Ele
anda por horas. Eu o sigo por horas. Joguinho de merda. Ele pára de vez em
quando e fica olhando, olhando, olhando, como se pudesse ver algo (e realmente
pode) que eu não vejo. Ele não percebe que eu o estou seguindo. Atrás de mim,
Melissa não percebe que eu percebi que ela está me seguindo. Ainda não entendi
que porra é essa.
Se
passaram alguns meses desde que ela se aboletou na minha casa. Dorme no sofá e
não sai durante o dia. Fez uma cópia da cópia da minha chave, e fica lá o dia inteiro,
limpando. À noite faz sopa e pão. Ela só sabe fazer sopa e pão. Só ensinaram
isso pra ela. Eu não agüento mais comer sopa e pão. Se ela tivesse ido pra um
daqueles conventos onde se faz doces, cheios de frades gordos, seria bom, mas
foi pra um desses conventos onde as pessoas fazem penitência. Ok, valeu. Aliás,
nem sei porquê estou comendo essa merda todo dia, nem porquê não mandei essa
pirralha embora. De algum modo ela está morando na minha casa, dormindo no meu
sofá e agindo como se fosse uma dessas esposas dedicadas. Toda vez que vou
falar algo com ela, ela alterna entre dois tipos de olhar: um que diz “é agora
que você vai me expulsar?”, ou então “que bom que você veio falar comigo”. Quando
saio, em todas as noites, ela me segue, como se eu não pudesse notar.
Pumpkin,
confirmou a informação de que ela se desligou completamente de seu antigo
grupo. Fui procurar por mais informações e descobri que um dia Alberto chegou
na porta do convento, aprontou uma porra de um escândalo e disse que só sairia
de lá com a Melissa. Como nem ela sabia que se chamava Melissa, ele entrou lá
dentro, a pegou pelo braço, contou uma parte da história e mandou ela perguntar
aos amigos de guarda dela. Aquele trio nojento. Nem preciso dizer que, antes de
parar para ouvir, ela tentou acertá-lo. Levou um soco na barriga que a deixou
sem respirar por alguns segundos. Não quero levar um soco daquele filho da puta
nunca mais. Imagine ela que é mulher.
O
que ela fez antes de me procurar, eu não sei. Sei apenas que antes de me encontrar
ficou um ano sumida. Agora não sai mais da minha casa. A filha da bruxa mais
psicopata da história está dormindo no meu sofá e eu nem ligo. E o pior, por
algum motivo estranho, eu ainda estou conversando com ela. Contando casos,
fazendo piadas (as indecentes ela não entende, anos de convento...), assistindo
desenho animado (ela ainda fica travada pra rir, mas parece estar aprendendo),
fumando (só eu), bebendo (só eu, se bem que eu acho que um vinho de missa ela
aceitava), e contando histórias engraçadas de épocas que não existem mais. Não
falamos mais da mãe dela. Mas de vez em quando ela me faz perguntas estranhas
sobre o mundo (clausura). Só espero que não me pergunte de onde vêm os bebês.
Aí vai ser tenso. Outro dia ela me perguntou o motivo de eu não ter uma namorada.
Eu disse a verdade: que sou tão feio que as mulheres não olham pra mim. Nem um
pouco. Ela me perguntou sobre Sofia e eu disse que Sofia era louca.
Com
o tempo ela simpatizou com Dona Maninha, mas nem sei que desculpa deu pra ficar
morando no meu apartamento. Sinceramente, e que Deus me perdoe por dizer isso
em relação à essa carrasca da Inquisição: eu tenho gostado de não ficar
sozinho. Ela não é ruim. Às vezes parece madura e responsável, mas tem umas
dúvidas de criança, sei lá que merda ela pensa da vida, sei lá porquê está
aqui. Fucei o mais que pude mas não encontrei nenhum motivo para ela querer me
ferir. De qualquer forma, Pumpkin me disse que estaria de olho nela, pro caso
de tentarem algo contra mim. Sem saber o motivo, não acredito que me faria mal.
Acho que essa pirralha só está sozinha, assim como eu. Só que eu tenho amigos
que são como família, e acho que a família que ela tinha era um bando de
pingüins de geladeira que mentiram pra ela.
De
qualquer forma, durante o tempo em que ela esteve em minha casa, não aconteceu
nada na má realidade, nada mesmo. Sem fantasmas, sem monstros, nem aqui, nem
nas cidades próximas. Tenho ido à zona todos os dias, todos e todos os dias,
mas nada aconteceu. Nada até aqueles dias, quando uma das moças que trabalha
numa rua próxima apareceu com a garganta dilacerada. Desse dia em diante Carlos
surtou. Passou a sumir no meio da noite, quando achava que as coisas pareciam
mais calmas. Esses dias aplaquei uma briga sem ele e acabei quase quebrando o
nariz. Quando ele voltava, quase de manhã, dizia que esteve com uma garota
qualquer. Difícil de acreditar. Ele sempre paquerava alguma das meninas, namorou algumas por um tempo, mas
nada fora de lá. Nunca saía durante o dia, na verdade mal se movia durante o
dia, e não deixava os arredores da zona por motivo algum. Ele tinha medo do que
pudesse acontecer. Não via os pais há anos, e toda a comunicação se resumia a
presentes que enviava para eles e a pequenas cartas. A cidade ficava há apenas
uma hora de viagem, mas se ele fosse até lá, todos sabemos, ele voltaria a ser
um lobisomem.
Agora
uma garota aparece com a garganta dilacerada e ele desaparece. Depois vem
outra, e outra e outra. Todos temem que seja algum cão raivoso, de tamanho descomunal,
mas eu sei o que é: um maldito lobisomem. E nem é lua cheia. E agora um dos
meus melhores amigos, que era um lobisomem amaldiçoado, que eu libertei na
noite em que decidi meu destino, vaga sob o mesmo céu noturno onde garotas são
devoradas pelo lobo mau. Algo está errado, algo está muito errado. E é por isso
que eu estou seguindo ele, antes que a merda bata no ventilador e acabe em cima
dos meus óculos. O pior é que eu nem posso acender um cigarro. Mas que porra.
Quando
ele pára no meio de uma obra abandonada e começa a subir as escadas, eu me
pergunto onde estou indo. Mesmo assim subo degrau por degrau, tentando não
fazer barulho com meus sapatos sociais vagabundos. Se ele me ouvir, vou demorar
um tempão pra explicar o motivo pelo qual estou ali. Espero que Melissa tenha o
mesmo senso. Se ele a pegar, me pega também. Eu demorei muito tempo para
aprender a seguir alguém sem ser
detectado. Vai ser um saco se tudo for por água abaixo somente porquê essa
pirralha não larga do meu pé.
Ele
chega à cobertura do prédio. Pára bem no centro. A lua não é cheia, é minguante.
Paro na escada, me escondendo nas sombras.
–Não
fui eu que matei aquelas garotas, Diógenes.
Ouvir
meu nome no meio da escuridão me assusta. Saio devagar. Havia me esquecido de
algo importante: ele ainda podia farejar.
–Eu
ainda sou um cachorro, D, mesmo que a maldição tenha sido quebrada. Ainda sinto
o cheiro das coisas. Ainda tenho parte da força.
“É
claro que tem”, pensei, lembrando da vez em que derrubou cinco caras de uma
vez. Ele veio para a cidade para se libertar da maldição e ser um pugilista.
Quando descobriu que sua força vinha somente da sua condição, desistiu. Agora é
um leal porteiro de cabaré. Triste, soturno, apenas fingindo que está feliz.
–Eu
nunca pensei que fosse você, Carlos (isso é a mais pura verdade). Mas sei que
tem alguma merda errada. E acho que você sabe o que é.
Ele
me olha com o rosto mais amargurado do que o normal. Não parece bem. Nem um
pouco.
–Sabe,
D, eu ainda sinto o cheiro das coisas. Ainda reconheço as pessoas pelo cheiro
do mijo delas. E quando um lobisomem mija por todo o seu território, você larga
essa merda toda e tenta fazer alguma coisa. Tem um filho da puta tentando
chamar minha atenção, mas eu não sei quem é. Nem como ele se transforma sem a
lua cheia. Sinto o cheiro dele, ele está aqui, mas minha fungada é limitada
agora. Carlos diz isso com um sorriso quase doentio.
E
é nesse momento épico que ouvimos passos. Por trás de uma pilha de tijolos
próximos ele sai, ereto, como um ser humano, e vestindo um terno, o maior
lobisomem que eu já vi. Carlos se vira para ele, olha de cima abaixo, os dois
se encaram e finalmente o porteiro diz:
–D,
cê já viu uma porra mais ridícula?
Caímos
na gargalhada. Um lobisomem de terno é uma figura mais engraçada do que se pode
sugerir. É como vestir um cão com roupas velhas.
–Credo,
cara, eu respondi, que merda é essa?
O
lobisomem nos olha com cara de ofendido. Ameaça rosnar, mas não o faz. Deve
pensar que não é civilizado. Daqui a pouco terei que derrotá-lo, mas por
enquanto, rir ainda é muito bom. Nos admiramos mais ainda quando ele começa a
falar:
–Boa
noite, irmão, vejo que trouxe convidados...
Parece
absurdo, mas a voz dele era rouca e profunda, como, como...
–Cara,
Carlos diz, tua voz faz barulho de peido n’água!
Não
agüento e rio mais ainda. Tudo me parece tão absurdo que chega a ser hilário.
Quando consigo me controlar, acendo um cigarro ainda tremendo. O lobisomem
parece impaciente por poder falar. Carlos tem lágrimas nos olhos. Dou uma tragada
e digo, ainda com voz de riso:
–Cara,
peraí, sério, escuta: letra “a”: Cê é um lobisomem de verdade? “B”: Por quê
diabos cê tá de terno? E “c”: como diabos cê consegue falar?
Esperamos
pela resposta e ele não se faz de rogado. Tava querendo a palavra há algum
tempo:
–Terei
um prazer enorme em responder a cada uma de suas perguntas, meu irmão e seu
lacaio humano.
Porquê
todos tentam me diminuir, eu não sei. Uma hora eu sou herege, outra sou lacaio
humano, esse mundo é cada vez mais preconceituoso com quem é feio. De qualquer
forma, devo ficar de olho, essa coisa pode avançar sobre nós a qualquer minuto.
Eu tenho o guarda-chuva, mas Carlos não teria a mínima chance e não quero que
Melissa ajude. Não sei o quanto nela ainda gosta de matar o que eles chamam de
demônios.
–Em
primeiro lugar, sinto que não fez a pergunta primordial, lacaio humano, mas
responderei às perguntas secundárias que me fez.
A
fera fala com a naturalidade de um palestrante chato. Paro um tempo pra pensar em qual seria a
pergunta primordial, mas a cabeça tá meio pifada nos últimos tempos. Ele
continua, me olhando como se eu fosse o símbolo mor da burrice.
–Eu
sou um lobisomem, sim, lacaio, mas sou diferente daquela massa descontrolada
que se acha amaldiçoada, fui abençoado com o controle de minhas forças, por
isso acredito que nada é mais prático do que vestir roupas, afinal, independo
de tolices rituais a que meus amigos se submetem, como aquele ato hediondo de
torcer as roupas e roçar em fezes de vaca, como uma demarcação de território
canina absurda. Tais atos são discrepantes do meu comportamento. E, quanto à
vocalizar palavras, nada tão simples, basta que eu deixe minha consciência
guiar, ao invés de permitir esse comportamento doentio da nossa espécie.
–Uma
garota com o pescoço mastigado não é doentio, mas rosnar é. Ok, tá legal.
Essa
frase minha desperta nele um sorriso (sim, parece um cachorro rindo) e ele
acrescenta, com uma satisfação incrível:
–Ora,
matar alguém para atrair meu irmão de licantropia não passa de mero detalhe. Se
quer saber, as moças não eram direitas. Representavam o lado mais sujo da perversão
humana.
–Diógenes,
Carlos se vira pra mim, perplexo, que merda é esse cara e o que diabos é
licantropia?
–Depois
eu te explico, cara. Deixa o cachorro da rainha terminar de falar.
–Fico
feliz, lacaio humano, que saiba respeitar a ordem das coisas, apesar do meu
irmão apresentar certa ignorância, você me parece ser um pouco mais letrado. Resultado
dessa discrepância absurda que difere minha raça da sua e nos taxa como uma
simples maldição. Mas isso não altera a superioridade da nossa raça.
–Cara,
eu digo, vocês não são uma raça. Não existe nem lobismulher. Se você fosse uma
raça, ia se reproduzir como?
–Calado,
lacaio humano! Somos sim uma raça superior em vários sentidos, além do seu
falso contexto biológico. Somos uma raça rara que se reproduz de forma diversa.
Não somos simples restolhos de uma maldição humana. Posso realmente ser filho
de uma simples relação carnal entre uma mulher e o padrinho de um de seus
filhos, mas transcendi tal condição! Hoje sou um rei entre os licantropos e não
devo lhe dar ouvidos. Se lancei mão do infame artifício de urinar ao longo das
ruas foi somente para atrair meu irmão aqui, para lhe fazer uma proposta
irrecusável! Cale-se, humano incompleto e imperfeito! Deixe-me manter uma
conversa decente com meu irmão. Dizer-lhe que é um abençoado do destino, ao
invés do portador de uma maldição.
–Carlos,
eu digo, o papo é contigo.
Carlos
olha pro yuppisomem, faz que não está entendendo nada com os ombros e deixa o
cara falar.
–Vim
lhe oferecer, meu irmão, a chance de abraçar novamente nossa forma bestial, de
nos mostrarmos superiores. Há um homem, um trovador, que tem o poder de nos dar
o controle. Vê? Ele tira um medalhão estranho do pescoço, com a forma de um pentagrama,
incrustado de algo que não consigo identificar. Este medalhão, ele continua,
criado nos tempos de Salomão tem o poder de nos transformar, de nos tornar
senhores de nossos impulsos. Não importa se a lua está conosco, ou não. O
trovador está reunindo muitos de nós. Eu senti tua presença e vim invocá-lo. Eu
não volto ao normal há um mês. Finalmente pude retornar à minha forma
primordial, desde que fui ferido e perdi minha maldição, desde que me feriram
com aquele maldito açoite de arame farpado. Nós estamos nos reunindo para algo
grande. Venha comigo, irmão licantropo.
Carlos
permanece em silêncio. Me lembrei da “pergunta primordial”: como ele se
transforma sem lua cheia? Eu sou burro mesmo. O cara continua:
–Você
não sente saudades daquela época? Da força, da capacidade de subir em qualquer
lugar, destruir qualquer um? Imagine tudo isso desprendido do nosso instinto
animalesco! Podemos dominar essa cidade. O trovador tem milhares desses
medalhões, nós podemos ser um grande exército. Venha comigo. Venha!
Carlos
respira fundo, dá um passo à frente. Temo que ele se sinta tentado. Ele nunca
fala sobre a época de lobisomem, nunca. Quando arrumei pra ele o emprego na
zona, fui sincero sobre tudo: disse que não poderia voltar a nenhum lugar onde
se acreditasse em lobisomens. Ele não vê os pais há muito tempo. Disse que sua
força, mesmo na forma humana, era resquício disso. Ele optou por não se tornar
mais um pugilista. Se os meus sonhos foram suprimidos, os dele também foram.
Agora esse cara oferece controle. Controle que eu nem sabia que existia.
Carlos, por favor, não vá. Se ele for, se ele se tornar um lobisomem, onde isso
tudo vai terminar? Caçar um cara que eu não conheço é fácil, mas e caçar um
amigo? Caçadores não gostam de antigas bestas. Muitos preferem matá-los. Depois
da morte do meu avô isso cresceu. Não tenho o mesmo carisma do velho. Se Carlos
for por livre e espontânea vontade, se quiser se transformar, talvez eu tenha
que matá-lo.
–Cara,
ele diz, vai tomar no cu!
Respiro
aliviado. Às vezes eu me esqueço que não sou só eu a fazer sempre o certo.
–Cara,
Carlos continua, ser lobisomem é legal, cê tá certo. A sensação, a liberdade,
eu sinto falta mesmo. Mas, sinceramente, cara, eu podia até ser um bicho, mas
eu não era tão irracional assim. Eu nunca matei ninguém. Nunca mesmo. Eu matei
bichos, e isso por si só já era um saco, mas realmente eu só matava os velhos,
os que já iam pro matadouro, os que não prestavam. Mesmo sendo amaldiçoado, eu
rezava por isso toda noite. Rezava pra Deus não me deixar ferir ninguém. Você
mata uma pá de meninas inocentes, chama elas de lixo e quer que eu me junte a
você? Ter o controle seria algo bom, mas ser um lobisomem, isso não é normal. É
uma merda, na verdade. As pessoas têm medo da gente. Elas nos odeiam e nos
querem longe. Elas sabem, sempre sabem, o que nós somos. Não vou ser um
lobisomem de novo, cara.
–E
você vai me dar esse medalhão. Eu acrescento. Não posso deixar um louco como
você solto por aí, com esse poder todo. E depois você vai me falar desse
trovador, aí.
–Nunca!
Você se arrependerá, irmão, por não vir comigo! Se arrependerá! Eu exterminarei
agora esse caçador, e devorarei você, para que venha comigo com tua essência!
Esse
cara é louco. Parte para cima de mim sem hesitar. Abro o guarda-chuva rápido,
mas ele me joga longe antes que eu possa detê-lo. Dói, muito. É como ser
atingido por um caminhão. Acho que quebrei uma ou duas costelas, mas mesmo
assim me levanto. O guarda-chuva voou longe, tento correr para pegá-lo, mas é
tarde demais. Ele já está perto de novo. Consigo me desviar e me vejo na
beirada do prédio. Eu vou morrer. Ele vem em minha direção novamente e começa a
correr. É muito pesado. É muito rápido. Pra onde eu corro? Pra onde? Foda-se.
Ao menos vou morrer com dignidade.
Mas
um vulto o intercepta, uma sombra grande e forte o empurra. Carlos. Ele se joga
sobre a fera, num soco que eu posso sentir apenas de ver. Os dois se atracam,
avançam para a beirada. Socos e arranhões,é como se o porteiro nunca tivesse
deixado de ser um lobisomem. Força, coragem, liberdade. Salto para ele antes
que cheguem perto demais, antes que caiam. Quando alcanço sua blusa, é tarde
demais. O peso do lobischato nos puxa pra baixo. Estamos caindo. Dessa vez
vamos mesmo morrer. Fecho os olhos. Cair de uma grande altura é algo
surpreendente, parece que você vai ter um infarto. Espero que não doa muito.
Espero que eu vá para o céu. Que lá tenha virgens e aulas de faculdade. Espero
que Deus seja doce, que meus pecados não sejam grandes. Será que eu fui feliz?
Será que eu devia ter ficado com Sofia? Alguma outra mulher me amaria? Minha
vida não passa diante dos meus olhos, eu não vejo túneis. Vô, eu estou
chegando, guarda um pedaço desse bolo pra mim. Mãe, pai, o filho estranho de
vocês vai chegar, desculpe não ter sido um bom filho, me perdoem por ter sido
essa aberração. Pelo menos meus irmãos vão ficar com a casa, né?
–Adeus.
Eu murmuro.
–Ainda
não. É a resposta que ouço.
Abro
os olhos. Sementes passam por mim. Se grudam nas paredes, germinam, são cipós.
Me agarram, agarram Carlos, agarram o lobisomem. Estamos vivos. Olho pra cima e
ela está lá, sorrindo, linda como eu a vi da primeira vez. Melissa. Quando percebe
que a vi, pára de sorrir. As plantas começam a se mover para cima.
–Isso
é meu!
Olho
para baixo e vejo Carlos arrancar o medalhão do lobisomem. Ele volta a ser
humano quase que instantaneamente.
–Você
não vai ferir ninguém mais, cara. Não vai ser lobisomem nunca mais.
O
homem, franzino, mirrado em meio àquelas roupas gigantes. Olha assustado,
tentando compreender o que se passa. Mas quando acorda só temos tempo de
ouvi-lo dizer:
–Prefiro
a morte!
Com
um tranco nos cipós ele se solta. Cai no asfalto sem que possamos fazer nada.
Melissa
nos puxa de volta. Chegamos ao alto do prédio novamente. Ela me olha, como se
esperando que eu diga algo. Ficamos olhando um para o outro, calados. Eu
tentando vencer um orgulho estúpido, ela esperando algum tipo de aprovação
(será?). É Carlos quem corta o silêncio:
–Obrigado,
moça. Ele a abraça. Eu tinha me esquecido que ele fazia isso. Ele me abraça,
minhas costelas doem e eu desabo. Melissa me segura. Olha para mim em silêncio,
com olhos preocupados.
–D,
cê ta bem? Carlos pergunta.
–Não.
Eu digo tentando sorrir. Costelas quebradas, Carlos. Dói pra cacete.
–Descansa,
cara.
–Não
dá, Carlos, a polícia chega logo. Vamos embora. Sorte que a saída é do outro
lado do prédio.
Saímos
o mais rápido que podemos. Vamos pelas ruas mais vazias, até a zona. Eu mal
consigo me arrastar, mas continuo caminhando. No fim das contas eu sempre acabo
arrebentado. Sou só um cara, porra! Melissa tem de me amparar o tempo todo. Por
quê ela fica me salvando? Mesmo assim é bom que ela esteja aqui. Eu não queria
morrer.
Quando
chegamos à porta da zona ele olha pra mim, estende o medalhão e diz:
–Some
com isso, D.
–Não,
eu digo. Esse pode ser seu passaporte de volta pra casa. Pede a Pumpkin pra dar
uma olhada, cara. Se houver uma chance de você se controlar, que seja, velho.
Cê já perdeu demais.
–Mas,
cara...
Faço
um sinal com as mãos que diz que não estou nem aí. Ele fica ali parado enquanto
eu entro. Não passa das três da manhã quando Melissa me coloca no meu quartinho.
Ninguém faz perguntas. Pumpkin vem, com um monte de ervas. Coloca minhas
costelas no lugar (dou um urro gigantesco) e me enfaixa todo. Melissa não sai
do meu lado. As duas conversam amigavelmente. Digo que vou conversar depois com
a bruxa anã e ela nem faz perguntas. Ela diz apenas que vai olhar o medalhão.
Preciso descobrir quem é esse tal de trovador, mas tenho tempo ainda. Primeiro
eu preciso dormir.
Quando
fecho os olhos, sinto as mãos de Melissa sobre o meu rosto. Isso se chama
carinho, é o que eu penso.
–Melissa,
eu digo, abrindo meus olhos, ela me olha com seu jeito inocente, agora com algo
meio maternal, eu continuo: Obrigado por salvar minha vida, de novo. Acho que
podemos ser amigos.
Fecho
os olhos novamente, para não ver a reação dela. Depois de um tempo eu adormeço.
Vô, vou demorar um pouco a chegar, guarda um pedaço de bolo pra mim...
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