Eu só vi sua mãe uma vez. Eu tinha
dezesseis anos e ela estava enorme, quase ganhando você. Não conheci o seu pai,
Paca Manu. Ele ainda estava vivo quando você nasceu, mas eu nunca o havia
visto. Todos chamavam a sua mãe de Morgana porquê era o nome artístico dela, nos
trabalhos de vidente, mas era uma bruxa legal. Dizem que foi ela quem ensinou
tudo pra Pumpkin, mas eu não sei se é verdade. Ninguém toca no assunto. E
parece que, apesar disso, as duas não se bicavam muito. É meio tenso. Acho que
ninguém te disse que ela era bonita, e tenho quase certeza de que quase todas
as fotos foram completamente destruídas. E quem tem, não divulga. As pessoas
tem medo de você.
O nome verdadeiro da sua mãe era
Angélica. Ela tinha uns trinta anos quando você nasceu, mas parecia ter só uns
vinte e cinco. Não era gorda, mas tinha mais corpo que você. Esse cabelo liso
você puxou do seu pai, porquê o dela era bem, bem encaracolado. Sem ofensas,
ela era uma pouco mais bem fornida, e mais alta. Desculpe por não entrar em
detalhes, mas tudo o que vou te contar só se salvou porquê eu devorei o máximo
possível de informações antes de ter que queimar todos os livros que fizessem
menção a ela.
Aparentemente vocês vêm de uma
linhagem antiga de bruxas, mas não sobrou ninguém mais na sua família. Vocês
estiveram sempre fugindo ao longo dos tempos. Existem relatos (ou pelo menos
existiram) de dezenas de membros da sua família queimados em fogueiras de
purificação. Não que vocês fossem assim tão ruins, mas vocês eram bruxas, sabe?
Esse mundo é meio estranho com bruxas. Entende?
Seus pais eram bem felizes, pelo que
meu avô me contou, depois que tudo aconteceu. Na verdade, sua mãe sempre ajudou
as pessoas e ganhava muito dinheiro como vidente dos graúdos daqui. Os
poderosos gostavam dela. Ela permanecia na cidade enquanto seu pai viajava
entre aqui e a tribo. A mesma tribo de onde vieram os gêmeos. Inclusive, seu
pai está envolvido no salvamento deles, foi uma coisa meio engraçada, mas...
não, não faça essa cara, não vou mudar de assunto. O que eu quero dizer é que
sua mãe e seu pai faziam o possível. Eles tentavam ter uma vida no meio dessa
bagunça toda. Mas as coisas acabam ficando uma merda quando nós estamos
envolvidos com a má realidade. Principalmente naquele ano, quando surgiu a
“Sociedade do Bem Celestial”.
Era um grupo formado por homens e
mulheres que tinham perdido pessoas queridas para a má realidade. Mortos por
todo tipo de seres estranhos, por toda a horda de animais que estávamos
acostumados a caçar. Eles decidiram caçar também. Tudo bem... se eles não
achassem que deveriam regrar qualquer um que usasse a força da má realidade a
seu favor, inclusive outros caçadores. Eles passaram a nos ameaçar e a
perseguir qualquer um que usasse suas habilidades de maneira errada (ou da maneira
que eles considerassem errada). Como eu não havia caçado muito, acabei sendo
pouco conhecido. Meu avô usava a lança de Longinus, e por isso era considerado
muito perigoso. A mesma coisa com Alberto, que ninguém até hoje sabe como
matar. Mas outros magos, bruxas, pessoas com poderes duvidosos recebiam cartas
em casa, com ameaças, dizendo para pararem de usar seus poderes.
Como a Sociedade era formada por
homens e mulheres comuns, que não eram caçadores, não havia como saber se era
um vizinho, um amigo um colega da escola ou do trabalho. As execuções
aconteciam de surpresa, sem que a vítima se desse conta de que havia sido
emboscada. Isso aterrorizou os caçadores, muitos pararam de caçar e se
esconderam, fugiram para outras cidades mais tranqüilas, onde a Sociedade ainda
não havia chegado. Foi uma época assustadora, muito assustadora. Mesmo a Inquisição
tinha medo deles. Eram assassinos que acreditavam lutar por um paraíso maior e
mais exclusivo do que qualquer um da Terra. Eles queriam extirpar a má
realidade do mundo. Era comum ouvir-se falar de hospitais velhos e casas mal
assombradas dinamitadas, queimadas, simplesmente por serem palco de eventos
sobrenaturais. Alguns prostíbulos eram atacados, as meninas quase linchadas,
por grupos que atacavam de maneira rápida, indetectável. Isso porquê, como você
sabe, é lá que os homens depositam suas dores, no colo daquelas moças... Na
época a dona do lugar que você conheceu ainda era a Cherry. Ela chegou fechar
por algumas semanas, mandar as meninas voltarem pra casa, com medo dos ataques.
Meu avô ficou um tempo mais longo na
cidade, temendo que as coisas ficassem tensas. Ele tinha medo de que alguém
falasse demais e meu nome acabasse sendo revelado. Não sou normal, você sabe, e
esses caras iam adorar perseguir uma aberração como eu. Mas, no fim das contas,
meu nome era tão insignificante que não foi nem lembrado. Mas o do seu pai foi.
Ele era um necromancer. Dos melhores.
Ele conseguia ressuscitar qualquer coisa que estivesse morta num raio de um
quilômetro. Animais, insetos, plantas, pessoas, o que estivesse à disposição.
Ele era muito bom mesmo. Mas a necromancia era considerada condenável por boa
parte das religiões. A Inquisição fingia não ver naquela época, afinal de
contas, seu pai evitava trazer humanos de volta (mas nem sempre era possível),
e nunca havia feito nada de errado. Ele era um gênio, e caçava para evitar
problemas para as outras pessoas. Ele era um pajé muito bom. Havia se afastado
um pouco da tribo para se casar com a sua mãe. E pelo que meu avô contava, era
um bom amigo.
Quando ele recebeu a carta, decidiu
parar de caçar. Todos apoiaram, afinal sua mãe estava grávida de você e os
tempos estavam ficando incertos com a Sociedade atuando por aí. Era como a
nossa própria versão da Klan, a diferença é que não queimavam cruzes, mas te
esfaqueavam pelas costas quando você não via. E foi assim que encontraram seu
pai num beco, alguns dias depois de você nascer. Eu sei, essa história é uma
merda.
Seu pai morreu mesmo tendo desistido
de caçar. Ele era sempre muito procurado e continuou chamando a atenção da
Sociedade, mesmo quando ele recusava trabalho. Um dia ele simplesmente não
voltou para casa. Sua mãe ligou para o meu avô. Ele estava em casa nessa época
e dormia no sofá. Quando ele saiu eu quis segui-lo, mas ele me mandou ficar no
quarto. Foi o velho quem achou seu pai com as costas retalhadas de fora a fora.
Uma facada apenas, direto, do ombro à cintura, funda o suficiente para... me
desculpe, não entrarei em detalhes.
Surpreendentemente sua mãe ficou bem
por alguns meses. Ela mal chorou, como se esperasse por tudo o que havia
acontecido. No velório ela te segurava nos braços com toda a força do mundo.
A polícia não conseguiu achar provas
para incriminar ninguém. Todos os caçadores tentaram, mas não deu certo. Mesmo
assim sua mãe continuou ajudando as pessoas, sendo legal, todos acreditaram que
ela havia superado. Todos. Mas quando a tentativa de assassinato à um dos
caçadores falhou, e um membro da Sociedade foi morto, nós percebemos que ela
apenas estava esperando por vingança. Dizem que ela chegou à casa do caçador,
onde o corpo do assassino estava, bem antes da polícia. Quando meu avô chegou,
ela já havia partido. Já havia identificado o agressor, um vereador importante
da cidade, e aí ela sumiu com você junto. Começou a investigar. Em uma semana
ela descobriu o que nenhum de nós havia descoberto em muito tempo (e olha que
mesmo eu estava analisando o caso): quem eles eram e onde se reuniam.
Você se lembra do grande incêndio na
estação velha? Deve ter lido sobre ele, visto em revistas, jornais, mais de mil
pessoas mortas, um grande evento da Sociedade para comemorar o sucesso das
investidas, a maioria era ligada à classe da cidade, os mais conservadores. Era
burrice fazer uma reunião daquelas, mas a estação velha ficava longe da cidade,
isolada, ligada à uma siderúrgica que nem funcionava mais, eles acharam que
estavam seguros. Acharam que nada poderia tocá-las.
Mas pessoas não saíram de lá porquê
estavam paralisadas, o fogo queimou uma por uma. Quando Pumpkin analisou a
magia, percebeu uma coisa: estavam todos muscularmente congelados, mas ainda
sentiam dor. Todos eles morreram cheios de dor, sem poder gritar. Apenas o dono
do prédio saiu vivo. Ele era a autoridade máxima. Teve o filho morto pelo
fantasma de um operário que vivia ali. Tentou caçar por um tempo, ainda se
juntava à nós em algumas caçadas, já havia jantado junto com seus pais, lhe
dera sapatinhos de presente. Sua mãe o reconheceu como autoridade máxima, o
tirou dali e arrancou dele o máximo de informações possíveis. Só imaginamos que
isso havia acontecido quando encontramos o corpo dele completamente dilacerado
com uma faca. A perícia disse que ele mesmo havia feito isso em si mesmo.
Sua mãe descobriu sobre os membros que
não haviam comparecido à festa. Naquela noite outros incêndios aconteceram,
outras mortes brutais. Com a maioria morta, restaram poucos. E ela os torturou,
extorquiu, explorou suas mentes. Apenas um sobreviveu, ela deixou uma marca.
Ele atualmente está louco, no manicômio da cidade, tentando se matar uma vez
por semana. O antigo prefeito.
E foi com ele que sua mãe descobriu
que a morte do seu pai não tinha muito haver com seus poderes, que fora uma
estúpida jogada política. Por quê? Porquê sua mãe atendia à adversários
políticos poderosos, sua vidência influenciava até mesmo eleições. Queriam tirá-la
do jogo, ameaçá-la. A primeira carta era contra seu pai, uma segunda chegaria
contra ela, exigindo que se retirasse dos negócios. As teorias dizem que sua
mãe se sentiu muito culpada, outros dizem que ela enlouqueceu de vez. Eu não
sei. Você entende que são apenas teorias? Que tudo isso foi escrito por pessoas
que não estavam lá? Que mesmo meu avô não compreendia o que estava acontecendo?
Foi tudo repentino e assustador. Meu avô saía todas as noites, eu matava aulas
para ir à biblioteca, tentando ordenar minhas idéias. Era o que eu podia fazer.
Ninguém dormia mais. Sua mãe havia matado centenas de pessoas e... e mesmo
assim ela não era uma pessoa ruim. Todos queriam que ela voltasse a ser como
antes, mas ninguém sabia como achá-la. Se a polícia suspeitasse dela, e eles
ainda tentavam entender o que aquelas pessoas faziam na estação, se procurassem
por sua mãe as coisas ficariam piores, todos nós seríamos expostos. Não haveria
explicação plausível.
E foi então que as coisas pioraram. Eu
acordei no meio da noite, com um grito, um grito assustador. Percorri a casa
inteira, todos estavam bem. Me perguntei por alguns minutos de quem era o
grito, de quem era aquela voz e... quando percebi já estava empurrando meu avô
escada abaixo, entrando na sua Brasília verde. Eu nunca a vi correr tão rápido.
Tão assustadoramente rápido. Quando chegamos à biblioteca, encontramos Pumpkin
deitada no chão, numa poça enorme de sangue, com o peito aberto. Ela havia
usado magia para ir me encontrar, para pedir socorro. Outros caçadores avisados
chegaram em seguida. Não precisamos chamar ambulâncias, elas estavam lá. O
corte era fundo, mas não atingira os órgãos vitais. Os médicos só tiveram que
fechá-la e fazer uma transfusão.
No chão, uma mancha gigante de sangue
tinha um enorme “D”, desenhado tremulamente. Lembrei que ela me havia dito que
podíamos saber tudo sobre uma pessoa se tocássemos seu sangue. Podíamos enviar
mensagens. Quando toquei o sangue, pude ver a cena: sua mãe esfaqueara Pumpkin,
enfiara os dedos próximo ao coração e retirara um pequeno papel. Como ele havia
sido colocado lá é algo que não sei, mas poderia descobrir o que era.
Corri desesperado para o quarto dela.
O único lugar onde eu não podia entrar. No guarda-roupa enorme e trancado eu
sabia que encontraria seus diários, seus registros. Com o ombro, comecei a
forçar a porta, tentando quebrá-la. Meu avô ouviu o barulho e, quando viu,
sequer fez perguntas, apenas pegou um canivete e dilacerou a tranca. Passei a
noite inteira e parte da manhã lendo os diários. Fui encontrar os registros de
Paca Manu alguns anos antes dele se casar com sua mãe. Ele havia dado a Pumpkin
algo para guardar: a única maneira de se trazer um morto são e forte, de volta
à vida. Mau o havia dado a ela, não sei o motivo, e a feito jurar que ninguém à
teria. No diário mais recente apenas havia uma aviso sobre sua mãe querer o que
seu pai havia dado a ela. Que Morgana requisitara a magia como parte de sua
herança, Melissa.
Mesmo assim não achamos sua mãe e
Pumpkin permaneceu em coma por algumas semanas. E só percebemos o que sua mãe
estava fazendo quando vimos que os sete primogênitos dos homens mais poderosos
da cidade haviam desaparecido, e que o corpo do seu pai também, escavado do túmulo
simples que ele queria. Nessa hora foi que consegui juntar tudo. Sua mãe traria
seu pai de volta, são e salvo. Algumas versões da necromancia diziam que era
necessário uma vida por outra, muitas e muitas vezes. Sete primogênitos para se
trazer um. Sua mãe havia definitivamente enlouquecido.
Nessa época todos procuravam como
loucos, pois sete crianças morreriam em breve. Sem Pumpkin por perto as pessoas
me ouviam. Me arrumaram uma licença médica para eu faltar as aulas. Pesquisei
nos livros que pude, mas não achei onde poderia ser feito um ritual desses.
Pesquisei arquivos velhos sobre sua mãe, que me haviam trago às pressas. Coisas
do seu pai também. Não achei nada. No fim das contas, quem encontrou uma pista
foi um policial, amigo do meu avô. O mesmo que me livrara da acusação de
arrancar a orelha de um garoto uma vez, quando descobri o guarda-chuva. Ele
encontrou os rastros de sua mãe pesquisando arquivos antigos, registros de
imóveis e coisas assim. Não sei se seria o lugar do ritual, mas acho que à essa
altura você já deve saber que é dona de um galpão num dos bairros afastados da
cidade. Nós limpamos tudo depois, mas foi ali que sua mãe morreu. Não sei se
ainda dá pra sentir a flutuação da energia, mas durante anos isso foi possível.
Quando descobriram o lugar, todos já
estavam unidos. A Inquisição se uniu aos outros caçadores, na época não pude
saber o motivo, mas foi aí que meu avô conheceu as pessoas que te criaram.
Todos arquitetaram um plano de ação, ali mesmo na biblioteca. Virou nosso
quartel general. O galpão foi invadido apenas uma noite após sua descoberta,
não podíamos dar tempo para sua mãe descobrir. Eu não fui. Meu avô sugeriu que
eu tomasse um gole de vinha antes de sair junto a eles. Aquele velho filho de
uma puta me drogou.
Quando acordei, no dia seguinte, soube
que sua mãe estava morta. Não vou mentir para você, não preciso do seu afeto.
Meu avô a matou, e eu não sei o motivo. Seus amigos da Inquisição o deixaram
para trás assim que conseguiram pôr as mãos em você. Hilário foi o único do seu
grupo a sair ferido. Uma vez ele me disse que só saiu vivo por causa do seu
avô. Todos tentaram te tirar do convento, mas não conseguiram, não sabiam onde
você estava. Quando finalmente te levaram à campo, disseram que você estava tão
focada em ser uma feira que qualquer um que chegasse perto corria risco de
vida. Você se tornou uma figura estranha no nosso mundo. Não sei como você
saiu, nem o que está buscando. Espero não ter nenhum de vocês batendo mais à
minha porta.
Depois da morte da sua mãe, todos,
excetuando meu avô e Alberto, escreveram algo sobre o assunto e me entregaram,
para que eu arquivasse. Mas alguns meses depois, meu avô pediu para que eu
queimasse tudo. Não queriam que sobrasse nada dessa história, não queriam que
você se vingasse. Eu estou te contando isso, mas se você buscar vingança, eu
mesmo mato você. E, não, eu não estou brincando. Se meu avô achou por bem parar
uma vingança matando um amigo, eu, que não sinto nada por você, farei o que for
necessário sem pestanejar.
Agora espere um pouco. Não me siga. Saio
da sala, pego minha caixa, fuço um pouco. Estava lá, dentro daquele envelope.
Quando retorno, ela ainda está de cabeça baixa. Entrego o envelope. Pego o
prato de miojo. Ela havia chorado em todo ele. Quando deixo o cobertor e o
travesseiro, ela ainda olha para a única foto que restara dos pais. Seu pai,
com o sorriso frouxo e a cabeleira branca precoce, o corpo gordinho de
acomodado, a mãe, bela e doce, de cabelos encaracolados e um sorriso largo e
feliz, e a pequena Melissa enrolada em um cobertor.
Entro para o meu quarto, me deito e
durmo. Não tranco a porta. Algo me dizia, com todas as letras, que ela não iria
me ferir.