos podia manipular a má realidade se espalhou. E naquele mesmo dia, eu dei o primeiro passo para o que eu sou hoje: um cara sentado na sala de casa, segurando um copo de uísque vagabundo e vendo a chuva cair.
O mundo se conserta sozinho...




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