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sábado, 29 de dezembro de 2012

Jogo de sombras

O Rei Palhaço
Andava só.
A Bailarina, nem tanto
Ela em si, na multidão
Bela e doce
Ante os olhares
Poderia enfim
Escolher qualquer
Dentre os heróis
Para entregar 
Teu coração dançante.
Mas, ah, o destino entranho
A fez ver
Pelo deserto de lágrimas tristes
A triste figura, cheia de feiura
Do Rei Palhaço
Que caminhava só
Contando piadas 
Sob a luz da lua.
E ela o viu, e ele a viu
E sem saberem
O sorriso um do outro
O som de suas vozes felizes
Se ouviu.
E o Rei Palhaço
Tocou em sua mão
E ela, recusou-se a dizer "não"
Mesmo o coração dançante
Estando ferido e triste
Em meio à toda gente
Que com ela estava.
E onde se via feio
Este palhaço antigo, sengraceiro
Ela viu príncipe faceiro
E sem abusar da sorte
O Rei Palhaço
Tão desordeiro
Deu-lhe um beijo
Tímido, sem floreio
Um beijo assustado
Apaixonado, amedrontado
De quem só via
A rejeição dos tempos.
E sem delongas, lutou por ela
O Rei Palhaço.
Bailarina infante
Donzela esperante
Em tua torre de cristal
Onde bruxas de amores tristes
A mantinham cercada.
Carregando mil esperanças
Mil andanças, batalhas e piadas
Lutou por ela, com asas belas
De um sorriso colorido.
E, sem perceber, se deixaram
Se largaram
Nesse levar apaixonado.
E se amaram
Nas dificuldades
Na sinceridade
De quem tem medo
Do futuro
Mas sonha, mesmo assim.
E se casaram, ao fim
Perto da lua, ante as estrelas
Sobre a grama
Em um céu de brilhos
Ele em trajes
Bregas de amor
Ela guardada
Num guarda-chuva
Para o cabelo
Não se perder nunca.
E segurando
As metades
De seus corações partidos
Perceberam
Que eram um
Naquele céu
De vaga-lumes.



domingo, 23 de dezembro de 2012

Tanto tempo

Te vejo todo o tempo
E não paro mais
De te querer comigo.
Me explique o sentido
De amar tanto a ponto
De jamais querer estar
Sozinho novamente.
Me diga nesse instante
Se o bem-querer constante
Dentro do peito arfante
É um sinal de amor maior.
Te vejo em minutos
Mas mal aguento o tempo.
Espera é tormento
Pra quem te quer pra sempre.
Você me faz feliz assim
Você, perto de mim
É como a pérola
Como a estrela
A lua dançante no céu.
Vem rodopiar em meus braços
Venha me encher de abraços
Venha ler a poesia
Que meu coração te fez.
Vem e fica de vez,
Que sem você
Mal posso sorrir...

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Desatino

Nada a dizer
Sobre nada mais
Que eu possa entender
Sobre o jamais
Que parte em correr
Por meu coração
Nada a pensar
Sobre o nada a dizer
Nada a querer
Senão uma voz
Um bom dia, minha vida
No som fraco
De um telefone
Insone, de todo
Já não fico, em paz
Permaneço sentado
Na janela chuvosa
Entre rosas
E brilhos de cristais
Sonho com a noz
Fechada com um beijo
Sonho com o rio
Lavando este medo
Este tolo medo
Que faz acreditar
Que jamais
Serei eterno
Sou terno, interno
Embaraçado, encalacrado
Lacrado, enlevado
Neste coração.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Mediante

Essa manhã acordei
Com esperança de teu sorriso
Com a visão de teu caminho
A se encontrar com meu
Acordei com o sonho
De te fazer feliz um pouco
De ver contente meu mundo
Ante todo o descontente
Que nos acomete.
Acordei desejoso
Do teu amor incessante
Inebriante, que me faz alegrar.
Mas que posso eu dizer
Se em meu triste dia
Não te fiz feliz
Ao invéz, como se diz
Não gerei eu
O teu sorrir.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Fade

Quando o sol cair
Será que vão notar
Que eu parti
E por isso a noite
Está mais escura?
Quando a manhã chegar
E eu não estiver lá
Para acordar o mundo
Será que vão notar
Que eu fui embora
Com o pôr do sol.
Quando a sombra chegar
Será que vão dizer:
"Saudades de você."?
Ou vão encontrar
Alguém mais para amar
E me deixar seguir
Sem meu existir
Jamais?
Ai, ai, ai...
Sempre viajante
Sempre andante
O tempo me engole
Mas eu sempre fujo
Das minhas gaiolas
Eu sempre fujo
De todas as prisões
Fecho os olhos
E vou pro infinito
Voou pelos abismos
Quero ver coisas novas...
Pra sempre, sempre, sempre
Sempre livre.
Livre de toda dor
Livre de todo grilhão
Livre dos pecados
Livre de armadilhas
Livre de meus pés no chão.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Canoro

O tempo das asas dilaceradas
Foi-se, deixando lembranças
Num corte profundo que mal cicatrizou
O medo de um futuro inóspito
Me leva a lágrimas convulsas.
Se você estivesse aqui agora
O que diria para meu coração temeroso?
Por quanto tempo serei eu
A figura monstruosa
A amadurecer e apodrecer nesta árvore?
Fecho os olhos tristes e cheios de dor
O coração que bate acelerado
Fica perdido na solidão
Que o abraçava em tempos negros
Ele quer a ave canora
Que o encanta nos tempos de hoje
Ele anseia pelo bater de asas
Pelo calor suave de tuas penas.
Assim como eu, em minha fúria
Controlo os sonhos ruins
Mandados das trevas ocultas
Para meu tormento negro
E busco em teus braços redentores
A calma para a tristeza
Que às vezes me assola à noite.
Fecho os olhos por mais um segundo
Imagino anjos trazendo você.
A esperança de uma noite sem partidas
Me faz correr ante anúncios de fracassos
E derrubar paredes com a força divina
Como um vento que nunca pára
Sussurro canções de amor
Esperando que cheguem até você
E te façam perceber que sofro
Por não ter teus braços
Dante desse céu noturno.
E ao olhar para as estrelas
Tento novamente deixar minh'alma
Elevar-se diante do tempo
Para alcançá-la, cobri-la
Com meu manto de amor celestial.
Mas me vejo preso a este corpo insipido
Que me puxa novamente à terra
Sem te ver, verto-me em suspiros tristes
Contento-me com a esperança tola
De ouvir sua voz um pouco mais
Por um momento, por um segundo
Um suspiro, a me fazer adormecer...


segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Percepção

Deu pra notar
Que as vezes eu acordo inseguro?
Que as vezes eu me sinto
Tão imperfeito
Que nem consigo
Acreditar em mim?
Sabe,
Às vezes tudo volta
De uma vez e me arrasta
Para épocas tristes.
Eu nunca saberei todas as verdades
Nunca saberei a sinceridade do mundo.
Eu sempre imaginei
Mil decepções
Certezas intrínsecas
Nesse coração
Mas hoje
Quanto mais forte eu me sinto
Maior a onda que me arrasta.
Deu pra notar,
Que às vezes eu acordo com medo?
Deu pra notar,
Que às vezes dói
Sem eu saber porquê?

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Muro

Pois é,
Não queria
Que fosse assim.
Que pensasse
De mim
Que fui capaz
De te deixar.
Queria que soubesse
Que um momento distante
Nada mais é
Do que saudade.
Pena,
Que acha que estou 
Partindo.
Você é a única coisa
Que me faz ficar aqui.
Não, 
Não divido afeto
Com mais ninguém
Amo somente
Você.
Queria
Que ficasse feliz por mim
Mas só me deixou abraços
Em uma mensagem triste.
Desculpe
Se estou sempre
Te magoando
Se o meu jeito te incomoda
Me desculpe.
Sempre fui do tipo
Que decepciona as pessoas.
Por isso falo através de poesia.
É como pichar um muro 
E se esconder...
Não, não vou conseguir dormir
Sem pensar em você
E nos seus sentimentos.
Sei que acha
Que divido meu coração,
Mas não,
Ele é só seu.
E está todo apertado
Sem você,
Sem teu beijo...
Desculpe se hoje
Lhe trouxe
Decepção...

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Malícia

Sou um vulcão
Nada adormecido
Queimando por dentro
Desse meu olhar baço.
Tenho desejos infinitos
A vontade louca de amar
A vontade louca de ter
O calor do teu corpo comigo.
Tenho vontades intensas
Tenho a malícia no olhar
Esse querer, mais que querer
Esse meu beijo que te quer.
Tenho a carência do teu prazer
O cio imenso em te tocar
O teu prazer é minha vontade
Meu corpo nasceu
Pra te provocar.
Pra te fazer querer mais
Pra você não resistir
Pra você correr pra mim
Sem parar pra pensar.
Esse meu sempre "sim"
Que veio pra te seduzir
E eu nunca sei fingir
Que não te quero...
E esse meu desejar
Tão eterno quanto o prazer
Vem dessa chama intensa
Que teima em não apagar
(ainda bem...)



quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Uma caixa de sapatos para Flávia...

Eu guardo tudo em caixas de sapatos. Tudo mesmo. Meus mangás, meus jogos, as cartas que você me deu, fios e cabos. Um monte de lembranças, alegres ou tristes. Mas, numa das caixas, eu guardei algo mais precioso, mais importante.
Numa caixa velha, que ninguém vê, eu coloquei algumas das coisas mais preciosas que eu tenho, as coisas que eu não mostro para ninguém, as coisas que são só minhas.
Primeiro, eu pus nelas minhas asas de anjo. Com elas eu deixei muitos infernos e sobrevoei muitos abismos, com elas eu quase alcancei o céu, mas um dia, você me fez querer ter os pés no chão, e não ir embora mais, por isso coloquei-as na caixa. Deixe-as lá, pois não vou mais embora. Não preciso mais voar se o meu paraíso está aqui, ao seu lado.
Coloquei também minhas músicas. As que eu cantei, as que ainda cantarei, e as poesias cheias de musicalidade que surgem a todo instante na minha cabeça. Muito pouca gente me viu cantar, muito menos gente me viu cantar mais de uma vez, tentar, me arriscar. essa caixa, eu coloquei o gosto que tenho por tudo o que é poético. Eu guardei minha poesia.
Um tanto quanto preocupado, eu coloquei a lua. A lua foi minha amiga nas noites insones. Com ela eu conversei nas noites em que meu coração se sentia sufocado. Ela foi a primeira a ver minhas lágrimas prateadas e a se exibir para mim, brilhante, reflexiva.
E quando eu deixei o deserto em que vivia, fui guiado por uma estrela cadente. Eu a coloquei na caixa também. Se algum dia eu não souber para onde ir, basta jogá-la para o alto e esperar que Deus me guie. 
E, por último, eu guardei meu coração, para que ninguém o visse. Nunca, nunca.
Você já veio à esse meu quarto algumas vezes e não viu essa caixa, né? Ela não está mais comigo. Eu a deixei embaixo da sua cama, ao lado dos meus chinelos, para você cuidar dela para mim. Isso porquê, nesse terra, neste mundo, você foi a pessoa que eu escolhi para compartilhar meus sonhos. E também porquê eu sou muito estabanado.
Eu sei que você tem medo de um dia eu partir, de dizer que não quero mais, de te deixar, de desistir. Mas eu queria, muito, que você compreendesse uma pequena coisa: sempre haverão pessoas para ajudar, sempre haverão amigos e festas, confusões e bagunças, brigas e escândalos mas, eu nunca vou deixar você.
Eu sei também, que você gostaria que eu olhasse apenas para você, mas a verdade é que eu olho. Do fundo do meu coração, é com você que eu quero estar o tempo todo. Agora mesmo, você acabou de me ligar. Está brava porquê acha que eu nunca aceito a sua ajuda. Desligou rápido o telefone. Sei que te magoo fazendo isso às vezes, sendo eu assim, meio lobo solitário, sei que esse meu jeito te deixa louca de raiva, que parece que te coloco do lado de fora do meu coração, mas não é verdade. É com você que eu conto sempre, e só de saber que você está sempre disposta a ajudar, isso me dá forças, enormes forças, para lutar e encontrar uma solução. Eu já terminei as provas a algumas horas, nos últimos tempos estava desenhando isso pra você e escrevendo essa carta.
Sei que vai chegar cansada em casa. Sei que vai ficar brava porquê eu pareço não mudar nunca. Sei que vai ficar com medo novamente de eu me cansar de você e dizer que não quero mais. Mas eu queria que você entendesse que estou sempre com você, que apesar de ainda ser um belo de um misantropo e não conviver muito bem com as pessoas, eu tenho tentado ser um pouco menos turrão por sua causa.Tenho tentado ser sempre mais e mais maduro, para sempre cuidar de você, para sempre entender você. E ninguém, ninguém vai me tirar de você, porquê quando eu estou triste, você me faz carinho, quando eu sou teimoso, você faz manha, quando eu me perco, você me acha. Ninguém é páreo pra você nesse meu coração, nesse meu mundo.
Então, quando ficar muito, muito brava comigo, quando achar que eu não te escuto, ou tiver medo que eu vá embora, abra a caixa azul da cor do céu que eu te dei. Olhe bem para os meus sonhos, meus tesouros que eu deixei guardados aí. Vai descobrir que todos eles dizem a mesma coisa: que eu te amo, Flávia. Que eu te amo muito.
Espero que tenha dormido um pouco, espero que tenha chegado bem em casa, espero que leia isso logo. São palavras que estão no meu coração há dias.
E espero que não se importe, com essa caixa de sapatos velha, cheia de tranqueiras sentimentais que eu deixei embaixo da sua cama. Nela existe o que há de melhor em mim. E tudo isso eu dou a você, meu amor.

Armando, a Fênix,
22 de novembro de 2012 (falta um mês e um dia para o aniversário do nosso primeiro encontro, aquele em que, mesmo sem saber o que sentia, já não queria que você fosse embora, minha alma gêmea).

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Diógenes: Boa noite, Melissa.


Eu só vi sua mãe uma vez. Eu tinha dezesseis anos e ela estava enorme, quase ganhando você. Não conheci o seu pai, Paca Manu. Ele ainda estava vivo quando você nasceu, mas eu nunca o havia visto. Todos chamavam a sua mãe de Morgana porquê era o nome artístico dela, nos trabalhos de vidente, mas era uma bruxa legal. Dizem que foi ela quem ensinou tudo pra Pumpkin, mas eu não sei se é verdade. Ninguém toca no assunto. E parece que, apesar disso, as duas não se bicavam muito. É meio tenso. Acho que ninguém te disse que ela era bonita, e tenho quase certeza de que quase todas as fotos foram completamente destruídas. E quem tem, não divulga. As pessoas tem medo de você.
O nome verdadeiro da sua mãe era Angélica. Ela tinha uns trinta anos quando você nasceu, mas parecia ter só uns vinte e cinco. Não era gorda, mas tinha mais corpo que você. Esse cabelo liso você puxou do seu pai, porquê o dela era bem, bem encaracolado. Sem ofensas, ela era uma pouco mais bem fornida, e mais alta. Desculpe por não entrar em detalhes, mas tudo o que vou te contar só se salvou porquê eu devorei o máximo possível de informações antes de ter que queimar todos os livros que fizessem menção a ela.
Aparentemente vocês vêm de uma linhagem antiga de bruxas, mas não sobrou ninguém mais na sua família. Vocês estiveram sempre fugindo ao longo dos tempos. Existem relatos (ou pelo menos existiram) de dezenas de membros da sua família queimados em fogueiras de purificação. Não que vocês fossem assim tão ruins, mas vocês eram bruxas, sabe? Esse mundo é meio estranho com bruxas. Entende?
Seus pais eram bem felizes, pelo que meu avô me contou, depois que tudo aconteceu. Na verdade, sua mãe sempre ajudou as pessoas e ganhava muito dinheiro como vidente dos graúdos daqui. Os poderosos gostavam dela. Ela permanecia na cidade enquanto seu pai viajava entre aqui e a tribo. A mesma tribo de onde vieram os gêmeos. Inclusive, seu pai está envolvido no salvamento deles, foi uma coisa meio engraçada, mas... não, não faça essa cara, não vou mudar de assunto. O que eu quero dizer é que sua mãe e seu pai faziam o possível. Eles tentavam ter uma vida no meio dessa bagunça toda. Mas as coisas acabam ficando uma merda quando nós estamos envolvidos com a má realidade. Principalmente naquele ano, quando surgiu a “Sociedade do Bem Celestial”.
Era um grupo formado por homens e mulheres que tinham perdido pessoas queridas para a má realidade. Mortos por todo tipo de seres estranhos, por toda a horda de animais que estávamos acostumados a caçar. Eles decidiram caçar também. Tudo bem... se eles não achassem que deveriam regrar qualquer um que usasse a força da má realidade a seu favor, inclusive outros caçadores. Eles passaram a nos ameaçar e a perseguir qualquer um que usasse suas habilidades de maneira errada (ou da maneira que eles considerassem errada). Como eu não havia caçado muito, acabei sendo pouco conhecido. Meu avô usava a lança de Longinus, e por isso era considerado muito perigoso. A mesma coisa com Alberto, que ninguém até hoje sabe como matar. Mas outros magos, bruxas, pessoas com poderes duvidosos recebiam cartas em casa, com ameaças, dizendo para pararem de usar seus poderes.
Como a Sociedade era formada por homens e mulheres comuns, que não eram caçadores, não havia como saber se era um vizinho, um amigo um colega da escola ou do trabalho. As execuções aconteciam de surpresa, sem que a vítima se desse conta de que havia sido emboscada. Isso aterrorizou os caçadores, muitos pararam de caçar e se esconderam, fugiram para outras cidades mais tranqüilas, onde a Sociedade ainda não havia chegado. Foi uma época assustadora, muito assustadora. Mesmo a Inquisição tinha medo deles. Eram assassinos que acreditavam lutar por um paraíso maior e mais exclusivo do que qualquer um da Terra. Eles queriam extirpar a má realidade do mundo. Era comum ouvir-se falar de hospitais velhos e casas mal assombradas dinamitadas, queimadas, simplesmente por serem palco de eventos sobrenaturais. Alguns prostíbulos eram atacados, as meninas quase linchadas, por grupos que atacavam de maneira rápida, indetectável. Isso porquê, como você sabe, é lá que os homens depositam suas dores, no colo daquelas moças... Na época a dona do lugar que você conheceu ainda era a Cherry. Ela chegou fechar por algumas semanas, mandar as meninas voltarem pra casa, com medo dos ataques.
Meu avô ficou um tempo mais longo na cidade, temendo que as coisas ficassem tensas. Ele tinha medo de que alguém falasse demais e meu nome acabasse sendo revelado. Não sou normal, você sabe, e esses caras iam adorar perseguir uma aberração como eu. Mas, no fim das contas, meu nome era tão insignificante que não foi nem lembrado. Mas o do seu pai foi.
Ele era um necromancer. Dos melhores. Ele conseguia ressuscitar qualquer coisa que estivesse morta num raio de um quilômetro. Animais, insetos, plantas, pessoas, o que estivesse à disposição. Ele era muito bom mesmo. Mas a necromancia era considerada condenável por boa parte das religiões. A Inquisição fingia não ver naquela época, afinal de contas, seu pai evitava trazer humanos de volta (mas nem sempre era possível), e nunca havia feito nada de errado. Ele era um gênio, e caçava para evitar problemas para as outras pessoas. Ele era um pajé muito bom. Havia se afastado um pouco da tribo para se casar com a sua mãe. E pelo que meu avô contava, era um bom amigo.
Quando ele recebeu a carta, decidiu parar de caçar. Todos apoiaram, afinal sua mãe estava grávida de você e os tempos estavam ficando incertos com a Sociedade atuando por aí. Era como a nossa própria versão da Klan, a diferença é que não queimavam cruzes, mas te esfaqueavam pelas costas quando você não via. E foi assim que encontraram seu pai num beco, alguns dias depois de você nascer. Eu sei, essa história é uma merda.
Seu pai morreu mesmo tendo desistido de caçar. Ele era sempre muito procurado e continuou chamando a atenção da Sociedade, mesmo quando ele recusava trabalho. Um dia ele simplesmente não voltou para casa. Sua mãe ligou para o meu avô. Ele estava em casa nessa época e dormia no sofá. Quando ele saiu eu quis segui-lo, mas ele me mandou ficar no quarto. Foi o velho quem achou seu pai com as costas retalhadas de fora a fora. Uma facada apenas, direto, do ombro à cintura, funda o suficiente para... me desculpe, não entrarei em detalhes.
Surpreendentemente sua mãe ficou bem por alguns meses. Ela mal chorou, como se esperasse por tudo o que havia acontecido. No velório ela te segurava nos braços com toda a força do mundo.
A polícia não conseguiu achar provas para incriminar ninguém. Todos os caçadores tentaram, mas não deu certo. Mesmo assim sua mãe continuou ajudando as pessoas, sendo legal, todos acreditaram que ela havia superado. Todos. Mas quando a tentativa de assassinato à um dos caçadores falhou, e um membro da Sociedade foi morto, nós percebemos que ela apenas estava esperando por vingança. Dizem que ela chegou à casa do caçador, onde o corpo do assassino estava, bem antes da polícia. Quando meu avô chegou, ela já havia partido. Já havia identificado o agressor, um vereador importante da cidade, e aí ela sumiu com você junto. Começou a investigar. Em uma semana ela descobriu o que nenhum de nós havia descoberto em muito tempo (e olha que mesmo eu estava analisando o caso): quem eles eram e onde se reuniam.
Você se lembra do grande incêndio na estação velha? Deve ter lido sobre ele, visto em revistas, jornais, mais de mil pessoas mortas, um grande evento da Sociedade para comemorar o sucesso das investidas, a maioria era ligada à classe da cidade, os mais conservadores. Era burrice fazer uma reunião daquelas, mas a estação velha ficava longe da cidade, isolada, ligada à uma siderúrgica que nem funcionava mais, eles acharam que estavam seguros. Acharam que nada poderia tocá-las.
Mas pessoas não saíram de lá porquê estavam paralisadas, o fogo queimou uma por uma. Quando Pumpkin analisou a magia, percebeu uma coisa: estavam todos muscularmente congelados, mas ainda sentiam dor. Todos eles morreram cheios de dor, sem poder gritar. Apenas o dono do prédio saiu vivo. Ele era a autoridade máxima. Teve o filho morto pelo fantasma de um operário que vivia ali. Tentou caçar por um tempo, ainda se juntava à nós em algumas caçadas, já havia jantado junto com seus pais, lhe dera sapatinhos de presente. Sua mãe o reconheceu como autoridade máxima, o tirou dali e arrancou dele o máximo de informações possíveis. Só imaginamos que isso havia acontecido quando encontramos o corpo dele completamente dilacerado com uma faca. A perícia disse que ele mesmo havia feito isso em si mesmo.
Sua mãe descobriu sobre os membros que não haviam comparecido à festa. Naquela noite outros incêndios aconteceram, outras mortes brutais. Com a maioria morta, restaram poucos. E ela os torturou, extorquiu, explorou suas mentes. Apenas um sobreviveu, ela deixou uma marca. Ele atualmente está louco, no manicômio da cidade, tentando se matar uma vez por semana. O antigo prefeito.
E foi com ele que sua mãe descobriu que a morte do seu pai não tinha muito haver com seus poderes, que fora uma estúpida jogada política. Por quê? Porquê sua mãe atendia à adversários políticos poderosos, sua vidência influenciava até mesmo eleições. Queriam tirá-la do jogo, ameaçá-la. A primeira carta era contra seu pai, uma segunda chegaria contra ela, exigindo que se retirasse dos negócios. As teorias dizem que sua mãe se sentiu muito culpada, outros dizem que ela enlouqueceu de vez. Eu não sei. Você entende que são apenas teorias? Que tudo isso foi escrito por pessoas que não estavam lá? Que mesmo meu avô não compreendia o que estava acontecendo? Foi tudo repentino e assustador. Meu avô saía todas as noites, eu matava aulas para ir à biblioteca, tentando ordenar minhas idéias. Era o que eu podia fazer. Ninguém dormia mais. Sua mãe havia matado centenas de pessoas e... e mesmo assim ela não era uma pessoa ruim. Todos queriam que ela voltasse a ser como antes, mas ninguém sabia como achá-la. Se a polícia suspeitasse dela, e eles ainda tentavam entender o que aquelas pessoas faziam na estação, se procurassem por sua mãe as coisas ficariam piores, todos nós seríamos expostos. Não haveria explicação plausível.
E foi então que as coisas pioraram. Eu acordei no meio da noite, com um grito, um grito assustador. Percorri a casa inteira, todos estavam bem. Me perguntei por alguns minutos de quem era o grito, de quem era aquela voz e... quando percebi já estava empurrando meu avô escada abaixo, entrando na sua Brasília verde. Eu nunca a vi correr tão rápido. Tão assustadoramente rápido. Quando chegamos à biblioteca, encontramos Pumpkin deitada no chão, numa poça enorme de sangue, com o peito aberto. Ela havia usado magia para ir me encontrar, para pedir socorro. Outros caçadores avisados chegaram em seguida. Não precisamos chamar ambulâncias, elas estavam lá. O corte era fundo, mas não atingira os órgãos vitais. Os médicos só tiveram que fechá-la e fazer uma transfusão.
No chão, uma mancha gigante de sangue tinha um enorme “D”, desenhado tremulamente. Lembrei que ela me havia dito que podíamos saber tudo sobre uma pessoa se tocássemos seu sangue. Podíamos enviar mensagens. Quando toquei o sangue, pude ver a cena: sua mãe esfaqueara Pumpkin, enfiara os dedos próximo ao coração e retirara um pequeno papel. Como ele havia sido colocado lá é algo que não sei, mas poderia descobrir o que era.
Corri desesperado para o quarto dela. O único lugar onde eu não podia entrar. No guarda-roupa enorme e trancado eu sabia que encontraria seus diários, seus registros. Com o ombro, comecei a forçar a porta, tentando quebrá-la. Meu avô ouviu o barulho e, quando viu, sequer fez perguntas, apenas pegou um canivete e dilacerou a tranca. Passei a noite inteira e parte da manhã lendo os diários. Fui encontrar os registros de Paca Manu alguns anos antes dele se casar com sua mãe. Ele havia dado a Pumpkin algo para guardar: a única maneira de se trazer um morto são e forte, de volta à vida. Mau o havia dado a ela, não sei o motivo, e a feito jurar que ninguém à teria. No diário mais recente apenas havia uma aviso sobre sua mãe querer o que seu pai havia dado a ela. Que Morgana requisitara a magia como parte de sua herança, Melissa.
Mesmo assim não achamos sua mãe e Pumpkin permaneceu em coma por algumas semanas. E só percebemos o que sua mãe estava fazendo quando vimos que os sete primogênitos dos homens mais poderosos da cidade haviam desaparecido, e que o corpo do seu pai também, escavado do túmulo simples que ele queria. Nessa hora foi que consegui juntar tudo. Sua mãe traria seu pai de volta, são e salvo. Algumas versões da necromancia diziam que era necessário uma vida por outra, muitas e muitas vezes. Sete primogênitos para se trazer um. Sua mãe havia definitivamente enlouquecido.
Nessa época todos procuravam como loucos, pois sete crianças morreriam em breve. Sem Pumpkin por perto as pessoas me ouviam. Me arrumaram uma licença médica para eu faltar as aulas. Pesquisei nos livros que pude, mas não achei onde poderia ser feito um ritual desses. Pesquisei arquivos velhos sobre sua mãe, que me haviam trago às pressas. Coisas do seu pai também. Não achei nada. No fim das contas, quem encontrou uma pista foi um policial, amigo do meu avô. O mesmo que me livrara da acusação de arrancar a orelha de um garoto uma vez, quando descobri o guarda-chuva. Ele encontrou os rastros de sua mãe pesquisando arquivos antigos, registros de imóveis e coisas assim. Não sei se seria o lugar do ritual, mas acho que à essa altura você já deve saber que é dona de um galpão num dos bairros afastados da cidade. Nós limpamos tudo depois, mas foi ali que sua mãe morreu. Não sei se ainda dá pra sentir a flutuação da energia, mas durante anos isso foi possível.
Quando descobriram o lugar, todos já estavam unidos. A Inquisição se uniu aos outros caçadores, na época não pude saber o motivo, mas foi aí que meu avô conheceu as pessoas que te criaram. Todos arquitetaram um plano de ação, ali mesmo na biblioteca. Virou nosso quartel general. O galpão foi invadido apenas uma noite após sua descoberta, não podíamos dar tempo para sua mãe descobrir. Eu não fui. Meu avô sugeriu que eu tomasse um gole de vinha antes de sair junto a eles. Aquele velho filho de uma puta me drogou.
Quando acordei, no dia seguinte, soube que sua mãe estava morta. Não vou mentir para você, não preciso do seu afeto. Meu avô a matou, e eu não sei o motivo. Seus amigos da Inquisição o deixaram para trás assim que conseguiram pôr as mãos em você. Hilário foi o único do seu grupo a sair ferido. Uma vez ele me disse que só saiu vivo por causa do seu avô. Todos tentaram te tirar do convento, mas não conseguiram, não sabiam onde você estava. Quando finalmente te levaram à campo, disseram que você estava tão focada em ser uma feira que qualquer um que chegasse perto corria risco de vida. Você se tornou uma figura estranha no nosso mundo. Não sei como você saiu, nem o que está buscando. Espero não ter nenhum de vocês batendo mais à minha porta.
Depois da morte da sua mãe, todos, excetuando meu avô e Alberto, escreveram algo sobre o assunto e me entregaram, para que eu arquivasse. Mas alguns meses depois, meu avô pediu para que eu queimasse tudo. Não queriam que sobrasse nada dessa história, não queriam que você se vingasse. Eu estou te contando isso, mas se você buscar vingança, eu mesmo mato você. E, não, eu não estou brincando. Se meu avô achou por bem parar uma vingança matando um amigo, eu, que não sinto nada por você, farei o que for necessário sem pestanejar.
Agora espere um pouco. Não me siga. Saio da sala, pego minha caixa, fuço um pouco. Estava lá, dentro daquele envelope. Quando retorno, ela ainda está de cabeça baixa. Entrego o envelope. Pego o prato de miojo. Ela havia chorado em todo ele. Quando deixo o cobertor e o travesseiro, ela ainda olha para a única foto que restara dos pais. Seu pai, com o sorriso frouxo e a cabeleira branca precoce, o corpo gordinho de acomodado, a mãe, bela e doce, de cabelos encaracolados e um sorriso largo e feliz, e a pequena Melissa enrolada em um cobertor.
Entro para o meu quarto, me deito e durmo. Não tranco a porta. Algo me dizia, com todas as letras, que ela não iria me ferir.

Sorriso

Nunca corrompi
Meu coração
Apesar da dor.
Nunca esqueci
O inferno que vi
Ou então, onde perdi
Aquelas asas
Que me deu, pra voar.
Sei, que escolhas erradas
Sei, que as dores passadas
Poderiam enlouquecer
Esse meu coração
Mas me mantive então
São, preso a um bem maior.
Nem sempre,
Quando sorri,
Foi de alegria.
Às vezes,
Muitas vezes,
Apenas escondi a dor.
Sei, que durante tempos
Meu maxilar doeu
Por eu fingir
Um sorriso
Que não era o meu.
Mas no fim,
Ao fim de tudo
Toda dor
Valeu a pena
Se não feri
Se não tornei-me
Digno
De piedade patética...

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Explorando

Quero celebrar
Tua nudez
Com a minha.
Quero exibir
Meu corpo inteiro
Pra você
Quero ser
Teu brinquedo,
Teu capricho
Faz de mim
O que quiser
Pro teu prazer.
Quero explorar
Todo teu esguio corpo
Quero te ver imaginar
Mil prazeres em mim
Quero que venha acalmar
Meus calores de leoa
Quero teu sexo
A encantar meu sexo
Em noites de chuva.
Quero me exibir
Imprudentemente para ti
Quero te deixar
Ensandecido de desejo
Quero despertar
Todas as vontades
Que por ventura venha
A ter por mim
E quero realizar
Todas as fantasias
Que nossa cama
Possa comportar.
Quero então aproveitar
Cada espaço desse amo
Que de puro e doce é
Também poço sensual
De prazer forte, carnal...

domingo, 18 de novembro de 2012

Silenciosa

Sei que sou carente
E o que te peço
É demais.
Sei que te quero
A todo momento
E sei sempre ser
Irritantemente
Carinhosa demais.
Sei que sinto falta
Daquele teu beijo
Daquele teu jeito
Louco por mim.
Mas que nem sempre
Se sente solto
Para estar assim
Comigo.
Queria apenas
Que soubesse
Que me sinto de lado
Meio boba, estúpida.
Quando me beija
Olhando ao redor.
Sei que é teu jeito
E que nesse peito
Não deixa
De me amar
Mas queria
Que quando juntos
Teu olhar
Fosse só meu.
Sei que parece
Que não te entendo
Que exijo mais que devo
Sei que cobro
O que promete
Com o tempo,
Me dar...
Então, se fico triste
E digo, como sinto
Se me equivoco
Se eu erro
Faz favor
De perdoar.
Um dia, hei de mudar
Esse meu jeito
Carente,
E quem sabe
Até mesmo
De bobagens
Eu deixar...
Tenho que perder
Essa mania tola
De me chatear
Com bobagens...


terça-feira, 13 de novembro de 2012

Feinho

O meu coração
Tão maculado
Era metade
Incompleta
De uma festa 
Inacabada.
Eu que fui sempre
O monstro mais feio
Vivi enjaulado
Em sentimentos ocultos.
Abro a porta devagar
Vejo entrar alguém.
Meu coração
Não para de bater forte
E a morte
Já nem se achega mais.
Sei, eu sei
Ainda sou
Um Quasímodo
Entre os sinos
Mas, devagar
Vou achando meu lugar.
E haverão belos dias
Haverá, todo dia
Flores belas
Para mim.
Flores belas
Para um antigo rei
Que voa aos céus
Pra trazer
Junto do coração
Uma estrela cadente.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Asas coloridas

Fiquei sentado na porta
Durante todos os dias
Te esperando chegar.
Onde você estava?
Por quê não te ouvi gritar
Quando a dor veio
Galopando?

Sabe, eu amo muito você
Sabe, eu lutaria novamente
Enfrentaria magos e exércitos
Construiria castelos azuis.
Se você me pedisse
Eu deixaria uma estrela cadente
De surpresa no seu travesseiro.

Você me ama, gosta tanto de mim
Apesar de eu ser tão estranho.
Como você consegue olhar
E ver beleza nesses olhos tristes?
Como você me vê chorar
E não fica cansada de mim?
Eu mereço tudo isso?

As pessoas sempre tiveram
Aquele medo absurdo de mim.
Elas me odeiam
Porquê não consigo me encaixar.
Você ficaria ao meu lado
Quando todos fossem embora?
Quando todos desistissem?

Eu estive muito tempo
Envolto naquele lodo.
Naquele lodo estranho.
Agora que te amo
Agora que me ama
Será que posso me libertar
E voar por aí
Finalmente?

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Angélico

Oi, meu amor
Queria saber
Se você pode vir
Aqui me ver.
Sabe, estou sozinha
Queria você
Queria dizer
Que você
Me faz feliz
Completa
Meu coração
E, de certa forma,
Me faz sonhar
Apaixonada...

Oi, meu amor
Hoje a noite
Está tão segura
Preciso de ajuda
Para poder dormir.
Se você vier
Serei boazinha
Serei teu anjinho
Serei teu lugar.
Então, meu amor,
Venha depressa
Vem fazer festa
Nesse meu coração
Singelo...

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Auto retrato


Caí em abismos
De escuridão.
Toquei o solo
Ao som de um baque
De latão
E nem mais vi
A estrela e a lua
No meu coração.
Nem meu coração
Pude ver.
Dançando nas trevas
Tanto ódio, tanta dor. 
Vestido de negro
De olhos fechados
Sangrando sóis
Sangrando sóis 
Meu auto retrato 
É uma máscara negra
Que se colore aos poucos.
Meu auto retrato
Não tem um rosto
Apenas esperanças
Apenas medos.
Como a carcaça da ave
Como o abutre perdido.
Meu auto retrato
É como a asa do anjo
Tem a lua e a estrela
Marcada em lágrimas
Negras, coaguladas
Meu auto retrato
Tem cicatrizes
Tem esperanças
Tem o céu azul
E a noite que cai
Tem a branca paz
E a negra dor.
Tem o santo amor
E a fina dor
De um sol chorado
De uma fênix nascida.
Meu auto retrato vem marcado
Com as cinzas do tempo
Com o sopro do vento
O correr do rio
O assobio da folha.
Meu auto retrato
É cheio de meios
Tramas e confeitos
Refeitos, desfeitos
Contrafeitos sentimentos
Cheios de dor
Como um desenho
Mal pintado
Em giz de cera.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Flávia...

Flávia,
Você veio
Me pegando
No vendaval do teu sorriso
No brilho do olhar doce
E me fez homem feliz.
Você chegou
Com as flores do dia
Com o doce encanto
Que eu me vi
Desprevenido.
Você me arrebatou
Da maneira mais sutil
E profunda
Que me vi de guarda baixa,
Sem medo algum
Sem a prudência covarde
Que sempre me cercou.

Flávia,
Fui pego na onda do tempo
E lançado em direção a ti
Sem medo do impacto
Da ressonância dos sentimentos
Me vi jogado
Ao mar infinito e confuso
Do amor que se quer fazer
Durar eternamente.
Fui atirado
No calor dos teus braços
No enlace dos teus sonhos
No despertar tímido
Desses teus olhos.
Desse mar castanho
Desse amor eterno.

Flávia,
Me empurraste
A esperança eterna
Do amor eterno
Do viver pra sempre.
Me entrelaçaste
Na canção profunda
Desse mundo louco
E me fizeste acreditar
Sonhar, esperançar,
Na felicidade louca
Que recusa a solidão.
Entraste profunda
No meu coração negro
E plantaste a semente
Que minaria
Todas as misantropias
Dessa minha alma.

Então, Flávia,
Tempos, tempos,
Sonhos, sonhos,
Dias, desejos,
Planos, medos,
Ciúmes, gracejos
Me levam a dizer
Que todo amor
Desse mundo
Repousa em meu olhar
Ao deitar-se em ti.
Te amo.

Conformado

Estava acordado
Quando o sol nasceu
Corri com o vento
Quando o sol se pôs.
Estava escuro
Quando me virei
Choveu demais quando
A lágrima caiu.
E o dia vem
E a noite vai
O medo passa
A dor escapa
E eu
Continuo
Caminhando.
Caminhando.
Caminhando...

De olhos fechados
Vi o mal
De olhos abertos
Refletindo
Uma luz
Sobre o cristal
Desse coração cruel.
De boca fechada
Dei o meu sinal
Qual será
A escolha final
Desse coração
Fechado
Calado
Truncado
Espancado.
Qual será
A verdadeira resposta
A próxima sacada
Genial
Da qual atirarei
A verdade
A maldade
A tristeza
Que você não vê?

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Correntes

Alma vagante
Escolheste a mim
Como teu inimigo.
Escolheste tardia
Proteger o teu
Como falhaste em vida
Mas mesmo agora
Ataca em si
O que amo.
Alma vagante
Não se torne
Minha inimiga
Alma vagante
Se afaste
Da ternura minha.
Abrace a luz maior
Abrace a paz maior
Deixe-se guiar
Até a vida eterna
Não me obrigue
A relembrar, insone,
As agruras do inferno
Não me obriga
A sacar de pronto
Minha espada em fúria.
Alma vagante
Se a luz se estende
Vão embora
Deixe o carinho
Que me foi dado
Deixe o amor em paz
Alma vagante
Já fizeste mal
Parta para longe
Parta para a luz
Antes que a fúria
Tome conta de mim
E eu te envie
Para o mesmo abismo
De onde saí.


segunda-feira, 29 de outubro de 2012

My friend

See, my friend?
Você não pôde gritar
Por tanta ajuda
Quando a faca quase
Se afundou no seu peito.

See, my friend?
As pessoas pensaram
Que você era mal
Somente por te verem
Irritado.

See, my friend?
Te abandonaram
Te traíram
Você foi sempre
Ferramenta.

Today, my friend,
Te vi vivo
Vagando nas ruas
Andava de cabeça baixa
Aquele mesmo olhar...

You know, my friend,
Pensei que não viveria
Pensei que morreria
Mas ficou de pé.
Como? Por quê?

I know, my friend,
Eles pensam que você é injusto
Quando critica os coitados
Mas você viu tanta dor
Sentiu tanta dor.

Now, my friend,
Levante-se,
Suas lágrimas secaram,
Você ainda está triste
Mas ainda esta vivo.

Espinho

Mesmo com você
Estarei sozinha.
Não esperava
Ser traída assim.
Você sabia dos meus medos
Você sabia dos meus sonhos
Mesmo assim foi egoísta
Mesmo assim me feriu.
Por quê?
Eu só queria descansar
Eu só queria amar o mundo
Eu só queria acreditar
No fundo
Que tudo seria
Tão doce,
Que tudo poderia ser
Tão bom...
Quando eu estou bem,
Você planta sementes duras
Dúvidas
No meu coração.
Quando eu estou bem
Você faz eu me sentir mal
Para que eu seja
Apenas sua.
Quando eu estou bem
Você me puxa pro abismo.
E agora não vou chorar mais.
Dói. Dói muito, mas
Não posso chorar
Sou a garota fresca, tímida
Que você despreza.
E agora, me fecho pra você
Me tranco em meu mundo
Me fecho, me afundo
Para não te ver mais
Me ferir.

And the world would be better if you were here with me. And the world would be better if you never leave me. And the world would be better if we share that bed now. Can I at least dream that you are here? Time passes and I feel betrayed by everything else around. The troubled sky falls on my shoulders and I see things I do not want to see. Wish you were here. I miss you. Really. I can only ask God that one day you're here with me. Saudade.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Vagem

Armadura escura
Redona de vidro
Pele dura
Sorriso amargo.
Olhos fechados
Medo do mundo
Solidão profunda
Em tempos de paz.

Mundo perdido
Canção descabida
Sonhos partidos
Perfeição quebrada
Coração perdido
Dia descolorido
Amores e dores...

Sem direção
Caminhos cortados
Passado infeliz
Que não desaparece
Noites fechadas
Estrelas partidas
Fúria contida

Soco incontrolado
Parede rachada
Mão destroçado
Triste figura.
Olhos perdidos
Pensamentos negros
Falta de sorrisos...

Falta de carinho...

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

General

Caminho por ruas estreitas
Ouvindo vozes confusas
Ainda posso ouvir
Os ecos de todo o inferno
Ainda posso sentir
A raiva mortal do universo.
Quero um futuro belo
Quero a paz negada
Aos que choraram por seus filhos.
Fizeram uma guerra
Fizeram outra e outra guerra
Disseram que tudo
Acabaria em valorosa vitória
Disseram que o mundo inteiro
Deixaria de ser negro.
E quando esses tempos chegaram
Quem foram os criminosos?
A impune massa banida?
Os soldados da labuta?
Os covardes em fuga
Fecham suas portas
Bato em todas elas
Conclamando erros e tolices
Os olhos fechados de um dragão
Ainda espreitam os corações
Dos mais alvoroçados.
A paz chega depressa
E nos desfazemos
Da guerra sombria
Que nos despoja.
A dor lancinante
De todos os fins me invade.
Cansado, me sento na calçada
Fora do campo de batalha
Tenho medo do mundo comum.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Lenço

Quero te beijar
No pescoço
Acariciar teus ombros
Admirar tua nudez
Mas não posso.
O tempo é curto
O espaço, apertado.
Quero teus olhos
Colados aos meus
Teus lábios encostados
Nessa minha boca
Carente.
Sinto o cheiro
Do teu lenço,
Dormi com ele
Junto ao corpo.
O cheiro de tuas roupas
Me enlouquece.
O cheiro do teu corpo
Estremece o meu.
Ah, se agora
Pudesse desejar
Eu pediria
Que dormisse aqui
Em meus braços
Cálidos.
Você sempre
Tem cuidado de mim
Tem sido a parceria
Perfeita, pura e doce.
Agradeço
Ao universo
Cada verso
Que faço
Em nossas lembranças
Cada sonho
Cada vida
Que imaginamos.
Ontem falamos
De casamentos
De buquês
Bombons e aparatos
De casa.
E disso saiba
Que esse sonho
Só é teu
Só é meu
Se for junto
Ao teu lado
Com teu corpo
Em meu corpo
E não mais
Só um lenço
Com o cheiro
De tuas roupas.

Epifania

De olhos fechados
Você não vê o escuro
Os sons que perpassam
O céu noturno
Não passam de detalhes
Em sua jornada
Para o abismo profundo.
Você procura respostas
Se enfurece
Se magoa, refuta
E quando as enxerga
Sua epifania vem acatada
Por um sorriso desculposo.
Você diz tolices
Durante todo o dia
Pede desculpas
Por ter ficado triste
Você se desculpa por sentir.
Mesmo assim ainda não sabe
Se pode sentir-se realmente bem.
Você não tem medo do escuro
Mas outros medos espreitam
Seu caminho confuso.
Você tenta acreditar
Na felicidade eterna
Mas algo sempre virá
Para ferir seu coração.
Você se despiu de sua armadura
Mas a desconfiança ressurge.
Algo pode estar errado?
Algo pode estar certo?
Sua intuição falha.
Você segura a raiva
E respira com calma.
Você tenta entender
As grandes diferenças
Amadurece,
Mas sempre, sempre, sempre
Existe algo mais.
Você protesta,
Você se cansa,
Você questiona,
E ao final
Apenas ouve o estourar das velas
As canções tristes
E o medo do mundo.
Você precisa crescer
Você está cansado
Você sempre acaba fazendo
Algo errado.



sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Carta para a chuva


Houve um tempo em que eu não podia demonstrar tristeza, minha expressões haviam se congelado. Então pedi às nuvens do céu para que se tornassem sombrias e manifestassem por mim toda a tristeza que eu havia guardado há anos. Houve um tempo em que eu não podia chorar. Por mais que eu me esforçasse, as lágrimas não saíam, meus olhos eram duros como diamantes. Então pedi à chuva que chorasse por mim, lágrima por lágrima, de todos os anos em que eu as guardei. Houve um tempo em que eu não conseguia gritar. Por mais que eu tentasse gritar, nenhum som saía. Minha garganta estava selada com a magia mais poderosa que a coragem e o medo de um homem poderiam usar para suprimir todos os sentimentos. Então pedi ao trovão para que gritasse tão alto quanto eu gostaria de gritar, que assustasse todo o mundo com sua dor intensa. Houve um tempo em que eu não tinha emoções. Nenhuma emoção, nenhuma surpresa. Eu vivia entre as desgraças do mundo. Solitário e doloroso preso em meu próprio casulo. Então pedi ao vento frio que me açoitasse, para que eu pudesse sentir o vento gelado cortar-me a carne e pudesse sentir dor e alívio. A chuva se tornou minha amiga, e me confortou nos momentos de dor.
Hoje, desço do ônibus, mas não abro o guarda-chuva. Deixo a boina de lã se encharcar e a chuva invadir minha pele, retirando todo o calor do meu corpo. Ergo meus olhos para o céu e deixo que a água me purifique. Com um sorriso digo:
–Não precisará mais chorar por mim, minha amiga. Sei fazer isso agora, e a dor passou. Sou feliz.
Entro em casa, abro um sorriso. Digo boa noite e entro em meu quarto. E então ela me liga. Abro um sorriso e deixo as lágrimas descerem devagar sobre os meus olhos. Choro em dias de chuva, choro de alegria.
Obrigado às nuvens, à chuva, aos trovões e ao vento. Obrigado por ampararem meu sofrimento. Os dias de chuva ainda são meus preferidos, mas agora choro por mim mesmo.
Obrigado.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Porcelana

Você sabe que meu coração
É de porcelana
E foi quebrado
Dilacerado, destruído
Tantas e tantas vezes
Que em certos tempos
Penso, raciocino
Que já nasceu quebrado.
Mesmo assim
Como você me ama?
Como não desiste
De juntar os cacos
Complicados
Desse meu coração?
Nem belo é
Como xícara vagabunda.
Rachada, usada, consumida
Como me ama
Sendo eu tão confusa
Como tem paciência
De contar as lascas.
Nos dias tristes
Em que me sinto sozinha
Cuida tanto de mim
Diz tato que me ama
Não me deixa
Não me abandona
Nunca.
Deixa eu descansar
Por toda noite
No teu ombro.
Não perca a paciência
Com esse meu jeito
Sei que pareço fraca
Sei que pareço tola
Mas esta noite
Me faça dormir
Agarrada
Em teu ventre macio
Me faça dormir sossegada
Esta noite estou triste
Fechada.
Esta noite,
Dentre outras muitas
Me sinto acabada
Necessitada
Do carinho teu


Bobo da corte

Fico ao seu lado
Em silêncio pleno
Nada que eu diga
Será tão sincero
Quanto a voz que não sai.
Nada que eu diga
Será melhor
Do que a ausência
De todas as palavras.
O vento invade o quarto
Afasta as cinzas do incenso.
Tento te fazer sorrir
Mas as circunstâncias dizem
Não ser boa idéia...
Um bobo da corte silenciado
Bobo calado
Fechado, que sou.
Hoje, sem piadas
Peço desculpas:
Hoje não há show.

Mal dia

Sabe quando a boa notícia vem
Carregada pela dor de alguém?
Você deveria sorrir um pouco
Mas sente que falta alguma coisa...
Sabe quando você vê
Falsos heróis adorados
Covardes engradecidos
Enquanto os verdadeiros soldados
Perderam a guerra
Contra si mesmos?
Sabe aqueles dias
Em que a felicidade bate à porta
Mas por trás vem a melancolia
Daqueles que perderam
A batalha?
Para eles, não tem mais volta
Para eles, não há mais nada.
Será que você não deveria estar lutando?
Será que você não deveria abandonar
A horda de covardes e se juntar aos soldados?
Existem mesmo causas perdidas?
Sabe aqueles dias
Em que você encontra tristeza
Nas portas que a felicidade encontra?
Você não deveria,
Mas sabe aqueles dias
Em que você se sente triste
Por pessoas que nem conhece?
Sabe aqueles dias,
Em que você quer ajudar, mas não pode?
E então seu dia se torna um mal dia?
Pois é, hoje é o dia...

sábado, 13 de outubro de 2012

Beijos


O cheiro de incenso e rosas é doce, me deixa tranqüilo. Sentada ao meu lado Pumpkin me ajudava com algumas traduções. Eu tinha quinze anos e meu nariz parecia ter triplicado de tamanho. Continuava muito magro, mas crescia vertiginosamente, como um pedaço de bambu. Mudei de escola depois do incidente do guarda-chuva, mas continuava sendo alvo de piadas. Continuava catalogando o que chegava pra mim e pra ela, mas nunca consegui usar magia. Também nunca havia visto ela usar magia. Com seu rosto de princesa, seu corpo de boneca, pequeno, mas bem feito, o incorruptível batom rosa e o cheiro de cravo, ela continuava a causar minha admiração. Puta merda, um dia eu pensei, se ela fosse da minha idade, quem sabe? Mas, não. Sabe, nessa época eu já tinha consciência de que meu rosto era uma merda, que eu era um cara estranho, não muito distante daquelas aberrações que eu estudava.
Não haviam conseguido descobrir o que eu era, mas também não perguntavam mais. Me aceitavam com o aval do meu avô e gostavam do meu trabalho com a Pumpkin. Eu caçava de vez em quando, com meu avô, e treinava com Alberto quando o circo vinha pra cidade. Ia todos os dias pra biblioteca, minha mãe achava estranho, mas deixava. Acho que meu pai pensava que eu era gay e estava em algum tipo de suruba... Na medida do possível eu tentava ser um adolescente normal. E me preocupava com um monte de coisas normais, às vezes.
–Pumpkin, eu perguntei um dia, você já teve um namorado?
–Alguns. Ela respondeu levantando os olhos do livro e me olhando por cima dos óculos. Por quê?
–Nada, é que...
–Dúvidas?
–Não é bem isso, é que... bom... esse negócio de beijo na boca é bom? Meus colegas tem me enchido o saco com isso.
–Enchido o saco?
–É, eu disse. Eles dizem que é meio que impossível me beijar com esse nariz enorme.
–Venha aqui. Deixe eu ver se ele é enorme mesmo.
Eu me aproximei, vermelho como um pimentão. Era a primeira vez que eu demonstrava este tipo de dúvida. Acho que ela não esperava por isso. Ela segurou o meu rosto e começou a olhar para o meu nariz. Abaixei os olhos, morrendo de vergonha. Não vi quando os lábios dela chegaram perto dos meus, apenas senti o toque quente deles,  gosto do batom, a língua entrando aos poucos nos meus lábios e brincando com a minha. A sensação estranha, o conforto. Ela me abraçou um pouco, minhas mãos ficaram sem ter para onde ir. Eu estava com medo, mas também não queria que terminasse. Mas terminou.
–Não, não é grande demais para te beijarem.
Eu voltei para o meu lugar, sem saber o que pensar. Abaixei a cabeça de novo para o meu livro.
–Apenas não se apaixone por mim, ok? Ela disse isso e deu uma pequena gargalhada.
Afundei ainda mais a cabeça no livro.

***
–Deixe a moça em paz. Ela disse que não passa a noite com ninguém.
Sofia estava parada no corredor. Eu ia para o meu quartinho, estava bêbado demais para voltar pra casa. O babaca que segurava o braço dela, bem forte, estava mais bêbado do que eu. Sofia tinha acabado de chegar na zona, os caras gostavam daquele corpão. Tudo no lugar certo, um ar selvagem. Pelo que me diziam, não era o tipo de pessoa que se deixava domar. Tava faturando bem, mas estava sempre no controle. Aquele idiota lá quis descobrir se podia montar em cima dela por uma noite inteira. Eu ouvi a bagunça. Carlos estava do lado de fora, vigiando quem entrava, Desirée estava concentrada recebendo alguns clientes ricos, André estava mais bêbado que um gambá velho. Era eu mesmo...
–Sai fora, cara. ele me diz. Tu num tem merda nenhuma com isso. Eu vou comer ela a noite toda, tenho grana pra isso e não to aqui pra ser recusado por puta nenhuma.
–Bom, cara, as putas aqui tem o direito de recusar até o papa. E olha que ele paga melhor do que você.
Ele parou por um segundo, raciocínio lento. Eu nem preciso dizer que jamais pegaria o guarda-chuva. Humano é humano, caralho...
–Larga a moça. Insisti mais um pouco. Se o Carlos chega, você rola escada abaixo e dorme na calçada.
Ele parou de olhar para mim, apertou o braço ainda mais forte. Os olhos de Sofia como os de uma fera.
–Você vai passar a noite comigo! ele disse.
Avancei para ele, segurei o braço.
–Larga ela agora, seu merda. Senão eu mesmo faço você largar.
Ele me olhou, como se não acreditasse no que eu estava fazendo. Ela também me olhou com a mesma cara. Só tive tempo de pensar “puta que pariu!” quando o soco veio e eu caí desacordado. Não, eu não fiquei imune a dor, nem mais forte com o treinamento todo do Alberto.
Acordei no quarto da Sofia, com ela do meu lado enfiando um cotonete no meu nariz e tirando ele todo sujo de sangue.
–Au, caralho! O que tem na merda desse cotonete?
–Água oxigenada. Ainda não tive tempo de comprar álcool. Ela sorria como se pedisse desculpas.
–E o cara grandão? Perguntei.
Ela me olhou, sorriu.
–Deixei um pedaço da orelha dele no corredor e ele foi embora.
“Credo”, pensei, “ela se vira melhor sem a ajuda de um merda como eu”. Ela continuou cuidando de mim, e eu em silêncio. Alguns minutos depois ela falou:
–Escuta, cara, por quê você me ajudou? Tipo, eu sei que têm essa coisa toda de homem e tals mas, tipo, eu sou uma puta. Meio que isso acontece o tempo todo.
Olhei pra ela e disse:
–Sabe, garota, sendo puta ou não, você é a porra de um ser humano. Ninguém tem o direito de fazer o que quer com outra pessoa.
Ela me olhou nos olhos. Diferente daquele olhar de fera, havia um olhar de menina machucada. Ela era bonita pacas, gostosa até. Uma garota de luxo. Mas naquela hora eu só via uma menina que tinha apanhado muito. Puta merda.  Ela chegou bem perto com o cotonete, me preparei pra dor, mas ela simplesmente beijou meu rosto de um lado, beijou do outro, eu estava paralisado. Enfim ela beijou meus lábios, de um jeito forte, bem forte. O calor veio, a excitação veio, eu retribuí o beijo. Por quê? Em que merda eu estava pensado? Não estava pensando. Ela se curvou sobre mim e eu acordei a tempo. Segurei-a pelos ombros e a afastei.
–Você não quer?
Eu respirei fundo. O volume na calça me fazia passar vergonha.
–Escuta, moça, não fiz isso para dormir com você. Aliás, eu nem consegui te ajudar, então vamos deixar as coisas do jeito que estão, ok?
–Eu não ia fazer isso pela ajuda. Ela me olhou com um sorriso meigo. Te achei legal, só isso. Se quiser, pode passar a noite.
–Desculpa, moça, mas não vou dormir com você.
–Mas já te vi dormindo com outras moças...
–Seu nome é Sofia, né? Sabe, você é o tipo de garota que aceita bem essa vida. Que faz carreira. Eu estou aqui há uns cinco anos, as pessoas daqui são como família, sabe? Eu não fico com nenhuma das garotas que eu sei que vão ficar muito tempo. Não tenho chamego... entende? Mas, de qualquer forma, você é linda.
Me levantei e fui pra porta.
–Cê ta com sono?
–Não. Eu não durmo muito, sabe? Só um pouquinho, e já dormi essa noite, mesmo que forçado.
Ela riu.
–Não quer ficar um pouco? Eu mal conheço esse pessoal, e ainda to naquela fase em que as garotas me odeiam por ser nova...
Fiquei. Conversamos a noite toda. Quando fui embora de manhã ela me disse:
–Sabe, tipo, acho que vou me apaixonar por você.
Eu respondi:
–Letra A, sou feio pra caralho, letra B, você mal me conhece, letra C, gente como eu nasceu pra ficar afundado na merda. Ficar comigo só vai te trazer problemas, moça.
–Vou arriscar mesmo assim...
Será que eu amei a Sofia, será que eu teria sido feliz com ela? Não importa mais. Tudo isso, no fim das contas não passou de um monte de merda.
***
“Diógenes, a moça me procurou. Disse que você era o único que poderia esclarecer certas coisas. Sei que ela fez coisas erradas mas talvez seja hora de você ser menos intolerante. Pesquisei um pouco, ela se desligou da Igreja a alguns aos, não é mais freira. Você sabe que Morgana era minha amiga. Faça um favor por mim, escute à moça. Seu avô iria querer isso também. Você conhece a história dela, sabe o que aconteceu. Seja bonzinho. Beijos, Pumpikin. Ps. A bicada é para você deixar de ser insensível e vir me ver”.
O bilhete chega preso num pardal. No meio da chuva ele bate no vidro com o bico. Abro a janela, pego o bilhete e a porra do bicho arranca um pedaço da minha mão e sai voando. Da mesma janela vejo que o carro da Melissa está parado, como nas últimas três semanas. Ela dorme lá e me espera. Quando me vê passar, faça chuva ou sol, ela sai do carro e fica me olhando. Não quero agredi-la, não vou, mas finjo que não a vejo.
Pumpikin me manda esse bilhete, me deixa pensativo. São quase seis da tarde. Ainda estou puto com um monte de coisas, mas ela está certa, não posso culpar uma criança. Além do mais, ela salvou minha vida.  Puta merda, o que eu faço. Tenho medo de chegar perto e me foder de novo. Mas não tenho mais nada a perder mesmo.
Desço as escadas. Rápido. Abro a porta do carro, entro. Ela parece não acreditar. Olho para ela, está assustada. Não sabe o que está acontecendo. Mas recobra a calma e fala:
–Me desculpe. Não queria ter mentido, me desculpe, me desculpe, me desculpe...
Uma lágrima começa a descer pelos olhos dela. Depois outra, e outra, e outra. Ela não para. Se apóia em meus ombros e chora, chora, chora. Eu não sei o que fazer. Levanto a mão, abraço ela. “Que merda toda é essa?”, penso. Quando ela para, olho pra ela e digo:
–Não gosto de você. Não confio em você. Vou te ajudar, vou responder suas perguntas, mas com um pé atrás. Se você fizer merda, eu não vou ser legal. Ok?
Ela faz que sim com a cabeça.  Sem sair dos meus braços ela me beija no rosto, tocando a ponta dos lábios.
–Tá com fome? Eu digo. Tenho miojo.
“Não gosto de você. Não confio em você. Se você fizer merda, eu não vou ser legal.” Por quê todas essas palavras me parecem mentira? Por quê eu desci e voltei a falar com ela? Merda. Perguntas demais.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

F...

Ontem chorei
Sem nenhum motivo
Fiquei mal
Desvario...
Sei que às vezes pareço
Descontrolada
Pesada em sentimentos
Desconectada do mundo.
Sei que sofri muita coisa
E algo sempre vem
Me incomodar
Me jogar fora de órbita
Mas quero que saiba
Que sou mais feliz
Por você estar aqui
Por não fugir
Quando estes meus olhos
Que tanto assustam
Se põem a chorar.
Quero que saiba
Que este seu amor
Me ajuda a voltar
Sempre pra casa...
E é como ter teus braços
Ao meu redor
E é como ter carinho
Quando sempre estive só
Então
Eu quero precisar de você
Teu abraço
Tua carícia, teu beijo
O aconchego
O direito de sonhar
Acordado
E teu olhar calado
Em meu rosto
A desejar
Meu viver...

Obrigado por não me achar louca, por não se cansar de mim, por estar sempre aqui, mesmo nas horas em que as coisas também são difíceis pra você. Se serve de algo, quero que saiba que, nesse mundo estranho onde sempre lutei sozinha, com Deus de um lado e muita coragem do outro, é bom finalmente ter você segurando minha mão. Te esperei tempo demais, e te amo demais...

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Sendo assim...

Dizem
Que homens como eu 
São monstros.
Dizem
Que homens como eu
São difíceis de amar.
Eu tenho esse jeito
Todo estranho de ser
E sei que não
É fácil conviver
Com esse par de olhos.
Uma vez disseram...
Quiseram
Que eu mudasse
Para me encaixar
Em perfis formados
E ser feliz.
Meu orgulho
Meus olhos de fera
E o sonho das estrelas
Me quiseram
Como eu sou.
Não sei se sou certo
Sempre lutando
Entre vidas 
E desertos
Não sei se sou
Alguém certo
Ou concreto
Mas sei que sou
Apenas eu
Desse jeito
De quem não gostam
De quem duvidam
Mas, sou eu
E há de entender
Que minha morte
Estará
Em me deixar ferir
Por sonhos partidos.
Nunca deixei 
De ver esperanças
Mas gelei o coração
Que quase explodiu...
E agora reaqueço
Apareço
No apreço
Dos amores
E das dores
E intenso retorno
E contorno e transtorno
De apenas ser...

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Soneto da confissão


Eu te guardo em minha alma à muito tempo
E conto cada dia para vê-la
Eu escrevo canções em minha cela ,
Pois longe de você , só sofrimento .

Se estou sem você fico desatento
Sem você não há nada que me mova .
Porém sua presença é grande tormento
É como se deixar em uma cova .

Eu fiquei muito tempo a esperá-la ,
E gostaria muito de te ter
Mas perto de você fico sem fala .

Eu , que não tenho culpa de te querer ,
Eu ... Ah eu sim te quero , quero amá-la
Eu , quero ter você , para não mais sofrer .

Buscas da morte


A morte me esperava
Me chamava toda noite
E balançando sua foice
Dizia que me amava .

A segui , pedi respostas
Ela , em seu manto negro ,
Poço falso de aconchegos ,
Me fazia suas propostas .

Dor e ódio me ocupavam
Em meio ao medo tive prazer.
Abominável sentimento a me acometer.
Bem e mal se misturavam .

Morte e vida se amaram
Atração incontrolavel .
Vida e morte se casaram
Em mim

Amor mais curto



Com um pouco de dor ,
Um tiquinho de mágoa ,
Meu barco de amor ,
Meu barco fez água .
Então eu fui embora ,
Precisava ir .
Tô sozinho agora
Sem vontade de rir .

Dríade

Te vejo em dias quentes
Sentada à sombra das árvores
Olhando pra não sei quê
Eu, no sol, ao longe, te admirava
Me deixava ficar olhando
Me apaixonava, me encantava.
Você, dríade, ninfa
Não se desviava de sua árvore
Não desviava sequer um olhar
Para mim.


sábado, 22 de setembro de 2012

Pombos

Quero que saiba
Que não sou aquela
Que ainda espera
E se contenta com poucas
Migalhas de amor
Não sou aquela
Que aceita a dor
E pensa que o amor
É sempre ruim
Quero que saiba
Que apago o passado
Errado, extirpo os membros
Dilacerados, o eixo quebrado
De um coração.
Quero que saiba que eu
Refutei as mentiras
Contadas por todos
Sobre a vida
E que fui feliz
Apesar de toda dor
Quero que saiba
Que encontrei
Um amor.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Estrelaria

Estrela luz do dia
Estrela luz do dia
O sol dessa nascente
Traz consigo melodia.

Estrela luz do dia
Estrela luz do dia
O sol que vem nascendo
Vem trazendo alegria.

Você achava
Que o sol era o teu amor
Mas ele e deixou
E acabou na escuridão.

Você achava
Que dentro dos olhos teus
Todo o passado
Apagaria tua luz

Estrela luz do dia
Seria bom se soubesse
Que a luz que admirava
Advinha de você

Estrela linda
Seria bom que soubesse
Que todo passado morre
Se souber dizer adeus.

Estrela forte
Se você soubesse a sorte
Que os anjos lhe trouxeram
Pra falar de novo amor...

Estrela bela
Tu jamais pensaria
Jamais se atreveria
A pensar no velho amor

Estrela guia
Por que não acreditas
Que o futuro pode ser doce
Ao lado de um novo amor

Estrela, nina
Este amor que tá nascendo
Esse amor que vai crescendo
Não, não o deixe fugir.

Estrela, a vida
É uma bela companhia
E os anjos da alegria
Lhe trouxeram bem querer

Estrela, o dia
Já raiou para você
Não olhe pra escuridão
Pra não deixa escurecer...

Estrela, diga
Sempre a esse novo amor
Que também ama
Ele e todo o seu ardor

Estrela, viva
Que esse mundo é fabuloso
E um Deus maravilhoso
Devolveu o teu sorrir

Estrela, entenda
Que esse amor é teu pra sempre
Que não haverá poente
Que ele não há de fugir.

Estrela, sinta
O amor deste presente
Que os anjos lhe trouxeram
Para não viver ausente.


Estrela luz do dia
Estrela luz do dia
O sol dessa nascente
Traz consigo melodia.

Estrela luz do dia
Estrela luz do dia
O sol que vem nascendo
Vem trazendo alegria.



quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Jardim

Esse é o reino
Das flores silenciosas
Me diga o que vê
Nas gotas de orvalho.
Esse é o reino
Das flores misteriosas
Me diga o que vê
No espinho das rosas
Esse é o reino
Das flores graciosas
Me diga o que vê
No vento do teu passado.
Esse é o reino
Das flores dolorosas
Me diga o que vê
Na tolice dos heróis.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Novidade

E quem me diria
Que eu acordaria
Em um momento
Qualquer
Ao teu lado?
E quem me diria
Que eu passaria
Dias de dor
Antes de ver você?
E quem me diria
Que a luz dia
Enfim voltaria
Pra mim?
E quem me diria
Que a manhã fria
Agora é regada
Por teu amor?
E quem me diria
Que eu sentiria
Amor, ciúme
Medo de você
Não estar aqui?
E quem me diria
Que um dia eu seria
Mais homem que fera
E que a espera
Compensaria
Enfim?


quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Canção sussurrada

Flores caem
Por dentre o céu antigo
Dizem que o perigo
Está em falar de amor.
Canções sussurram
Como o vento
Que guia os perdidos
Dizem que um sorriso
Traz todo calor
Do céu.
Manhãs que nascem
Que brotam
Em dias de mudança
Nessa minha andança
Não estou mais sozinho.
Dizem que eu sou sempre
Um pouco exagerado
Do tipo apaixonado
Com rosto carente
Dizem que eu devia
Ser menos frio
Um pouco mais ativo
Aberto para o destino.
Mas eu sei
Que o tempo passa
E me prega peças
Acho que ainda
Querem que eu cresça.
Que eu aprenda mais.
Sei que as dores ainda virão
Como uma lança
Mas a tua lembrança
E toda esperança
Que eu carrego em mim
Me fazem crer
Que tudo sempre
Vai terminar bem
Com uma risada longa
De um certo alguém.

Pedidos

Eu estou aqui sentado
Na janela de todas as noites
Vendo as estrelas cadentes
Que deslizam devagar.
Eu fiz desejos por todos
Eu fiz o caminho seguro
Agora espero um mundo
Onde meu amor não se vá.

Peça a estrela mais perto
Um buquê de flores
Para atirar aos corações
Apaixonados.
Peça à estrela cadente
A aliança mais bonita
Minha vida
Precisa se casar...

Dividindo sonhos... sonhando com você...

sábado, 8 de setembro de 2012

Casamento

Coloca o anel no dedo
E vem me dizer
Logo, logo
Que me ama.
Me olha do teu jeito meigo
E feliz, diz
Que é pra sempre
Coloca teu sorriso claro
Na frente do coração nervoso
Alvoroço
Dentro de nós.
Espera por meus passos
E abraços
E seus olhos
Felizes chorando por nós.
Diga lá no meu ouvido
Algo que só nós sabemos
Pronuncie algo e iremos
Sonhar.
Abra as portas do futuro
Me faça promessas bobas
Diga que a morte
Não nos separará.
E bem lá no fim de tudo
Num silêncio bem profundo
Diga, viva, prometa
Que aceita
A mim.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

I'm sorry

Eu sempre achei
Que nunca me envolveria
Nessas coisas de amor.
Tolice insana
Não sabia que enfiaria a cabeça
E terminaria a noite
Ouvindo música country
Pensando naquela garota
Que eu deixei repousando.
Não sabia que meu coração
Podia ser fisgado
Nem sei como fez.
Estou aqui agora
Entre xícaras de chá
E músicas bobas
Como adolescente
Esperando a porra do fone tocar
Ou o sol nascer
E chegar logo aquela hora
Em que devo encontrá-la.

Queria dizer a ela
Que sinto muito
Por tudo o que disse.
No meio dos palavrões
E no jeito confiante
Eu sempre bagunço tudo
Será que ela me perdoará
Por ter ficado em silêncio?
Será que ela vai me abraçar?
Eu ganharei aquele beijo?
O dia tem que amanhecer
Eu quero, preciso voltar
Com cara de cão arrependido.
Eu, que mesmo velho,
Não passo de uma grande
Triste besta.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Dedos na parede

Ergue tua asa
Na batalha sombria
Anjo desolado
Que se perde
Na noite sóbria.
Canta sem voz
A cacofonia do destino
E confronta o vazio
Que te habita.
Grita, ri, chora
Orgulha tua raça
Com a força absurda
De um orgulho tolo
Pois meigo já não seria
Ante as cicatrizes
Que se apuram
No corpo duro
De mármore
De corte abrupto.
Fecha teus olhos e parte
Como a caminhada
Que tudo exige
Mesmo o não olhar
O não olhar atrás
Que te desfaz
Em coluna de sal.
Te ergue anjo
Foste desconsolado
E agora encontrado
Segue na negação
Infame e insone
Do medo e da dúvida.
A vida te convoca
E rodeado de roedores
Limpa o joio
Come o trigo
E lava o sangue
Da sombria terra
Onde era perdido.