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sábado, 13 de outubro de 2012

Beijos


O cheiro de incenso e rosas é doce, me deixa tranqüilo. Sentada ao meu lado Pumpkin me ajudava com algumas traduções. Eu tinha quinze anos e meu nariz parecia ter triplicado de tamanho. Continuava muito magro, mas crescia vertiginosamente, como um pedaço de bambu. Mudei de escola depois do incidente do guarda-chuva, mas continuava sendo alvo de piadas. Continuava catalogando o que chegava pra mim e pra ela, mas nunca consegui usar magia. Também nunca havia visto ela usar magia. Com seu rosto de princesa, seu corpo de boneca, pequeno, mas bem feito, o incorruptível batom rosa e o cheiro de cravo, ela continuava a causar minha admiração. Puta merda, um dia eu pensei, se ela fosse da minha idade, quem sabe? Mas, não. Sabe, nessa época eu já tinha consciência de que meu rosto era uma merda, que eu era um cara estranho, não muito distante daquelas aberrações que eu estudava.
Não haviam conseguido descobrir o que eu era, mas também não perguntavam mais. Me aceitavam com o aval do meu avô e gostavam do meu trabalho com a Pumpkin. Eu caçava de vez em quando, com meu avô, e treinava com Alberto quando o circo vinha pra cidade. Ia todos os dias pra biblioteca, minha mãe achava estranho, mas deixava. Acho que meu pai pensava que eu era gay e estava em algum tipo de suruba... Na medida do possível eu tentava ser um adolescente normal. E me preocupava com um monte de coisas normais, às vezes.
–Pumpkin, eu perguntei um dia, você já teve um namorado?
–Alguns. Ela respondeu levantando os olhos do livro e me olhando por cima dos óculos. Por quê?
–Nada, é que...
–Dúvidas?
–Não é bem isso, é que... bom... esse negócio de beijo na boca é bom? Meus colegas tem me enchido o saco com isso.
–Enchido o saco?
–É, eu disse. Eles dizem que é meio que impossível me beijar com esse nariz enorme.
–Venha aqui. Deixe eu ver se ele é enorme mesmo.
Eu me aproximei, vermelho como um pimentão. Era a primeira vez que eu demonstrava este tipo de dúvida. Acho que ela não esperava por isso. Ela segurou o meu rosto e começou a olhar para o meu nariz. Abaixei os olhos, morrendo de vergonha. Não vi quando os lábios dela chegaram perto dos meus, apenas senti o toque quente deles,  gosto do batom, a língua entrando aos poucos nos meus lábios e brincando com a minha. A sensação estranha, o conforto. Ela me abraçou um pouco, minhas mãos ficaram sem ter para onde ir. Eu estava com medo, mas também não queria que terminasse. Mas terminou.
–Não, não é grande demais para te beijarem.
Eu voltei para o meu lugar, sem saber o que pensar. Abaixei a cabeça de novo para o meu livro.
–Apenas não se apaixone por mim, ok? Ela disse isso e deu uma pequena gargalhada.
Afundei ainda mais a cabeça no livro.

***
–Deixe a moça em paz. Ela disse que não passa a noite com ninguém.
Sofia estava parada no corredor. Eu ia para o meu quartinho, estava bêbado demais para voltar pra casa. O babaca que segurava o braço dela, bem forte, estava mais bêbado do que eu. Sofia tinha acabado de chegar na zona, os caras gostavam daquele corpão. Tudo no lugar certo, um ar selvagem. Pelo que me diziam, não era o tipo de pessoa que se deixava domar. Tava faturando bem, mas estava sempre no controle. Aquele idiota lá quis descobrir se podia montar em cima dela por uma noite inteira. Eu ouvi a bagunça. Carlos estava do lado de fora, vigiando quem entrava, Desirée estava concentrada recebendo alguns clientes ricos, André estava mais bêbado que um gambá velho. Era eu mesmo...
–Sai fora, cara. ele me diz. Tu num tem merda nenhuma com isso. Eu vou comer ela a noite toda, tenho grana pra isso e não to aqui pra ser recusado por puta nenhuma.
–Bom, cara, as putas aqui tem o direito de recusar até o papa. E olha que ele paga melhor do que você.
Ele parou por um segundo, raciocínio lento. Eu nem preciso dizer que jamais pegaria o guarda-chuva. Humano é humano, caralho...
–Larga a moça. Insisti mais um pouco. Se o Carlos chega, você rola escada abaixo e dorme na calçada.
Ele parou de olhar para mim, apertou o braço ainda mais forte. Os olhos de Sofia como os de uma fera.
–Você vai passar a noite comigo! ele disse.
Avancei para ele, segurei o braço.
–Larga ela agora, seu merda. Senão eu mesmo faço você largar.
Ele me olhou, como se não acreditasse no que eu estava fazendo. Ela também me olhou com a mesma cara. Só tive tempo de pensar “puta que pariu!” quando o soco veio e eu caí desacordado. Não, eu não fiquei imune a dor, nem mais forte com o treinamento todo do Alberto.
Acordei no quarto da Sofia, com ela do meu lado enfiando um cotonete no meu nariz e tirando ele todo sujo de sangue.
–Au, caralho! O que tem na merda desse cotonete?
–Água oxigenada. Ainda não tive tempo de comprar álcool. Ela sorria como se pedisse desculpas.
–E o cara grandão? Perguntei.
Ela me olhou, sorriu.
–Deixei um pedaço da orelha dele no corredor e ele foi embora.
“Credo”, pensei, “ela se vira melhor sem a ajuda de um merda como eu”. Ela continuou cuidando de mim, e eu em silêncio. Alguns minutos depois ela falou:
–Escuta, cara, por quê você me ajudou? Tipo, eu sei que têm essa coisa toda de homem e tals mas, tipo, eu sou uma puta. Meio que isso acontece o tempo todo.
Olhei pra ela e disse:
–Sabe, garota, sendo puta ou não, você é a porra de um ser humano. Ninguém tem o direito de fazer o que quer com outra pessoa.
Ela me olhou nos olhos. Diferente daquele olhar de fera, havia um olhar de menina machucada. Ela era bonita pacas, gostosa até. Uma garota de luxo. Mas naquela hora eu só via uma menina que tinha apanhado muito. Puta merda.  Ela chegou bem perto com o cotonete, me preparei pra dor, mas ela simplesmente beijou meu rosto de um lado, beijou do outro, eu estava paralisado. Enfim ela beijou meus lábios, de um jeito forte, bem forte. O calor veio, a excitação veio, eu retribuí o beijo. Por quê? Em que merda eu estava pensado? Não estava pensando. Ela se curvou sobre mim e eu acordei a tempo. Segurei-a pelos ombros e a afastei.
–Você não quer?
Eu respirei fundo. O volume na calça me fazia passar vergonha.
–Escuta, moça, não fiz isso para dormir com você. Aliás, eu nem consegui te ajudar, então vamos deixar as coisas do jeito que estão, ok?
–Eu não ia fazer isso pela ajuda. Ela me olhou com um sorriso meigo. Te achei legal, só isso. Se quiser, pode passar a noite.
–Desculpa, moça, mas não vou dormir com você.
–Mas já te vi dormindo com outras moças...
–Seu nome é Sofia, né? Sabe, você é o tipo de garota que aceita bem essa vida. Que faz carreira. Eu estou aqui há uns cinco anos, as pessoas daqui são como família, sabe? Eu não fico com nenhuma das garotas que eu sei que vão ficar muito tempo. Não tenho chamego... entende? Mas, de qualquer forma, você é linda.
Me levantei e fui pra porta.
–Cê ta com sono?
–Não. Eu não durmo muito, sabe? Só um pouquinho, e já dormi essa noite, mesmo que forçado.
Ela riu.
–Não quer ficar um pouco? Eu mal conheço esse pessoal, e ainda to naquela fase em que as garotas me odeiam por ser nova...
Fiquei. Conversamos a noite toda. Quando fui embora de manhã ela me disse:
–Sabe, tipo, acho que vou me apaixonar por você.
Eu respondi:
–Letra A, sou feio pra caralho, letra B, você mal me conhece, letra C, gente como eu nasceu pra ficar afundado na merda. Ficar comigo só vai te trazer problemas, moça.
–Vou arriscar mesmo assim...
Será que eu amei a Sofia, será que eu teria sido feliz com ela? Não importa mais. Tudo isso, no fim das contas não passou de um monte de merda.
***
“Diógenes, a moça me procurou. Disse que você era o único que poderia esclarecer certas coisas. Sei que ela fez coisas erradas mas talvez seja hora de você ser menos intolerante. Pesquisei um pouco, ela se desligou da Igreja a alguns aos, não é mais freira. Você sabe que Morgana era minha amiga. Faça um favor por mim, escute à moça. Seu avô iria querer isso também. Você conhece a história dela, sabe o que aconteceu. Seja bonzinho. Beijos, Pumpikin. Ps. A bicada é para você deixar de ser insensível e vir me ver”.
O bilhete chega preso num pardal. No meio da chuva ele bate no vidro com o bico. Abro a janela, pego o bilhete e a porra do bicho arranca um pedaço da minha mão e sai voando. Da mesma janela vejo que o carro da Melissa está parado, como nas últimas três semanas. Ela dorme lá e me espera. Quando me vê passar, faça chuva ou sol, ela sai do carro e fica me olhando. Não quero agredi-la, não vou, mas finjo que não a vejo.
Pumpikin me manda esse bilhete, me deixa pensativo. São quase seis da tarde. Ainda estou puto com um monte de coisas, mas ela está certa, não posso culpar uma criança. Além do mais, ela salvou minha vida.  Puta merda, o que eu faço. Tenho medo de chegar perto e me foder de novo. Mas não tenho mais nada a perder mesmo.
Desço as escadas. Rápido. Abro a porta do carro, entro. Ela parece não acreditar. Olho para ela, está assustada. Não sabe o que está acontecendo. Mas recobra a calma e fala:
–Me desculpe. Não queria ter mentido, me desculpe, me desculpe, me desculpe...
Uma lágrima começa a descer pelos olhos dela. Depois outra, e outra, e outra. Ela não para. Se apóia em meus ombros e chora, chora, chora. Eu não sei o que fazer. Levanto a mão, abraço ela. “Que merda toda é essa?”, penso. Quando ela para, olho pra ela e digo:
–Não gosto de você. Não confio em você. Vou te ajudar, vou responder suas perguntas, mas com um pé atrás. Se você fizer merda, eu não vou ser legal. Ok?
Ela faz que sim com a cabeça.  Sem sair dos meus braços ela me beija no rosto, tocando a ponta dos lábios.
–Tá com fome? Eu digo. Tenho miojo.
“Não gosto de você. Não confio em você. Se você fizer merda, eu não vou ser legal.” Por quê todas essas palavras me parecem mentira? Por quê eu desci e voltei a falar com ela? Merda. Perguntas demais.

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