Eu guardo tudo em caixas de sapatos. Tudo mesmo. Meus mangás, meus jogos, as cartas que você me deu, fios e cabos. Um monte de lembranças, alegres ou tristes. Mas, numa das caixas, eu guardei algo mais precioso, mais importante.
Numa caixa velha, que ninguém vê, eu coloquei algumas das coisas mais preciosas que eu tenho, as coisas que eu não mostro para ninguém, as coisas que são só minhas.
Primeiro, eu pus nelas minhas asas de anjo. Com elas eu deixei muitos infernos e sobrevoei muitos abismos, com elas eu quase alcancei o céu, mas um dia, você me fez querer ter os pés no chão, e não ir embora mais, por isso coloquei-as na caixa. Deixe-as lá, pois não vou mais embora. Não preciso mais voar se o meu paraíso está aqui, ao seu lado.
Coloquei também minhas músicas. As que eu cantei, as que ainda cantarei, e as poesias cheias de musicalidade que surgem a todo instante na minha cabeça. Muito pouca gente me viu cantar, muito menos gente me viu cantar mais de uma vez, tentar, me arriscar. essa caixa, eu coloquei o gosto que tenho por tudo o que é poético. Eu guardei minha poesia.
Um tanto quanto preocupado, eu coloquei a lua. A lua foi minha amiga nas noites insones. Com ela eu conversei nas noites em que meu coração se sentia sufocado. Ela foi a primeira a ver minhas lágrimas prateadas e a se exibir para mim, brilhante, reflexiva.
E quando eu deixei o deserto em que vivia, fui guiado por uma estrela cadente. Eu a coloquei na caixa também. Se algum dia eu não souber para onde ir, basta jogá-la para o alto e esperar que Deus me guie.
E, por último, eu guardei meu coração, para que ninguém o visse. Nunca, nunca.
Você já veio à esse meu quarto algumas vezes e não viu essa caixa, né? Ela não está mais comigo. Eu a deixei embaixo da sua cama, ao lado dos meus chinelos, para você cuidar dela para mim. Isso porquê, nesse terra, neste mundo, você foi a pessoa que eu escolhi para compartilhar meus sonhos. E também porquê eu sou muito estabanado.
Eu sei que você tem medo de um dia eu partir, de dizer que não quero mais, de te deixar, de desistir. Mas eu queria, muito, que você compreendesse uma pequena coisa: sempre haverão pessoas para ajudar, sempre haverão amigos e festas, confusões e bagunças, brigas e escândalos mas, eu nunca vou deixar você.
Eu sei também, que você gostaria que eu olhasse apenas para você, mas a verdade é que eu olho. Do fundo do meu coração, é com você que eu quero estar o tempo todo. Agora mesmo, você acabou de me ligar. Está brava porquê acha que eu nunca aceito a sua ajuda. Desligou rápido o telefone. Sei que te magoo fazendo isso às vezes, sendo eu assim, meio lobo solitário, sei que esse meu jeito te deixa louca de raiva, que parece que te coloco do lado de fora do meu coração, mas não é verdade. É com você que eu conto sempre, e só de saber que você está sempre disposta a ajudar, isso me dá forças, enormes forças, para lutar e encontrar uma solução. Eu já terminei as provas a algumas horas, nos últimos tempos estava desenhando isso pra você e escrevendo essa carta.
Sei que vai chegar cansada em casa. Sei que vai ficar brava porquê eu pareço não mudar nunca. Sei que vai ficar com medo novamente de eu me cansar de você e dizer que não quero mais. Mas eu queria que você entendesse que estou sempre com você, que apesar de ainda ser um belo de um misantropo e não conviver muito bem com as pessoas, eu tenho tentado ser um pouco menos turrão por sua causa.Tenho tentado ser sempre mais e mais maduro, para sempre cuidar de você, para sempre entender você. E ninguém, ninguém vai me tirar de você, porquê quando eu estou triste, você me faz carinho, quando eu sou teimoso, você faz manha, quando eu me perco, você me acha. Ninguém é páreo pra você nesse meu coração, nesse meu mundo.
Então, quando ficar muito, muito brava comigo, quando achar que eu não te escuto, ou tiver medo que eu vá embora, abra a caixa azul da cor do céu que eu te dei. Olhe bem para os meus sonhos, meus tesouros que eu deixei guardados aí. Vai descobrir que todos eles dizem a mesma coisa: que eu te amo, Flávia. Que eu te amo muito.
Espero que tenha dormido um pouco, espero que tenha chegado bem em casa, espero que leia isso logo. São palavras que estão no meu coração há dias.
E espero que não se importe, com essa caixa de sapatos velha, cheia de tranqueiras sentimentais que eu deixei embaixo da sua cama. Nela existe o que há de melhor em mim. E tudo isso eu dou a você, meu amor.
Armando, a Fênix,
22 de novembro de 2012 (falta um mês e um dia para o aniversário do nosso primeiro encontro, aquele em que, mesmo sem saber o que sentia, já não queria que você fosse embora, minha alma gêmea).

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