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segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Muro

Pois é,
Não queria
Que fosse assim.
Que pensasse
De mim
Que fui capaz
De te deixar.
Queria que soubesse
Que um momento distante
Nada mais é
Do que saudade.
Pena,
Que acha que estou 
Partindo.
Você é a única coisa
Que me faz ficar aqui.
Não, 
Não divido afeto
Com mais ninguém
Amo somente
Você.
Queria
Que ficasse feliz por mim
Mas só me deixou abraços
Em uma mensagem triste.
Desculpe
Se estou sempre
Te magoando
Se o meu jeito te incomoda
Me desculpe.
Sempre fui do tipo
Que decepciona as pessoas.
Por isso falo através de poesia.
É como pichar um muro 
E se esconder...
Não, não vou conseguir dormir
Sem pensar em você
E nos seus sentimentos.
Sei que acha
Que divido meu coração,
Mas não,
Ele é só seu.
E está todo apertado
Sem você,
Sem teu beijo...
Desculpe se hoje
Lhe trouxe
Decepção...

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Malícia

Sou um vulcão
Nada adormecido
Queimando por dentro
Desse meu olhar baço.
Tenho desejos infinitos
A vontade louca de amar
A vontade louca de ter
O calor do teu corpo comigo.
Tenho vontades intensas
Tenho a malícia no olhar
Esse querer, mais que querer
Esse meu beijo que te quer.
Tenho a carência do teu prazer
O cio imenso em te tocar
O teu prazer é minha vontade
Meu corpo nasceu
Pra te provocar.
Pra te fazer querer mais
Pra você não resistir
Pra você correr pra mim
Sem parar pra pensar.
Esse meu sempre "sim"
Que veio pra te seduzir
E eu nunca sei fingir
Que não te quero...
E esse meu desejar
Tão eterno quanto o prazer
Vem dessa chama intensa
Que teima em não apagar
(ainda bem...)



quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Uma caixa de sapatos para Flávia...

Eu guardo tudo em caixas de sapatos. Tudo mesmo. Meus mangás, meus jogos, as cartas que você me deu, fios e cabos. Um monte de lembranças, alegres ou tristes. Mas, numa das caixas, eu guardei algo mais precioso, mais importante.
Numa caixa velha, que ninguém vê, eu coloquei algumas das coisas mais preciosas que eu tenho, as coisas que eu não mostro para ninguém, as coisas que são só minhas.
Primeiro, eu pus nelas minhas asas de anjo. Com elas eu deixei muitos infernos e sobrevoei muitos abismos, com elas eu quase alcancei o céu, mas um dia, você me fez querer ter os pés no chão, e não ir embora mais, por isso coloquei-as na caixa. Deixe-as lá, pois não vou mais embora. Não preciso mais voar se o meu paraíso está aqui, ao seu lado.
Coloquei também minhas músicas. As que eu cantei, as que ainda cantarei, e as poesias cheias de musicalidade que surgem a todo instante na minha cabeça. Muito pouca gente me viu cantar, muito menos gente me viu cantar mais de uma vez, tentar, me arriscar. essa caixa, eu coloquei o gosto que tenho por tudo o que é poético. Eu guardei minha poesia.
Um tanto quanto preocupado, eu coloquei a lua. A lua foi minha amiga nas noites insones. Com ela eu conversei nas noites em que meu coração se sentia sufocado. Ela foi a primeira a ver minhas lágrimas prateadas e a se exibir para mim, brilhante, reflexiva.
E quando eu deixei o deserto em que vivia, fui guiado por uma estrela cadente. Eu a coloquei na caixa também. Se algum dia eu não souber para onde ir, basta jogá-la para o alto e esperar que Deus me guie. 
E, por último, eu guardei meu coração, para que ninguém o visse. Nunca, nunca.
Você já veio à esse meu quarto algumas vezes e não viu essa caixa, né? Ela não está mais comigo. Eu a deixei embaixo da sua cama, ao lado dos meus chinelos, para você cuidar dela para mim. Isso porquê, nesse terra, neste mundo, você foi a pessoa que eu escolhi para compartilhar meus sonhos. E também porquê eu sou muito estabanado.
Eu sei que você tem medo de um dia eu partir, de dizer que não quero mais, de te deixar, de desistir. Mas eu queria, muito, que você compreendesse uma pequena coisa: sempre haverão pessoas para ajudar, sempre haverão amigos e festas, confusões e bagunças, brigas e escândalos mas, eu nunca vou deixar você.
Eu sei também, que você gostaria que eu olhasse apenas para você, mas a verdade é que eu olho. Do fundo do meu coração, é com você que eu quero estar o tempo todo. Agora mesmo, você acabou de me ligar. Está brava porquê acha que eu nunca aceito a sua ajuda. Desligou rápido o telefone. Sei que te magoo fazendo isso às vezes, sendo eu assim, meio lobo solitário, sei que esse meu jeito te deixa louca de raiva, que parece que te coloco do lado de fora do meu coração, mas não é verdade. É com você que eu conto sempre, e só de saber que você está sempre disposta a ajudar, isso me dá forças, enormes forças, para lutar e encontrar uma solução. Eu já terminei as provas a algumas horas, nos últimos tempos estava desenhando isso pra você e escrevendo essa carta.
Sei que vai chegar cansada em casa. Sei que vai ficar brava porquê eu pareço não mudar nunca. Sei que vai ficar com medo novamente de eu me cansar de você e dizer que não quero mais. Mas eu queria que você entendesse que estou sempre com você, que apesar de ainda ser um belo de um misantropo e não conviver muito bem com as pessoas, eu tenho tentado ser um pouco menos turrão por sua causa.Tenho tentado ser sempre mais e mais maduro, para sempre cuidar de você, para sempre entender você. E ninguém, ninguém vai me tirar de você, porquê quando eu estou triste, você me faz carinho, quando eu sou teimoso, você faz manha, quando eu me perco, você me acha. Ninguém é páreo pra você nesse meu coração, nesse meu mundo.
Então, quando ficar muito, muito brava comigo, quando achar que eu não te escuto, ou tiver medo que eu vá embora, abra a caixa azul da cor do céu que eu te dei. Olhe bem para os meus sonhos, meus tesouros que eu deixei guardados aí. Vai descobrir que todos eles dizem a mesma coisa: que eu te amo, Flávia. Que eu te amo muito.
Espero que tenha dormido um pouco, espero que tenha chegado bem em casa, espero que leia isso logo. São palavras que estão no meu coração há dias.
E espero que não se importe, com essa caixa de sapatos velha, cheia de tranqueiras sentimentais que eu deixei embaixo da sua cama. Nela existe o que há de melhor em mim. E tudo isso eu dou a você, meu amor.

Armando, a Fênix,
22 de novembro de 2012 (falta um mês e um dia para o aniversário do nosso primeiro encontro, aquele em que, mesmo sem saber o que sentia, já não queria que você fosse embora, minha alma gêmea).

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Diógenes: Boa noite, Melissa.


Eu só vi sua mãe uma vez. Eu tinha dezesseis anos e ela estava enorme, quase ganhando você. Não conheci o seu pai, Paca Manu. Ele ainda estava vivo quando você nasceu, mas eu nunca o havia visto. Todos chamavam a sua mãe de Morgana porquê era o nome artístico dela, nos trabalhos de vidente, mas era uma bruxa legal. Dizem que foi ela quem ensinou tudo pra Pumpkin, mas eu não sei se é verdade. Ninguém toca no assunto. E parece que, apesar disso, as duas não se bicavam muito. É meio tenso. Acho que ninguém te disse que ela era bonita, e tenho quase certeza de que quase todas as fotos foram completamente destruídas. E quem tem, não divulga. As pessoas tem medo de você.
O nome verdadeiro da sua mãe era Angélica. Ela tinha uns trinta anos quando você nasceu, mas parecia ter só uns vinte e cinco. Não era gorda, mas tinha mais corpo que você. Esse cabelo liso você puxou do seu pai, porquê o dela era bem, bem encaracolado. Sem ofensas, ela era uma pouco mais bem fornida, e mais alta. Desculpe por não entrar em detalhes, mas tudo o que vou te contar só se salvou porquê eu devorei o máximo possível de informações antes de ter que queimar todos os livros que fizessem menção a ela.
Aparentemente vocês vêm de uma linhagem antiga de bruxas, mas não sobrou ninguém mais na sua família. Vocês estiveram sempre fugindo ao longo dos tempos. Existem relatos (ou pelo menos existiram) de dezenas de membros da sua família queimados em fogueiras de purificação. Não que vocês fossem assim tão ruins, mas vocês eram bruxas, sabe? Esse mundo é meio estranho com bruxas. Entende?
Seus pais eram bem felizes, pelo que meu avô me contou, depois que tudo aconteceu. Na verdade, sua mãe sempre ajudou as pessoas e ganhava muito dinheiro como vidente dos graúdos daqui. Os poderosos gostavam dela. Ela permanecia na cidade enquanto seu pai viajava entre aqui e a tribo. A mesma tribo de onde vieram os gêmeos. Inclusive, seu pai está envolvido no salvamento deles, foi uma coisa meio engraçada, mas... não, não faça essa cara, não vou mudar de assunto. O que eu quero dizer é que sua mãe e seu pai faziam o possível. Eles tentavam ter uma vida no meio dessa bagunça toda. Mas as coisas acabam ficando uma merda quando nós estamos envolvidos com a má realidade. Principalmente naquele ano, quando surgiu a “Sociedade do Bem Celestial”.
Era um grupo formado por homens e mulheres que tinham perdido pessoas queridas para a má realidade. Mortos por todo tipo de seres estranhos, por toda a horda de animais que estávamos acostumados a caçar. Eles decidiram caçar também. Tudo bem... se eles não achassem que deveriam regrar qualquer um que usasse a força da má realidade a seu favor, inclusive outros caçadores. Eles passaram a nos ameaçar e a perseguir qualquer um que usasse suas habilidades de maneira errada (ou da maneira que eles considerassem errada). Como eu não havia caçado muito, acabei sendo pouco conhecido. Meu avô usava a lança de Longinus, e por isso era considerado muito perigoso. A mesma coisa com Alberto, que ninguém até hoje sabe como matar. Mas outros magos, bruxas, pessoas com poderes duvidosos recebiam cartas em casa, com ameaças, dizendo para pararem de usar seus poderes.
Como a Sociedade era formada por homens e mulheres comuns, que não eram caçadores, não havia como saber se era um vizinho, um amigo um colega da escola ou do trabalho. As execuções aconteciam de surpresa, sem que a vítima se desse conta de que havia sido emboscada. Isso aterrorizou os caçadores, muitos pararam de caçar e se esconderam, fugiram para outras cidades mais tranqüilas, onde a Sociedade ainda não havia chegado. Foi uma época assustadora, muito assustadora. Mesmo a Inquisição tinha medo deles. Eram assassinos que acreditavam lutar por um paraíso maior e mais exclusivo do que qualquer um da Terra. Eles queriam extirpar a má realidade do mundo. Era comum ouvir-se falar de hospitais velhos e casas mal assombradas dinamitadas, queimadas, simplesmente por serem palco de eventos sobrenaturais. Alguns prostíbulos eram atacados, as meninas quase linchadas, por grupos que atacavam de maneira rápida, indetectável. Isso porquê, como você sabe, é lá que os homens depositam suas dores, no colo daquelas moças... Na época a dona do lugar que você conheceu ainda era a Cherry. Ela chegou fechar por algumas semanas, mandar as meninas voltarem pra casa, com medo dos ataques.
Meu avô ficou um tempo mais longo na cidade, temendo que as coisas ficassem tensas. Ele tinha medo de que alguém falasse demais e meu nome acabasse sendo revelado. Não sou normal, você sabe, e esses caras iam adorar perseguir uma aberração como eu. Mas, no fim das contas, meu nome era tão insignificante que não foi nem lembrado. Mas o do seu pai foi.
Ele era um necromancer. Dos melhores. Ele conseguia ressuscitar qualquer coisa que estivesse morta num raio de um quilômetro. Animais, insetos, plantas, pessoas, o que estivesse à disposição. Ele era muito bom mesmo. Mas a necromancia era considerada condenável por boa parte das religiões. A Inquisição fingia não ver naquela época, afinal de contas, seu pai evitava trazer humanos de volta (mas nem sempre era possível), e nunca havia feito nada de errado. Ele era um gênio, e caçava para evitar problemas para as outras pessoas. Ele era um pajé muito bom. Havia se afastado um pouco da tribo para se casar com a sua mãe. E pelo que meu avô contava, era um bom amigo.
Quando ele recebeu a carta, decidiu parar de caçar. Todos apoiaram, afinal sua mãe estava grávida de você e os tempos estavam ficando incertos com a Sociedade atuando por aí. Era como a nossa própria versão da Klan, a diferença é que não queimavam cruzes, mas te esfaqueavam pelas costas quando você não via. E foi assim que encontraram seu pai num beco, alguns dias depois de você nascer. Eu sei, essa história é uma merda.
Seu pai morreu mesmo tendo desistido de caçar. Ele era sempre muito procurado e continuou chamando a atenção da Sociedade, mesmo quando ele recusava trabalho. Um dia ele simplesmente não voltou para casa. Sua mãe ligou para o meu avô. Ele estava em casa nessa época e dormia no sofá. Quando ele saiu eu quis segui-lo, mas ele me mandou ficar no quarto. Foi o velho quem achou seu pai com as costas retalhadas de fora a fora. Uma facada apenas, direto, do ombro à cintura, funda o suficiente para... me desculpe, não entrarei em detalhes.
Surpreendentemente sua mãe ficou bem por alguns meses. Ela mal chorou, como se esperasse por tudo o que havia acontecido. No velório ela te segurava nos braços com toda a força do mundo.
A polícia não conseguiu achar provas para incriminar ninguém. Todos os caçadores tentaram, mas não deu certo. Mesmo assim sua mãe continuou ajudando as pessoas, sendo legal, todos acreditaram que ela havia superado. Todos. Mas quando a tentativa de assassinato à um dos caçadores falhou, e um membro da Sociedade foi morto, nós percebemos que ela apenas estava esperando por vingança. Dizem que ela chegou à casa do caçador, onde o corpo do assassino estava, bem antes da polícia. Quando meu avô chegou, ela já havia partido. Já havia identificado o agressor, um vereador importante da cidade, e aí ela sumiu com você junto. Começou a investigar. Em uma semana ela descobriu o que nenhum de nós havia descoberto em muito tempo (e olha que mesmo eu estava analisando o caso): quem eles eram e onde se reuniam.
Você se lembra do grande incêndio na estação velha? Deve ter lido sobre ele, visto em revistas, jornais, mais de mil pessoas mortas, um grande evento da Sociedade para comemorar o sucesso das investidas, a maioria era ligada à classe da cidade, os mais conservadores. Era burrice fazer uma reunião daquelas, mas a estação velha ficava longe da cidade, isolada, ligada à uma siderúrgica que nem funcionava mais, eles acharam que estavam seguros. Acharam que nada poderia tocá-las.
Mas pessoas não saíram de lá porquê estavam paralisadas, o fogo queimou uma por uma. Quando Pumpkin analisou a magia, percebeu uma coisa: estavam todos muscularmente congelados, mas ainda sentiam dor. Todos eles morreram cheios de dor, sem poder gritar. Apenas o dono do prédio saiu vivo. Ele era a autoridade máxima. Teve o filho morto pelo fantasma de um operário que vivia ali. Tentou caçar por um tempo, ainda se juntava à nós em algumas caçadas, já havia jantado junto com seus pais, lhe dera sapatinhos de presente. Sua mãe o reconheceu como autoridade máxima, o tirou dali e arrancou dele o máximo de informações possíveis. Só imaginamos que isso havia acontecido quando encontramos o corpo dele completamente dilacerado com uma faca. A perícia disse que ele mesmo havia feito isso em si mesmo.
Sua mãe descobriu sobre os membros que não haviam comparecido à festa. Naquela noite outros incêndios aconteceram, outras mortes brutais. Com a maioria morta, restaram poucos. E ela os torturou, extorquiu, explorou suas mentes. Apenas um sobreviveu, ela deixou uma marca. Ele atualmente está louco, no manicômio da cidade, tentando se matar uma vez por semana. O antigo prefeito.
E foi com ele que sua mãe descobriu que a morte do seu pai não tinha muito haver com seus poderes, que fora uma estúpida jogada política. Por quê? Porquê sua mãe atendia à adversários políticos poderosos, sua vidência influenciava até mesmo eleições. Queriam tirá-la do jogo, ameaçá-la. A primeira carta era contra seu pai, uma segunda chegaria contra ela, exigindo que se retirasse dos negócios. As teorias dizem que sua mãe se sentiu muito culpada, outros dizem que ela enlouqueceu de vez. Eu não sei. Você entende que são apenas teorias? Que tudo isso foi escrito por pessoas que não estavam lá? Que mesmo meu avô não compreendia o que estava acontecendo? Foi tudo repentino e assustador. Meu avô saía todas as noites, eu matava aulas para ir à biblioteca, tentando ordenar minhas idéias. Era o que eu podia fazer. Ninguém dormia mais. Sua mãe havia matado centenas de pessoas e... e mesmo assim ela não era uma pessoa ruim. Todos queriam que ela voltasse a ser como antes, mas ninguém sabia como achá-la. Se a polícia suspeitasse dela, e eles ainda tentavam entender o que aquelas pessoas faziam na estação, se procurassem por sua mãe as coisas ficariam piores, todos nós seríamos expostos. Não haveria explicação plausível.
E foi então que as coisas pioraram. Eu acordei no meio da noite, com um grito, um grito assustador. Percorri a casa inteira, todos estavam bem. Me perguntei por alguns minutos de quem era o grito, de quem era aquela voz e... quando percebi já estava empurrando meu avô escada abaixo, entrando na sua Brasília verde. Eu nunca a vi correr tão rápido. Tão assustadoramente rápido. Quando chegamos à biblioteca, encontramos Pumpkin deitada no chão, numa poça enorme de sangue, com o peito aberto. Ela havia usado magia para ir me encontrar, para pedir socorro. Outros caçadores avisados chegaram em seguida. Não precisamos chamar ambulâncias, elas estavam lá. O corte era fundo, mas não atingira os órgãos vitais. Os médicos só tiveram que fechá-la e fazer uma transfusão.
No chão, uma mancha gigante de sangue tinha um enorme “D”, desenhado tremulamente. Lembrei que ela me havia dito que podíamos saber tudo sobre uma pessoa se tocássemos seu sangue. Podíamos enviar mensagens. Quando toquei o sangue, pude ver a cena: sua mãe esfaqueara Pumpkin, enfiara os dedos próximo ao coração e retirara um pequeno papel. Como ele havia sido colocado lá é algo que não sei, mas poderia descobrir o que era.
Corri desesperado para o quarto dela. O único lugar onde eu não podia entrar. No guarda-roupa enorme e trancado eu sabia que encontraria seus diários, seus registros. Com o ombro, comecei a forçar a porta, tentando quebrá-la. Meu avô ouviu o barulho e, quando viu, sequer fez perguntas, apenas pegou um canivete e dilacerou a tranca. Passei a noite inteira e parte da manhã lendo os diários. Fui encontrar os registros de Paca Manu alguns anos antes dele se casar com sua mãe. Ele havia dado a Pumpkin algo para guardar: a única maneira de se trazer um morto são e forte, de volta à vida. Mau o havia dado a ela, não sei o motivo, e a feito jurar que ninguém à teria. No diário mais recente apenas havia uma aviso sobre sua mãe querer o que seu pai havia dado a ela. Que Morgana requisitara a magia como parte de sua herança, Melissa.
Mesmo assim não achamos sua mãe e Pumpkin permaneceu em coma por algumas semanas. E só percebemos o que sua mãe estava fazendo quando vimos que os sete primogênitos dos homens mais poderosos da cidade haviam desaparecido, e que o corpo do seu pai também, escavado do túmulo simples que ele queria. Nessa hora foi que consegui juntar tudo. Sua mãe traria seu pai de volta, são e salvo. Algumas versões da necromancia diziam que era necessário uma vida por outra, muitas e muitas vezes. Sete primogênitos para se trazer um. Sua mãe havia definitivamente enlouquecido.
Nessa época todos procuravam como loucos, pois sete crianças morreriam em breve. Sem Pumpkin por perto as pessoas me ouviam. Me arrumaram uma licença médica para eu faltar as aulas. Pesquisei nos livros que pude, mas não achei onde poderia ser feito um ritual desses. Pesquisei arquivos velhos sobre sua mãe, que me haviam trago às pressas. Coisas do seu pai também. Não achei nada. No fim das contas, quem encontrou uma pista foi um policial, amigo do meu avô. O mesmo que me livrara da acusação de arrancar a orelha de um garoto uma vez, quando descobri o guarda-chuva. Ele encontrou os rastros de sua mãe pesquisando arquivos antigos, registros de imóveis e coisas assim. Não sei se seria o lugar do ritual, mas acho que à essa altura você já deve saber que é dona de um galpão num dos bairros afastados da cidade. Nós limpamos tudo depois, mas foi ali que sua mãe morreu. Não sei se ainda dá pra sentir a flutuação da energia, mas durante anos isso foi possível.
Quando descobriram o lugar, todos já estavam unidos. A Inquisição se uniu aos outros caçadores, na época não pude saber o motivo, mas foi aí que meu avô conheceu as pessoas que te criaram. Todos arquitetaram um plano de ação, ali mesmo na biblioteca. Virou nosso quartel general. O galpão foi invadido apenas uma noite após sua descoberta, não podíamos dar tempo para sua mãe descobrir. Eu não fui. Meu avô sugeriu que eu tomasse um gole de vinha antes de sair junto a eles. Aquele velho filho de uma puta me drogou.
Quando acordei, no dia seguinte, soube que sua mãe estava morta. Não vou mentir para você, não preciso do seu afeto. Meu avô a matou, e eu não sei o motivo. Seus amigos da Inquisição o deixaram para trás assim que conseguiram pôr as mãos em você. Hilário foi o único do seu grupo a sair ferido. Uma vez ele me disse que só saiu vivo por causa do seu avô. Todos tentaram te tirar do convento, mas não conseguiram, não sabiam onde você estava. Quando finalmente te levaram à campo, disseram que você estava tão focada em ser uma feira que qualquer um que chegasse perto corria risco de vida. Você se tornou uma figura estranha no nosso mundo. Não sei como você saiu, nem o que está buscando. Espero não ter nenhum de vocês batendo mais à minha porta.
Depois da morte da sua mãe, todos, excetuando meu avô e Alberto, escreveram algo sobre o assunto e me entregaram, para que eu arquivasse. Mas alguns meses depois, meu avô pediu para que eu queimasse tudo. Não queriam que sobrasse nada dessa história, não queriam que você se vingasse. Eu estou te contando isso, mas se você buscar vingança, eu mesmo mato você. E, não, eu não estou brincando. Se meu avô achou por bem parar uma vingança matando um amigo, eu, que não sinto nada por você, farei o que for necessário sem pestanejar.
Agora espere um pouco. Não me siga. Saio da sala, pego minha caixa, fuço um pouco. Estava lá, dentro daquele envelope. Quando retorno, ela ainda está de cabeça baixa. Entrego o envelope. Pego o prato de miojo. Ela havia chorado em todo ele. Quando deixo o cobertor e o travesseiro, ela ainda olha para a única foto que restara dos pais. Seu pai, com o sorriso frouxo e a cabeleira branca precoce, o corpo gordinho de acomodado, a mãe, bela e doce, de cabelos encaracolados e um sorriso largo e feliz, e a pequena Melissa enrolada em um cobertor.
Entro para o meu quarto, me deito e durmo. Não tranco a porta. Algo me dizia, com todas as letras, que ela não iria me ferir.

Sorriso

Nunca corrompi
Meu coração
Apesar da dor.
Nunca esqueci
O inferno que vi
Ou então, onde perdi
Aquelas asas
Que me deu, pra voar.
Sei, que escolhas erradas
Sei, que as dores passadas
Poderiam enlouquecer
Esse meu coração
Mas me mantive então
São, preso a um bem maior.
Nem sempre,
Quando sorri,
Foi de alegria.
Às vezes,
Muitas vezes,
Apenas escondi a dor.
Sei, que durante tempos
Meu maxilar doeu
Por eu fingir
Um sorriso
Que não era o meu.
Mas no fim,
Ao fim de tudo
Toda dor
Valeu a pena
Se não feri
Se não tornei-me
Digno
De piedade patética...

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Explorando

Quero celebrar
Tua nudez
Com a minha.
Quero exibir
Meu corpo inteiro
Pra você
Quero ser
Teu brinquedo,
Teu capricho
Faz de mim
O que quiser
Pro teu prazer.
Quero explorar
Todo teu esguio corpo
Quero te ver imaginar
Mil prazeres em mim
Quero que venha acalmar
Meus calores de leoa
Quero teu sexo
A encantar meu sexo
Em noites de chuva.
Quero me exibir
Imprudentemente para ti
Quero te deixar
Ensandecido de desejo
Quero despertar
Todas as vontades
Que por ventura venha
A ter por mim
E quero realizar
Todas as fantasias
Que nossa cama
Possa comportar.
Quero então aproveitar
Cada espaço desse amo
Que de puro e doce é
Também poço sensual
De prazer forte, carnal...

domingo, 18 de novembro de 2012

Silenciosa

Sei que sou carente
E o que te peço
É demais.
Sei que te quero
A todo momento
E sei sempre ser
Irritantemente
Carinhosa demais.
Sei que sinto falta
Daquele teu beijo
Daquele teu jeito
Louco por mim.
Mas que nem sempre
Se sente solto
Para estar assim
Comigo.
Queria apenas
Que soubesse
Que me sinto de lado
Meio boba, estúpida.
Quando me beija
Olhando ao redor.
Sei que é teu jeito
E que nesse peito
Não deixa
De me amar
Mas queria
Que quando juntos
Teu olhar
Fosse só meu.
Sei que parece
Que não te entendo
Que exijo mais que devo
Sei que cobro
O que promete
Com o tempo,
Me dar...
Então, se fico triste
E digo, como sinto
Se me equivoco
Se eu erro
Faz favor
De perdoar.
Um dia, hei de mudar
Esse meu jeito
Carente,
E quem sabe
Até mesmo
De bobagens
Eu deixar...
Tenho que perder
Essa mania tola
De me chatear
Com bobagens...


terça-feira, 13 de novembro de 2012

Feinho

O meu coração
Tão maculado
Era metade
Incompleta
De uma festa 
Inacabada.
Eu que fui sempre
O monstro mais feio
Vivi enjaulado
Em sentimentos ocultos.
Abro a porta devagar
Vejo entrar alguém.
Meu coração
Não para de bater forte
E a morte
Já nem se achega mais.
Sei, eu sei
Ainda sou
Um Quasímodo
Entre os sinos
Mas, devagar
Vou achando meu lugar.
E haverão belos dias
Haverá, todo dia
Flores belas
Para mim.
Flores belas
Para um antigo rei
Que voa aos céus
Pra trazer
Junto do coração
Uma estrela cadente.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Asas coloridas

Fiquei sentado na porta
Durante todos os dias
Te esperando chegar.
Onde você estava?
Por quê não te ouvi gritar
Quando a dor veio
Galopando?

Sabe, eu amo muito você
Sabe, eu lutaria novamente
Enfrentaria magos e exércitos
Construiria castelos azuis.
Se você me pedisse
Eu deixaria uma estrela cadente
De surpresa no seu travesseiro.

Você me ama, gosta tanto de mim
Apesar de eu ser tão estranho.
Como você consegue olhar
E ver beleza nesses olhos tristes?
Como você me vê chorar
E não fica cansada de mim?
Eu mereço tudo isso?

As pessoas sempre tiveram
Aquele medo absurdo de mim.
Elas me odeiam
Porquê não consigo me encaixar.
Você ficaria ao meu lado
Quando todos fossem embora?
Quando todos desistissem?

Eu estive muito tempo
Envolto naquele lodo.
Naquele lodo estranho.
Agora que te amo
Agora que me ama
Será que posso me libertar
E voar por aí
Finalmente?

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Angélico

Oi, meu amor
Queria saber
Se você pode vir
Aqui me ver.
Sabe, estou sozinha
Queria você
Queria dizer
Que você
Me faz feliz
Completa
Meu coração
E, de certa forma,
Me faz sonhar
Apaixonada...

Oi, meu amor
Hoje a noite
Está tão segura
Preciso de ajuda
Para poder dormir.
Se você vier
Serei boazinha
Serei teu anjinho
Serei teu lugar.
Então, meu amor,
Venha depressa
Vem fazer festa
Nesse meu coração
Singelo...

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Auto retrato


Caí em abismos
De escuridão.
Toquei o solo
Ao som de um baque
De latão
E nem mais vi
A estrela e a lua
No meu coração.
Nem meu coração
Pude ver.
Dançando nas trevas
Tanto ódio, tanta dor. 
Vestido de negro
De olhos fechados
Sangrando sóis
Sangrando sóis 
Meu auto retrato 
É uma máscara negra
Que se colore aos poucos.
Meu auto retrato
Não tem um rosto
Apenas esperanças
Apenas medos.
Como a carcaça da ave
Como o abutre perdido.
Meu auto retrato
É como a asa do anjo
Tem a lua e a estrela
Marcada em lágrimas
Negras, coaguladas
Meu auto retrato
Tem cicatrizes
Tem esperanças
Tem o céu azul
E a noite que cai
Tem a branca paz
E a negra dor.
Tem o santo amor
E a fina dor
De um sol chorado
De uma fênix nascida.
Meu auto retrato vem marcado
Com as cinzas do tempo
Com o sopro do vento
O correr do rio
O assobio da folha.
Meu auto retrato
É cheio de meios
Tramas e confeitos
Refeitos, desfeitos
Contrafeitos sentimentos
Cheios de dor
Como um desenho
Mal pintado
Em giz de cera.