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quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Diógenes: Boa noite, Melissa.


Eu só vi sua mãe uma vez. Eu tinha dezesseis anos e ela estava enorme, quase ganhando você. Não conheci o seu pai, Paca Manu. Ele ainda estava vivo quando você nasceu, mas eu nunca o havia visto. Todos chamavam a sua mãe de Morgana porquê era o nome artístico dela, nos trabalhos de vidente, mas era uma bruxa legal. Dizem que foi ela quem ensinou tudo pra Pumpkin, mas eu não sei se é verdade. Ninguém toca no assunto. E parece que, apesar disso, as duas não se bicavam muito. É meio tenso. Acho que ninguém te disse que ela era bonita, e tenho quase certeza de que quase todas as fotos foram completamente destruídas. E quem tem, não divulga. As pessoas tem medo de você.
O nome verdadeiro da sua mãe era Angélica. Ela tinha uns trinta anos quando você nasceu, mas parecia ter só uns vinte e cinco. Não era gorda, mas tinha mais corpo que você. Esse cabelo liso você puxou do seu pai, porquê o dela era bem, bem encaracolado. Sem ofensas, ela era uma pouco mais bem fornida, e mais alta. Desculpe por não entrar em detalhes, mas tudo o que vou te contar só se salvou porquê eu devorei o máximo possível de informações antes de ter que queimar todos os livros que fizessem menção a ela.
Aparentemente vocês vêm de uma linhagem antiga de bruxas, mas não sobrou ninguém mais na sua família. Vocês estiveram sempre fugindo ao longo dos tempos. Existem relatos (ou pelo menos existiram) de dezenas de membros da sua família queimados em fogueiras de purificação. Não que vocês fossem assim tão ruins, mas vocês eram bruxas, sabe? Esse mundo é meio estranho com bruxas. Entende?
Seus pais eram bem felizes, pelo que meu avô me contou, depois que tudo aconteceu. Na verdade, sua mãe sempre ajudou as pessoas e ganhava muito dinheiro como vidente dos graúdos daqui. Os poderosos gostavam dela. Ela permanecia na cidade enquanto seu pai viajava entre aqui e a tribo. A mesma tribo de onde vieram os gêmeos. Inclusive, seu pai está envolvido no salvamento deles, foi uma coisa meio engraçada, mas... não, não faça essa cara, não vou mudar de assunto. O que eu quero dizer é que sua mãe e seu pai faziam o possível. Eles tentavam ter uma vida no meio dessa bagunça toda. Mas as coisas acabam ficando uma merda quando nós estamos envolvidos com a má realidade. Principalmente naquele ano, quando surgiu a “Sociedade do Bem Celestial”.
Era um grupo formado por homens e mulheres que tinham perdido pessoas queridas para a má realidade. Mortos por todo tipo de seres estranhos, por toda a horda de animais que estávamos acostumados a caçar. Eles decidiram caçar também. Tudo bem... se eles não achassem que deveriam regrar qualquer um que usasse a força da má realidade a seu favor, inclusive outros caçadores. Eles passaram a nos ameaçar e a perseguir qualquer um que usasse suas habilidades de maneira errada (ou da maneira que eles considerassem errada). Como eu não havia caçado muito, acabei sendo pouco conhecido. Meu avô usava a lança de Longinus, e por isso era considerado muito perigoso. A mesma coisa com Alberto, que ninguém até hoje sabe como matar. Mas outros magos, bruxas, pessoas com poderes duvidosos recebiam cartas em casa, com ameaças, dizendo para pararem de usar seus poderes.
Como a Sociedade era formada por homens e mulheres comuns, que não eram caçadores, não havia como saber se era um vizinho, um amigo um colega da escola ou do trabalho. As execuções aconteciam de surpresa, sem que a vítima se desse conta de que havia sido emboscada. Isso aterrorizou os caçadores, muitos pararam de caçar e se esconderam, fugiram para outras cidades mais tranqüilas, onde a Sociedade ainda não havia chegado. Foi uma época assustadora, muito assustadora. Mesmo a Inquisição tinha medo deles. Eram assassinos que acreditavam lutar por um paraíso maior e mais exclusivo do que qualquer um da Terra. Eles queriam extirpar a má realidade do mundo. Era comum ouvir-se falar de hospitais velhos e casas mal assombradas dinamitadas, queimadas, simplesmente por serem palco de eventos sobrenaturais. Alguns prostíbulos eram atacados, as meninas quase linchadas, por grupos que atacavam de maneira rápida, indetectável. Isso porquê, como você sabe, é lá que os homens depositam suas dores, no colo daquelas moças... Na época a dona do lugar que você conheceu ainda era a Cherry. Ela chegou fechar por algumas semanas, mandar as meninas voltarem pra casa, com medo dos ataques.
Meu avô ficou um tempo mais longo na cidade, temendo que as coisas ficassem tensas. Ele tinha medo de que alguém falasse demais e meu nome acabasse sendo revelado. Não sou normal, você sabe, e esses caras iam adorar perseguir uma aberração como eu. Mas, no fim das contas, meu nome era tão insignificante que não foi nem lembrado. Mas o do seu pai foi.
Ele era um necromancer. Dos melhores. Ele conseguia ressuscitar qualquer coisa que estivesse morta num raio de um quilômetro. Animais, insetos, plantas, pessoas, o que estivesse à disposição. Ele era muito bom mesmo. Mas a necromancia era considerada condenável por boa parte das religiões. A Inquisição fingia não ver naquela época, afinal de contas, seu pai evitava trazer humanos de volta (mas nem sempre era possível), e nunca havia feito nada de errado. Ele era um gênio, e caçava para evitar problemas para as outras pessoas. Ele era um pajé muito bom. Havia se afastado um pouco da tribo para se casar com a sua mãe. E pelo que meu avô contava, era um bom amigo.
Quando ele recebeu a carta, decidiu parar de caçar. Todos apoiaram, afinal sua mãe estava grávida de você e os tempos estavam ficando incertos com a Sociedade atuando por aí. Era como a nossa própria versão da Klan, a diferença é que não queimavam cruzes, mas te esfaqueavam pelas costas quando você não via. E foi assim que encontraram seu pai num beco, alguns dias depois de você nascer. Eu sei, essa história é uma merda.
Seu pai morreu mesmo tendo desistido de caçar. Ele era sempre muito procurado e continuou chamando a atenção da Sociedade, mesmo quando ele recusava trabalho. Um dia ele simplesmente não voltou para casa. Sua mãe ligou para o meu avô. Ele estava em casa nessa época e dormia no sofá. Quando ele saiu eu quis segui-lo, mas ele me mandou ficar no quarto. Foi o velho quem achou seu pai com as costas retalhadas de fora a fora. Uma facada apenas, direto, do ombro à cintura, funda o suficiente para... me desculpe, não entrarei em detalhes.
Surpreendentemente sua mãe ficou bem por alguns meses. Ela mal chorou, como se esperasse por tudo o que havia acontecido. No velório ela te segurava nos braços com toda a força do mundo.
A polícia não conseguiu achar provas para incriminar ninguém. Todos os caçadores tentaram, mas não deu certo. Mesmo assim sua mãe continuou ajudando as pessoas, sendo legal, todos acreditaram que ela havia superado. Todos. Mas quando a tentativa de assassinato à um dos caçadores falhou, e um membro da Sociedade foi morto, nós percebemos que ela apenas estava esperando por vingança. Dizem que ela chegou à casa do caçador, onde o corpo do assassino estava, bem antes da polícia. Quando meu avô chegou, ela já havia partido. Já havia identificado o agressor, um vereador importante da cidade, e aí ela sumiu com você junto. Começou a investigar. Em uma semana ela descobriu o que nenhum de nós havia descoberto em muito tempo (e olha que mesmo eu estava analisando o caso): quem eles eram e onde se reuniam.
Você se lembra do grande incêndio na estação velha? Deve ter lido sobre ele, visto em revistas, jornais, mais de mil pessoas mortas, um grande evento da Sociedade para comemorar o sucesso das investidas, a maioria era ligada à classe da cidade, os mais conservadores. Era burrice fazer uma reunião daquelas, mas a estação velha ficava longe da cidade, isolada, ligada à uma siderúrgica que nem funcionava mais, eles acharam que estavam seguros. Acharam que nada poderia tocá-las.
Mas pessoas não saíram de lá porquê estavam paralisadas, o fogo queimou uma por uma. Quando Pumpkin analisou a magia, percebeu uma coisa: estavam todos muscularmente congelados, mas ainda sentiam dor. Todos eles morreram cheios de dor, sem poder gritar. Apenas o dono do prédio saiu vivo. Ele era a autoridade máxima. Teve o filho morto pelo fantasma de um operário que vivia ali. Tentou caçar por um tempo, ainda se juntava à nós em algumas caçadas, já havia jantado junto com seus pais, lhe dera sapatinhos de presente. Sua mãe o reconheceu como autoridade máxima, o tirou dali e arrancou dele o máximo de informações possíveis. Só imaginamos que isso havia acontecido quando encontramos o corpo dele completamente dilacerado com uma faca. A perícia disse que ele mesmo havia feito isso em si mesmo.
Sua mãe descobriu sobre os membros que não haviam comparecido à festa. Naquela noite outros incêndios aconteceram, outras mortes brutais. Com a maioria morta, restaram poucos. E ela os torturou, extorquiu, explorou suas mentes. Apenas um sobreviveu, ela deixou uma marca. Ele atualmente está louco, no manicômio da cidade, tentando se matar uma vez por semana. O antigo prefeito.
E foi com ele que sua mãe descobriu que a morte do seu pai não tinha muito haver com seus poderes, que fora uma estúpida jogada política. Por quê? Porquê sua mãe atendia à adversários políticos poderosos, sua vidência influenciava até mesmo eleições. Queriam tirá-la do jogo, ameaçá-la. A primeira carta era contra seu pai, uma segunda chegaria contra ela, exigindo que se retirasse dos negócios. As teorias dizem que sua mãe se sentiu muito culpada, outros dizem que ela enlouqueceu de vez. Eu não sei. Você entende que são apenas teorias? Que tudo isso foi escrito por pessoas que não estavam lá? Que mesmo meu avô não compreendia o que estava acontecendo? Foi tudo repentino e assustador. Meu avô saía todas as noites, eu matava aulas para ir à biblioteca, tentando ordenar minhas idéias. Era o que eu podia fazer. Ninguém dormia mais. Sua mãe havia matado centenas de pessoas e... e mesmo assim ela não era uma pessoa ruim. Todos queriam que ela voltasse a ser como antes, mas ninguém sabia como achá-la. Se a polícia suspeitasse dela, e eles ainda tentavam entender o que aquelas pessoas faziam na estação, se procurassem por sua mãe as coisas ficariam piores, todos nós seríamos expostos. Não haveria explicação plausível.
E foi então que as coisas pioraram. Eu acordei no meio da noite, com um grito, um grito assustador. Percorri a casa inteira, todos estavam bem. Me perguntei por alguns minutos de quem era o grito, de quem era aquela voz e... quando percebi já estava empurrando meu avô escada abaixo, entrando na sua Brasília verde. Eu nunca a vi correr tão rápido. Tão assustadoramente rápido. Quando chegamos à biblioteca, encontramos Pumpkin deitada no chão, numa poça enorme de sangue, com o peito aberto. Ela havia usado magia para ir me encontrar, para pedir socorro. Outros caçadores avisados chegaram em seguida. Não precisamos chamar ambulâncias, elas estavam lá. O corte era fundo, mas não atingira os órgãos vitais. Os médicos só tiveram que fechá-la e fazer uma transfusão.
No chão, uma mancha gigante de sangue tinha um enorme “D”, desenhado tremulamente. Lembrei que ela me havia dito que podíamos saber tudo sobre uma pessoa se tocássemos seu sangue. Podíamos enviar mensagens. Quando toquei o sangue, pude ver a cena: sua mãe esfaqueara Pumpkin, enfiara os dedos próximo ao coração e retirara um pequeno papel. Como ele havia sido colocado lá é algo que não sei, mas poderia descobrir o que era.
Corri desesperado para o quarto dela. O único lugar onde eu não podia entrar. No guarda-roupa enorme e trancado eu sabia que encontraria seus diários, seus registros. Com o ombro, comecei a forçar a porta, tentando quebrá-la. Meu avô ouviu o barulho e, quando viu, sequer fez perguntas, apenas pegou um canivete e dilacerou a tranca. Passei a noite inteira e parte da manhã lendo os diários. Fui encontrar os registros de Paca Manu alguns anos antes dele se casar com sua mãe. Ele havia dado a Pumpkin algo para guardar: a única maneira de se trazer um morto são e forte, de volta à vida. Mau o havia dado a ela, não sei o motivo, e a feito jurar que ninguém à teria. No diário mais recente apenas havia uma aviso sobre sua mãe querer o que seu pai havia dado a ela. Que Morgana requisitara a magia como parte de sua herança, Melissa.
Mesmo assim não achamos sua mãe e Pumpkin permaneceu em coma por algumas semanas. E só percebemos o que sua mãe estava fazendo quando vimos que os sete primogênitos dos homens mais poderosos da cidade haviam desaparecido, e que o corpo do seu pai também, escavado do túmulo simples que ele queria. Nessa hora foi que consegui juntar tudo. Sua mãe traria seu pai de volta, são e salvo. Algumas versões da necromancia diziam que era necessário uma vida por outra, muitas e muitas vezes. Sete primogênitos para se trazer um. Sua mãe havia definitivamente enlouquecido.
Nessa época todos procuravam como loucos, pois sete crianças morreriam em breve. Sem Pumpkin por perto as pessoas me ouviam. Me arrumaram uma licença médica para eu faltar as aulas. Pesquisei nos livros que pude, mas não achei onde poderia ser feito um ritual desses. Pesquisei arquivos velhos sobre sua mãe, que me haviam trago às pressas. Coisas do seu pai também. Não achei nada. No fim das contas, quem encontrou uma pista foi um policial, amigo do meu avô. O mesmo que me livrara da acusação de arrancar a orelha de um garoto uma vez, quando descobri o guarda-chuva. Ele encontrou os rastros de sua mãe pesquisando arquivos antigos, registros de imóveis e coisas assim. Não sei se seria o lugar do ritual, mas acho que à essa altura você já deve saber que é dona de um galpão num dos bairros afastados da cidade. Nós limpamos tudo depois, mas foi ali que sua mãe morreu. Não sei se ainda dá pra sentir a flutuação da energia, mas durante anos isso foi possível.
Quando descobriram o lugar, todos já estavam unidos. A Inquisição se uniu aos outros caçadores, na época não pude saber o motivo, mas foi aí que meu avô conheceu as pessoas que te criaram. Todos arquitetaram um plano de ação, ali mesmo na biblioteca. Virou nosso quartel general. O galpão foi invadido apenas uma noite após sua descoberta, não podíamos dar tempo para sua mãe descobrir. Eu não fui. Meu avô sugeriu que eu tomasse um gole de vinha antes de sair junto a eles. Aquele velho filho de uma puta me drogou.
Quando acordei, no dia seguinte, soube que sua mãe estava morta. Não vou mentir para você, não preciso do seu afeto. Meu avô a matou, e eu não sei o motivo. Seus amigos da Inquisição o deixaram para trás assim que conseguiram pôr as mãos em você. Hilário foi o único do seu grupo a sair ferido. Uma vez ele me disse que só saiu vivo por causa do seu avô. Todos tentaram te tirar do convento, mas não conseguiram, não sabiam onde você estava. Quando finalmente te levaram à campo, disseram que você estava tão focada em ser uma feira que qualquer um que chegasse perto corria risco de vida. Você se tornou uma figura estranha no nosso mundo. Não sei como você saiu, nem o que está buscando. Espero não ter nenhum de vocês batendo mais à minha porta.
Depois da morte da sua mãe, todos, excetuando meu avô e Alberto, escreveram algo sobre o assunto e me entregaram, para que eu arquivasse. Mas alguns meses depois, meu avô pediu para que eu queimasse tudo. Não queriam que sobrasse nada dessa história, não queriam que você se vingasse. Eu estou te contando isso, mas se você buscar vingança, eu mesmo mato você. E, não, eu não estou brincando. Se meu avô achou por bem parar uma vingança matando um amigo, eu, que não sinto nada por você, farei o que for necessário sem pestanejar.
Agora espere um pouco. Não me siga. Saio da sala, pego minha caixa, fuço um pouco. Estava lá, dentro daquele envelope. Quando retorno, ela ainda está de cabeça baixa. Entrego o envelope. Pego o prato de miojo. Ela havia chorado em todo ele. Quando deixo o cobertor e o travesseiro, ela ainda olha para a única foto que restara dos pais. Seu pai, com o sorriso frouxo e a cabeleira branca precoce, o corpo gordinho de acomodado, a mãe, bela e doce, de cabelos encaracolados e um sorriso largo e feliz, e a pequena Melissa enrolada em um cobertor.
Entro para o meu quarto, me deito e durmo. Não tranco a porta. Algo me dizia, com todas as letras, que ela não iria me ferir.

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