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quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

A chegada da rainha bailarina


Olho para a lua que desponta no céu. São quase oito horas. Reviso mais uma vez meus trajes no espelho. A túnica branca, de gala, os cabelos negros agora quase tão grandes, em protesto aos cabelos que caem na parte de trás. Meu medalhão se despedaçou no último ano, em minha guia restam apenas seis linhas. Alguém tentou destruir o amor e meu coração, mas isso acabou tendo um preço alto em ambos os lados. Minha pele oscila entre o tom alaranjado e o branco habitual, isso mostra que estou nervoso, muito nervoso.
Me recuso a olhar para baixo, para a multidão que se aglomera diante da imagem gigante de Oxalá, maior mil vezes do que eu, esperando que a noite tenha seu ápice. Eu sinto um frio horrendo na barriga. Penso que talvez não possa fazer mais nada senão aceitar que ontem revelei a você um dos meus segredos mais profundos. Aquilo que faz parecer apenas um garoto assustado e covarde. Espero que hoje seja capaz de compreender que as forças que me levaram a criar esse lugar foram maiores do que o meu próprio coração. Haverão mais portas além deste lugar? Eu ainda não sei. Sei apenas que agora você sabe. Tenho medo de que pense que sou louco, afinal de contas, namora um médium que já foi um mago, que já foi soldado e que se refugia dentro de sua própria mente. Atualmente você sabe tudo sobre mim, tudo. E tem em suas mãos meu bem mais precioso: o coração que eu escondi por tantos anos dentro deste mundo. Ontem você me disse que eu ainda escondo muitas coisas, mas a verdade é que eu passei muito tempo nas trevas. Era preciso, para entender a crueldade humana, para saber como lutar contra as trevas no meu próprio coração. E agora, diante da nova luz desse tempo, do presente que os mensageiros do espaço me deram, não tenho mais medo de me revelar. Eu não morrerei jamais, não mais me consumirei. As três vertentes da minha consciência se uniram e agora eu aceito, sem medos, que todos nós temos uma força criadora, uma força destruidora e uma força auto-destruidora nos leva por caminhos distantes, que nos faz seguir em frente.
Tarugo se aproxima de mim. Aquele que deveria ser o líder da Baía Subterrânea se porta como parte da minha consciência. Sempre ao meu lado. O primeiro personagem independente que criei. Ele traz minha espada, que eu pensei estar em uma dimensão paralela.
“Ela insiste em aparecer, Capitão, quer estar contigo”.
“Tarugo, eu prometi nunca mais usar essa espada”.
“Mas isso não muda o fato de ela fazer parte de você, assim como não pode esconder as manchas vermelhas e negras em suas asas, que mostram a impureza do seu coração. Além do mais, essa é uma prova da sua escolha em não lutar”.
Pego a espada resignado e a prendo em meu cinto. Automaticamente a cor da bainha se adapta ao branco da túnica. Madrepérola. Quase oito horas, quase oito horas e eu vejo aquela bolha descer pelos céus. Você desce devagar, e para mim não há mais tempo. Estalo os dedos ao invés de saltar janela afora. O que você irá pensar das minhas asas? Escondo-as envoltas em meu ventre da melhor maneira possível. Todos os reinos estão ali, todos olham para cima, todos esperam. Você chega, usando sua roupa de bailarina. Infelizmente verá que não me visto de palhaço, mas de mago e soldado. Algumas coisas não podem mudar tão rápido quanto eu gostaria.
Você atravessa admirada a representação gigantesca de oxalá, que parece abraçar meu mundo inteiro. Você está em Déltaca, meu amor. Meu reino, meu refúgio, o lar daquele que não foi aceito, o lugar onde travei as maiores batalhas contra mim mesmo, onde aprendi a enfrentar meus medos, e onde me tornei uma parte do que sou hoje. Bem vinda aos confins do meu coração, meu amor.
Todos murmuram: “É a rainha bailarina”, alguns dizem: “É a rainha humana”, outros ainda dizem: “Finalmente nós teremos uma rainha”... Eu apenas te espero descer. Jonas, a grande embarcação em forma de baleia se ergue aos céus, saída do mar, e rodeia tua chegada. Todos pensam que eu faço isso. Mas agora, você, e só você sabe, que ela controla sua própria vontade. Tem sua consciência. Não é uma máquina. Não uma simples máquina. Agitando suas barbatanas ela consegue mover o próprio vento. Ela se move com a força mística da própria terra que criei, como tudo ali. E quando você finalmente pousa, ela se coloca ao nosso lado, gigantesca, mas com uma suavidade tão profunda que sequer notamos seu pouso. Sal bolha estoura e desaparece. Eu sigo até você. Não digo nada, apenas te abraço. Minhas asas ainda permanecem escondidas em mim, mas se agitam.
Não dizemos palavra. Apenas estalo os dedos e vejo brotarem do chão, cadeiras feias de macieira. Você se senta sem perguntas. E eles vêm.
“Sou a Avó Tarugo.”, a velha tartaruga diz, ”Venho em nome dos meus lhe dar a força ancestral da consciência. A única verdade absoluta de que Deus nos criou para sermos bons, apesar de tudo o que há de mal”.
E ela se afasta lhe dando um abraço. Conforto, para sempre se manter a consciência em paz.
“Eu sou João, o Tatu.”, o velho Tatu diz, “Venho em nome das Terras Profundas para lhe dar nosso maior bem: a humildade dos tempos. Não que já o tenha. Mas é nosso maior bem, nessa consciência que somos”.
Ele se vai, deixando em suas mãos um punhado de terra. Terra que sempre aceita a apssagem do tempo.
“Eu sou Marino”, diz o cavalo marinho de porte Militar, “E essa é minha esposa, Água. Viemos até voz, pelos reinos de Deltlântida, dos animais marinhos, dar-lhe a coragem, para enfrentar os inimigos antigos e os que virão. Para que tenha forças para enfrentar teu passado e teu futuro. Mesmo em tempos onde não há guerra, deve saber que pode tirar forças de dentro de ti a qualquer instante”.
Quando ela lhe deixa. Suas mãos tem uma pequena pérola, com uma espada dourada incrustada. Algo resistente para um coração que há de ser para sempre forte.
“Eu sou Palhaço, da casa de palha, prefeito do litoral”.
“Eu sou Palito, da casa de pau, prefeito da floresta dos porcos”.
“Eu sou Pedrito, da casa de pedra, prefeito da capital Déltaca”
“Nós somos os três porquinhos.”, eles dizem juntos, “E trazemos conosco a esperança”.
E o seu presente é a areia do mar, a poeira da cidade e a casca das árvores. O mundo é diverso e todos se adaptam, se quiserem sobreviver.
“Eu sou o Ancião.”, diz a velha formiga, que de tão pequena, mal aparece em nossas vistas, “E trago a você a técnica, necessária para que enfrentemos as obrigações do mundo. Quanto mais se sabe, mais se pode enfrentar. Quando mais se sabe, mais se pode encontrar. Quanto mais se sabe, mais se pode enfrentar. E por isso, sempre poderá ser uma aventureira.”.
E centenas de formigas trazem para teu colo uma pequena caixa de música, feita do material mais dourado que se pode encontrar. Algo um pouco além do ouro. Muito além deste mundo.
“Meu nome é Imperial, e essa é minha esposa, Nina.”, o jovem pingüim diz, “Viemos das terras de gelo, onde o inverno é tão rigoroso que muitas vezes nossos corações congelam. É por isso que trazemos compaixão e força. O que se precisa para seguir em frente.”.
E eles te entregam o coração de cristal. Claro como o gelo, duro como pedra, mas belo.
“Nós viemos de terras ancestrais, terras antigas. Eu sou Fantor, da Montanha Florida, a antiga Montanha Congelada.” e o séquito que acompanhava o grande elefante, formado por ratos, lobos e todos os outros animais que sobreviveram à destruição do primeiro mundo, se aproxima de você. “Nós trazemos a fé. Necessária para nunca se desistir”.
E em suas mãos ele deixa a castanha. A semente que se defende de todas as agruras antes de poder germinar.
E então elas surgem. Germinando do nada ao seu redor, te envolvendo. Te cercando completamente, te cobrindo até mesmo da minha visão. Será que você ficou assustada? Eu não sei. Quando elas saem, lhe deixando em mãos centenas de sementes, eu lhe digo:
“Essas, minha rainha bailarina, são as teimoses. Elas trazem a diversidade e a escolha. Você pode ser o que quiser, quando quiser, se lutar por isso.”.
E por último elas surgem voando. Belas, doces, singelas. O reino novo que me pediu nasce. Ilhares, centenas de milhares, todas voando ao seu redor e cobrindo seu trono de flores. Nascidas das terras floridas surge o reino das borboletas e das joaninhas. O único lugar em meu mundo que não foi criado por mim. O primeiro lugar criado por ti.
Elas nada dizem, apenas dançam, dançam e te envolvem, e te enlevam pelos céus. Eu apenas observo. Espero elas lhe colocarem no chão. E quando elas retornam, você tem as asas de uma joaninha, transparentes e brilhantes, do mesmo rosa claro de teu vestido. Você agora pode voar. E assim eu abro minhas asas, manchadas pelos meus defeitos e minhas dores, mas cada vez mais brancas e puras. E antes que possa se surpreender, deixo meu corpo flamejar, me torno o pássaro faminto de vida e renascimento que sou, me torno fênix e te agarro entre minhas próprias asas. Te levo para longe.
Paramos diante de uma montanha, um vulcão puro, doce e quente, onde aos pés se encontra o primeiro lugar que criei, de todos eles. Meu lar verdadeiro. Não como meu antigo castelo de fogo, com sua forma octogonal, antes negra como o ébano e agora branca como a laca. Um lugar simples, um simples quarto, quente, com janelas de vidro antigo, cortinas e um pequeno fogão. Uma cama macia de palha, coberta com uma colcha de retalhos. Não o lugar digno de uma rainha, mas o lugar de onde meu coração começou. Levo-a até lá, ao recanto mais oculto do meu coração, para poder dizer-lhe algo que é primordial. Algo que já lhe disse, mas que talvez deva repetir, com todas as minhas forças:
Minha rainha bailarina, que mais posso te oferecer senão o sonho e sua realidade? O meu mundo sombrio e escondido, de onde vejo o céu e as estrelas sempre? Sei que nunca será suficiente, mas é o que tenho de mais precioso. O único lugar intocado do meu coração. O ar da minha consciência. Era, minha rainha, como uma sombra que vagava pelos cantos, antes de me libertar de meus grilhões sombrios, de minhas dores. E aqui, onde a beleza parece intensa, mas onde a vastidão de tudo me faz pensar em um deserto de sentimentos; Aqui onde as almas humanas não tocaram, apenas eu, fugindo das perseguições, do ódio da humanidade, eu lhe digo a verdade em meu coração. A verdade mais pura.
Eu a protegerei, rainha bailaria, com todas as forças do meu coração. Eu cuidarei de ti com a coragem que brilha em meu peito e te farei feliz. Essa é a minha promessa. Se houver força no mundo que queira te ferir, eu lutarei por ti com a sabedoria que me foi dada em tempos anteriores a esse, e com a força que encontrei para lutar nesse mundo. Quando quase morri no passado, encontrei forças em tudo o que é divino e puro e continuei minha jornada por entre terras sombrias. Meu coração não é belo. É cheio de cicatrizes, mas é pela força delas que te prometo a felicidade eterna, a força, o sonho e tudo o que existe de mais forte.
Pela primeira vez, rainha bailarina, adentra meu reino, vê minha verdadeira face perdida em pensamentos, vê o único lugar inatingível do meu coração. Vê meu espírito e minha coragem. Por você, rainha bailarina, eu abro as portas desse coração sombrio. E por você eu digo: te amarei eternamente. E este reino é teu agora, para criar e recriar, para lutar e viver por ele, por mim, por tudo. E neste reino criaremos nossos filhos em suas historias de dormir, e criaremos nossos próprios corações. E neste reino eu te mostro as armas que reuni para enfrentar o mundo, para não morrer, para permanecer vivo e te encontrar. Te encontrar para sempre.
E, ao abrir este reino, me revelo em minha força e fragilidade. E te trago meu coração em farrapos. Para que seja você aquela a restaurá-lo com tuas esperanças sagradas. Restaurá-lo das dores do mundo. E enfim, minha rainha, posso beijar-lhe os lábios e descansar em paz. As batalhas que houverem, de hoje ao fim, serão batalhas duras, mas felizes. Não estou mais só. Não estará mais só. Promessa.
Te amo, minha futura esposa.






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