Faz
um frio do caralho. Meus pés doem, minhas costelas não se recuperaram
completamente. Ando com as mãos nos bolsos e os braços bem colados às ataduras.
Se eu mover minimamente meu quadril, sei que consigo fazer tudo o que tenho que
fazer sem me machucar de verdade. Se eu tiver que lutar, bom, vai ser um saco,
mas tudo bem. O cheiro da noite me faz bem, ficar preso dentro de casa me deixa
aflito, me sinto inútil. A licença médica falsa que arranjei mantém meu chefe
distraído. É bom sair à noite, mesmo que envolto em uma blusa de frio velha da década
de oitenta. Estou de tênis All Star, não me animei a vestir social. Mesmo sendo
como um uniforme para mim, não quero ser visto, não quero ser destacado no
lugar onde vou.
Quando
saí, Melissa tentou me dizer algo, mas não prestei atenção, apenas saí. Acabo
de deixar a entrada do prédio e só preciso esperar. Dez... nove... oito...
sete... seis... cinco... quatro... três... dois... um... sinto o cheiro de
damas da noite. É assim que ela tenta disfarçar sua presença. Ela acha que se
não fizer barulho, se disfarçar o cheiro, tudo estará bem. Erro grande. Como eu
posso sentir cheiro de damas da noite se não há nenhuma na rua? Me pergunto se
ela nunca usou isso em uma perseguição real. Ia descobrir cedo que não dá
certo.
–Melissa,
se você quer vir comigo é só falar. Eu não vou brigar com você...
Ela
se esconde muito bem em qualquer planta que toque. É quase como se ficasse
invisível. Vejo-a sair de trás de uma árvore como se fizesse parte dela. Tenho
que entender os poderes dela, tenho que compreender quais são seus limites.
Antes eu achava que ela controlava o vento, mas com o tempo percebi que são as
plantas, sempre as plantas. Desde que foi para minha casa, encontro pequenos
vasos de flores espalhados pelos cantos, e o vaso de espadas de São Jorge, que
não sei para quê servem. Espero não
acordar um dia e descobrir todas essas plantas tentando me sufocar.
–Desculpe.–
ela diz – Não estava tentando fazer nada errado.
–Por
quê diabos você está me seguindo, garota? Você pode dizer?
Ela
fica calada, eu não insisto. Fico calado também. Apesar de tudo, ainda não
conversamos muito. Seguimos um ao lado do outro. O silêncio não me incomoda,
mas ela parece um ratinho ansioso. Eu pensei que no convento onde ela vivia as
pessoas estavam acostumadas com o silêncio, mas percebo que cada vez mais o
silêncio a incomoda. Se ela quer conversar por quê não abre a boca e fala? Acho
que em parte isso é culpa minha. Fui meio duro com ela mas, porra, ela estava
com os caras que queriam me matar! Quando lembro disso não consigo ser tão
condescendente assim. Mas as coisas estão melhorando. Pelo menos eu acho.
–Você
devia estar em casa.
Ela
diz com uma voz que mal percebo.
–Quê?
–Nada,
não...
Suspiro.
–Eu
precisava sair de casa.
Ela
se anima a responder.
–Mas
você precisa descansar.
–Eu
já descansei. – respondo, tirando um cigarro do maço e colocando na boca.
Quando acendo, sinto o calor da fumaça me invadindo. Isso me acalma um pouco.
Tento pensar em como ser gentil com ela. Continuo:
–Escute,
Melissa, eu estou bem. Só preciso resolver umas coisas e aí volto pra casa.
Está bem?
Acho
que a voz mais suave pareceu falsa. O ruim de fingir ser um cara amoroso
demais, ou fingir ser durão demais, é que quando você está com raiva de
verdade, ou tenta ser gentil de verdade, as pessoas não acreditam. Como ela
nunca me viu sendo muito gentil, deve pensar que estou mentindo. Tenho que ser
menos duro com ela, um pouco mais sincero. Não sei porquê, mas fico pensando
nas palavras que Pumpkin me disse enquanto arrumava minhas costelas. Melissa
tinha ido buscar um pouco de água e a bruxa disparou:
–Olha,
Diógenes, seja gentil com ela, tá?
Fiz
cara de quem não entendia nada.
–Ela
acabou de se desligar da Inquisição. Está confusa. Ficou um ano procurando o
passado dos pais antes de te achar. Está perdidinha. Lembra como você ficou
quando perdeu tudo? Pois é, o caso dela é pior. Ela perdeu todo um passado.
Fecho
a cara.
–Não
faça essa cara pra mim. Eu não caio nas suas manhas de menino mimado. Assim
como não caio nessa sua pose de machão. Você é sensível quando quer. Seja
agradável com ela, tá? Esse papel de menininho emburrado que você vêm
representando já encheu o saco.
Talvez
aquela bruxa velha estivesse certa. Talvez fosse a hora de tentar deixar o
passado pra trás. De certa forma o caso dela é pior. Tenho que ter paciência,
mas com cautela.
–Onde
nós vamos? Ela pergunta.
–Comer
pizza. Eu digo.
–Mas
eu fiz sopa e pão de cebola.
Credo.
Se eu comer isso um pouco mais, acho que me atiro pela janela.
–Você
já comeu pizza, Melissa?
Ela
faz que não com a cabeça.
–Mas
você passou um ano fora do convento.
Ela
abaixa a cabeça, fica vermelha. Eu percebo o quanto sou idiota.
–É
difícil experimentar coisas novas quando se está sozinho, né?
Ela
faz que sim com a cabeça, e fica mais vermelha ainda.
–Hoje
você vai comer pizza.
Damos
mais alguns passos e ela acelera para me acompanhar. Comparada comigo ela é
muito pequena, tem que se esforçar para me seguir de perto. Acho divertido e,
enquanto jogo o toco de cigarro na calçada, não deixo de sorrir um pouco. Ela
nota.
–Cê
não tá rindo de mim, não, né?
É
a primeira vez que noto certo enfezamento no olhar dela. Não deixa de ser engraçado.
Rio um pouco mais.
–Não
tem graça. – ela diz – Não tem graça, tá? Tem gente que nunca comeu um monte de
coisas nesse mundo.
Eu
rio mais ainda. Ela perde a paciência.
–Ah,
é?
Estala
os dedos e uma raiz cerca meu pé. Tropeço e caio no chão com um baque surdo.
Minhas costelas parecem ranger. Dói muito. Só quando dou um gemido ela percebe
o que fez.
–Me
desculpe, me desculpe, me desculpe, me desculpe. Por Deus, eu me esqueci,
esqueci, eu sou muito burra. Sou muito burra. Muito, muito burra mesmo. Me desculpe.
Ela
me levanta do chão. Quando olho para ela percebo que está chorando.
–Me
desculpa... me desculpa... eu fui má... ela murmura.
Não
sabia que ela chorava tão facilmente.
–Melissa,
eu chamo, Melissa... ela não me olha nos olhos. Seguro forte em seus ombros e a
obrigo a me olhar. Rímel escorre pelos olhos. Só aí percebo que, desde que
deixou a zona, ela sempre se maquiava um pouco.
–Melissa,
– continuo – não tem problema. Acontece. Entende? Não é burrice, é só uma
brincadeira. Às vezes as pessoas exageram.
–Mas
eu fui má. Ela diz, soluçando.
–Não
foi, não, Melissa. Você só perdeu a paciência, só isso. Não matou ninguém. Eu
não devia ter rido, também. Você me desculpa?
Ela
se acalma, faz que sim com a cabeça. Só aí percebo o quanto havia se tornado
submissa nos anos de convento. Até mesmo brincadeiras bobas pareciam pecado.
Também entendo a dificuldade dela em se aproximar, em dizer as coisas. Ela não
sabia conversar. Quando eu a vi lutar, em todas as vezes, quando a vejo
cuidando das plantas, ela tem aquele olhar de mulher madura, mas para as coisas
que não conhece, simplesmente lança um olhar infantil a tudo. Ela se lançou
para o mundo sem a mínima noção do que ele era. Pumpkin estava certa: eu devia
ser muito gentil com ela. Sendo assim, fiz algo que não sei se era certo ou
não. Eu a puxei para perto e a abracei. Ela começou a chorar novamente nos meus
ombros. Me abraçou forte. Minhas costelas rangeram novamente, mas fiquei
calado. Quando ela me soltou estava bem melhor. E aí percebi que tremia. Fazia
um frio do cacete e ela estava com as roupas de dentro de casa. Provavelmente
deve ter saído correndo atrás de mim. Saí de surpresa.
–Toma.
Eu disse tirando minha blusa de frio e
dando a ela. Hoje eu estou um doce de coco com abóbora, penso.
–Não,
– ela diz. Eu insisto com um movimento das mãos e ela continua – A irmã Maria
de Praga disse que o frio é uma boa penitência para quem erra.
Se
eu me lembro bem, essa freira velha era uma das poucas mulheres na inquisição.
Quando Alberto entrou no convento ela atirou nele com uma besta sagrada e ele a
colocou em cima de um castiçal. O mais alto do convento.
–Escuta,
Melissa, ela não está aqui agora.
–Mas
você está com frio.
–Não
estou mais.
–Você
está mentindo.
–Não
estou, não, Melissa.
–Está,
sim.
–Ai,
saco. Pega logo a porra da blusa.
Acho
que ela ficou com medo de eu me irritar. Pega a blusa, veste e olha para mim,
com uma cara que ela acreditava certamente ser de agradecimento.
Alguns
passos depois e chegamos à pizzaria. Cheia de mesinhas coloridas, todas
ocupadas, menos aquela do fundo, escura, sem molhos nem nada. Começo a andar
para ela, e me surpreendo quando Melissa começa a correr, põe um terço em mãos
e começa a murmurar alguma coisa em latim. Me apresso para segurá-la pelos
braços, e tapar sua boca. Ela faz força para que eu a solte. Uma das cadeiras
da mesa vazia se deita bruscamente contra a parede. Poucas pessoas conseguem
ver aquele fantasma. Eu era uma delas e, aparentemente, Melissa também. O dono
da pizzaria, Naldo, é a terceira, e chega a seguir, esbaforido, com seu corpo
cansado de velho.
–Quem
é essa louca, Diógenes? Quer espantar a clientela?
Só
aí ela percebe que está fazendo algo errado.
–Melissa,
calma, calma! Eu digo.
–Ele
é uma alma perdida, Diógenes. Um fantasma. Precisa ser exorcizado! Me solta!
Todos
olham para nós. Na certa pensam que ela é louca.
Chego
perto do ouvido dela e sussurro:
–Melissa,
Melissa, calma. Nem tudo o que é sobrenatural é mau. Calma, calma.
Como
se lesse meus pensamentos, Naldo pergunta:
–O
que o Cardo fez pra ela? A pergunta do Naldo faz com que ela olhe bem para o
fantasma. Não passa de um adolescente franzino, encolhido num canto, com o ar
mais amedrontado do mundo.
–Hein,
moça? O que o Cardo te fez?
Ela
não responde, eu tomo a palavra:
–Calma,
Naldo. Ela é nova no assunto. A culpa é minha. Ela não vai machucar o Cardo.
–É
bom mesmo, Diógenes. Tudo o que eu não preciso é de uma idiota tentando
exorcizar meu irmão.
Fico
mais sério.
–Um
pouco de respeito, Naldo. Ela é uma dama. E hoje nós vamos comer. Me traga sua
maior pizza de quatro queijos.
Ele
sai, resignado. Melissa se senta ao meu lado, de cabeça baixa. Conheci Cardo e
Naldo quando decidi comer uma pizza, há uns oito anos. Entrei no lugar e
percebi que estava cheio, até mesmo no balcão. O único lugar vago era aquela mesa.
Fui até lá, me sentei, e só aí percebi o fantasma. Ele me olhava, eu o olhava,
o dono se apressou em vir ao meu encontro.
–Moço,
essa mesa tá ocupada.
E,
curiosamente, foi o fantasma quem respondeu:
–Tudo
bem, Naldo. Ele pode me ver. É o Diógenes. Não vai me fazer mal.
Quando
o irmão saiu, eu perguntei:
–Como
você sabe quem eu sou?
–Ah!
– ele disse com um sorriso – Eu sei um monte de coisas. Sei que você é legal,
por exemplo, e sei do seu avô, mas não o conheci. Ele não gostava de pizza.
–Não
mesmo, eu disse.
Depois
disso, meio que ficamos amigos. Devia ter contado à Melissa primeiro. Ela ficou
muito confusa, e agora estava ali, envergonhada novamente. Tive medo de que
começasse a chorar, mas Cardo era muito bom com essas coisas.
–Oi,
Melissa.
Ela
olhou para ele, por baixo dos cabelos que caíam, o rosto ainda manchado de
rímel.
–Conheci
seu pai, Melissa. Ele era um bom homem. Você tem os cabelos bonitos dele, mas
tem o rosto teimoso da sua mãe.
Eu
não sabia disso.
–Se
você tivesse conhecido seu pai, acho que ele falaria de mim. Mas acho que não
foi possível, não é? Ele e sua mãe queriam que eu fosse padrinho do casamento,
mas infelizmente eu não posso sair daqui. E eu sou mandado para o paraíso se
entrar em uma igreja. Você quase me mandou pra lá agora a pouco. He.
Ela
ficou vermelha, ia murmurar algo, mas ele a cortou:
–Não
precisa se desculpar, Melissa. Acontece. Eu poderia te perguntar se Diógenes te
trouxe para me conhecer, mas sei que nunca falei para ele dos seus pais. Mas
fique tranqüila, eu não sou um espírito ruim.
Ela
abaixa a cabeça ainda mais.
–Eu
morri nessa mesa, engasgado com uma azeitona. Deveria ter sido mais cuidadoso. Ele
diz isso com ar um tanto condescendente. Me seguro para não rir dessa história,
como da primeira vez. Ele percebe e continua, divertido: Eu era muito guloso
pra comer pizza, sabe? Estava gastando meu primeiro salário, queria me dar um
presente. Pedi muitas azeitonas e me escondi nesse cantinho para comer. Só que
eu comi rápido demais e ninguém me viu engasgando. Acharam que eu tava dormindo
e só vieram me ver na hora de fechar.
Melissa
olhava para ele com ar interessado, principalmente depois que seus pais foram
citados. De certa forma a história de Cardo era muito inusitada.
–Quando
saí do meu corpo percebi que não podia sair da pizzaria. E só então me vi. He,
He. Foi engraçado. Eu gritei feito um louco. E via meu corpo roxo como uma uva.
Fiquei desesperado. Tentei gritar para alguém me salvar, sei lá, mas não deu
certo. Só quando vieram buscar meu corpo é que entendi que a canoa tinha
furado.
Melissa
se atreveu a sorrir um pouco.
–Bom,
meu pai tinha morrido e minha mãe me fez prometer que cuidaria bem do meu irmão
menor. Então fiquei por aqui mesmo, preocupado com ele. Quando meu irmão
cresceu, eu o via passando na porta da pizzaria, todos os dias. Naquela época
eu já podia fazer coisas que fantasmas fazem, sabe? Como possuir gente e entrar
nos sonhos. Azucrinei a cabeça do pizzaiolo nos sonhos, até ele começar a
reparar no meu irmão. Um dia ele precisou de um ajudante, eu o possuí e corri
pra porta. Gritei meu irmão, e ele veio. Aí eu o fiz contratá-lo com um bom
salário. Quando saí, o pizzaiolo estava todo confuso, mas as coisas ficaram por
isso mesmo.
Ele
sempre ri muito quando conta da contratação. Mas o pior ainda está por vir:
–Quando
percebi que as coisas estavam bem, eu meio que apareci pro meu irmão. Ele
gritou como uma menininha e saiu correndo, todo mijado. Mas mesmo assim voltou
para trabalhar no dia seguinte. Ficava me ignorando porquê achou que estava
louco. E quando eu falava demais, ele punha as mãos no ouvido e cantava música
caipira.
Nessa
hora, pela primeira vez, eu vi Melissa gargalhar. Ela riu alto, mostrando os
dentes brancos. Lágrimas pequenas saíam dos olhos. Eu comecei a rir também. E
Cardo também. Quando Naldo chega com a pizza e nos serve, apenas o ouço
murmurar “Essa história não tem graça, nenhuma”, e sair pisando duro.
–Primeiro
pedaço dela, Cardo.
Ele
ri, extasiado.
–Então
prove logo, menina. Vamos ver o que acha. Mas faça do jeito certo, como se
deve. Diógenes, mostre a ela.
Coloco
um fio de azeite sobre o queijo quente, corto um pedaço e entrego o garfo a
ela. Melissa olha para nós dois, como se estivesse constrangida.
–Coma
logo. Ele diz, impaciente.
Ela
prova. Mastiga com cuidado. O cheiro do orégano ativa meu estômago.
–Isso
é bom. – ela diz – E começa a atacar o prato com a avidez de um cão abandonado.
Não
falamos de nada sério. Cardo nos diverte com piadas. De tempos em tempos o
irmão vem e corrobora algumas histórias. Ficamos sabendo que ali ocorrera o
primeiro encontro dos pais de Melissa, e de que eles se amavam muito.
Discorremos sobre vários tipos de pizza e suas utilidades. Naldo dá uma taça de
vinho a cada um. Melissa se arrisca a tomar um pouco (bem como eu pensava).
Cardo é terno e doce com ela. Sabe fazê-la sorrir. Teria sido um bom
galanteador se estivesse vivo, e se não parecesse tanto um adolescente cheio de
espinhas. Todos nos divertimos. Quando a pizza acaba, encomendo pedaços soltos.
Acho que Melissa precisa saber o gosto de pizza fria com café.
Mas
a verdade daquela visita, não é uma simples noite de pizza. Em outros tempos eu
até me daria a esse luxo, mas agora, no atual estado das coisas, não podia ser
feito assim. Uma verdade mais profunda é a de que Cardo podia ouvir coisas,
coisas que outros fantasmas diziam. Fantasmas de verdade, não loiras do
banheiro produzidas pela má realidade. E os espíritos falavam, falavam muito. Por
isso eu ia lá quando as coisas estavam obscuras. Naldo não era muito meu fã,
mas obedecia bem ao irmão mais velho. E eu buscava conselhos. Não parecia, mas
aquele fantasma tinha mais de noventa anos. E, aparentemente, eu não era o
único ali a saber de sua existência. Mais pessoas o viam. Algumas jamais
voltavam à pizzaria, outras, mais tranqüilas, conversavam com ele. Mas no
geral, Naldo não deixava muita gente se sentar naquela mesa. Agora, com quase
oitenta anos, e tendo comprado o estabelecimento dos antigos donos, ele ainda
mantinha respeito pelo irmão e esperava por sua morte, quando ambos iriam
embora. Se bobear, acho que serei da última geração a tê-lo por perto.
–Melissa,
– o Gasparzinho diz– um dia eu quero que o Diógenes te traga até aqui. Mas
hoje, não. Hoje não posso te contar as coisas que quer me perguntar. Espere um
pouco mais, sim?
Ela
faz que sim com a cabeça, agora sorri. Ele se volta para mim:
–Fale,
meu amigo.
Conto
a ele sobre o lobisomem, conto sobre a figura do trovador.
–Ah,
sim, o trovador. O trovador, o violeiro, o músico. Tenho ouvido falar dele.
Parece que está reunindo tudo o que existe de místico nesse mundo. Tudo o que
vive na má realidade. Parece que algo grande vai acontecer. Eu estou com medo,
Diógenes. Vampiros espirituais têm aparecido. Tenho sentido a presença de
mulas, sacis, luzes estranhas. Muitos espíritos têm desaparecido. Há uma grande
raiva no ar.
–Raiva
contra o quê, cara? Pergunto sem compreender muito bem onde ele quer chegar.
–Não
sei, Diógenes, mas algo está ecoando por toda a cidade, por toda a má realidade.
Algo com fúria assassina. Algo está juntando seguidores e perseguindo opositores,
por isso tudo está tão tranqüilo. Algo que quer vingança. Algo distante, que
vem além do mar, mas eu não sei o que é. É ancestral, e antigo. E só não agiu
ainda, porquê sabe que não é forte o bastante.
Me
viro para Melissa:
–Você
sabia disso?
Ela
se encolhe mais na mesa:
–Não.
Eu prometo, Diógenes, por todo o sacramento, eu prometo.
Abano
as mãos como quem diz, “Tanto faz”, e penso nessa merda toda. Dou de ombros e
digo:
–Agora
fodeu tudo.
Ele
ri, um pouco e diz:
–Você
vai reunir o pessoal?
Faço
que sim com a cabeça. Ele me dá o último relatório das coisas que aconteceram.
O que ele sabe e o que apenas ouviu falar. Faz meses que não o vejo, mas ele
parece estar a par de tudo que aconteceu comigo. Me avisa que Alberto estará na
cidade em dois dias e que era preciso falar com ele; Ele não me diria tantas
coisas se não fosse importante. Pergunto mais uma vez sobre o paradeiro dos
livros do meu avô, mas ele não sabe. Em algum lugar por aí a Lança de Longinus
está desprotegida, e isso é grave. Mas tudo bem, isso pode esperar um pouco
mais. Melissa observa a tudo sem falar nada, apenas ouvindo a conversa. No meio
dela pergunto:
–Por
quê ela está me seguindo?
Ela
quase se engasga, seus olhos ficam assustados. E ele dispara:
–Se
ela quisesse que você soubesse, teria te dito ela mesma, você não acha?
Desisto
da resposta, mas rio divertido quando ela me olha com cara de raiva.
Quando
finalmente nos levantamos, já passa da meia noite e a loja ainda está cheia.
–Volte,
Melissa. – Cardo diz– Acho que temos de ter uma conversa importante.
Ela
promete voltar, ele sorri.
–E,
não confie muito nas palavras desse mimado, você faz bem a ele.
Ela
suspira fundo e abaixa a cabeça, eu olho para ele, irritado. Ele apenas se limita
a gargalhar, dessa vez fazendo aquele som profundo e metálico dos fantasmas dos
filmes de televisão. Vamos embora levando um catálogo com os sabores de pizza.
Melissa dizendo que é a melhor coisa que já comeu. No meio do caminho ela diz:
–Obrigada,
D!
E
me abraça. Não estou acostumado com isso. A última pessoa a me abraçar daquele
jeito foi Sofia. Mas o abraço dela era diferente, mais terno, menos carente que
o de Sofia. Eu estou começando a gostar dela de verdade. Pumpkin sabe de muita
coisa, mas ela foi ao interior com Carlos, ensiná-lo a usar aquele medalhão
estranho. Quando voltar, vou perguntar mais sobre Melissa e sobre o que está
acontecendo. Talvez ela saiba de algo e não queira contar. Mas, se ninguém me
diz nada, existe algum risco nessa garota? Me sinto como se todos soubessem de
algo que não sei. Mas o importante agora é encontrar o tal violeiro. Espero que
tudo corra bem.
Chegamos
em casa. Dona Maninha está saindo.
–Fiz
o que você pediu, Diógenes. Limpei tudo. Passei as caixas plo seu antigo
qualto. Quanta polcalia, quanta polnoglafia,ali. Você tem que palar com essas
coisas agola que tem uma moça em casa. Assim, também não vai alumar uma
namolada. Mas, está tudo plonto. A moça não vai ver as polcalias.
–Obrigado,
dona Maninha. Não ia saber como fazer. Obrigado, mesmo. Queria que a senhora me
deixasse pagar...
–Não,
não. Tá bom? Depois, se eu plecisar de ajuda te peço, ta?
Melissa
fica sem entender, mas a puxo pelo braço e a levo para dentro, quando Dona
Maninha entra, dando beijinhos em mim e nela. Arrasto-a para a porta ao lado do
meu quarto, abro e vejo o que dona Maninha fez. Lençóis velhos, mas limpos, o
colchão arrumado, sem poeira. O quarto de uma moça. Acho que Melissa vai
gostar.
–Pegue
suas coisas, no seu carro. Sei que tem um monte de roupas lá. Mas se vai ficar
aqui, quero meu sofá livre para eu me escornar em paz.
Ganho mais um abraço àquela noite. Minhas
costelas me odeiam. Ela não diz nada, apenas desce as escadas correndo. Não
posso ajudar. Se carregar peso perco minhas costelas de vez. Vejo-a trazer e
arrumar suas coisas enquanto finjo prestar atenção na TV. Por quanto tempo ela
ficará? Por quê eu fiz isso? Acho que é um jeito de agradecer por ter salvo a
minha vida. De qualquer forma, pelo menos ela não ficará tão exposta. Uma moça
precisa de intimidade.
Ela
dorme rápido na cama velha, com colchão velho e lençóis velhos. Eu demoro a conseguir
pegar no sono. Me levanto para ir ao banheiro e vejo a porta aberta. Não
resisto e entro com cuidado para vê-la dormir. Me assusto ao perceber que
segura minha blusa de frio próximo ao rosto.
Saio
com o coração aos pulos. Espero que não esteja acontecendo a essa moça o que eu
não quero que aconteça. Merda...
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*Revisão final de Flávia Gomes
*Revisão final de Flávia Gomes
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