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quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Flávia...

Flávia,
Você veio
Me pegando
No vendaval do teu sorriso
No brilho do olhar doce
E me fez homem feliz.
Você chegou
Com as flores do dia
Com o doce encanto
Que eu me vi
Desprevenido.
Você me arrebatou
Da maneira mais sutil
E profunda
Que me vi de guarda baixa,
Sem medo algum
Sem a prudência covarde
Que sempre me cercou.

Flávia,
Fui pego na onda do tempo
E lançado em direção a ti
Sem medo do impacto
Da ressonância dos sentimentos
Me vi jogado
Ao mar infinito e confuso
Do amor que se quer fazer
Durar eternamente.
Fui atirado
No calor dos teus braços
No enlace dos teus sonhos
No despertar tímido
Desses teus olhos.
Desse mar castanho
Desse amor eterno.

Flávia,
Me empurraste
A esperança eterna
Do amor eterno
Do viver pra sempre.
Me entrelaçaste
Na canção profunda
Desse mundo louco
E me fizeste acreditar
Sonhar, esperançar,
Na felicidade louca
Que recusa a solidão.
Entraste profunda
No meu coração negro
E plantaste a semente
Que minaria
Todas as misantropias
Dessa minha alma.

Então, Flávia,
Tempos, tempos,
Sonhos, sonhos,
Dias, desejos,
Planos, medos,
Ciúmes, gracejos
Me levam a dizer
Que todo amor
Desse mundo
Repousa em meu olhar
Ao deitar-se em ti.
Te amo.

Conformado

Estava acordado
Quando o sol nasceu
Corri com o vento
Quando o sol se pôs.
Estava escuro
Quando me virei
Choveu demais quando
A lágrima caiu.
E o dia vem
E a noite vai
O medo passa
A dor escapa
E eu
Continuo
Caminhando.
Caminhando.
Caminhando...

De olhos fechados
Vi o mal
De olhos abertos
Refletindo
Uma luz
Sobre o cristal
Desse coração cruel.
De boca fechada
Dei o meu sinal
Qual será
A escolha final
Desse coração
Fechado
Calado
Truncado
Espancado.
Qual será
A verdadeira resposta
A próxima sacada
Genial
Da qual atirarei
A verdade
A maldade
A tristeza
Que você não vê?

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Correntes

Alma vagante
Escolheste a mim
Como teu inimigo.
Escolheste tardia
Proteger o teu
Como falhaste em vida
Mas mesmo agora
Ataca em si
O que amo.
Alma vagante
Não se torne
Minha inimiga
Alma vagante
Se afaste
Da ternura minha.
Abrace a luz maior
Abrace a paz maior
Deixe-se guiar
Até a vida eterna
Não me obrigue
A relembrar, insone,
As agruras do inferno
Não me obriga
A sacar de pronto
Minha espada em fúria.
Alma vagante
Se a luz se estende
Vão embora
Deixe o carinho
Que me foi dado
Deixe o amor em paz
Alma vagante
Já fizeste mal
Parta para longe
Parta para a luz
Antes que a fúria
Tome conta de mim
E eu te envie
Para o mesmo abismo
De onde saí.


segunda-feira, 29 de outubro de 2012

My friend

See, my friend?
Você não pôde gritar
Por tanta ajuda
Quando a faca quase
Se afundou no seu peito.

See, my friend?
As pessoas pensaram
Que você era mal
Somente por te verem
Irritado.

See, my friend?
Te abandonaram
Te traíram
Você foi sempre
Ferramenta.

Today, my friend,
Te vi vivo
Vagando nas ruas
Andava de cabeça baixa
Aquele mesmo olhar...

You know, my friend,
Pensei que não viveria
Pensei que morreria
Mas ficou de pé.
Como? Por quê?

I know, my friend,
Eles pensam que você é injusto
Quando critica os coitados
Mas você viu tanta dor
Sentiu tanta dor.

Now, my friend,
Levante-se,
Suas lágrimas secaram,
Você ainda está triste
Mas ainda esta vivo.

Espinho

Mesmo com você
Estarei sozinha.
Não esperava
Ser traída assim.
Você sabia dos meus medos
Você sabia dos meus sonhos
Mesmo assim foi egoísta
Mesmo assim me feriu.
Por quê?
Eu só queria descansar
Eu só queria amar o mundo
Eu só queria acreditar
No fundo
Que tudo seria
Tão doce,
Que tudo poderia ser
Tão bom...
Quando eu estou bem,
Você planta sementes duras
Dúvidas
No meu coração.
Quando eu estou bem
Você faz eu me sentir mal
Para que eu seja
Apenas sua.
Quando eu estou bem
Você me puxa pro abismo.
E agora não vou chorar mais.
Dói. Dói muito, mas
Não posso chorar
Sou a garota fresca, tímida
Que você despreza.
E agora, me fecho pra você
Me tranco em meu mundo
Me fecho, me afundo
Para não te ver mais
Me ferir.

And the world would be better if you were here with me. And the world would be better if you never leave me. And the world would be better if we share that bed now. Can I at least dream that you are here? Time passes and I feel betrayed by everything else around. The troubled sky falls on my shoulders and I see things I do not want to see. Wish you were here. I miss you. Really. I can only ask God that one day you're here with me. Saudade.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Vagem

Armadura escura
Redona de vidro
Pele dura
Sorriso amargo.
Olhos fechados
Medo do mundo
Solidão profunda
Em tempos de paz.

Mundo perdido
Canção descabida
Sonhos partidos
Perfeição quebrada
Coração perdido
Dia descolorido
Amores e dores...

Sem direção
Caminhos cortados
Passado infeliz
Que não desaparece
Noites fechadas
Estrelas partidas
Fúria contida

Soco incontrolado
Parede rachada
Mão destroçado
Triste figura.
Olhos perdidos
Pensamentos negros
Falta de sorrisos...

Falta de carinho...

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

General

Caminho por ruas estreitas
Ouvindo vozes confusas
Ainda posso ouvir
Os ecos de todo o inferno
Ainda posso sentir
A raiva mortal do universo.
Quero um futuro belo
Quero a paz negada
Aos que choraram por seus filhos.
Fizeram uma guerra
Fizeram outra e outra guerra
Disseram que tudo
Acabaria em valorosa vitória
Disseram que o mundo inteiro
Deixaria de ser negro.
E quando esses tempos chegaram
Quem foram os criminosos?
A impune massa banida?
Os soldados da labuta?
Os covardes em fuga
Fecham suas portas
Bato em todas elas
Conclamando erros e tolices
Os olhos fechados de um dragão
Ainda espreitam os corações
Dos mais alvoroçados.
A paz chega depressa
E nos desfazemos
Da guerra sombria
Que nos despoja.
A dor lancinante
De todos os fins me invade.
Cansado, me sento na calçada
Fora do campo de batalha
Tenho medo do mundo comum.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Lenço

Quero te beijar
No pescoço
Acariciar teus ombros
Admirar tua nudez
Mas não posso.
O tempo é curto
O espaço, apertado.
Quero teus olhos
Colados aos meus
Teus lábios encostados
Nessa minha boca
Carente.
Sinto o cheiro
Do teu lenço,
Dormi com ele
Junto ao corpo.
O cheiro de tuas roupas
Me enlouquece.
O cheiro do teu corpo
Estremece o meu.
Ah, se agora
Pudesse desejar
Eu pediria
Que dormisse aqui
Em meus braços
Cálidos.
Você sempre
Tem cuidado de mim
Tem sido a parceria
Perfeita, pura e doce.
Agradeço
Ao universo
Cada verso
Que faço
Em nossas lembranças
Cada sonho
Cada vida
Que imaginamos.
Ontem falamos
De casamentos
De buquês
Bombons e aparatos
De casa.
E disso saiba
Que esse sonho
Só é teu
Só é meu
Se for junto
Ao teu lado
Com teu corpo
Em meu corpo
E não mais
Só um lenço
Com o cheiro
De tuas roupas.

Epifania

De olhos fechados
Você não vê o escuro
Os sons que perpassam
O céu noturno
Não passam de detalhes
Em sua jornada
Para o abismo profundo.
Você procura respostas
Se enfurece
Se magoa, refuta
E quando as enxerga
Sua epifania vem acatada
Por um sorriso desculposo.
Você diz tolices
Durante todo o dia
Pede desculpas
Por ter ficado triste
Você se desculpa por sentir.
Mesmo assim ainda não sabe
Se pode sentir-se realmente bem.
Você não tem medo do escuro
Mas outros medos espreitam
Seu caminho confuso.
Você tenta acreditar
Na felicidade eterna
Mas algo sempre virá
Para ferir seu coração.
Você se despiu de sua armadura
Mas a desconfiança ressurge.
Algo pode estar errado?
Algo pode estar certo?
Sua intuição falha.
Você segura a raiva
E respira com calma.
Você tenta entender
As grandes diferenças
Amadurece,
Mas sempre, sempre, sempre
Existe algo mais.
Você protesta,
Você se cansa,
Você questiona,
E ao final
Apenas ouve o estourar das velas
As canções tristes
E o medo do mundo.
Você precisa crescer
Você está cansado
Você sempre acaba fazendo
Algo errado.



sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Carta para a chuva


Houve um tempo em que eu não podia demonstrar tristeza, minha expressões haviam se congelado. Então pedi às nuvens do céu para que se tornassem sombrias e manifestassem por mim toda a tristeza que eu havia guardado há anos. Houve um tempo em que eu não podia chorar. Por mais que eu me esforçasse, as lágrimas não saíam, meus olhos eram duros como diamantes. Então pedi à chuva que chorasse por mim, lágrima por lágrima, de todos os anos em que eu as guardei. Houve um tempo em que eu não conseguia gritar. Por mais que eu tentasse gritar, nenhum som saía. Minha garganta estava selada com a magia mais poderosa que a coragem e o medo de um homem poderiam usar para suprimir todos os sentimentos. Então pedi ao trovão para que gritasse tão alto quanto eu gostaria de gritar, que assustasse todo o mundo com sua dor intensa. Houve um tempo em que eu não tinha emoções. Nenhuma emoção, nenhuma surpresa. Eu vivia entre as desgraças do mundo. Solitário e doloroso preso em meu próprio casulo. Então pedi ao vento frio que me açoitasse, para que eu pudesse sentir o vento gelado cortar-me a carne e pudesse sentir dor e alívio. A chuva se tornou minha amiga, e me confortou nos momentos de dor.
Hoje, desço do ônibus, mas não abro o guarda-chuva. Deixo a boina de lã se encharcar e a chuva invadir minha pele, retirando todo o calor do meu corpo. Ergo meus olhos para o céu e deixo que a água me purifique. Com um sorriso digo:
–Não precisará mais chorar por mim, minha amiga. Sei fazer isso agora, e a dor passou. Sou feliz.
Entro em casa, abro um sorriso. Digo boa noite e entro em meu quarto. E então ela me liga. Abro um sorriso e deixo as lágrimas descerem devagar sobre os meus olhos. Choro em dias de chuva, choro de alegria.
Obrigado às nuvens, à chuva, aos trovões e ao vento. Obrigado por ampararem meu sofrimento. Os dias de chuva ainda são meus preferidos, mas agora choro por mim mesmo.
Obrigado.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Porcelana

Você sabe que meu coração
É de porcelana
E foi quebrado
Dilacerado, destruído
Tantas e tantas vezes
Que em certos tempos
Penso, raciocino
Que já nasceu quebrado.
Mesmo assim
Como você me ama?
Como não desiste
De juntar os cacos
Complicados
Desse meu coração?
Nem belo é
Como xícara vagabunda.
Rachada, usada, consumida
Como me ama
Sendo eu tão confusa
Como tem paciência
De contar as lascas.
Nos dias tristes
Em que me sinto sozinha
Cuida tanto de mim
Diz tato que me ama
Não me deixa
Não me abandona
Nunca.
Deixa eu descansar
Por toda noite
No teu ombro.
Não perca a paciência
Com esse meu jeito
Sei que pareço fraca
Sei que pareço tola
Mas esta noite
Me faça dormir
Agarrada
Em teu ventre macio
Me faça dormir sossegada
Esta noite estou triste
Fechada.
Esta noite,
Dentre outras muitas
Me sinto acabada
Necessitada
Do carinho teu


Bobo da corte

Fico ao seu lado
Em silêncio pleno
Nada que eu diga
Será tão sincero
Quanto a voz que não sai.
Nada que eu diga
Será melhor
Do que a ausência
De todas as palavras.
O vento invade o quarto
Afasta as cinzas do incenso.
Tento te fazer sorrir
Mas as circunstâncias dizem
Não ser boa idéia...
Um bobo da corte silenciado
Bobo calado
Fechado, que sou.
Hoje, sem piadas
Peço desculpas:
Hoje não há show.

Mal dia

Sabe quando a boa notícia vem
Carregada pela dor de alguém?
Você deveria sorrir um pouco
Mas sente que falta alguma coisa...
Sabe quando você vê
Falsos heróis adorados
Covardes engradecidos
Enquanto os verdadeiros soldados
Perderam a guerra
Contra si mesmos?
Sabe aqueles dias
Em que a felicidade bate à porta
Mas por trás vem a melancolia
Daqueles que perderam
A batalha?
Para eles, não tem mais volta
Para eles, não há mais nada.
Será que você não deveria estar lutando?
Será que você não deveria abandonar
A horda de covardes e se juntar aos soldados?
Existem mesmo causas perdidas?
Sabe aqueles dias
Em que você encontra tristeza
Nas portas que a felicidade encontra?
Você não deveria,
Mas sabe aqueles dias
Em que você se sente triste
Por pessoas que nem conhece?
Sabe aqueles dias,
Em que você quer ajudar, mas não pode?
E então seu dia se torna um mal dia?
Pois é, hoje é o dia...

sábado, 13 de outubro de 2012

Beijos


O cheiro de incenso e rosas é doce, me deixa tranqüilo. Sentada ao meu lado Pumpkin me ajudava com algumas traduções. Eu tinha quinze anos e meu nariz parecia ter triplicado de tamanho. Continuava muito magro, mas crescia vertiginosamente, como um pedaço de bambu. Mudei de escola depois do incidente do guarda-chuva, mas continuava sendo alvo de piadas. Continuava catalogando o que chegava pra mim e pra ela, mas nunca consegui usar magia. Também nunca havia visto ela usar magia. Com seu rosto de princesa, seu corpo de boneca, pequeno, mas bem feito, o incorruptível batom rosa e o cheiro de cravo, ela continuava a causar minha admiração. Puta merda, um dia eu pensei, se ela fosse da minha idade, quem sabe? Mas, não. Sabe, nessa época eu já tinha consciência de que meu rosto era uma merda, que eu era um cara estranho, não muito distante daquelas aberrações que eu estudava.
Não haviam conseguido descobrir o que eu era, mas também não perguntavam mais. Me aceitavam com o aval do meu avô e gostavam do meu trabalho com a Pumpkin. Eu caçava de vez em quando, com meu avô, e treinava com Alberto quando o circo vinha pra cidade. Ia todos os dias pra biblioteca, minha mãe achava estranho, mas deixava. Acho que meu pai pensava que eu era gay e estava em algum tipo de suruba... Na medida do possível eu tentava ser um adolescente normal. E me preocupava com um monte de coisas normais, às vezes.
–Pumpkin, eu perguntei um dia, você já teve um namorado?
–Alguns. Ela respondeu levantando os olhos do livro e me olhando por cima dos óculos. Por quê?
–Nada, é que...
–Dúvidas?
–Não é bem isso, é que... bom... esse negócio de beijo na boca é bom? Meus colegas tem me enchido o saco com isso.
–Enchido o saco?
–É, eu disse. Eles dizem que é meio que impossível me beijar com esse nariz enorme.
–Venha aqui. Deixe eu ver se ele é enorme mesmo.
Eu me aproximei, vermelho como um pimentão. Era a primeira vez que eu demonstrava este tipo de dúvida. Acho que ela não esperava por isso. Ela segurou o meu rosto e começou a olhar para o meu nariz. Abaixei os olhos, morrendo de vergonha. Não vi quando os lábios dela chegaram perto dos meus, apenas senti o toque quente deles,  gosto do batom, a língua entrando aos poucos nos meus lábios e brincando com a minha. A sensação estranha, o conforto. Ela me abraçou um pouco, minhas mãos ficaram sem ter para onde ir. Eu estava com medo, mas também não queria que terminasse. Mas terminou.
–Não, não é grande demais para te beijarem.
Eu voltei para o meu lugar, sem saber o que pensar. Abaixei a cabeça de novo para o meu livro.
–Apenas não se apaixone por mim, ok? Ela disse isso e deu uma pequena gargalhada.
Afundei ainda mais a cabeça no livro.

***
–Deixe a moça em paz. Ela disse que não passa a noite com ninguém.
Sofia estava parada no corredor. Eu ia para o meu quartinho, estava bêbado demais para voltar pra casa. O babaca que segurava o braço dela, bem forte, estava mais bêbado do que eu. Sofia tinha acabado de chegar na zona, os caras gostavam daquele corpão. Tudo no lugar certo, um ar selvagem. Pelo que me diziam, não era o tipo de pessoa que se deixava domar. Tava faturando bem, mas estava sempre no controle. Aquele idiota lá quis descobrir se podia montar em cima dela por uma noite inteira. Eu ouvi a bagunça. Carlos estava do lado de fora, vigiando quem entrava, Desirée estava concentrada recebendo alguns clientes ricos, André estava mais bêbado que um gambá velho. Era eu mesmo...
–Sai fora, cara. ele me diz. Tu num tem merda nenhuma com isso. Eu vou comer ela a noite toda, tenho grana pra isso e não to aqui pra ser recusado por puta nenhuma.
–Bom, cara, as putas aqui tem o direito de recusar até o papa. E olha que ele paga melhor do que você.
Ele parou por um segundo, raciocínio lento. Eu nem preciso dizer que jamais pegaria o guarda-chuva. Humano é humano, caralho...
–Larga a moça. Insisti mais um pouco. Se o Carlos chega, você rola escada abaixo e dorme na calçada.
Ele parou de olhar para mim, apertou o braço ainda mais forte. Os olhos de Sofia como os de uma fera.
–Você vai passar a noite comigo! ele disse.
Avancei para ele, segurei o braço.
–Larga ela agora, seu merda. Senão eu mesmo faço você largar.
Ele me olhou, como se não acreditasse no que eu estava fazendo. Ela também me olhou com a mesma cara. Só tive tempo de pensar “puta que pariu!” quando o soco veio e eu caí desacordado. Não, eu não fiquei imune a dor, nem mais forte com o treinamento todo do Alberto.
Acordei no quarto da Sofia, com ela do meu lado enfiando um cotonete no meu nariz e tirando ele todo sujo de sangue.
–Au, caralho! O que tem na merda desse cotonete?
–Água oxigenada. Ainda não tive tempo de comprar álcool. Ela sorria como se pedisse desculpas.
–E o cara grandão? Perguntei.
Ela me olhou, sorriu.
–Deixei um pedaço da orelha dele no corredor e ele foi embora.
“Credo”, pensei, “ela se vira melhor sem a ajuda de um merda como eu”. Ela continuou cuidando de mim, e eu em silêncio. Alguns minutos depois ela falou:
–Escuta, cara, por quê você me ajudou? Tipo, eu sei que têm essa coisa toda de homem e tals mas, tipo, eu sou uma puta. Meio que isso acontece o tempo todo.
Olhei pra ela e disse:
–Sabe, garota, sendo puta ou não, você é a porra de um ser humano. Ninguém tem o direito de fazer o que quer com outra pessoa.
Ela me olhou nos olhos. Diferente daquele olhar de fera, havia um olhar de menina machucada. Ela era bonita pacas, gostosa até. Uma garota de luxo. Mas naquela hora eu só via uma menina que tinha apanhado muito. Puta merda.  Ela chegou bem perto com o cotonete, me preparei pra dor, mas ela simplesmente beijou meu rosto de um lado, beijou do outro, eu estava paralisado. Enfim ela beijou meus lábios, de um jeito forte, bem forte. O calor veio, a excitação veio, eu retribuí o beijo. Por quê? Em que merda eu estava pensado? Não estava pensando. Ela se curvou sobre mim e eu acordei a tempo. Segurei-a pelos ombros e a afastei.
–Você não quer?
Eu respirei fundo. O volume na calça me fazia passar vergonha.
–Escuta, moça, não fiz isso para dormir com você. Aliás, eu nem consegui te ajudar, então vamos deixar as coisas do jeito que estão, ok?
–Eu não ia fazer isso pela ajuda. Ela me olhou com um sorriso meigo. Te achei legal, só isso. Se quiser, pode passar a noite.
–Desculpa, moça, mas não vou dormir com você.
–Mas já te vi dormindo com outras moças...
–Seu nome é Sofia, né? Sabe, você é o tipo de garota que aceita bem essa vida. Que faz carreira. Eu estou aqui há uns cinco anos, as pessoas daqui são como família, sabe? Eu não fico com nenhuma das garotas que eu sei que vão ficar muito tempo. Não tenho chamego... entende? Mas, de qualquer forma, você é linda.
Me levantei e fui pra porta.
–Cê ta com sono?
–Não. Eu não durmo muito, sabe? Só um pouquinho, e já dormi essa noite, mesmo que forçado.
Ela riu.
–Não quer ficar um pouco? Eu mal conheço esse pessoal, e ainda to naquela fase em que as garotas me odeiam por ser nova...
Fiquei. Conversamos a noite toda. Quando fui embora de manhã ela me disse:
–Sabe, tipo, acho que vou me apaixonar por você.
Eu respondi:
–Letra A, sou feio pra caralho, letra B, você mal me conhece, letra C, gente como eu nasceu pra ficar afundado na merda. Ficar comigo só vai te trazer problemas, moça.
–Vou arriscar mesmo assim...
Será que eu amei a Sofia, será que eu teria sido feliz com ela? Não importa mais. Tudo isso, no fim das contas não passou de um monte de merda.
***
“Diógenes, a moça me procurou. Disse que você era o único que poderia esclarecer certas coisas. Sei que ela fez coisas erradas mas talvez seja hora de você ser menos intolerante. Pesquisei um pouco, ela se desligou da Igreja a alguns aos, não é mais freira. Você sabe que Morgana era minha amiga. Faça um favor por mim, escute à moça. Seu avô iria querer isso também. Você conhece a história dela, sabe o que aconteceu. Seja bonzinho. Beijos, Pumpikin. Ps. A bicada é para você deixar de ser insensível e vir me ver”.
O bilhete chega preso num pardal. No meio da chuva ele bate no vidro com o bico. Abro a janela, pego o bilhete e a porra do bicho arranca um pedaço da minha mão e sai voando. Da mesma janela vejo que o carro da Melissa está parado, como nas últimas três semanas. Ela dorme lá e me espera. Quando me vê passar, faça chuva ou sol, ela sai do carro e fica me olhando. Não quero agredi-la, não vou, mas finjo que não a vejo.
Pumpikin me manda esse bilhete, me deixa pensativo. São quase seis da tarde. Ainda estou puto com um monte de coisas, mas ela está certa, não posso culpar uma criança. Além do mais, ela salvou minha vida.  Puta merda, o que eu faço. Tenho medo de chegar perto e me foder de novo. Mas não tenho mais nada a perder mesmo.
Desço as escadas. Rápido. Abro a porta do carro, entro. Ela parece não acreditar. Olho para ela, está assustada. Não sabe o que está acontecendo. Mas recobra a calma e fala:
–Me desculpe. Não queria ter mentido, me desculpe, me desculpe, me desculpe...
Uma lágrima começa a descer pelos olhos dela. Depois outra, e outra, e outra. Ela não para. Se apóia em meus ombros e chora, chora, chora. Eu não sei o que fazer. Levanto a mão, abraço ela. “Que merda toda é essa?”, penso. Quando ela para, olho pra ela e digo:
–Não gosto de você. Não confio em você. Vou te ajudar, vou responder suas perguntas, mas com um pé atrás. Se você fizer merda, eu não vou ser legal. Ok?
Ela faz que sim com a cabeça.  Sem sair dos meus braços ela me beija no rosto, tocando a ponta dos lábios.
–Tá com fome? Eu digo. Tenho miojo.
“Não gosto de você. Não confio em você. Se você fizer merda, eu não vou ser legal.” Por quê todas essas palavras me parecem mentira? Por quê eu desci e voltei a falar com ela? Merda. Perguntas demais.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

F...

Ontem chorei
Sem nenhum motivo
Fiquei mal
Desvario...
Sei que às vezes pareço
Descontrolada
Pesada em sentimentos
Desconectada do mundo.
Sei que sofri muita coisa
E algo sempre vem
Me incomodar
Me jogar fora de órbita
Mas quero que saiba
Que sou mais feliz
Por você estar aqui
Por não fugir
Quando estes meus olhos
Que tanto assustam
Se põem a chorar.
Quero que saiba
Que este seu amor
Me ajuda a voltar
Sempre pra casa...
E é como ter teus braços
Ao meu redor
E é como ter carinho
Quando sempre estive só
Então
Eu quero precisar de você
Teu abraço
Tua carícia, teu beijo
O aconchego
O direito de sonhar
Acordado
E teu olhar calado
Em meu rosto
A desejar
Meu viver...

Obrigado por não me achar louca, por não se cansar de mim, por estar sempre aqui, mesmo nas horas em que as coisas também são difíceis pra você. Se serve de algo, quero que saiba que, nesse mundo estranho onde sempre lutei sozinha, com Deus de um lado e muita coragem do outro, é bom finalmente ter você segurando minha mão. Te esperei tempo demais, e te amo demais...