Desde que eu
havia conhecido os gêmeos, meus cabelos foram cortados pelo Barbeiro. Se meu
avô estivesse longe, ele sempre ligava e dizia:
–Não cortem o
cabelo dele. Chego em breve e nós vamos ao Barbeiro.
Desculpa
convincente para passar algumas horas comigo. Acabávamos sempre indo a outros
lugares depois. Cinema, pizzaria, loja de quadrinhos. Algumas vezes visitávamos
outros amigos do meu avô. Sempre pessoas
interessantes, que me tratavam bem. Eu ganhava doces e afagos na cabeça... Mas
os gêmeos eram mais divertidos. Eles brincavam comigo. A diferença de idade era
irrelevante. Nós corríamos, pulávamos e, enquanto eu cortava o meu cabelo, eles
tocavam. Eram bons com violinos. Tocavam juntos a música que fosse pedida pelo
cliente e, quando parecia que ninguém mais estava olhando, o Barbeiro sorria.
Bem, bem de leve.
A barbearia era
simples, pequena, mas sempre estava cheia de gente. As pessoas gostavam de lá,
e mesmo hoje, é difícil se encontrar um barbeiro de verdade, que faz as coisas
do jeito antigo. Era um lugar simples. Uma cadeira (e apenas uma, pois o
Barbeiro afugenta qualquer candidato a sócio), uma série de instrumentos de
barbearia, todos novos, uma vitrola, que só era usada quando os gêmeos não
tocavam, um sofá para quem espera, sempre lotado, com um cesto cheio de
revistas. Quando fiz dezoito anos ele me deixou ver as revistas de sacanagem,
que ficavam guardadas no armário quando havia crianças. Havia também uma caixa
de madeira e vidro, presa na parede, cheia de instrumentos antigos de
barbearia. E alguns instrumentos de cirurgia, que eu só compreenderia muito
depois. Um dia eu perguntei se ele havia usado tudo aquilo e ele me disse que
não era tão velho quanto o filho da puta do meu avô. E, todas as tardes, era lá
que os gêmeos treinavam música. Haviam tido um professor aos cinco anos, mas
aos sete ele foi dispensado. Quando eu os conheci, eles já tocavam melhor do
que alguns profissionais. Alguns convites de orquestras chegavam, mas o Barbeiro
sempre dizia que eles teriam tempo suficiente para trabalhar quando fossem
adultos. O único pedido aceito foi o de uma escola de música, mas muito depois
de os gêmeos insistirem imensamente para que ele os deixasse aprender mais. A
casa deles era acima da barbearia, e a música chegava até os clientes, todos os
dias. Foram tantos os protestos quanto a isso, que o Barbeiro se viu obrigado a
pedi-los para descer e tocar para os clientes. A clientela triplicou. E os
gêmeos, antes abandonados como malditos, cresceram com a admiração do mundo. E,
como eu, com um pé na má realidade.
Um dia eles me
perguntaram:
–O que você quer
que a gente toque, Diógenes? Hoje você é o cliente, a música é sua...
Suado, ofegando
de tanto correr, o Barbeiro se perguntando por onde começar no cabelo
emplastrado, eu não sabia o que dizer. Meu avô, que lia um jornal alheio a tudo
parou e ficou me observando... Eu nuca havia comentado nada sobre música. Na
verdade, eu não costumava ouvir música, não conhecia nada. Talvez apenas as
músicas do Indiana Jones e do Star Wars. Mas não queria pedir essa, pareceria
falta de educação. Então eu disse:
–O que vocês
tocariam para vocês?
Eles pararam,
pensaram um pouco, acho que ninguém havia perguntado aquilo para eles antes.
Eles simplesmente tocavam o que era pedido, como um realejo. E, depois de
alguns minutos, sem saber o que fazer, a tesoura parada nas mãos do Barbeiro,
um silêncio incomum, naquele lugar sempre cheio de música... De repente, sem
necessidade de maiores explicações, sem conversarem entre si, eles começaram a
tocar ao mesmo tempo. Uma canção bonita, calma e agitada ao mesmo tempo.
–A primavera, de
Vivaldi. O Barbeiro sussurrou satisfeito.
Quando os gêmeos
terminaram , me disseram:
–Nossa primeira
música. O pai nos ensinou ela, assobiando devagar.
E, como meu avô
olhasse para ele, segurando o riso, esperando ele assobiar, ele disse:
–Abaixe esse
sorriso, seu velho filho da puta!
Com o passar dos
anos, percebi que “As Quatro Estações” correspondiam a cada um de nós. Para
Pumpkin, eles haviam pensado no Verão.
Mas o nome dela
não era esse. Ela se chamava Janete Abóbora. Sim, seu sobrenome é Abóbora
mesmo. Um dia ela ficou cansada e mudou para Pumpkin, numa época em que
acreditava que seria uma grande ilusionista. Talvez tivesse renome
internacional. Mas quando eu a conheci, ela tinha trinta anos, e se sentia
sozinha.
Meu avô me levou
até a casa dela. Atravessamos um jardim enorme, que quase soterrava a casa
velha. Isso bem no meio de uma capital. Havia flores, mas todo o tipo de coisa
entre elas. Todas plantas que uma criança criada em apartamento não conhecia.
Quando entramos,
sem bater, sem chamar, ela não se surpreendeu. O lugar cheio de livros, em
prateleiras por todas as paredes. Livros velhos, novos, em várias línguas. Não
era um lugar empoeirado, era limpo. Quando meu avô me disse que veríamos uma
bruxa, imaginei algum tipo de cenário grotesco, mas me aprecia mais uma
biblioteca com cara de casa. Tudo muito novo. Depois viria a saber que a casa
fora um presente recente de muitos caras como eu e meu avô, que precisavam de
alguém para organizar os livros e para servir de consultoria. Aquela era a
biblioteca de gente como nós, que não tinha acesso aos livros que a Igreja
havia trancado nos monastérios. Pessoas de todo o mundo ainda enviam livros
para lá, e ela os lê sem parar. Na mesa em que estava, lendo, continuou, sem
levantar os olhos.
–Oi, Augusto. A
quanto tempo está na cidade?
–Pouco mais de
uma semana. Como está você, Abóbora?
O olhar que ela
lançou a ele por si só me mostrou que ela não era uma pessoa inofensiva. Mas
quando ela me viu, pareceu mudar. Desceu da mesa e, tinha o meu tamanho! Como
uma boneca. Com um sorriso no rosto ela disse:
–O seu neto?
Meu avô fez que
sim com a cabeça.
–Você é o
garotinho que pode manipular a má realidade?
Eu não disse
nada, não sabia o que era aquilo. Meu avô me explicara pouco, e agora se
encarregava da minha peregrinação por todas as casas onde seus amigos pudessem
me ajudar. Primeiro o Barbeiro cortara meu cabelo,enquanto eu via os gêmeos
seduzirem os clientes com a música, e agora me levava até aquela mulher, que eu
achava simpática, mas que parecia estranha. Os cabelos pretos pintados de
vermelho, numa época em que isso ainda não era moda. Seu vestido parecia uma
túnica, e ela se movia de maneira rápida e suave. Ficou olhando para mim, com
um sorriso bobo na cara, por muito tempo, depois tocou no meu queixo e me fez
olhar bem dentro dos seus olhos. Era como ser devassado por uma escavadeira.
Senti como se minha mente fosse jogada para trás, como se várias portas se
abrissem de repente e ela pudesse ver dentro da minha alma. E ela podia mesmo.
–Ele não é um
mago, Augusto. Por que o trouxe aqui?
–Ele precisa
estudar. Queria que me emprestasse alguns livros. Principalmente o manual básico.
–O manual básico
é em francês, você sabe disso.
–Então me
empreste também a gramática de francês.
–Você vai
ensinar francês pra um garoto de oito anos?
–Ele tem 10. E
eu não vou ensinar nada, ele consegue aprender sozinho.
–Consigo? Minha
admiração foi tão espantosa que ela soltou uma gargalhada, suave e comprida.
Meu avô colocou
a mão sobre a minha cabeça e disse:
–Consegue sim. Você
leu alguns livros de economia universitários a algum tempo, acho que consegue
ler uma gramática de francês e aprender a ler aos poucos . Não precisa ter
pressa, nós temos tempo.
Pumpkin passou a
mão sobre o meu rosto e disse:
–E, você pode
vir aqui sempre que quiser, eu te ensino o que eu sei.
–Obrigado. Eu
disse. E foi assim que eu aprendi a ler
em francês, alemão e latim. Grego antigo e mandarim, um pouco de escrita
cuneiforme.
Aquela casa era
na verdade uma biblioteca, onde pessoas como o meu avô guardavam livros e informações
que eram conseguidas pelo caminho. Livros raros, descrições antigas, livros em
outras ínguas e histórias contadas pela população em geral. Havia muitos
relatos, contados e anotados em guardanapos, papéis de pão e muita, muita
literatura de cordel. A medida em que fui me aprofundando naquela biblioteca
descobri que a maioria dos livros eram sobre lendas do Brasil, ligadas sempre à
religião e a outras coisas, e que muitos nem eram livros, mas diários, onde se
via descrições minuciosas das feras encontradas e da maneira de se curá-las.
Meu pai não
rejeitou minhas aulas de línguas com a Pumpkim, na verdade ele conhecia Barbeiro, e outros amigos do meu avô. Nos
primeiros dias de estudo, quando eu tinha dúvidas, eu ligava para ela, mas aos
domingos, meu pai me levava para vê-la, e aprende rum pouco mais.
Eu sempre
voltava com algum clássico da literatura sobre os braços, escondendo um dos
diários que eram escritos em português. Foram noites e noites estudando, lendo,
aprendendo sobre a profissão do meu avô, que seria a minha no futuro. Também
continuei pegando livros de economia na biblioteca pública. Quando meu avô me
apresentou para Pumpikim, eu já lia alguns clássicos, e meu vocabulário estava
cada vez mais profundo. Algo que minha mãe achava lindo, mas que lutou para
corrigir. Ela não queria que eu fosse espancado na escola novamente.
O manual básico
tentava explicar sobre a má realidade, e onde ela se encontrava. O nome do autor
estava perdido, e depois vim a saber que o livro foi escrito por vários
autores, e depois da criação da imprensa, foi editado e distribuído entre
aqueles que lidavam com isso na Europa. As cópias originais foram confiscadas
pela Igreja e queimadas por alguns padres desavisados. Era um dos livros do Index. Algumas versões, feitas pelos
copistas.
Nele,nas poucas
partes em que pude entender no começo, entendi que a imaginação fora o presente
que Deus deu aos homens. Nosso poder de criar. E, quando ainda não havia técnica,
a humanidade usou da magia. Os sonhos e os pesadelos poderiam se tornar reais,
no ambiente certo, se fossem concentrados na medida certa. O pensamento
coletivo angariava uma força tremenda, quase incontrolável, que puxava para a
realidade toda os nossos desejos. Quando a técnica tomou conta dos pensamentos
humanos, a magia foi sendo esquecida, mas os pesadelos não. Eles ainda
perdurava, com uma força assustadora.
Trocando em
miúdos, a porra dos nossos medos são reais. Muito reais. E gente como eu tem
que resolver essa merda, mas nada explicava de onde vinha o meu poder, nada
dizia como eu podia fazer aquilo. Em suma, eu passei um ano estudando antes de voltar
a tocar naquele guarda-chuva. E, mesmo assim cada vez que olhava para ele
minhas mãos tremiam sem que eu pudesse saber se conseguiria fazer aquilo de
novo ou não.
Quando o verão
chegou, acompanhado de minhas férias de fim de ano, eu podia ver Pumpkim todos
os dias, mas não perguntava nada a ela. Eu via meu avô poucos dias por mês, e
ele não tocava no assunto, apenas me contava histórias. As verdadeiras desta
vez. Muito, muito mais assustadoras do que o normal. Eu não tinha pesadelos, e
ainda não tenho. Tudo me parecia normal. Ao mesmo tempo, eu me afastava das
crianças normais e parecia muito, muito menos próximo da minha família. A não
ser durante o café, quando minha mãe me dizia coisas engraçadas, tentando me
tornar um garoto menos sério. Demorei, mas aprendi a dizer bobagens como ela. E
pelos momentos em que lia o jornal com o meu pai, nos domingos de manhã discutíamos
sobre corridas de carro. Nossa única paixão comum. O resto do tempo eu
permanecia em silêncio, estudando, estudando, e nas reuniões de família, onde
meu avô não era bem vindo, eu me isolava. Ainda não tínhamos dinheiro para um vídeo-game.
Ainda hoje me
lembro da fita K7 velha, que tocava incessantemente “Verão” de Vivaldi. Eu e
Pumpikim, sentados na mesma mesa, sentindo o cheiro do seu incenso de bruxa e
aprendendo mais e mais sobre esse mundo que havia nos engolido.