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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Carta para a chuva


Houve um tempo em que eu não podia demonstrar tristeza, minha expressões haviam se congelado. Então pedi às nuvens do céu para que se tornassem sombrias e manifestassem por mim toda a tristeza que eu havia guardado há anos. Houve um tempo em que eu não podia chorar. Por mais que eu me esforçasse, as lágrimas não saíam, meus olhos eram duros como diamantes. Então pedi à chuva que chorasse por mim, lágrima por lágrima, de todos os anos em que eu as guardei. Houve um tempo em que eu não conseguia gritar. Por mais que eu tentasse gritar, nenhum som saía. Minha garganta estava selada com a magia mais poderosa que a coragem e o medo de um homem poderiam usar para suprimir todos os sentimentos. Então pedi ao trovão para que gritasse tão alto quanto eu gostaria de gritar, que assustasse todo o mundo com sua dor intensa. Houve um tempo em que eu não tinha emoções. Nenhuma emoção, nenhuma surpresa. Eu vivia entre as desgraças do mundo. Solitário e doloroso preso em meu próprio casulo. Então pedi ao vento frio que me açoitasse, para que eu pudesse sentir o vento gelado cortar-me a carne e pudesse sentir dor e alívio. A chuva se tornou minha amiga, e me confortou nos momentos de dor.
Hoje, desço do ônibus, mas não abro o guarda-chuva. Deixo a boina de lã se encharcar e a chuva invadir minha pele, retirando todo o calor do meu corpo. Ergo meus olhos para o céu e deixo que a água me purifique. Com um sorriso digo:
–Não precisará mais chorar por mim, minha amiga. Sei fazer isso agora, e a dor passou. Sou feliz.
Entro em casa, abro um sorriso. Digo boa noite e entro em meu quarto. E então ela me liga. Abro um sorriso e deixo as lágrimas descerem devagar sobre os meus olhos. Choro em dias de chuva, choro de alegria.
Obrigado às nuvens, à chuva, aos trovões e ao vento. Obrigado por ampararem meu sofrimento. Os dias de chuva ainda são meus preferidos, mas agora choro por mim mesmo.
Obrigado.

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