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sábado, 5 de maio de 2012

Diógenes: As quatro estações (primeira parte)


Desde que eu havia conhecido os gêmeos, meus cabelos foram cortados pelo Barbeiro. Se meu avô estivesse longe, ele sempre ligava e dizia:
–Não cortem o cabelo dele. Chego em breve e nós vamos ao Barbeiro.
Desculpa convincente para passar algumas horas comigo. Acabávamos sempre indo a outros lugares depois. Cinema, pizzaria, loja de quadrinhos. Algumas vezes visitávamos outros amigos do meu avô.  Sempre pessoas interessantes, que me tratavam bem. Eu ganhava doces e afagos na cabeça... Mas os gêmeos eram mais divertidos. Eles brincavam comigo. A diferença de idade era irrelevante. Nós corríamos, pulávamos e, enquanto eu cortava o meu cabelo, eles tocavam. Eram bons com violinos. Tocavam juntos a música que fosse pedida pelo cliente e, quando parecia que ninguém mais estava olhando, o Barbeiro sorria. Bem, bem de leve.
A barbearia era simples, pequena, mas sempre estava cheia de gente. As pessoas gostavam de lá, e mesmo hoje, é difícil se encontrar um barbeiro de verdade, que faz as coisas do jeito antigo. Era um lugar simples. Uma cadeira (e apenas uma, pois o Barbeiro afugenta qualquer candidato a sócio), uma série de instrumentos de barbearia, todos novos, uma vitrola, que só era usada quando os gêmeos não tocavam, um sofá para quem espera, sempre lotado, com um cesto cheio de revistas. Quando fiz dezoito anos ele me deixou ver as revistas de sacanagem, que ficavam guardadas no armário quando havia crianças. Havia também uma caixa de madeira e vidro, presa na parede, cheia de instrumentos antigos de barbearia. E alguns instrumentos de cirurgia, que eu só compreenderia muito depois. Um dia eu perguntei se ele havia usado tudo aquilo e ele me disse que não era tão velho quanto o filho da puta do meu avô. E, todas as tardes, era lá que os gêmeos treinavam música. Haviam tido um professor aos cinco anos, mas aos sete ele foi dispensado. Quando eu os conheci, eles já tocavam melhor do que alguns profissionais. Alguns convites de orquestras chegavam, mas o Barbeiro sempre dizia que eles teriam tempo suficiente para trabalhar quando fossem adultos. O único pedido aceito foi o de uma escola de música, mas muito depois de os gêmeos insistirem imensamente para que ele os deixasse aprender mais. A casa deles era acima da barbearia, e a música chegava até os clientes, todos os dias. Foram tantos os protestos quanto a isso, que o Barbeiro se viu obrigado a pedi-los para descer e tocar para os clientes. A clientela triplicou. E os gêmeos, antes abandonados como malditos, cresceram com a admiração do mundo. E, como eu, com um pé na má realidade.
Um dia eles me perguntaram:
–O que você quer que a gente toque, Diógenes? Hoje você é o cliente, a música é sua...
Suado, ofegando de tanto correr, o Barbeiro se perguntando por onde começar no cabelo emplastrado, eu não sabia o que dizer. Meu avô, que lia um jornal alheio a tudo parou e ficou me observando... Eu nuca havia comentado nada sobre música. Na verdade, eu não costumava ouvir música, não conhecia nada. Talvez apenas as músicas do Indiana Jones e do Star Wars. Mas não queria pedir essa, pareceria falta de educação. Então eu disse:
–O que vocês tocariam para vocês?
Eles pararam, pensaram um pouco, acho que ninguém havia perguntado aquilo para eles antes. Eles simplesmente tocavam o que era pedido, como um realejo. E, depois de alguns minutos, sem saber o que fazer, a tesoura parada nas mãos do Barbeiro, um silêncio incomum, naquele lugar sempre cheio de música... De repente, sem necessidade de maiores explicações, sem conversarem entre si, eles começaram a tocar ao mesmo tempo. Uma canção bonita, calma e agitada ao mesmo tempo.
–A primavera, de Vivaldi. O Barbeiro sussurrou satisfeito.
Quando os gêmeos terminaram , me disseram:
–Nossa primeira música. O pai nos ensinou ela, assobiando devagar.
E, como meu avô olhasse para ele, segurando o riso, esperando ele assobiar, ele disse:
–Abaixe esse sorriso, seu velho filho da puta!
Com o passar dos anos, percebi que “As Quatro Estações” correspondiam a cada um de nós. Para Pumpkin, eles haviam pensado no Verão.
Mas o nome dela não era esse. Ela se chamava Janete Abóbora. Sim, seu sobrenome é Abóbora mesmo. Um dia ela ficou cansada e mudou para Pumpkin, numa época em que acreditava que seria uma grande ilusionista. Talvez tivesse renome internacional. Mas quando eu a conheci, ela tinha trinta anos, e se sentia sozinha.
Meu avô me levou até a casa dela. Atravessamos um jardim enorme, que quase soterrava a casa velha. Isso bem no meio de uma capital. Havia flores, mas todo o tipo de coisa entre elas. Todas plantas que uma criança criada em apartamento não conhecia.
Quando entramos, sem bater, sem chamar, ela não se surpreendeu. O lugar cheio de livros, em prateleiras por todas as paredes. Livros velhos, novos, em várias línguas. Não era um lugar empoeirado, era limpo. Quando meu avô me disse que veríamos uma bruxa, imaginei algum tipo de cenário grotesco, mas me aprecia mais uma biblioteca com cara de casa. Tudo muito novo. Depois viria a saber que a casa fora um presente recente de muitos caras como eu e meu avô, que precisavam de alguém para organizar os livros e para servir de consultoria. Aquela era a biblioteca de gente como nós, que não tinha acesso aos livros que a Igreja havia trancado nos monastérios. Pessoas de todo o mundo ainda enviam livros para lá, e ela os lê sem parar. Na mesa em que estava, lendo, continuou, sem levantar os olhos.
–Oi, Augusto. A quanto tempo está na cidade?
–Pouco mais de uma semana. Como está você, Abóbora?
O olhar que ela lançou a ele por si só me mostrou que ela não era uma pessoa inofensiva. Mas quando ela me viu, pareceu mudar. Desceu da mesa e, tinha o meu tamanho! Como uma boneca. Com um sorriso no rosto ela disse:
–O seu neto?
Meu avô fez que sim com a cabeça.
–Você é o garotinho que pode manipular a má realidade?
Eu não disse nada, não sabia o que era aquilo. Meu avô me explicara pouco, e agora se encarregava da minha peregrinação por todas as casas onde seus amigos pudessem me ajudar. Primeiro o Barbeiro cortara meu cabelo,enquanto eu via os gêmeos seduzirem os clientes com a música, e  agora me levava até aquela mulher, que eu achava simpática, mas que parecia estranha. Os cabelos pretos pintados de vermelho, numa época em que isso ainda não era moda. Seu vestido parecia uma túnica, e ela se movia de maneira rápida e suave. Ficou olhando para mim, com um sorriso bobo na cara, por muito tempo, depois tocou no meu queixo e me fez olhar bem dentro dos seus olhos. Era como ser devassado por uma escavadeira. Senti como se minha mente fosse jogada para trás, como se várias portas se abrissem de repente e ela pudesse ver dentro da minha alma. E ela podia mesmo.
–Ele não é um mago, Augusto. Por que o trouxe aqui?
–Ele precisa estudar. Queria que me emprestasse alguns livros. Principalmente o manual básico.
–O manual básico é em francês, você sabe disso.
–Então me empreste também a gramática de francês.
–Você vai ensinar francês pra um garoto de oito anos?
–Ele tem 10. E eu não vou ensinar nada, ele consegue aprender sozinho.
–Consigo? Minha admiração foi tão espantosa que ela soltou uma gargalhada, suave e comprida.
Meu avô colocou a mão sobre a minha cabeça e disse:
–Consegue sim. Você leu alguns livros de economia universitários a algum tempo, acho que consegue ler uma gramática de francês e aprender a ler aos poucos . Não precisa ter pressa, nós temos tempo.
Pumpkin passou a mão sobre o meu rosto e disse:
–E, você pode vir aqui sempre que quiser, eu te ensino o que eu sei.
–Obrigado. Eu disse.  E foi assim que eu aprendi a ler em francês, alemão e latim. Grego antigo e mandarim, um pouco de escrita cuneiforme.
Aquela casa era na verdade uma biblioteca, onde pessoas como o meu avô guardavam livros e informações que eram conseguidas pelo caminho. Livros raros, descrições antigas, livros em outras ínguas e histórias contadas pela população em geral. Havia muitos relatos, contados e anotados em guardanapos, papéis de pão e muita, muita literatura de cordel. A medida em que fui me aprofundando naquela biblioteca descobri que a maioria dos livros eram sobre lendas do Brasil, ligadas sempre à religião e a outras coisas, e que muitos nem eram livros, mas diários, onde se via descrições minuciosas das feras encontradas e da maneira de se curá-las.
Meu pai não rejeitou minhas aulas de línguas com a Pumpkim, na verdade ele conhecia  Barbeiro, e outros amigos do meu avô. Nos primeiros dias de estudo, quando eu tinha dúvidas, eu ligava para ela, mas aos domingos, meu pai me levava para vê-la, e aprende rum pouco mais.
Eu sempre voltava com algum clássico da literatura sobre os braços, escondendo um dos diários que eram escritos em português. Foram noites e noites estudando, lendo, aprendendo sobre a profissão do meu avô, que seria a minha no futuro. Também continuei pegando livros de economia na biblioteca pública. Quando meu avô me apresentou para Pumpikim, eu já lia alguns clássicos, e meu vocabulário estava cada vez mais profundo. Algo que minha mãe achava lindo, mas que lutou para corrigir. Ela não queria que eu fosse espancado na escola novamente.
O manual básico tentava explicar sobre a má realidade, e onde ela se encontrava. O nome do autor estava perdido, e depois vim a saber que o livro foi escrito por vários autores, e depois da criação da imprensa, foi editado e distribuído entre aqueles que lidavam com isso na Europa. As cópias originais foram confiscadas pela Igreja e queimadas por alguns padres desavisados. Era um dos livros do Index. Algumas versões, feitas pelos copistas.
Nele,nas poucas partes em que pude entender no começo, entendi que a imaginação fora o presente que Deus deu aos homens. Nosso poder de criar. E, quando ainda não havia técnica, a humanidade usou da magia. Os sonhos e os pesadelos poderiam se tornar reais, no ambiente certo, se fossem concentrados na medida certa. O pensamento coletivo angariava uma força tremenda, quase incontrolável, que puxava para a realidade toda os nossos desejos. Quando a técnica tomou conta dos pensamentos humanos, a magia foi sendo esquecida, mas os pesadelos não. Eles ainda perdurava, com uma força assustadora.
Trocando em miúdos, a porra dos nossos medos são reais. Muito reais. E gente como eu tem que resolver essa merda, mas nada explicava de onde vinha o meu poder, nada dizia como eu podia fazer aquilo. Em suma, eu passei um ano estudando antes de voltar a tocar naquele guarda-chuva. E, mesmo assim cada vez que olhava para ele minhas mãos tremiam sem que eu pudesse saber se conseguiria fazer aquilo de novo ou não.
Quando o verão chegou, acompanhado de minhas férias de fim de ano, eu podia ver Pumpkim todos os dias, mas não perguntava nada a ela. Eu via meu avô poucos dias por mês, e ele não tocava no assunto, apenas me contava histórias. As verdadeiras desta vez. Muito, muito mais assustadoras do que o normal. Eu não tinha pesadelos, e ainda não tenho. Tudo me parecia normal. Ao mesmo tempo, eu me afastava das crianças normais e parecia muito, muito menos próximo da minha família. A não ser durante o café, quando minha mãe me dizia coisas engraçadas, tentando me tornar um garoto menos sério. Demorei, mas aprendi a dizer bobagens como ela. E pelos momentos em que lia o jornal com o meu pai, nos domingos de manhã discutíamos sobre corridas de carro. Nossa única paixão comum. O resto do tempo eu permanecia em silêncio, estudando, estudando, e nas reuniões de família, onde meu avô não era bem vindo, eu me isolava. Ainda não tínhamos dinheiro para um vídeo-game.
Ainda hoje me lembro da fita K7 velha, que tocava incessantemente “Verão” de Vivaldi. Eu e Pumpikim, sentados na mesma mesa, sentindo o cheiro do seu incenso de bruxa e aprendendo mais e mais sobre esse mundo que havia nos engolido.



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