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quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

A chegada da rainha bailarina


Olho para a lua que desponta no céu. São quase oito horas. Reviso mais uma vez meus trajes no espelho. A túnica branca, de gala, os cabelos negros agora quase tão grandes, em protesto aos cabelos que caem na parte de trás. Meu medalhão se despedaçou no último ano, em minha guia restam apenas seis linhas. Alguém tentou destruir o amor e meu coração, mas isso acabou tendo um preço alto em ambos os lados. Minha pele oscila entre o tom alaranjado e o branco habitual, isso mostra que estou nervoso, muito nervoso.
Me recuso a olhar para baixo, para a multidão que se aglomera diante da imagem gigante de Oxalá, maior mil vezes do que eu, esperando que a noite tenha seu ápice. Eu sinto um frio horrendo na barriga. Penso que talvez não possa fazer mais nada senão aceitar que ontem revelei a você um dos meus segredos mais profundos. Aquilo que faz parecer apenas um garoto assustado e covarde. Espero que hoje seja capaz de compreender que as forças que me levaram a criar esse lugar foram maiores do que o meu próprio coração. Haverão mais portas além deste lugar? Eu ainda não sei. Sei apenas que agora você sabe. Tenho medo de que pense que sou louco, afinal de contas, namora um médium que já foi um mago, que já foi soldado e que se refugia dentro de sua própria mente. Atualmente você sabe tudo sobre mim, tudo. E tem em suas mãos meu bem mais precioso: o coração que eu escondi por tantos anos dentro deste mundo. Ontem você me disse que eu ainda escondo muitas coisas, mas a verdade é que eu passei muito tempo nas trevas. Era preciso, para entender a crueldade humana, para saber como lutar contra as trevas no meu próprio coração. E agora, diante da nova luz desse tempo, do presente que os mensageiros do espaço me deram, não tenho mais medo de me revelar. Eu não morrerei jamais, não mais me consumirei. As três vertentes da minha consciência se uniram e agora eu aceito, sem medos, que todos nós temos uma força criadora, uma força destruidora e uma força auto-destruidora nos leva por caminhos distantes, que nos faz seguir em frente.
Tarugo se aproxima de mim. Aquele que deveria ser o líder da Baía Subterrânea se porta como parte da minha consciência. Sempre ao meu lado. O primeiro personagem independente que criei. Ele traz minha espada, que eu pensei estar em uma dimensão paralela.
“Ela insiste em aparecer, Capitão, quer estar contigo”.
“Tarugo, eu prometi nunca mais usar essa espada”.
“Mas isso não muda o fato de ela fazer parte de você, assim como não pode esconder as manchas vermelhas e negras em suas asas, que mostram a impureza do seu coração. Além do mais, essa é uma prova da sua escolha em não lutar”.
Pego a espada resignado e a prendo em meu cinto. Automaticamente a cor da bainha se adapta ao branco da túnica. Madrepérola. Quase oito horas, quase oito horas e eu vejo aquela bolha descer pelos céus. Você desce devagar, e para mim não há mais tempo. Estalo os dedos ao invés de saltar janela afora. O que você irá pensar das minhas asas? Escondo-as envoltas em meu ventre da melhor maneira possível. Todos os reinos estão ali, todos olham para cima, todos esperam. Você chega, usando sua roupa de bailarina. Infelizmente verá que não me visto de palhaço, mas de mago e soldado. Algumas coisas não podem mudar tão rápido quanto eu gostaria.
Você atravessa admirada a representação gigantesca de oxalá, que parece abraçar meu mundo inteiro. Você está em Déltaca, meu amor. Meu reino, meu refúgio, o lar daquele que não foi aceito, o lugar onde travei as maiores batalhas contra mim mesmo, onde aprendi a enfrentar meus medos, e onde me tornei uma parte do que sou hoje. Bem vinda aos confins do meu coração, meu amor.
Todos murmuram: “É a rainha bailarina”, alguns dizem: “É a rainha humana”, outros ainda dizem: “Finalmente nós teremos uma rainha”... Eu apenas te espero descer. Jonas, a grande embarcação em forma de baleia se ergue aos céus, saída do mar, e rodeia tua chegada. Todos pensam que eu faço isso. Mas agora, você, e só você sabe, que ela controla sua própria vontade. Tem sua consciência. Não é uma máquina. Não uma simples máquina. Agitando suas barbatanas ela consegue mover o próprio vento. Ela se move com a força mística da própria terra que criei, como tudo ali. E quando você finalmente pousa, ela se coloca ao nosso lado, gigantesca, mas com uma suavidade tão profunda que sequer notamos seu pouso. Sal bolha estoura e desaparece. Eu sigo até você. Não digo nada, apenas te abraço. Minhas asas ainda permanecem escondidas em mim, mas se agitam.
Não dizemos palavra. Apenas estalo os dedos e vejo brotarem do chão, cadeiras feias de macieira. Você se senta sem perguntas. E eles vêm.
“Sou a Avó Tarugo.”, a velha tartaruga diz, ”Venho em nome dos meus lhe dar a força ancestral da consciência. A única verdade absoluta de que Deus nos criou para sermos bons, apesar de tudo o que há de mal”.
E ela se afasta lhe dando um abraço. Conforto, para sempre se manter a consciência em paz.
“Eu sou João, o Tatu.”, o velho Tatu diz, “Venho em nome das Terras Profundas para lhe dar nosso maior bem: a humildade dos tempos. Não que já o tenha. Mas é nosso maior bem, nessa consciência que somos”.
Ele se vai, deixando em suas mãos um punhado de terra. Terra que sempre aceita a apssagem do tempo.
“Eu sou Marino”, diz o cavalo marinho de porte Militar, “E essa é minha esposa, Água. Viemos até voz, pelos reinos de Deltlântida, dos animais marinhos, dar-lhe a coragem, para enfrentar os inimigos antigos e os que virão. Para que tenha forças para enfrentar teu passado e teu futuro. Mesmo em tempos onde não há guerra, deve saber que pode tirar forças de dentro de ti a qualquer instante”.
Quando ela lhe deixa. Suas mãos tem uma pequena pérola, com uma espada dourada incrustada. Algo resistente para um coração que há de ser para sempre forte.
“Eu sou Palhaço, da casa de palha, prefeito do litoral”.
“Eu sou Palito, da casa de pau, prefeito da floresta dos porcos”.
“Eu sou Pedrito, da casa de pedra, prefeito da capital Déltaca”
“Nós somos os três porquinhos.”, eles dizem juntos, “E trazemos conosco a esperança”.
E o seu presente é a areia do mar, a poeira da cidade e a casca das árvores. O mundo é diverso e todos se adaptam, se quiserem sobreviver.
“Eu sou o Ancião.”, diz a velha formiga, que de tão pequena, mal aparece em nossas vistas, “E trago a você a técnica, necessária para que enfrentemos as obrigações do mundo. Quanto mais se sabe, mais se pode enfrentar. Quando mais se sabe, mais se pode encontrar. Quanto mais se sabe, mais se pode enfrentar. E por isso, sempre poderá ser uma aventureira.”.
E centenas de formigas trazem para teu colo uma pequena caixa de música, feita do material mais dourado que se pode encontrar. Algo um pouco além do ouro. Muito além deste mundo.
“Meu nome é Imperial, e essa é minha esposa, Nina.”, o jovem pingüim diz, “Viemos das terras de gelo, onde o inverno é tão rigoroso que muitas vezes nossos corações congelam. É por isso que trazemos compaixão e força. O que se precisa para seguir em frente.”.
E eles te entregam o coração de cristal. Claro como o gelo, duro como pedra, mas belo.
“Nós viemos de terras ancestrais, terras antigas. Eu sou Fantor, da Montanha Florida, a antiga Montanha Congelada.” e o séquito que acompanhava o grande elefante, formado por ratos, lobos e todos os outros animais que sobreviveram à destruição do primeiro mundo, se aproxima de você. “Nós trazemos a fé. Necessária para nunca se desistir”.
E em suas mãos ele deixa a castanha. A semente que se defende de todas as agruras antes de poder germinar.
E então elas surgem. Germinando do nada ao seu redor, te envolvendo. Te cercando completamente, te cobrindo até mesmo da minha visão. Será que você ficou assustada? Eu não sei. Quando elas saem, lhe deixando em mãos centenas de sementes, eu lhe digo:
“Essas, minha rainha bailarina, são as teimoses. Elas trazem a diversidade e a escolha. Você pode ser o que quiser, quando quiser, se lutar por isso.”.
E por último elas surgem voando. Belas, doces, singelas. O reino novo que me pediu nasce. Ilhares, centenas de milhares, todas voando ao seu redor e cobrindo seu trono de flores. Nascidas das terras floridas surge o reino das borboletas e das joaninhas. O único lugar em meu mundo que não foi criado por mim. O primeiro lugar criado por ti.
Elas nada dizem, apenas dançam, dançam e te envolvem, e te enlevam pelos céus. Eu apenas observo. Espero elas lhe colocarem no chão. E quando elas retornam, você tem as asas de uma joaninha, transparentes e brilhantes, do mesmo rosa claro de teu vestido. Você agora pode voar. E assim eu abro minhas asas, manchadas pelos meus defeitos e minhas dores, mas cada vez mais brancas e puras. E antes que possa se surpreender, deixo meu corpo flamejar, me torno o pássaro faminto de vida e renascimento que sou, me torno fênix e te agarro entre minhas próprias asas. Te levo para longe.
Paramos diante de uma montanha, um vulcão puro, doce e quente, onde aos pés se encontra o primeiro lugar que criei, de todos eles. Meu lar verdadeiro. Não como meu antigo castelo de fogo, com sua forma octogonal, antes negra como o ébano e agora branca como a laca. Um lugar simples, um simples quarto, quente, com janelas de vidro antigo, cortinas e um pequeno fogão. Uma cama macia de palha, coberta com uma colcha de retalhos. Não o lugar digno de uma rainha, mas o lugar de onde meu coração começou. Levo-a até lá, ao recanto mais oculto do meu coração, para poder dizer-lhe algo que é primordial. Algo que já lhe disse, mas que talvez deva repetir, com todas as minhas forças:
Minha rainha bailarina, que mais posso te oferecer senão o sonho e sua realidade? O meu mundo sombrio e escondido, de onde vejo o céu e as estrelas sempre? Sei que nunca será suficiente, mas é o que tenho de mais precioso. O único lugar intocado do meu coração. O ar da minha consciência. Era, minha rainha, como uma sombra que vagava pelos cantos, antes de me libertar de meus grilhões sombrios, de minhas dores. E aqui, onde a beleza parece intensa, mas onde a vastidão de tudo me faz pensar em um deserto de sentimentos; Aqui onde as almas humanas não tocaram, apenas eu, fugindo das perseguições, do ódio da humanidade, eu lhe digo a verdade em meu coração. A verdade mais pura.
Eu a protegerei, rainha bailaria, com todas as forças do meu coração. Eu cuidarei de ti com a coragem que brilha em meu peito e te farei feliz. Essa é a minha promessa. Se houver força no mundo que queira te ferir, eu lutarei por ti com a sabedoria que me foi dada em tempos anteriores a esse, e com a força que encontrei para lutar nesse mundo. Quando quase morri no passado, encontrei forças em tudo o que é divino e puro e continuei minha jornada por entre terras sombrias. Meu coração não é belo. É cheio de cicatrizes, mas é pela força delas que te prometo a felicidade eterna, a força, o sonho e tudo o que existe de mais forte.
Pela primeira vez, rainha bailarina, adentra meu reino, vê minha verdadeira face perdida em pensamentos, vê o único lugar inatingível do meu coração. Vê meu espírito e minha coragem. Por você, rainha bailarina, eu abro as portas desse coração sombrio. E por você eu digo: te amarei eternamente. E este reino é teu agora, para criar e recriar, para lutar e viver por ele, por mim, por tudo. E neste reino criaremos nossos filhos em suas historias de dormir, e criaremos nossos próprios corações. E neste reino eu te mostro as armas que reuni para enfrentar o mundo, para não morrer, para permanecer vivo e te encontrar. Te encontrar para sempre.
E, ao abrir este reino, me revelo em minha força e fragilidade. E te trago meu coração em farrapos. Para que seja você aquela a restaurá-lo com tuas esperanças sagradas. Restaurá-lo das dores do mundo. E enfim, minha rainha, posso beijar-lhe os lábios e descansar em paz. As batalhas que houverem, de hoje ao fim, serão batalhas duras, mas felizes. Não estou mais só. Não estará mais só. Promessa.
Te amo, minha futura esposa.






terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Casulo

Queria poder achar
Um lugar para onde fugir
Onde estar um pouco mais
Com você...
Por um segundo em paz
Sem olhares, sem vigias.
Quero encontrar
Um lugar secreto
Longe das sombras
Dos escombros sombrios
Do sangue vazio
Daqueles que não nos desejam.
Vou procurar um meio
De te levar pra dentro de mim.
Para além das trevas
Do tempo de escolhas ruins
Além de todos os pesadelos
Dentro dos meus sonhos
De mago antigo.
Quero levar teu coração comigo
Quero fechar o tempo
Quero que passar contigo
Os sonhos de um mundo inteiro
Quero encontrar meu jeito
De te levar ao nosso
Lugar secreto, envólucro
Onde possamos amar
Sem medo...

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Quatro Queijos*


Faz um frio do caralho. Meus pés doem, minhas costelas não se recuperaram completamente. Ando com as mãos nos bolsos e os braços bem colados às ataduras. Se eu mover minimamente meu quadril, sei que consigo fazer tudo o que tenho que fazer sem me machucar de verdade. Se eu tiver que lutar, bom, vai ser um saco, mas tudo bem. O cheiro da noite me faz bem, ficar preso dentro de casa me deixa aflito, me sinto inútil. A licença médica falsa que arranjei mantém meu chefe distraído. É bom sair à noite, mesmo que envolto em uma blusa de frio velha da década de oitenta. Estou de tênis All Star, não me animei a vestir social. Mesmo sendo como um uniforme para mim, não quero ser visto, não quero ser destacado no lugar onde vou.
Quando saí, Melissa tentou me dizer algo, mas não prestei atenção, apenas saí. Acabo de deixar a entrada do prédio e só preciso esperar. Dez... nove... oito... sete... seis... cinco... quatro... três... dois... um... sinto o cheiro de damas da noite. É assim que ela tenta disfarçar sua presença. Ela acha que se não fizer barulho, se disfarçar o cheiro, tudo estará bem. Erro grande. Como eu posso sentir cheiro de damas da noite se não há nenhuma na rua? Me pergunto se ela nunca usou isso em uma perseguição real. Ia descobrir cedo que não dá certo.
–Melissa, se você quer vir comigo é só falar. Eu não vou brigar com você...
Ela se esconde muito bem em qualquer planta que toque. É quase como se ficasse invisível. Vejo-a sair de trás de uma árvore como se fizesse parte dela. Tenho que entender os poderes dela, tenho que compreender quais são seus limites. Antes eu achava que ela controlava o vento, mas com o tempo percebi que são as plantas, sempre as plantas. Desde que foi para minha casa, encontro pequenos vasos de flores espalhados pelos cantos, e o vaso de espadas de São Jorge, que não sei para quê servem.  Espero não acordar um dia e descobrir todas essas plantas tentando me sufocar.
–Desculpe.– ela diz – Não estava tentando fazer nada errado.
–Por quê diabos você está me seguindo, garota? Você pode dizer?
Ela fica calada, eu não insisto. Fico calado também. Apesar de tudo, ainda não conversamos muito. Seguimos um ao lado do outro. O silêncio não me incomoda, mas ela parece um ratinho ansioso. Eu pensei que no convento onde ela vivia as pessoas estavam acostumadas com o silêncio, mas percebo que cada vez mais o silêncio a incomoda. Se ela quer conversar por quê não abre a boca e fala? Acho que em parte isso é culpa minha. Fui meio duro com ela mas, porra, ela estava com os caras que queriam me matar! Quando lembro disso não consigo ser tão condescendente assim. Mas as coisas estão melhorando. Pelo menos eu acho.
–Você devia estar em casa.
Ela diz com uma voz que mal percebo.
–Quê?
–Nada, não...
Suspiro.
–Eu precisava sair de casa.
Ela se anima a responder.
–Mas você precisa descansar.
–Eu já descansei. – respondo, tirando um cigarro do maço e colocando na boca. Quando acendo, sinto o calor da fumaça me invadindo. Isso me acalma um pouco. Tento pensar em como ser gentil com ela. Continuo:
–Escute, Melissa, eu estou bem. Só preciso resolver umas coisas e aí volto pra casa. Está bem?
Acho que a voz mais suave pareceu falsa. O ruim de fingir ser um cara amoroso demais, ou fingir ser durão demais, é que quando você está com raiva de verdade, ou tenta ser gentil de verdade, as pessoas não acreditam. Como ela nunca me viu sendo muito gentil, deve pensar que estou mentindo. Tenho que ser menos duro com ela, um pouco mais sincero. Não sei porquê, mas fico pensando nas palavras que Pumpkin me disse enquanto arrumava minhas costelas. Melissa tinha ido buscar um pouco de água e a bruxa disparou:
–Olha, Diógenes, seja gentil com ela, tá?
Fiz cara de quem não entendia nada.
–Ela acabou de se desligar da Inquisição. Está confusa. Ficou um ano procurando o passado dos pais antes de te achar. Está perdidinha. Lembra como você ficou quando perdeu tudo? Pois é, o caso dela é pior. Ela perdeu todo um passado.
Fecho a cara.
–Não faça essa cara pra mim. Eu não caio nas suas manhas de menino mimado. Assim como não caio nessa sua pose de machão. Você é sensível quando quer. Seja agradável com ela, tá? Esse papel de menininho emburrado que você vêm representando já encheu o saco.
Talvez aquela bruxa velha estivesse certa. Talvez fosse a hora de tentar deixar o passado pra trás. De certa forma o caso dela é pior. Tenho que ter paciência, mas com cautela.
–Onde nós vamos? Ela pergunta.
–Comer pizza. Eu digo.
–Mas eu fiz sopa e pão de cebola.
Credo. Se eu comer isso um pouco mais, acho que me atiro pela janela.
–Você já comeu pizza, Melissa?
Ela faz que não com a cabeça.
–Mas você passou um ano fora do convento.
Ela abaixa a cabeça, fica vermelha. Eu percebo o quanto sou idiota.
–É difícil experimentar coisas novas quando se está sozinho, né?
Ela faz que sim com a cabeça, e fica mais vermelha ainda.
–Hoje você vai comer pizza.
Damos mais alguns passos e ela acelera para me acompanhar. Comparada comigo ela é muito pequena, tem que se esforçar para me seguir de perto. Acho divertido e, enquanto jogo o toco de cigarro na calçada, não deixo de sorrir um pouco. Ela nota.
–Cê não tá rindo de mim, não, né?
É a primeira vez que noto certo enfezamento no olhar dela. Não deixa de ser engraçado. Rio um pouco mais.
–Não tem graça. – ela diz – Não tem graça, tá? Tem gente que nunca comeu um monte de coisas nesse mundo.
Eu rio mais ainda. Ela perde a paciência.
–Ah, é?
Estala os dedos e uma raiz cerca meu pé. Tropeço e caio no chão com um baque surdo. Minhas costelas parecem ranger. Dói muito. Só quando dou um gemido ela percebe o que fez.
–Me desculpe, me desculpe, me desculpe, me desculpe. Por Deus, eu me esqueci, esqueci, eu sou muito burra. Sou muito burra. Muito, muito burra mesmo. Me desculpe.
Ela me levanta do chão. Quando olho para ela percebo que está chorando.
–Me desculpa... me desculpa... eu fui má... ela murmura.
Não sabia que ela chorava tão facilmente.
–Melissa, eu chamo, Melissa... ela não me olha nos olhos. Seguro forte em seus ombros e a obrigo a me olhar. Rímel escorre pelos olhos. Só aí percebo que, desde que deixou a zona, ela sempre se maquiava um pouco.
–Melissa, – continuo – não tem problema. Acontece. Entende? Não é burrice, é só uma brincadeira. Às vezes as pessoas exageram.
–Mas eu fui má. Ela diz, soluçando.
–Não foi, não, Melissa. Você só perdeu a paciência, só isso. Não matou ninguém. Eu não devia ter rido, também. Você me desculpa?
Ela se acalma, faz que sim com a cabeça. Só aí percebo o quanto havia se tornado submissa nos anos de convento. Até mesmo brincadeiras bobas pareciam pecado. Também entendo a dificuldade dela em se aproximar, em dizer as coisas. Ela não sabia conversar. Quando eu a vi lutar, em todas as vezes, quando a vejo cuidando das plantas, ela tem aquele olhar de mulher madura, mas para as coisas que não conhece, simplesmente lança um olhar infantil a tudo. Ela se lançou para o mundo sem a mínima noção do que ele era. Pumpkin estava certa: eu devia ser muito gentil com ela. Sendo assim, fiz algo que não sei se era certo ou não. Eu a puxei para perto e a abracei. Ela começou a chorar novamente nos meus ombros. Me abraçou forte. Minhas costelas rangeram novamente, mas fiquei calado. Quando ela me soltou estava bem melhor. E aí percebi que tremia. Fazia um frio do cacete e ela estava com as roupas de dentro de casa. Provavelmente deve ter saído correndo atrás de mim. Saí de surpresa.
–Toma.  Eu disse tirando minha blusa de frio e dando a ela. Hoje eu estou um doce de coco com abóbora, penso.
–Não, – ela diz. Eu insisto com um movimento das mãos e ela continua – A irmã Maria de Praga disse que o frio é uma boa penitência para quem erra.
Se eu me lembro bem, essa freira velha era uma das poucas mulheres na inquisição. Quando Alberto entrou no convento ela atirou nele com uma besta sagrada e ele a colocou em cima de um castiçal. O mais alto do convento.
–Escuta, Melissa, ela não está aqui agora.
–Mas você está com frio.
–Não estou mais.
–Você está mentindo.
–Não estou, não, Melissa.
–Está, sim.
–Ai, saco. Pega logo a porra da blusa.
Acho que ela ficou com medo de eu me irritar. Pega a blusa, veste e olha para mim, com uma cara que ela acreditava certamente ser de agradecimento.
Alguns passos depois e chegamos à pizzaria. Cheia de mesinhas coloridas, todas ocupadas, menos aquela do fundo, escura, sem molhos nem nada. Começo a andar para ela, e me surpreendo quando Melissa começa a correr, põe um terço em mãos e começa a murmurar alguma coisa em latim. Me apresso para segurá-la pelos braços, e tapar sua boca. Ela faz força para que eu a solte. Uma das cadeiras da mesa vazia se deita bruscamente contra a parede. Poucas pessoas conseguem ver aquele fantasma. Eu era uma delas e, aparentemente, Melissa também. O dono da pizzaria, Naldo, é a terceira, e chega a seguir, esbaforido, com seu corpo cansado de velho.
–Quem é essa louca, Diógenes? Quer espantar a clientela?
Só aí ela percebe que está fazendo algo errado.
–Melissa, calma, calma! Eu digo.
–Ele é uma alma perdida, Diógenes. Um fantasma. Precisa ser exorcizado! Me solta!
Todos olham para nós. Na certa pensam que ela é louca.
Chego perto do ouvido dela e sussurro:
–Melissa, Melissa, calma. Nem tudo o que é sobrenatural é mau. Calma, calma.
Como se lesse meus pensamentos, Naldo pergunta:

–O que o Cardo fez pra ela? A pergunta do Naldo faz com que ela olhe bem para o fantasma. Não passa de um adolescente franzino, encolhido num canto, com o ar mais amedrontado do mundo.
–Hein, moça? O que o Cardo te fez?
Ela não responde, eu tomo a palavra:
–Calma, Naldo. Ela é nova no assunto. A culpa é minha. Ela não vai machucar o Cardo.
–É bom mesmo, Diógenes. Tudo o que eu não preciso é de uma idiota tentando exorcizar meu irmão.
Fico mais sério.
–Um pouco de respeito, Naldo. Ela é uma dama. E hoje nós vamos comer. Me traga sua maior pizza de quatro queijos.
Ele sai, resignado. Melissa se senta ao meu lado, de cabeça baixa. Conheci Cardo e Naldo quando decidi comer uma pizza, há uns oito anos. Entrei no lugar e percebi que estava cheio, até mesmo no balcão. O único lugar vago era aquela mesa. Fui até lá, me sentei, e só aí percebi o fantasma. Ele me olhava, eu o olhava, o dono se apressou em vir ao meu encontro.
–Moço, essa mesa tá ocupada.
E, curiosamente, foi o fantasma quem respondeu:
–Tudo bem, Naldo. Ele pode me ver. É o Diógenes. Não vai me fazer mal.
Quando o irmão saiu, eu perguntei:
–Como você sabe quem eu sou?
–Ah! – ele disse com um sorriso – Eu sei um monte de coisas. Sei que você é legal, por exemplo, e sei do seu avô, mas não o conheci. Ele não gostava de pizza.
–Não mesmo, eu disse.
Depois disso, meio que ficamos amigos. Devia ter contado à Melissa primeiro. Ela ficou muito confusa, e agora estava ali, envergonhada novamente. Tive medo de que começasse a chorar, mas Cardo era muito bom com essas coisas.
–Oi, Melissa.
Ela olhou para ele, por baixo dos cabelos que caíam, o rosto ainda manchado de rímel.
–Conheci seu pai, Melissa. Ele era um bom homem. Você tem os cabelos bonitos dele, mas tem o rosto teimoso da sua mãe.
Eu não sabia disso.
–Se você tivesse conhecido seu pai, acho que ele falaria de mim. Mas acho que não foi possível, não é? Ele e sua mãe queriam que eu fosse padrinho do casamento, mas infelizmente eu não posso sair daqui. E eu sou mandado para o paraíso se entrar em uma igreja. Você quase me mandou pra lá agora a pouco. He.
Ela ficou vermelha, ia murmurar algo, mas ele a cortou:
–Não precisa se desculpar, Melissa. Acontece. Eu poderia te perguntar se Diógenes te trouxe para me conhecer, mas sei que nunca falei para ele dos seus pais. Mas fique tranqüila, eu não sou um espírito ruim.
Ela abaixa a cabeça ainda mais.
–Eu morri nessa mesa, engasgado com uma azeitona. Deveria ter sido mais cuidadoso. Ele diz isso com ar um tanto condescendente. Me seguro para não rir dessa história, como da primeira vez. Ele percebe e continua, divertido: Eu era muito guloso pra comer pizza, sabe? Estava gastando meu primeiro salário, queria me dar um presente. Pedi muitas azeitonas e me escondi nesse cantinho para comer. Só que eu comi rápido demais e ninguém me viu engasgando. Acharam que eu tava dormindo e só vieram me ver na hora de fechar.
Melissa olhava para ele com ar interessado, principalmente depois que seus pais foram citados. De certa forma a história de Cardo era muito inusitada.
–Quando saí do meu corpo percebi que não podia sair da pizzaria. E só então me vi. He, He. Foi engraçado. Eu gritei feito um louco. E via meu corpo roxo como uma uva. Fiquei desesperado. Tentei gritar para alguém me salvar, sei lá, mas não deu certo. Só quando vieram buscar meu corpo é que entendi que a canoa tinha furado.
Melissa se atreveu a sorrir um pouco.
–Bom, meu pai tinha morrido e minha mãe me fez prometer que cuidaria bem do meu irmão menor. Então fiquei por aqui mesmo, preocupado com ele. Quando meu irmão cresceu, eu o via passando na porta da pizzaria, todos os dias. Naquela época eu já podia fazer coisas que fantasmas fazem, sabe? Como possuir gente e entrar nos sonhos. Azucrinei a cabeça do pizzaiolo nos sonhos, até ele começar a reparar no meu irmão. Um dia ele precisou de um ajudante, eu o possuí e corri pra porta. Gritei meu irmão, e ele veio. Aí eu o fiz contratá-lo com um bom salário. Quando saí, o pizzaiolo estava todo confuso, mas as coisas ficaram por isso mesmo.
Ele sempre ri muito quando conta da contratação. Mas o pior ainda está por vir:
–Quando percebi que as coisas estavam bem, eu meio que apareci pro meu irmão. Ele gritou como uma menininha e saiu correndo, todo mijado. Mas mesmo assim voltou para trabalhar no dia seguinte. Ficava me ignorando porquê achou que estava louco. E quando eu falava demais, ele punha as mãos no ouvido e cantava música caipira.
Nessa hora, pela primeira vez, eu vi Melissa gargalhar. Ela riu alto, mostrando os dentes brancos. Lágrimas pequenas saíam dos olhos. Eu comecei a rir também. E Cardo também. Quando Naldo chega com a pizza e nos serve, apenas o ouço murmurar “Essa história não tem graça, nenhuma”, e sair pisando duro.
–Primeiro pedaço dela, Cardo.
Ele ri, extasiado.
–Então prove logo, menina. Vamos ver o que acha. Mas faça do jeito certo, como se deve. Diógenes, mostre a ela.
Coloco um fio de azeite sobre o queijo quente, corto um pedaço e entrego o garfo a ela. Melissa olha para nós dois, como se estivesse constrangida.
–Coma logo. Ele diz, impaciente.
Ela prova. Mastiga com cuidado. O cheiro do orégano ativa meu estômago.
–Isso é bom. – ela diz – E começa a atacar o prato com a avidez de um cão abandonado.
Não falamos de nada sério. Cardo nos diverte com piadas. De tempos em tempos o irmão vem e corrobora algumas histórias. Ficamos sabendo que ali ocorrera o primeiro encontro dos pais de Melissa, e de que eles se amavam muito. Discorremos sobre vários tipos de pizza e suas utilidades. Naldo dá uma taça de vinho a cada um. Melissa se arrisca a tomar um pouco (bem como eu pensava). Cardo é terno e doce com ela. Sabe fazê-la sorrir. Teria sido um bom galanteador se estivesse vivo, e se não parecesse tanto um adolescente cheio de espinhas. Todos nos divertimos. Quando a pizza acaba, encomendo pedaços soltos. Acho que Melissa precisa saber o gosto de pizza fria com café.
Mas a verdade daquela visita, não é uma simples noite de pizza. Em outros tempos eu até me daria a esse luxo, mas agora, no atual estado das coisas, não podia ser feito assim. Uma verdade mais profunda é a de que Cardo podia ouvir coisas, coisas que outros fantasmas diziam. Fantasmas de verdade, não loiras do banheiro produzidas pela má realidade. E os espíritos falavam, falavam muito. Por isso eu ia lá quando as coisas estavam obscuras. Naldo não era muito meu fã, mas obedecia bem ao irmão mais velho. E eu buscava conselhos. Não parecia, mas aquele fantasma tinha mais de noventa anos. E, aparentemente, eu não era o único ali a saber de sua existência. Mais pessoas o viam. Algumas jamais voltavam à pizzaria, outras, mais tranqüilas, conversavam com ele. Mas no geral, Naldo não deixava muita gente se sentar naquela mesa. Agora, com quase oitenta anos, e tendo comprado o estabelecimento dos antigos donos, ele ainda mantinha respeito pelo irmão e esperava por sua morte, quando ambos iriam embora. Se bobear, acho que serei da última geração a tê-lo por perto.
–Melissa, – o Gasparzinho diz– um dia eu quero que o Diógenes te traga até aqui. Mas hoje, não. Hoje não posso te contar as coisas que quer me perguntar. Espere um pouco mais, sim?
Ela faz que sim com a cabeça, agora sorri. Ele se volta para mim:
–Fale, meu amigo.
Conto a ele sobre o lobisomem, conto sobre a figura do trovador.
–Ah, sim, o trovador. O trovador, o violeiro, o músico. Tenho ouvido falar dele. Parece que está reunindo tudo o que existe de místico nesse mundo. Tudo o que vive na má realidade. Parece que algo grande vai acontecer. Eu estou com medo, Diógenes. Vampiros espirituais têm aparecido. Tenho sentido a presença de mulas, sacis, luzes estranhas. Muitos espíritos têm desaparecido. Há uma grande raiva no ar.
–Raiva contra o quê, cara? Pergunto sem compreender muito bem onde ele quer chegar.
–Não sei, Diógenes, mas algo está ecoando por toda a cidade, por toda a má realidade. Algo com fúria assassina. Algo está juntando seguidores e perseguindo opositores, por isso tudo está tão tranqüilo. Algo que quer vingança. Algo distante, que vem além do mar, mas eu não sei o que é. É ancestral, e antigo. E só não agiu ainda, porquê sabe que não é forte o bastante.
Me viro para Melissa:
–Você sabia disso?
Ela se encolhe mais na mesa:
–Não. Eu prometo, Diógenes, por todo o sacramento, eu prometo.
Abano as mãos como quem diz, “Tanto faz”, e penso nessa merda toda. Dou de ombros e digo:
–Agora fodeu tudo.
Ele ri, um pouco e diz:
–Você vai reunir o pessoal?
Faço que sim com a cabeça. Ele me dá o último relatório das coisas que aconteceram. O que ele sabe e o que apenas ouviu falar. Faz meses que não o vejo, mas ele parece estar a par de tudo que aconteceu comigo. Me avisa que Alberto estará na cidade em dois dias e que era preciso falar com ele; Ele não me diria tantas coisas se não fosse importante. Pergunto mais uma vez sobre o paradeiro dos livros do meu avô, mas ele não sabe. Em algum lugar por aí a Lança de Longinus está desprotegida, e isso é grave. Mas tudo bem, isso pode esperar um pouco mais. Melissa observa a tudo sem falar nada, apenas ouvindo a conversa. No meio dela pergunto:
–Por quê ela está me seguindo?
Ela quase se engasga, seus olhos ficam assustados. E ele dispara:
–Se ela quisesse que você soubesse, teria te dito ela mesma, você não acha?
Desisto da resposta, mas rio divertido quando ela me olha com cara de raiva.
Quando finalmente nos levantamos, já passa da meia noite e a loja ainda está cheia.
–Volte, Melissa. – Cardo diz– Acho que temos de ter uma conversa importante.
Ela promete voltar, ele sorri.
–E, não confie muito nas palavras desse mimado, você faz bem a ele.
Ela suspira fundo e abaixa a cabeça, eu olho para ele, irritado. Ele apenas se limita a gargalhar, dessa vez fazendo aquele som profundo e metálico dos fantasmas dos filmes de televisão. Vamos embora levando um catálogo com os sabores de pizza. Melissa dizendo que é a melhor coisa que já comeu. No meio do caminho ela diz:
–Obrigada, D!
E me abraça. Não estou acostumado com isso. A última pessoa a me abraçar daquele jeito foi Sofia. Mas o abraço dela era diferente, mais terno, menos carente que o de Sofia. Eu estou começando a gostar dela de verdade. Pumpkin sabe de muita coisa, mas ela foi ao interior com Carlos, ensiná-lo a usar aquele medalhão estranho. Quando voltar, vou perguntar mais sobre Melissa e sobre o que está acontecendo. Talvez ela saiba de algo e não queira contar. Mas, se ninguém me diz nada, existe algum risco nessa garota? Me sinto como se todos soubessem de algo que não sei. Mas o importante agora é encontrar o tal violeiro. Espero que tudo corra bem.
Chegamos em casa. Dona Maninha está saindo.
–Fiz o que você pediu, Diógenes. Limpei tudo. Passei as caixas plo seu antigo qualto. Quanta polcalia, quanta polnoglafia,ali. Você tem que palar com essas coisas agola que tem uma moça em casa. Assim, também não vai alumar uma namolada. Mas, está tudo plonto. A moça não vai ver as polcalias.
–Obrigado, dona Maninha. Não ia saber como fazer. Obrigado, mesmo. Queria que a senhora me deixasse pagar...
–Não, não. Tá bom? Depois, se eu plecisar de ajuda te peço, ta?
Melissa fica sem entender, mas a puxo pelo braço e a levo para dentro, quando Dona Maninha entra, dando beijinhos em mim e nela. Arrasto-a para a porta ao lado do meu quarto, abro e vejo o que dona Maninha fez. Lençóis velhos, mas limpos, o colchão arrumado, sem poeira. O quarto de uma moça. Acho que Melissa vai gostar.
–Pegue suas coisas, no seu carro. Sei que tem um monte de roupas lá. Mas se vai ficar aqui, quero meu sofá livre para eu me escornar em paz.
 Ganho mais um abraço àquela noite. Minhas costelas me odeiam. Ela não diz nada, apenas desce as escadas correndo. Não posso ajudar. Se carregar peso perco minhas costelas de vez. Vejo-a trazer e arrumar suas coisas enquanto finjo prestar atenção na TV. Por quanto tempo ela ficará? Por quê eu fiz isso? Acho que é um jeito de agradecer por ter salvo a minha vida. De qualquer forma, pelo menos ela não ficará tão exposta. Uma moça precisa de intimidade.
Ela dorme rápido na cama velha, com colchão velho e lençóis velhos. Eu demoro a conseguir pegar no sono. Me levanto para ir ao banheiro e vejo a porta aberta. Não resisto e entro com cuidado para vê-la dormir. Me assusto ao perceber que segura minha blusa de frio próximo ao rosto.
Saio com o coração aos pulos. Espero que não esteja acontecendo a essa moça o que eu não quero que aconteça. Merda...

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*Revisão final de Flávia Gomes

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

:(

Eu passei por tanta coisa
Que mal posso acreditar
Que vivi por tanto tempo
Neste lugar.
Eu que vi tanta tristeza
Eu que vi tanta agonia
Podia agora lhe contar
Mas não há mais
Aquela razão
Que nos leva a pensar
Nos motivos dessa solidão.
As vezes meu peito chora
Me afundo na escuridão
Me pergunta se é hora
De descansar, então.
Nunca te contei
Meu sofrimento completo.
Nunca poderá saber
A extensão de ser
Odiado por ser
Somente quem se é.
Onde eu for
Nunca me aceitarão
Sempre lhe dirão
Que existem melhores.
Onde eu for farão
Com que veja sempre
Que eu sou o elo errado
De toda corrente.
Então vem comigo
Sei que quer
Pode enxergar
Que não sou ruim.
Vão lhe dizer
Que não sou bom
Que meu coração
É feito de fel
E mel jamais produzirá.
Verá e acreditará
Em palavras que contradizem
Quem eu sou e posso ser.
Mas sempre ao ser quem sou
Nunca fingi amor
Por você.
Onde eu for
Sempre haverá
Alguém pra odiar
Esse meu coração
Então saiba que deve
Acreditar em mim
Sem duvidar
Para o fantasma não adentrar
A porta do teu coração.
É preciso saber,
Acreditar
Que vou estar
Sempre aqui com a mão
Estendida pra lhe segurar.
Basta saber
Basta querer
Acreditar em mim...

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Dia de pagamento

Nunca soube sobre alguém
Tanto quanto sei de você.
Nunca esperei ser sincero
A ponto de me abrir inteiro.
Nunca revelei segredos
Tristes, a mais ninguém.
Nunca tive tanto medo
De perder alguém.
Nunca fui tão corajoso
Tolo, imprudente,
Nunca me esforcei tanto
Para ser condescendente
Nunca estive em um lugar
Sem desejar ir embora
Nunca pensei que um sonho
Pudesse existir agora.
Sabe, eu sempre menti,
Sobre sentimentos
No me coração
Eu sempre fingi
Todo amor do mundo.
Eu sempre disse
O que deviam ouvir
Para seguir em paz.
Mas, com você
Sempre sou sincero
E penso que agora
Toda hora é verdade
Não preciso mais
Me esconder nesse mar
De maldade onde eu cresci.
Mas se acha que sou insincero
Espero que saiba que por você
Eu mudaria meu jeito de ser
Deixaria pra trás
Meu passado fugaz de dor
Me tornaria todos os dias
Um homem melhor
E mais merecedor
Desse amor que não acaba
Leva meu coração contigo
Sou teu amigo
Teu namorado amado
Sou teu sorriso
Apaixonado dedicado
E pago agora por meu coração
Pela intenção de proteger
As pessoas.
Eu não sabia, eu não podia
Entender que você
Se magoaria com a direção
Que eu tomei para chegar
Até você.
Eu me sujei da lama mais suja.
Estive em fuga
Por muito tempo e agora
Meu passado me afoga e eu
Pela primeira vez
Me arrependo de ser quem sou.
Aquele cujo destino
Te magoou.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Prelúdio

Me desculpe se eu
Não pude te entender
Me desculpe se te fiz
De tola.
Me desculpe se eu
Não sou tão perfeito
Me desculpe por querer
Aqui, do meu jeito.
Me desculpe
Por te magoar
Por brigar
Mais vezes
Do que previ
Me desculpe se não
Sou assim
Como você esperava.
Queria que ouvisse
O que não pude dizer
O que não pude terminar.
Mas se quiser
Nunca me olhar
Para sempre
Ainda sim, vou te amar.
Vou deixar o tempo
Curar aos poucos
A raiva que te causei.
Esperarei o telefone tocar
Não pra humilhar
Dizer que venci
Mas pra saber
Que me perdoou
E que me quer
De volta a ti.
Se não vier
Se não ligar
Se a noite for
Tão solitária
Vou entender
Compreender
Se nunca mais
Quiser me ver...

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Risada

Hoje acordei
Com saudade do teu corpo
Querendo teu rosto
Colado ao meu.
Acordei querendo sentir
Teu carinho a me espremer
A me fazer sorrir
Um pouco mais.
Hoje planejei um dia sem você
Mas não consegui pensar
Somente me mim
Eu sei que estou sempre
Tão grudada em você
Eu sei que estou sempre
Tão carente de você
Mas a verdade é
Que eu não posso mais
Ficar sem ter você
Bem ao meu lado...
Então me dê seu carinho
Me faça sorrir
Me sinto sozinha
Em qualquer lugar
Que não seja
Entre teus braços
Então venha me amar
Fazer amor
Em qualquer lugar
Onde eu possa achar
Tua risada a me embalar
Pra sempre...

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Dia de amar a Flávia

Em cada canto
Onde encontrei você
Deixei uma nota de amor.
Transformei de surpresa
Esse dia no dia
De gritar que amo a Flávia
De dizer que o meu amor
É sempre o maior
É sempre o maior.
Deixei pra trás
As convenções e corri
Pelas ruas na chuva
Subi a bruma da serra a gritar
Que sempre vou te amar
Flávia, Flávia, Flávia...
O nome mais lindo de todos
O sonho mais belo entre os outros
Já realizei, eu tenho você
Flávia...
Se você imaginar poderá
Cantar esse amor aos quatro ventos
Gritar aos elementos
Que magia alguma resiste
Ao amor envolvente
Que trouxe pra mim.
E agora, antes do fim
Dessa madrugada
Vou dormir
Para acordar
No dia de amar
Flávia...

domingo, 13 de janeiro de 2013

Diógenes: Lua minguante de lobisomem


Ele anda por horas. Eu o sigo por horas. Joguinho de merda. Ele pára de vez em quando e fica olhando, olhando, olhando, como se pudesse ver algo (e realmente pode) que eu não vejo. Ele não percebe que eu o estou seguindo. Atrás de mim, Melissa não percebe que eu percebi que ela está me seguindo. Ainda não entendi que porra é essa.
Se passaram alguns meses desde que ela se aboletou na minha casa. Dorme no sofá e não sai durante o dia. Fez uma cópia da cópia da minha chave, e fica lá o dia inteiro, limpando. À noite faz sopa e pão. Ela só sabe fazer sopa e pão. Só ensinaram isso pra ela. Eu não agüento mais comer sopa e pão. Se ela tivesse ido pra um daqueles conventos onde se faz doces, cheios de frades gordos, seria bom, mas foi pra um desses conventos onde as pessoas fazem penitência. Ok, valeu. Aliás, nem sei porquê estou comendo essa merda todo dia, nem porquê não mandei essa pirralha embora. De algum modo ela está morando na minha casa, dormindo no meu sofá e agindo como se fosse uma dessas esposas dedicadas. Toda vez que vou falar algo com ela, ela alterna entre dois tipos de olhar: um que diz “é agora que você vai me expulsar?”, ou então “que bom que você veio falar comigo”. Quando saio, em todas as noites, ela me segue, como se eu não pudesse notar.
Pumpkin, confirmou a informação de que ela se desligou completamente de seu antigo grupo. Fui procurar por mais informações e descobri que um dia Alberto chegou na porta do convento, aprontou uma porra de um escândalo e disse que só sairia de lá com a Melissa. Como nem ela sabia que se chamava Melissa, ele entrou lá dentro, a pegou pelo braço, contou uma parte da história e mandou ela perguntar aos amigos de guarda dela. Aquele trio nojento. Nem preciso dizer que, antes de parar para ouvir, ela tentou acertá-lo. Levou um soco na barriga que a deixou sem respirar por alguns segundos. Não quero levar um soco daquele filho da puta nunca mais. Imagine ela que é mulher.
O que ela fez antes de me procurar, eu não sei. Sei apenas que antes de me encontrar ficou um ano sumida. Agora não sai mais da minha casa. A filha da bruxa mais psicopata da história está dormindo no meu sofá e eu nem ligo. E o pior, por algum motivo estranho, eu ainda estou conversando com ela. Contando casos, fazendo piadas (as indecentes ela não entende, anos de convento...), assistindo desenho animado (ela ainda fica travada pra rir, mas parece estar aprendendo), fumando (só eu), bebendo (só eu, se bem que eu acho que um vinho de missa ela aceitava), e contando histórias engraçadas de épocas que não existem mais. Não falamos mais da mãe dela. Mas de vez em quando ela me faz perguntas estranhas sobre o mundo (clausura). Só espero que não me pergunte de onde vêm os bebês. Aí vai ser tenso. Outro dia ela me perguntou o motivo de eu não ter uma namorada. Eu disse a verdade: que sou tão feio que as mulheres não olham pra mim. Nem um pouco. Ela me perguntou sobre Sofia e eu disse que Sofia era louca.
Com o tempo ela simpatizou com Dona Maninha, mas nem sei que desculpa deu pra ficar morando no meu apartamento. Sinceramente, e que Deus me perdoe por dizer isso em relação à essa carrasca da Inquisição: eu tenho gostado de não ficar sozinho. Ela não é ruim. Às vezes parece madura e responsável, mas tem umas dúvidas de criança, sei lá que merda ela pensa da vida, sei lá porquê está aqui. Fucei o mais que pude mas não encontrei nenhum motivo para ela querer me ferir. De qualquer forma, Pumpkin me disse que estaria de olho nela, pro caso de tentarem algo contra mim. Sem saber o motivo, não acredito que me faria mal. Acho que essa pirralha só está sozinha, assim como eu. Só que eu tenho amigos que são como família, e acho que a família que ela tinha era um bando de pingüins de geladeira que mentiram pra ela.
De qualquer forma, durante o tempo em que ela esteve em minha casa, não aconteceu nada na má realidade, nada mesmo. Sem fantasmas, sem monstros, nem aqui, nem nas cidades próximas. Tenho ido à zona todos os dias, todos e todos os dias, mas nada aconteceu. Nada até aqueles dias, quando uma das moças que trabalha numa rua próxima apareceu com a garganta dilacerada. Desse dia em diante Carlos surtou. Passou a sumir no meio da noite, quando achava que as coisas pareciam mais calmas. Esses dias aplaquei uma briga sem ele e acabei quase quebrando o nariz. Quando ele voltava, quase de manhã, dizia que esteve com uma garota qualquer. Difícil de acreditar. Ele sempre paquerava alguma das  meninas, namorou algumas por um tempo, mas nada fora de lá. Nunca saía durante o dia, na verdade mal se movia durante o dia, e não deixava os arredores da zona por motivo algum. Ele tinha medo do que pudesse acontecer. Não via os pais há anos, e toda a comunicação se resumia a presentes que enviava para eles e a pequenas cartas. A cidade ficava há apenas uma hora de viagem, mas se ele fosse até lá, todos sabemos, ele voltaria a ser um lobisomem.
Agora uma garota aparece com a garganta dilacerada e ele desaparece. Depois vem outra, e outra e outra. Todos temem que seja algum cão raivoso, de tamanho descomunal, mas eu sei o que é: um maldito lobisomem. E nem é lua cheia. E agora um dos meus melhores amigos, que era um lobisomem amaldiçoado, que eu libertei na noite em que decidi meu destino, vaga sob o mesmo céu noturno onde garotas são devoradas pelo lobo mau. Algo está errado, algo está muito errado. E é por isso que eu estou seguindo ele, antes que a merda bata no ventilador e acabe em cima dos meus óculos. O pior é que eu nem posso acender um cigarro. Mas que porra.
Quando ele pára no meio de uma obra abandonada e começa a subir as escadas, eu me pergunto onde estou indo. Mesmo assim subo degrau por degrau, tentando não fazer barulho com meus sapatos sociais vagabundos. Se ele me ouvir, vou demorar um tempão pra explicar o motivo pelo qual estou ali. Espero que Melissa tenha o mesmo senso. Se ele a pegar, me pega também. Eu demorei muito tempo para aprender a seguir   alguém sem ser detectado. Vai ser um saco se tudo for por água abaixo somente porquê essa pirralha não larga do meu pé.
Ele chega à cobertura do prédio. Pára bem no centro. A lua não é cheia, é minguante. Paro na escada, me escondendo nas sombras.
–Não fui eu que matei aquelas garotas, Diógenes.
Ouvir meu nome no meio da escuridão me assusta. Saio devagar. Havia me esquecido de algo importante: ele ainda podia farejar.
–Eu ainda sou um cachorro, D, mesmo que a maldição tenha sido quebrada. Ainda sinto o cheiro das coisas. Ainda tenho parte da força.
“É claro que tem”, pensei, lembrando da vez em que derrubou cinco caras de uma vez. Ele veio para a cidade para se libertar da maldição e ser um pugilista. Quando descobriu que sua força vinha somente da sua condição, desistiu. Agora é um leal porteiro de cabaré. Triste, soturno, apenas fingindo que está feliz.
–Eu nunca pensei que fosse você, Carlos (isso é a mais pura verdade). Mas sei que tem alguma merda errada. E acho que você sabe o que é.
Ele me olha com o rosto mais amargurado do que o normal. Não parece bem. Nem um pouco.
–Sabe, D, eu ainda sinto o cheiro das coisas. Ainda reconheço as pessoas pelo cheiro do mijo delas. E quando um lobisomem mija por todo o seu território, você larga essa merda toda e tenta fazer alguma coisa. Tem um filho da puta tentando chamar minha atenção, mas eu não sei quem é. Nem como ele se transforma sem a lua cheia. Sinto o cheiro dele, ele está aqui, mas minha fungada é limitada agora. Carlos diz isso com um sorriso quase doentio.
E é nesse momento épico que ouvimos passos. Por trás de uma pilha de tijolos próximos ele sai, ereto, como um ser humano, e vestindo um terno, o maior lobisomem que eu já vi. Carlos se vira para ele, olha de cima abaixo, os dois se encaram e finalmente o porteiro diz:
–D, cê já viu uma porra mais ridícula?
Caímos na gargalhada. Um lobisomem de terno é uma figura mais engraçada do que se pode sugerir. É como vestir um cão com roupas velhas.
–Credo, cara, eu respondi, que merda é essa?
O lobisomem nos olha com cara de ofendido. Ameaça rosnar, mas não o faz. Deve pensar que não é civilizado. Daqui a pouco terei que derrotá-lo, mas por enquanto, rir ainda é muito bom. Nos admiramos mais ainda quando ele começa a falar:
–Boa noite, irmão, vejo que trouxe convidados...
Parece absurdo, mas a voz dele era rouca e profunda, como, como...
–Cara, Carlos diz, tua voz faz barulho de peido n’água!
Não agüento e rio mais ainda. Tudo me parece tão absurdo que chega a ser hilário. Quando consigo me controlar, acendo um cigarro ainda tremendo. O lobisomem parece impaciente por poder falar. Carlos tem lágrimas nos olhos. Dou uma tragada e digo, ainda com voz de riso:
–Cara, peraí, sério, escuta: letra “a”: Cê é um lobisomem de verdade? “B”: Por quê diabos cê tá de terno? E “c”: como diabos cê consegue falar?
Esperamos pela resposta e ele não se faz de rogado. Tava querendo a palavra há algum tempo:
–Terei um prazer enorme em responder a cada uma de suas perguntas, meu irmão e seu lacaio humano.
Porquê todos tentam me diminuir, eu não sei. Uma hora eu sou herege, outra sou lacaio humano, esse mundo é cada vez mais preconceituoso com quem é feio. De qualquer forma, devo ficar de olho, essa coisa pode avançar sobre nós a qualquer minuto. Eu tenho o guarda-chuva, mas Carlos não teria a mínima chance e não quero que Melissa ajude. Não sei o quanto nela ainda gosta de matar o que eles chamam de demônios.
–Em primeiro lugar, sinto que não fez a pergunta primordial, lacaio humano, mas responderei às perguntas secundárias que me fez.
A fera fala com a naturalidade de um palestrante chato.  Paro um tempo pra pensar em qual seria a pergunta primordial, mas a cabeça tá meio pifada nos últimos tempos. Ele continua, me olhando como se eu fosse o símbolo mor da burrice.
–Eu sou um lobisomem, sim, lacaio, mas sou diferente daquela massa descontrolada que se acha amaldiçoada, fui abençoado com o controle de minhas forças, por isso acredito que nada é mais prático do que vestir roupas, afinal, independo de tolices rituais a que meus amigos se submetem, como aquele ato hediondo de torcer as roupas e roçar em fezes de vaca, como uma demarcação de território canina absurda. Tais atos são discrepantes do meu comportamento. E, quanto à vocalizar palavras, nada tão simples, basta que eu deixe minha consciência guiar, ao invés de permitir esse comportamento doentio da nossa espécie.
–Uma garota com o pescoço mastigado não é doentio, mas rosnar é. Ok, tá legal.
Essa frase minha desperta nele um sorriso (sim, parece um cachorro rindo) e ele acrescenta, com uma satisfação incrível:
–Ora, matar alguém para atrair meu irmão de licantropia não passa de mero detalhe. Se quer saber, as moças não eram direitas. Representavam o lado mais sujo da perversão humana.
–Diógenes, Carlos se vira pra mim, perplexo, que merda é esse cara e o que diabos é licantropia?
–Depois eu te explico, cara. Deixa o cachorro da rainha terminar de falar.
–Fico feliz, lacaio humano, que saiba respeitar a ordem das coisas, apesar do meu irmão apresentar certa ignorância, você me parece ser um pouco mais letrado. Resultado dessa discrepância absurda que difere minha raça da sua e nos taxa como uma simples maldição. Mas isso não altera a superioridade da nossa raça.
–Cara, eu digo, vocês não são uma raça. Não existe nem lobismulher. Se você fosse uma raça, ia se reproduzir como?
–Calado, lacaio humano! Somos sim uma raça superior em vários sentidos, além do seu falso contexto biológico. Somos uma raça rara que se reproduz de forma diversa. Não somos simples restolhos de uma maldição humana. Posso realmente ser filho de uma simples relação carnal entre uma mulher e o padrinho de um de seus filhos, mas transcendi tal condição! Hoje sou um rei entre os licantropos e não devo lhe dar ouvidos. Se lancei mão do infame artifício de urinar ao longo das ruas foi somente para atrair meu irmão aqui, para lhe fazer uma proposta irrecusável! Cale-se, humano incompleto e imperfeito! Deixe-me manter uma conversa decente com meu irmão. Dizer-lhe que é um abençoado do destino, ao invés do portador de uma maldição.
–Carlos, eu digo, o papo é contigo.
Carlos olha pro yuppisomem, faz que não está entendendo nada com os ombros e deixa o cara falar.
–Vim lhe oferecer, meu irmão, a chance de abraçar novamente nossa forma bestial, de nos mostrarmos superiores. Há um homem, um trovador, que tem o poder de nos dar o controle. Vê? Ele tira um medalhão estranho do pescoço, com a forma de um pentagrama, incrustado de algo que não consigo identificar. Este medalhão, ele continua, criado nos tempos de Salomão tem o poder de nos transformar, de nos tornar senhores de nossos impulsos. Não importa se a lua está conosco, ou não. O trovador está reunindo muitos de nós. Eu senti tua presença e vim invocá-lo. Eu não volto ao normal há um mês. Finalmente pude retornar à minha forma primordial, desde que fui ferido e perdi minha maldição, desde que me feriram com aquele maldito açoite de arame farpado. Nós estamos nos reunindo para algo grande. Venha comigo, irmão licantropo.
Carlos permanece em silêncio. Me lembrei da “pergunta primordial”: como ele se transforma sem lua cheia? Eu sou burro mesmo. O cara continua:
–Você não sente saudades daquela época? Da força, da capacidade de subir em qualquer lugar, destruir qualquer um? Imagine tudo isso desprendido do nosso instinto animalesco! Podemos dominar essa cidade. O trovador tem milhares desses medalhões, nós podemos ser um grande exército. Venha comigo. Venha!
Carlos respira fundo, dá um passo à frente. Temo que ele se sinta tentado. Ele nunca fala sobre a época de lobisomem, nunca. Quando arrumei pra ele o emprego na zona, fui sincero sobre tudo: disse que não poderia voltar a nenhum lugar onde se acreditasse em lobisomens. Ele não vê os pais há muito tempo. Disse que sua força, mesmo na forma humana, era resquício disso. Ele optou por não se tornar mais um pugilista. Se os meus sonhos foram suprimidos, os dele também foram. Agora esse cara oferece controle. Controle que eu nem sabia que existia. Carlos, por favor, não vá. Se ele for, se ele se tornar um lobisomem, onde isso tudo vai terminar? Caçar um cara que eu não conheço é fácil, mas e caçar um amigo? Caçadores não gostam de antigas bestas. Muitos preferem matá-los. Depois da morte do meu avô isso cresceu. Não tenho o mesmo carisma do velho. Se Carlos for por livre e espontânea vontade, se quiser se transformar, talvez eu tenha que matá-lo.
–Cara, ele diz, vai tomar no cu!
Respiro aliviado. Às vezes eu me esqueço que não sou só eu a fazer sempre o certo.
–Cara, Carlos continua, ser lobisomem é legal, cê tá certo. A sensação, a liberdade, eu sinto falta mesmo. Mas, sinceramente, cara, eu podia até ser um bicho, mas eu não era tão irracional assim. Eu nunca matei ninguém. Nunca mesmo. Eu matei bichos, e isso por si só já era um saco, mas realmente eu só matava os velhos, os que já iam pro matadouro, os que não prestavam. Mesmo sendo amaldiçoado, eu rezava por isso toda noite. Rezava pra Deus não me deixar ferir ninguém. Você mata uma pá de meninas inocentes, chama elas de lixo e quer que eu me junte a você? Ter o controle seria algo bom, mas ser um lobisomem, isso não é normal. É uma merda, na verdade. As pessoas têm medo da gente. Elas nos odeiam e nos querem longe. Elas sabem, sempre sabem, o que nós somos. Não vou ser um lobisomem de novo, cara.
–E você vai me dar esse medalhão. Eu acrescento. Não posso deixar um louco como você solto por aí, com esse poder todo. E depois você vai me falar desse trovador, aí.
–Nunca! Você se arrependerá, irmão, por não vir comigo! Se arrependerá! Eu exterminarei agora esse caçador, e devorarei você, para que venha comigo com tua essência!
Esse cara é louco. Parte para cima de mim sem hesitar. Abro o guarda-chuva rápido, mas ele me joga longe antes que eu possa detê-lo. Dói, muito. É como ser atingido por um caminhão. Acho que quebrei uma ou duas costelas, mas mesmo assim me levanto. O guarda-chuva voou longe, tento correr para pegá-lo, mas é tarde demais. Ele já está perto de novo. Consigo me desviar e me vejo na beirada do prédio. Eu vou morrer. Ele vem em minha direção novamente e começa a correr. É muito pesado. É muito rápido. Pra onde eu corro? Pra onde? Foda-se. Ao menos vou morrer com dignidade.
Mas um vulto o intercepta, uma sombra grande e forte o empurra. Carlos. Ele se joga sobre a fera, num soco que eu posso sentir apenas de ver. Os dois se atracam, avançam para a beirada. Socos e arranhões,é como se o porteiro nunca tivesse deixado de ser um lobisomem. Força, coragem, liberdade. Salto para ele antes que cheguem perto demais, antes que caiam. Quando alcanço sua blusa, é tarde demais. O peso do lobischato nos puxa pra baixo. Estamos caindo. Dessa vez vamos mesmo morrer. Fecho os olhos. Cair de uma grande altura é algo surpreendente, parece que você vai ter um infarto. Espero que não doa muito. Espero que eu vá para o céu. Que lá tenha virgens e aulas de faculdade. Espero que Deus seja doce, que meus pecados não sejam grandes. Será que eu fui feliz? Será que eu devia ter ficado com Sofia? Alguma outra mulher me amaria? Minha vida não passa diante dos meus olhos, eu não vejo túneis. Vô, eu estou chegando, guarda um pedaço desse bolo pra mim. Mãe, pai, o filho estranho de vocês vai chegar, desculpe não ter sido um bom filho, me perdoem por ter sido essa aberração. Pelo menos meus irmãos vão ficar com a casa, né?
–Adeus. Eu murmuro.
–Ainda não. É a resposta que ouço.
Abro os olhos. Sementes passam por mim. Se grudam nas paredes, germinam, são cipós. Me agarram, agarram Carlos, agarram o lobisomem. Estamos vivos. Olho pra cima e ela está lá, sorrindo, linda como eu a vi da primeira vez. Melissa. Quando percebe que a vi, pára de sorrir. As plantas começam a se mover para cima.
–Isso é meu!
Olho para baixo e vejo Carlos arrancar o medalhão do lobisomem. Ele volta a ser humano quase que instantaneamente.
–Você não vai ferir ninguém mais, cara. Não vai ser lobisomem nunca mais.
O homem, franzino, mirrado em meio àquelas roupas gigantes. Olha assustado, tentando compreender o que se passa. Mas quando acorda só temos tempo de ouvi-lo dizer:
–Prefiro a morte!
Com um tranco nos cipós ele se solta. Cai no asfalto sem que possamos fazer nada.
Melissa nos puxa de volta. Chegamos ao alto do prédio novamente. Ela me olha, como se esperando que eu diga algo. Ficamos olhando um para o outro, calados. Eu tentando vencer um orgulho estúpido, ela esperando algum tipo de aprovação (será?). É Carlos quem corta o silêncio:
–Obrigado, moça. Ele a abraça. Eu tinha me esquecido que ele fazia isso. Ele me abraça, minhas costelas doem e eu desabo. Melissa me segura. Olha para mim em silêncio, com olhos preocupados.
–D, cê ta bem? Carlos pergunta.
–Não. Eu digo tentando sorrir. Costelas quebradas, Carlos. Dói pra cacete.
–Descansa, cara.
–Não dá, Carlos, a polícia chega logo. Vamos embora. Sorte que a saída é do outro lado do prédio.
Saímos o mais rápido que podemos. Vamos pelas ruas mais vazias, até a zona. Eu mal consigo me arrastar, mas continuo caminhando. No fim das contas eu sempre acabo arrebentado. Sou só um cara, porra! Melissa tem de me amparar o tempo todo. Por quê ela fica me salvando? Mesmo assim é bom que ela esteja aqui. Eu não queria morrer.
Quando chegamos à porta da zona ele olha pra mim, estende o medalhão e diz:
–Some com isso, D.
–Não, eu digo. Esse pode ser seu passaporte de volta pra casa. Pede a Pumpkin pra dar uma olhada, cara. Se houver uma chance de você se controlar, que seja, velho. Cê já perdeu demais.
–Mas, cara...
Faço um sinal com as mãos que diz que não estou nem aí. Ele fica ali parado enquanto eu entro. Não passa das três da manhã quando Melissa me coloca no meu quartinho. Ninguém faz perguntas. Pumpkin vem, com um monte de ervas. Coloca minhas costelas no lugar (dou um urro gigantesco) e me enfaixa todo. Melissa não sai do meu lado. As duas conversam amigavelmente. Digo que vou conversar depois com a bruxa anã e ela nem faz perguntas. Ela diz apenas que vai olhar o medalhão. Preciso descobrir quem é esse tal de trovador, mas tenho tempo ainda. Primeiro eu preciso dormir.
Quando fecho os olhos, sinto as mãos de Melissa sobre o meu rosto. Isso se chama carinho, é o que eu penso.
–Melissa, eu digo, abrindo meus olhos, ela me olha com seu jeito inocente, agora com algo meio maternal, eu continuo: Obrigado por salvar minha vida, de novo. Acho que podemos ser amigos.
Fecho os olhos novamente, para não ver a reação dela. Depois de um tempo eu adormeço. Vô, vou demorar um pouco a chegar, guarda um pedaço de bolo pra mim...