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sábado, 10 de março de 2012

Campo Minado de Flores


Devagar o herói recolocou sua arma no coldre. Com o coração desolado, a face terrificada pela carnificina de que fizera parte, ele contemplava o mar de sangue que se estendia diante de seus pés. O rosto sujo, a pele queimada pelo sol e negra de fuligem ardia ante o vento que trazia o cheiro de sangue e de pólvora. Um sentimento estranho e profundo invadia seu peito, suas mãos tremiam.
Por seu rosto lágrimas desciam grossas criando assustadores caminhos pelo negrume de suas bochechas. Pela primeira vez em sua vida ele não soube o que fazer, e não pôde compreender o que se passava. Algo parecia corroê-lo por dentro, como se houvesse respirado aquele gás venenoso que jogavam por sobre as trincheiras. Forçou a garganta por sobre as mãos. Não havia sangue, mas mesmo assim ele sabia que algo ocorria de errado.
“O que me inquieta?” ele pensava. “Que sentimento é esse?”. Olhando por todo o campo de batalha ele procurou seu capitão, talvez ele pudesse lhe dizer o que o que se passava, ou ao menos lhe dizer o que fazer a seguir, era um capitão que sabia dar ordens. Correu por entre os corpos sujos de lama, por entre as armas abandonadas. Saltou trincheiras cheias de gás. Ele sentia medo. Não havia uma pessoa viva ao seu redor, o cheiro de sangue e pólvora crescia.
Encontrou seu comandante escondido entre os arbustos. Respirava com dificuldade, seu corpo já deixara de responder apropriadamente a seus comandos. Mal podia mexer-se. Ele também estava assustado, mas mesmo assim o herói acreditou que ele pudesse lhe dar todas as respostas. Devagar, aproximou-se dele, e apoiando-se na terra molhada sussurrou?
–O que eu sinto? O que ocorre?
O comandante, incrédulo com a pergunta do herói, como se este perguntasse algo cuja resposta fosse tão natural quanto o céu e a terra, olhou em seus lhos com o pouco de energia que lhe restava, estes brilhavam, sorriu levemente e disse, entrecortado por sua respiração ofegante:
–Guer... ra... guer... ra. Ven... ven... nó... nó... nós...
vo... cê... ven… ceu. He... rói.
E no mesmo instante soltou uma longa e divertida gargalhada, antes que seus olhos perdessem completamente o brilho e seu espírito deixasse completamente este mundo. Sem compreender, ainda insatisfeito com a reposta obtida, o herói continuou a vagar sem compreender o que ocorrera naquele campo de batalha. Sem entender a profunda inquietação que assolava seu espírito, fazendo-o tremer e desviar o olhar diante de tudo aquilo que via diante de si. Andando, ele voltou a investigar pelo campo onde muitos de seus companheiros repousavam mortos. Procurava alguém vivo, um superior que pudesse lhe dizer o que significava aquele sentimento dentro de seu peito, ou ao menos que lhe pudesse dar uma ordem, para que fosse adiante e esquecesse completamente tal inquietude.
Vagou por longos minutos, cada um carregando a expectativa de um som de vida, durando um século. Sentia-se preso em um pesadelo solitário. Esforçando-se, tentou se lembrar dos nomes dos companheiros, poderia invocá-los, tentar descobrir por seus gemidos qual ainda permanecia vivo. Não se lembrava de nenhum, apenas de seus números. Aos poucos, enquanto os números lhe vinham à cabeça, se deixou murmurar:
–Mor... te.
Admirou-se com a palavra que saiu dos próprios lábios. Esperava um número qualquer. Balançou a cabeça rapidamente e bateu nos ouvidos, tentando fazer com que ouvissem melhor. Talvez fosse apenas a conseqüência de uma granada que estourara próximo a ele. Sabia de homens que ficaram surdos com isso. Buscou apagar aquela terrível palavra de sua mente. Poderia ter dito “doze”, fora tudo um mal entendido. Num segundo esforço tentou murmurar outro número qualquer, que comprovasse que seus ouvidos ainda funcionavam corretamente:
–Mor... te.
Espantou-se. Estaria louco? Sabia de soldados que enlouqueceram em meio ao campo de batalha, por que pensavam demais, questionavam demais. Mas ele não, não pensara jamais. Tinha medo de que seus pensamentos o fizessem enlouquecer, e sabia que era isso o que acontecia aos soldados que pensavam demais. Ele apenas seguia ordens. Sequer parara para considerar o que fazia, apenas lutava. Assim não ficaria louco. Então, como poderia ter perdido seu juízo? Como poderia murmurar uma palavra e dizer outra? Talvez estivesse mesmo levemente envenenado por aquele gás.
Tirou o cantil da cintura e bebeu alguns goles. A água desceu queimando sua garganta. Ficara muito tempo sem beber. Quando ela atingiu seu estômago, percebeu que também permanecera muito tempo sem comer. Tirou o saco de ração da mochila e a comeu seca, sorvendo pequenos goles de água. Pouco foi suficiente para acalmar seu estômago. Levemente recuperado ele sorriu. Ficaria tudo bem. Decidiu tentar novamente dizer algo, mesmo que num murmúrio. Pensou em dizer a palavra “vida”, talvez assim pudesse refutar completamente aquela outra palavra mórbida que buscava insistentemente afastar de sua mente. Abriu os lábios e devagar pronunciou:
–Mor... te.
Gemeu alto. Bateu as mãos sobre o capacete até fazê-lo cair. Continuou a bater sobre a cabeça, entrelaçando os dedos pelos cabelos, puxou até arrancar os fios. Estava desesperado. Agachou-se e abraçou os joelhos, afundando a cabeça entre eles. Desta vez ele podia sentir claramente as lágrimas quentes sobre sua face. Seu desespero o assustava, tinha medo e ter realmente enlouquecido. Tentava esquecer aquela sensação, ignorá-la como sempre havia feito com tudo em sua vida. Mas tudo era inútil. Ele estava só, e ninguém lhe daria uma ordem em que pensar, ninguém lhe diria o que fazer realmente, sequer poderia conversar com alguém. Não havia ninguém.
Devagar ele se sentou no chão, sem se importar com a lama que cobria o lugar. Com a manga da jaqueta secou a face. Respirou fundo e procurou um novo objetivo que o impedisse de enlouquecer. Decidiu-se por voltar à base, procurar um médico. Talvez estivesse ferido, algo poderia ter-lhe atingido a cabeça. O cheiro de sangue e pólvora poderia estar deixando-o assustado, poderia ser isso. Ele esperava que fosse isso. Descansou um pouco, olhando para o estado de suas roupas. Desejou vestir roupas limpas. Suas meias secas haviam acabado, e seus pés começavam a coçar. Imaginou que deveriam estar fedendo, um fedor pior do que o de sangue e de pólvora. A idéia o divertiu e ele sorriu. Feliz com o próprio sorriso ele riu um pouco mais, e quando viu estava gargalhando.
Olhou para cima e viu uma réstia de sol através do céu nublado. A partir daí pôde acreditar que tudo estava bem. Entretanto, quando ele abaixou a cabeça, foi capaz de vê-lo.
Vestindo uma túnica branca e debruçado sobre um soldado morto. Ele conhecia aquela gente, eram ladrões que roubavam os valores dos mortos em batalha.
Várias vezes ele e seus companheiros, também heróis, haviam visto objetos de outros heróis mortos sendo vendidos livremente pelas cidades, encolhidos entre as prostitutas e os mendigos que tentavam sobreviver nos recantos poupados da guerra. Uma escória sem tamanho, de uma podridão absoluta. Aqueles homens surgiam como corvos atraídos pelo sentimento de morte. Escondiam-se sob máscaras para não serem reconhecidos. Vestiam-se em farrapos e corriam quando viam outros soldados, pois sabiam que seriam linchados, estraçalhados com a baioneta. Ele também os odiava, como todos os odiavam, como seus comandantes haviam dito para odiá-los. Sem temer, o herói se levantou e pegou sua faca. Havia perdido seu rifle e não gastaria balas do revólver. Gritando ele partiu para o carniceiro, esperava vê-lo correr, somente para alcançá-lo como um leão capturando sua presa. Esperava deitar sobre ele todo o seu ódio, e quem sabe esquecer aquela maldita palavra.
Porém, ao chegar perto pôde ver coisas que não havia visto antes. A túnica do ladrão não estava em farrapos, como se acostumara a ver, era branca e limpa, mal parecia tocar aquele chão sujo de lama e sangue. E sua máscara era negra e lisa, de uma madeira que ele era incapaz de identificar. Nela havia apenas dois grandes buracos negros, de onde não se era possível enxergar os olhos. Um ladrão não se vestiria assim, não para roubar cadáveres. Talvez fosse um monge, tentando encomendar as últimas almas ao purgatório. Mas se fosse isso, por que ele estaria debruçado sobre os mortos? Talvez tentasse ouvir seus corações, buscando os últimos vivos para sua extrema unção. Sim, poderia ser isso. Resolveu se aproximar, tentar falar com ele, perguntar se queria ajuda. Poderia fazê-lo definitivamente esquecer aquela palavra.
Guardou a faca e chegou perto, silenciosamente, um costume de farda. O monge parecia sequer notá-lo. Chegou perto o bastante para matá-lo, se quisesse. Permaneceu parado, educadamente, esperando que este o notasse.
Distraiu-se o observando em sua tarefa. Não parecia ouvir corações, ele estava...
–Boa tarde, jovem herói. A voz do monge era doce,leve e inebriante, mesmo assim foi capaz de assustá-lo, de tirá-lo de sua distração.
–Não se assuste com minha presença, prosseguiu o monge, estou apenas recolhendo algumas flores nesse campo.
Flores? Mas aquele era um campo de batalha, havia morte, sangue, medo, não poderia haver flores. Mesmo assim o herói olhou para as mãos do monge e viu que este portava um buquê de flores. Olhou em torno e viu que realmente o campo havia se tornado florido. Mas não eram flores doces e coloridas, mas de um tom amarronzado próximo do barro, e seu cheiro era de um adocicado enjoativo, próximo ao de frutas podres. Além disso, havia algo mais naquelas flores, algo peculiar, uma gama gigantesca de cheiros que se misturavam, mas ele não era capaz de explicar a razão. Conhecia todos aqueles cheiros misturados à podridão, mas não sabia de onde os conhecia.
–Não gostaria de me acompanhar, jovem herói? Tenho muito a fazer e este campo é solitário.
Não soube o que responder. Algo lhe dizia que deveria temer aquela figura. Mesmo assim sua voz lhe parecia tão bela, profunda e assustadoramente bela. Dela não se podia identificar sua idade ou sexo, mas ele tinha quase certeza de que era um homem. Magro, de trejeitos frágeis o monge andava desenvolto por entre os corpos, se curvando sobre ele e colhendo as flores. Ele continuou fitando aquela estranha figura enquanto tentava se decidir se deveria ou não segui-la. A cada flor recolhida o monge parava e o observava, uma sensação estranha dizia-lhe que este sorria. Aquele estava sendo um dia de muitas sensações estranhas. Também havia o medo de pronunciar aquela maldita palavra diante do religioso. O medo de que estivesse realmente louco e de que nada daquilo fosse real.
–Se não vier logo não haverá como me encontrar mais... Disse o monge.
E o herói decidiu-se finalmente por acompanhá-lo. Tropeçando sobre o solo acidentado ele se aproximou e tomou coragem para perguntar, se esforçando naquilo que iria dizer, temendo usar novamente aquela palavra:
–Você é um monge?
Admirou-se ao perceber que pudera falar novamente.
–De certa forma...
A resposta lhe pareceu estranha, mas não tentou questionar o religioso. Apenas prosseguiu:
–Não sabia que havia flores aqui...
–Existem flores mesmo sob o asfalto, e de todos os tipos.
Mais uma vez ele ficou sem compreender o que se passava. As respostas do monge eram tão evasivas, e ele se sentiu desconcertado em buscar novas perguntas. Talvez por que soubesse que suas perguntas eram superficiais, não era aquilo o que ele queria perguntar. Mas duvidava que aquele homem soubesse a resposta para o que o inquietava. Pensou em contar-lhe sobre a palavra incontrolável que havia jorrado anteriormente de seus lábios, sobre aquela inquietação estranha que o fazia pensar. Mas, se contasse tudo aquilo ao monge, este poderia achá-lo louco. E mesmo que não o fizesse, se não esquecesse tudo aquilo, se pensasse sobre o que acontecia, ele ficaria louco, pois é isso o que acontece aos soldados que pensam. Resolveu-se deixar levar pelo monge, seguindo-o e fazendo-lhe perguntas superficiais. Mesmo que não fossem as reais respostas para seu incômodo, ao menos o faria esquecer tudo aquilo, e se esquecesse não precisaria mais pensar.
–Que flores são essas? Perguntou sem qualquer interesse na resposta.
–São flores de Abel, meu jovem.
–Flores de Abel?
–Sim, flores que homenageiam os que foram assassinados.
–Mas... Alguém foi assassinado próximo daqui?
–Por favor, meu jovem, pergunte logo o que realmente quer me perguntar. O que o inquieta.
Ele se espantou. Mas antes que pudesse se conter, como se outra pessoa controlasse seus movimentos, ele viu que de sua boca saiu a pergunta:
–Eu... Eu sou um assassino?
Sentiu-se aliviado e preocupado com o que havia dito, como se algo houvesse sido retirado de seu espírito, para que outra coisa, mais preocupante, fosse colocada no lugar. A pergunta era o que realmente o inquietava? Não, talvez fosse a resposta o que lhe causasse mais medo. O monge então se ergueu e colocou as flores dentro de uma bolsa. A quantidade de flores no campo parecia ter diminuído consideravelmente. Quanto tempo se passara? O herói não sabia, não podia mais ver o sol. O céu agora se tornara escuro e ameaçador, coberto por nuvens negras que se assemelhavam a um enxame de gafanhotos. Esperou a resposta do monge, temendo ter dito algo inconveniente.
Este apenas se aproximou, os buracos negros de sua máscara mostrando uma profundidade vazia, infinita. O herói pensou em recuar um passo, mas suas pernas tremiam. Temeu ter irritado o monge. Ao mesmo tempo as palavras deste se processavam em sua mente. “Flores de Abel... assassinados... quem foi assassinado?”. Então sua mente percebeu algo que ele nunca quis compreender: o temor de se sentir culpado. Retomando a força nas pernas ele se afastou devagar, balançando a cabeça e murmurando, negando sua própria pergunta, fugindo:
–Não... Não... Não é isso. Não... Não pode ser... Não, eu.
O monge se aproximou mais. Segurou seus ombros para conter sua fuga. Tentou desvencilhar-se, mas a força dele era maior. Suas pernas escorregavam sobre a lama. Seu rosto encheu-se de um terror extremo. Buscou desviar os olhos daquela máscara demoníaca portada pelo monge, mas este o sacudiu para que seus olhos se fixassem naqueles assustadores abismos.
E através daqueles buracos negros ele viu a si mesmo, correndo como um animal por aqueles campos, com o revólver em uma das mãos e a faca na outra, cortando e atirando numa confusa carnificina. Gritando para si mesmo que se tornaria o herói daquela guerra. E viu seus companheiros caindo ao seu lado, também como bichos, também se dizendo heróis. E em seus rostos o que via era uma estranha felicidade. E todos tombavam murmurando: “Somos heróis. Somos heróis”. E ele também gritava desesperado: “Sou um herói!”. E quando o último de seus inimigos caiu, apenas ele havia restado. Não existiam mais companheiros, não havia mais os inimigos. A guerra havia terminado e ele era seu herói. E gritou para os campos, para as nuvens e para os mortos que ele vencera aquela guerra, que ele fora o herói das nações corrompidas e daqueles que sofreram sob o ferro e o fogo. Mas então, teve aquela estranha sensação, aquele estranho momento em que perdia a felicidade de tudo e que percebia que algo estava errado. Devagar ele recolocou sua arma no coldre, e nada a partir dali fez sentido. Ele pensava pela primeira vez, desde que aquilo havia ocorrido, desde o começo daquela guerra maldita. E seus pensamentos não lhe diziam que ele era um herói. Mas todos os mortos diziam que sim, e seus comandantes diriam que sim, e ele queria que fosse assim. Mas, em um campo onde se colhia flores para os assassinados, seria ele o último dos assassinos?
–Não... Não... Não... nãããããão!
Seu grito ecoou por todo aquele campo. E foi tão forte que o monge o soltou. Desequilibrando-se o herói caiu. E mesmo entre a lama, mesmo entre os mortos ele gritou para o monge:
–Eu sou um herói! Um herói! Herói. Não sou um assassino. Não sou!
O monge se curvou sobre ele, sua túnica branca esvoaçava ao seu redor, mas não tocava o chão. E sua brancura era pura e perfumada. O herói pensou em puxar sua arma, em destruir aquela figura que o atormentava, que alimentava sua loucura. Era tudo uma ilusão? Ele não sabia, mas queria desesperadamente que aquela figura desaparecesse sob toda aquela sujeira, carregando consigo aquele despertar para o pensamento, aquele despertar para os sentimentos, para a culpa e para o desespero.
Quando aquela guerra se iniciara ele havia aprendido a não pensar. Não havia culpa, medo, lágrimas. Apenas o desejo desesperado pela vitória e pelas honrarias de se tornar um herói. Vivo ou morto. Todos eram superficiais e artificiais, como soldados de chumbo vindos em pequenas caixas de madeira. Todos produzidos pela mesma prensa, com as mesmas formas. Soldados e soldados e mais soldados. Todos destemidos. E não havia por aqueles que partiam mais do que a sorte das medalhas, sem lágrimas, sem dor. Não eram amigos, eram soldados e soldados não sentem. Soldados não perguntam. Não se sabia o motivo real da guerra, ela era o que era. Não cabia ao soldado saber nada além do gatilho do fuzil ou do corte da baioneta. E se manter vivo era apenas uma importância tática, pois o verdadeiro futuro se escondia no paraíso dos heróis. Dos aclamados pelo povo.
Mas agora, ali, naquele campo sombrio, diante daquela enigmática e branca forma, apenas o que via eram mortos. Heróis mortos que não aclamariam outros heróis, pois suas almas agora deviam vangloriar-se de seus feitos no paraíso imaginário que lhes havia sido prometido no momento em que colocaram os pés sob aquele solo distante. Quem lhe aclamaria então? Quem lhe chamaria de herói naquele meio? Por que lutara? As perguntas antes ignoradas invadiam sua mente, dilacerando sua armadura de ignorância. E seu coração agora viajava também por tudo o que havia deixado para trás. Famílias, amigos, amores. Ele estivera vivo, em algum momento de sua vida, em algum momento antes daquela maldita guerra, ele foi capaz de pensar, de articular, de lutar por caminhos egoístas. Ele foi um humano além das armas. Ele possuía um nome. Mas agora sequer se lembrava disso. Era apenas o herói número tal, inserido em outros tantos confusos números que se perdiam de vista por entre papeis e burocratas. Ele havia despertado, talvez renascido. Algo que permanecera escondido dentro dele, outro “eu” havia acordado, e estava desesperado pela verdade, por respostas. Lutando contra seu outro lado, irracional, bélico, que tentava desesperadamente esquecer a culpa.
–Não...
Ele não queria...
–Não posso...
Ele não podia...
–Não posso pensar...
E ele gritou para o monge que permanecia diante dele. Gritou para todos os que pudessem lhe ouvir. Gritou como quem está se afogando em areia movediça, gritou como quem pede ajuda:
–EU NÃO SOU UM ASSASSINO! EU NÃO SOU UM ASSASSINO!
E o monge então tocou seus ombros, desta vez com gentileza. E com uma voz suave ele disse:
–Eu nunca disse que era. Mas tudo depende das suas crenças. E da sua consciência.
E devagar ele se virou para a direção contrária. Não havia mais flores naquele campo. Teria havido algum dia?
Ofegante, confuso, sentindo-se sujo em todos os poros de seu corpo, o herói ergueu-se rapidamente e correu em direção ao monge. Mas seus passos pareciam tão rápidos, em oposição aos seus, tão pesados, que ele não foi capaz de alcançá-lo. E antes que desaparecesse na linha do horizonte ele gritou:
–Quem é você? Por que está aqui?
O monge virou-se e disse:
–Você sabe esta resposta. Foi você quem me chamou aqui.
E continuou andando até desaparecer, ante o olhar confuso do herói, que não era capaz de diferenciar se aquilo havia sido real ou não. E o céu se abriu deixando o sol iluminar o campo de batalha. Incapaz de conter suas próprias pernas ele caiu, sem também poder preservar sua consciência. Um calor terno o invadiu, deixando-o inebriado. Sem mais forças ele se deixou adormecer.

***

Acordou sobre uma maca de hospital. Um antigo e sujo hospital usado para atender aos feridos. Respirou fundo, tendo a sensação de que tudo não passara de um pesadelo. Mesmo assim, aquela sensação inquietante permanecia. Como se algo o estivesse chamando para dentro de si mesmo. Aos pés da cama viu alguma comida, diferente do rancho. Comida fina, requintada. Olhou ao redor para ver se todos comiam o mesmo, e percebeu, com certo medo, que era o único dentro daquela sala. Estava em um quarto particular, algo impossível em outros dias de guerra.
Chamou uma enfermeira e perguntou-lhe o que havia acontecido. Ela informou-lhe que fora encontrado desmaiado no meio do campo de batalha. Perguntou sobre os outros e esta lhe dissera que era o único vivo. E antes de deixá-lo acrescentou:
–Descanse. Você merece isso, herói.
A palavra “herói” ecoou por sua mente como sinos. Sentiu uma dor forte e aguda, como se algo tentasse invadi-lo, ou rompe-lo. Pensou em dizer-lhe seu nome, mas percebeu que realmente não se lembrava dele. “Tudo bem”, pensou consigo, “alguém deve sabê-lo, e uma hora me dirão”. Mas nos dias subseqüentes apenas lhe chamaram de herói. Não teve coragem de perguntar seu verdadeiro nome, pois temia que o acreditassem louco. E enquanto melhorava todos lhe diziam como ele havia salvado a nação da guerra. Tentava não pensar sobre isso, tentava esquecer, mas o título se impregnara sob seu corpo e era exalado como um cheiro marcante. Um cheiro que lhe causava certa náusea.
Quando recuperado, recebeu uma carta dos líderes. Estes queriam sua presença ao assinar o tratado de paz. Era uma ordem. E ele gostava de ordens por que poderia segui-las sem precisar pensar. Feliz, abandonou seus medos e se dedicou a esta nova missão. A missão de ser um herói. E todos lhe sorriam e faziam as vontades, sem saber que a noite algo lhe assaltava e levava para um infeliz mundo de pesadelos onde encontrara-se com aquele monge e com sua própria imagem em combate.
Combatia-se e recombatia-se numa muda e infinita batalha tendo como oponente sua acusadoramente muda figura. Lutava contra si mesmo com facas e fuzis sem ser capaz de vencer e tendo como espectador aquela figura branca, pura e ameaçadora, que o fizera acordar para a realidade. E ao acordar, assustado, sentia-se sujo e a sensação de que algo tentava rompe-lo crescia mais e mais. Pensava na palavra “assassino” e na morte. E assim se seguiu até o dia do tratado de paz.

***

E todos estavam ali reunidos, esperando sua chegada. Vestia uma farda de gala, o peito vazio esperando a medalha. E por toda a cidade carros o seguiam, buzinando e acenando. As mães apontavam sua figura como exemplo para as crianças, e os velhos lhe gritavam coisas sobre guerras antigas e sobre a sua coragem. Os homens o invejavam e ao mesmo tempo o admiravam, numa mistura de amor e ódio. E da janela da limusine ele acenava, sorrindo sem vontade, seguindo ordens. E na grande cúpula de Estado estavam os dois líderes dos países inimigos. Esperando pelo belo momento em que suas mãos se apertariam, suas dívidas seriam pagas. E quando o herói chegou, quando se postou solenemente, em posição de sentido, diante daqueles que um dia foram inimigos, a multidão gritou desnorteada:
–Herói! Herói! Herói!
Saberiam eles seu nome? Alguém poderia dizer seu nome? E atrás da multidão uma enorme parede registrava os mortos, com mensagens de pesar e coragem. Talvez seu nome estivesse ali, talvez ele se lembrasse dele. E talvez assim ele esquecesse seus pesadelos e perdesse o cheiro de herói.
E os líderes se deram as mãos, e sorriram, dizendo que a guerra havia terminado. Que tudo aquilo havia sido um erro e que ele, o herói, havia mostrado a eles a ineficácia de tal selvageria. Ele, que lutara e resistira bravamente contra o inimigo, que lutara por seus ideais. E palavras foram colocadas em seus lábios, palavras de fé e força que ele jamais havia dito. Palavras de amor e coragem que nunca haviam passado por sua cabeça. E seus superiores, que nunca o haviam visto em um campo de batalha, discursaram sobre sua coragem e força de vontade. Sobre sua humanidade e impetuosa vida. Todos citavam coisas que ele jamais havia dito. E pensou que poderia se sentir grato, e mais uma vez sorriu sem vontade. Como era um sorriso sincero? Ele não sabia mais. Quando a medalha foi colocada em seu peito, quando as mãos assinaram o tratado de paz, todos quiseram que ele falasse, todos gritaram:
–Discurse. Discurse para nós.
Haviam preparado para ele um discurso com belas palavras. Sobre amor, paz e soberania da nação. Sobre os mortos e o amor que sentia por eles. Sobre aqueles que haviam perdido e a dor que sentia por eles. Ele sentira realmente dor por eles? E com aquelas palavras tão cuidadosamente decoradas ele subiu ao palco. Deu um longo suspiro acompanhado de um falso sorriso, para simular timidez. Olhou para a multidão e acenou para as crianças. Ao mesmo temo em que a inquietação aumentava dentro dele. Sentiu a mesma sensação de quando enfrentava a si mesmo em seus sonhos. Por um instante pensou que aquele monge fosse surgir diante da platéia para desmenti-lo.
Buscou afastar tais pensamentos da cabeça, esperavam seu discurso e ele iria fazê-lo, iria seguir suas ordens até o fim. Seria a imagem que criaram dele, e nada mais. Era seguro, era o melhor a se fazer. Entreabriu os lábios e disse sorrindo:
–Mor... te.
A palavra ecoou por todo o salão. Todos ficaram em silêncio. Ele se assustou novamente com aquilo. Sua mente parecia girar desesperadamente, enquanto o seu outro eu, antes mudo nos pesadelos, gritava desesperado: “deixe-me sair”. Inquieto, desconcertado, entrando em pânico e se acreditando louco, ele não pôde mais conter o seu despertar para o pensamento. Batendo várias vezes na cabeça, gemendo baixo e tendo sua voz ecoando por todos os cantos, desistiu de se conter, de conter seu pensamento. Desta vez com um suspiro real, num nervosismo real, ele se dirigiu aos líderes:
–Qual o meu nome?
Todos ficaram desconcertados.
–Está louco. murmuravam.
Mas ele sabia que não estava louco. Estava racional, consciente. Vivo pela primeira vez em muito tempo. Queria respostas, queria saber quem era. O cheiro das flores podres chegou até ele novamente. E aquele cheiro confuso que se misturava ao de podridão se tornou claro em sua mente. Era o cheiro de seus companheiros. Aquelas flores eram...
No meio da multidão foi capaz de ver um por um, de aliados a inimigos, todos mortos, mas presos em correntes, com rostos arrependidos e vazios. Sem esperança, sem amor. Eles estavam perdidos naquele campo de pessoas tolas que os chamavam de heróis. Mas todos sabiam seu nome, todos o chamavam pelo nome. E aquele estranho monge estava lá, parado. E em meio a esse turbilhão de sentimentos, ele se reencontrou. E não era mais um herói, era um homem. E sentiu no cheiro das flores o cheiro da morte, misturado com o cheiro de seus companheiros. Uma flor, uma vida. Aquele monge recolhia flores como vidas. Flores de Abel, flores para os assassinados. Todos ali haviam matado e morrido, e ele era o último vivo. O último dos assassinos, portando em seus ombros o peso de todos aqueles que se acreditaram heróis naquela maldita guerra.
Olhou para a multidão, que o fitava perplexa e disse:
–Vocês sabem a causa desta guerra? Vocês sabem por que tiveram de sentir fome? Por que se privaram pelo bem dos soldados?
Não houve resposta. Ele apontou para os líderes.
–Vocês sabem por que esses homens foram inimigos?
E nesse instante os líderes ordenaram aos seus soldados que retirassem aquele homem louco dali. Mas ninguém se mexeu, não ouviam. Pareciam ouvir somente a si mesmos, e àquele homem que se dizia assassino ao invés de herói.
–Tolos. Seus filhos, eu, nós nos tornamos assassinos nesta guerra. E agora restam apenas apertos de mão e muita miséria.
E a multidão desviou seus olhares do seu.
–Pensem! Pensem esse ódio, pensem seus erros.
Vocês realmente se odiaram? Realmente foram inimigos e aliados?
E dizendo isso desceu as escadarias em direção à saída, tirando suas roupas vagarosamente. Aquelas roupas que lhe causavam nojo. Tudo agora lhe parecia claro. As perguntas encontravam-se respondidas em algum ponto cego de sua alma. Sabia ser um assassino, mas sentia-se leve, como um culpado que busca a remissão ao admitir sua culpa. Seus passos lembravam os de um condenado para o cadafalso.
Despiu-se completamente, deixou que sua medalha caísse no chão e pisou sobre ela como se esmagasse um pequeno inseto.
Os líderes esbravejavam por atenção, mas já era tarde. O mundo não lhes via mais. Viam apenas aquele homem nu que não mais era um herói, caminhando em direção ao mural dos mortos. E à medida que avançava a multidão lhe abria caminho. E as mães desviavam os olhos dos filhos, sem saber sequer se poderiam apontar a si mesmas como exemplos.
–Sou culpado por ter lutado. disse o homem que antes fora herói. São culpados por não impedirem. Sou o assassino que carrega o ódio de todos sob meus ombros. E nesta guerra os heróis nada mais foram do que a representação de seu medo. Medo de optarem por não lutar. De confiarem no futuro!
E a multidão não mais murmurava, apenas apertava seus braços sobre suas cabeças, tentando fugir daquele despertar, daquele pensar. E o homem prosseguiu:
–Fomos arrastados pelo ódio e pela intolerância. Morremos mesmo antes de entrarmos no campo de batalha. Onde está meu nome? Quando eu parei de pensar? Tudo se torna claro. Não serei mais herói, serei homem. Os heróis são apenas aqueles que não conseguiram correr da incumbência coletiva de uma falsa salvação.
E todos se ajoelhavam, sem voz, querendo pedir para que parasse. E os líderes, que se consideravam os únicos pensantes do mundo, se contorciam com a dor da culpa, que se refletia convulsamente por todo o seu corpo. E por todo o mundo pôde-se ouvir a voz daquele homem, que esbravejava sobre pensamentos e verdades, sobre mortos e culpados. E todas as guerras do mundo pararam para ouvi-lo. E ante as ordens confusas de líderes loucos, os soldados abandonavam suas fardas e começaram a andar us por campos de sangue. E mesmo sem se dar as mãos buscavam desesperadamente retornar à suas antigas vidas, esquecendo seus números e relembrando seus nomes.
E o homem se aproximou da parede onde todos os nomes eram escritos. E diante da palavra “heróis”, sentiu nojo. E se ajoelhado diante dos nomes de seus antigos companheiros e inimigos ele disse:
–Perdoem-me. Somente agora sei seus nomes. Somente agora vejo seus rostos, e sinto os cheiros. Somente agora não desejo mais ser o último herói. E, se neste mundo, há realmente de existir heróis, teremos que encontrar um novo sentido para isso.
Lágrimas escorreram por seus olhos, enquanto uma chuva fina caía dissolvendo os nomes daquela estranha coluna de mármore. E todos partiram, sentindo pesos em seus corações. E o cheiro dos mortos não era mais o de uma podridão adocicada, como se algo os purificasse. E estes também passaram por ele, libertando-se de suas correntes, e se esvaindo diante das paredes e das gotas de chuva. E o monge foi o último a compor essa romaria. E antes de desaparecer ele tocou o ombro do homem que chorava.
–Você é a morte, não é. Perguntou o antigo herói, cônscio de que tudo aquilo fora real. Era real.
–Sou apenas alguém que abomina algumas formas de sua própria presença.
A figura de branco se esvaiu por entre os pingos de chuva e as lágrimas. Mesmo por trás da máscara o homem pode saber que sorria. E se erguendo, nu e limpo como jamais se sentia antes, murmurou para si mesmo:
–Se mesmo a morte abomina a guerra, então os homens não passam de tolos brincando de destino.

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